O Código Da Vinci

Perguntas e Respostas

 

Índice

1. A obra de Dan Brown, O Código da Vinci, é um romance?
2. Porquê apenas "formalmente" um romance?
3. Que teorias quer Dan Brown transmitir como verdadeiras aos seus leitores?
4. Como se pode provar que Dan Brown defende a veracidade dessas teorias?
5. À parte das declarações do autor, o livro tem alguma anomalia em termos de ficção?
6. O que tem a primeira página "FACTO" de tão condenável?
7. Qual é a consistência histórica das teses de Dan Brown?
8. Deve-se criticar esta obra? E a liberdade de expressão?
9. Porque que se preocupa tanta gente com os erros históricos deste romance?
10. O trabalho neste site é da autoria de um católico. Pode ser visto como parcial?
11. Tudo o que consta neste site é histórico e factual?
12. De volta à obra de Dan Brown, que riscos há na sua leitura literal?
13. Que diz ele sobre Leonardo da Vinci?
14. Está mesmo uma mulher sentada à direita de Cristo n'A Última Ceia?
15. O que dizem os especialistas sobre a tese "Madalena"?
16. E em relação ao Santo Graal? Vem de "sang real"? Refere-se a uma descendência de Cristo e Madalena?
17. É possível salientar o erro histórico mais grave d' O Código Da Vinci?
18. No meio de tantos erros históricos, há erros divertidos?
19. Como surgiu a fantástica burla do Priorado de Sião?
20. Como é que a história do padre Saunière poderia ajudar os planos merovíngios de Plantard?
21. Como entraram Jesus e Maria Madalena em toda esta história?
22. Como reagiu Plantard a esse aproveitamento por parte do trio?
23. Como, e em que altura, surge Dan Brown?
24. Porquê o Opus Dei? Dan Brown retrata fielmente o Opus Dei?
25. Ler ou não este livro? Ver ou não o filme?
26. Como usar este site para saber mais sobre este tema?

 

1. A obra de Dan Brown, O Código da Vinci, é um romance?

Formalmente, é um romance. É uma obra que apresenta as caraterísticas típicas de um policial de ficção.
 
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2. Porquê apenas "formalmente" um romance?

Porque Dan Brown tem como intenção usar esta obra de ficção para transmitir um conjunto de teorias, que são veiculadas ao leitor por via das personagens "eruditas", como o Professor Robert Langdon ou o especialista no Graal, Sir Leigh Teabing. Dan Brown é contraditório: aos críticos ele afirma que a sua obra é apenas ficção, mas aos leitores afirma que o seu trabalho de pesquisa histórica foi bem feito, que contou com a ajuda de especialistas, e que há um fundo de verdade nas teorias que estruturam a obra.
 
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3. Que teorias quer Dan Brown transmitir como verdadeiras aos seus leitores?

O autor pretende transmitir um complexo quadro de teorias. Uma leitura apressada e pouco informada desta obra pode deixar-nos com a impressão de que o Priorado de Sião existe como organização milenar e secreta, que essa organização tem como objectivo proteger da perseguição da Igreja Católica um grande segredo, a saber, que Jesus Cristo se teria casado com Maria Madalena e que essa união teria gerado descendência. O Priorado de Sião seria o guardião desse poderoso segredo, capaz de abalar os alicerces do Cristianismo e capaz de revolucionar a forma como olhamos para a História da Europa. O Priorado seria também o protector dos descendentes de Cristo e Maria Madalena. Dan Brown sugere e acredita que o Santo Graal seria, afinal, não um objecto em concreto como uma taça, mas sim uma metáfora para o "sangue" de Cristo entendido como a sua linhagem ou descendência. O significado secreto do Graal, ou seja, que ele representaria fisicamente o útero de Maria Madalena ou a dita "linhagem sagrada", teria sido oculto por vários artistas e pensadores, durante séculos, do zelo destruidor de uma Igreja Católica aterrorizada com a ideia de que tal segredo viesse a público. Este é um panorama sintético das teorias que Dan Brown quer transmitir aos seus leitores.
 
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4. Como se pode provar que Dan Brown defende a veracidade dessas teorias?

Em entrevista a uma cadeia de televisão norte-americana (um excerto da entrevista foi reproduzido recentemente num documentário intitulado The Real Da Vinci Code, da autoria do canal britânico Channel 4), Brown afirma que a sua pesquisa é séria, e que todos os detalhes relativos a obras de arte, sociedades secretas, rituais e documentos históricos são verdadeiros. Dan Brown chega ao ponto de afirmar o seguinte:

O facto mais importante é que o Santo Graal não é aquilo que as pessoas pensam que é... (...) O Santo Graal não é uma taça: é algo muito mais poderoso!

Ele também defende, na primeira página do seu livro, a veracidade factual de algumas das invenções do Priorado de Sião. Além de tudo isto, o seu site na Internet contém uma entrevista escrita. Nela, pode-se ler, a certa altura1:

O segredo descrito no romance tem sido narrado durante séculos

Fiquei surpreendido pelo facto de os historiadores estarem tão desejosos de partilharem os seus conhecimentos comigo

Um académico disse-me que o seu entusiasmo pelo Código Da Vinci estava baseado em parte na sua esperança de que «este antigo mistério fosse desvelado para uma audiência mais vasta»

Dan Brown quer passar a ideia falsa de que existe trabalho académico sólido por detrás da sua obra. No romance, personagens como o erudito Leigh Teabing, um suposto "especialista" no Santo Graal, servem para Dan Brown aliciar os seus leitores com teses históricas sem nenhum fundamento científico. Dan Brown faz-se passar por um escritor de ficção treinado em pesquisa histórica e documental. Mas as suas pesquisas foram conduzidas de forma bastante fantasiosa e imaginativa, junto de autores de pouca credibilidade. Afirmar que Dan Brown apenas quer fazer ficção é manifestamente falso.
 
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5. À parte das declarações do autor, o livro tem alguma anomalia em termos de ficção?

Sim, tem. A obra poderia ser intocável como romance de ficção, se não tivesse aquela primeira página intitulada "FACTO". Essa página coloca em causa a seriedade e honestidade de Dan Brown. Em Itália, por exemplo, a editora Mondadori, a partir da segunda edição, mandou retirar essa página porque não se quis responsabilizar pelo seu conteúdo. No meio da crítica literária profissional, há quem defenda a legitimidade de criar páginas de falsos factos como esta, como forma de tornar a leitura mais entusiasmante. Contudo, tal prática gera inevitavelmente o engano nos leitores sem preparação teórica nestas matérias.
 
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6. O que tem a primeira página "FACTO" de tão condenável?

Eis o que lá se lê:

FACTO:
O Priorado de Sião. Sociedade secreta europeia fundada em 1099, é uma organização real. Em 1975, a Bibliothèque National[e] de Paris descobriu um conjunto de pergaminhos, conhecidos como "Les Dossiers Secrets", que identificam numerosos membros do Priorado de Sião, incluindo Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci. (...) Todas as descrições de obras de arte, edifícios, documentos e rituais secretos que aparecem neste romance são exactas.

Primeiro erro: o Priorado de Sião não data de 1099 mas de 1956. Um erro de nove séculos na data de fundação! Um documento oficial, emitido pela polícia francesa, prova que o Priorado foi criado por um grupo de amigos liderados pelo francês Pierre Plantard em meados dos anos cinquenta. Este documento está disponível publicamente há vários anos. A farsa do Priorado de Sião é um fenómeno bem conhecido em França. Dezenas de obras sérias de esclarecimento têm sido publicadas em França desde finais dos anos setenta.

Segundo erro: a lista de grão-mestres (e não a lista de "membros" como diz erradamente Dan Brown), que é uma recriação dos franceses Pierre Plantard e Phillipe de Chérisey baseada em listas falsas anteriores, foi depositada em 1967 na Biblioteca Nacional de Paris, e não em 1975, como afirma erradamente Dan Brown.

Terceiro erro: os famosos Dossiês Secretos, que de facto existem, são uma colectânea de documentos forjados em papel bem moderno e não em pergaminho. A palavra pergaminho é usada por Dan Brown para sugerir a antiguidade destes documentos. Assim se pode ver, de forma clara, que Dan Brown distorce a verdade para induzir no leitor uma predisposição para o que vai ler de seguida.

Três falsos "factos" num pequeno parágrafo. E isto sem mencionar a frase final relativa às "descrições de obras de arte, etc.", porque sendo tão genérica pode ser ao mesmo tempo enganadora para o leitor e, no entanto, de difícil crítica. Esta página inicial de Dan Brown viola, de certa forma, e pese embora a liberdade criativa de qualquer romancista, um certo compromisso de verdade factual feito com o leitor por via da palavra "FACTO". Muitos são os romancistas do género histórico que gostam de indicar ao leitor os pontos da sua ficção que são verídicos. Mas Dan Brown comete erros graves precisamente nesta primeira página, na qual se compromete a apresentar factos históricos.

 
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7. Qual é a consistência histórica das teses de Dan Brown?

Nenhuma. É um trabalho árduo e longo encontrar os erros históricos neste livro, porque são muitos e, alguns deles, bem difíceis de explicar. Se algum leitor, após terminar O Código da Vinci, ficar com a impressão de que aprendeu alguma coisa sobre História, estará enganado. O livro, considerado por muitos como um bom policial, intrigante e empolgante, deve ser lido como pura ficção do início ao fim. Não há nada de historicamente sólido n'O Código da Vinci. Note-se que Dan Brown poderia cometer os erros factuais que quisesse, tratando-se de uma obra de ficção, desde que ele não insistisse publicamente na veracidade histórica dessas teorias.
 
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8. Deve-se criticar esta obra? E a liberdade de expressão?

Infelizmente, faz-se muita confusão em torno dos termos "crítica" e "liberdade de expressão". A crítica deve ser vista como algo natural numa sociedade aberta e plural. Certamente que Dan Brown terá toda a liberdade para se exprimir como entende, e O Código da Vinci é, neste aspecto, perfeitamente lícito. Contudo, o que não se entende é que tantos, sobretudo leitores entusiasmados, se indignem contra as críticas feitas a esta obra. Há que evitar dois excessos: por um lado, deve-se evitar todo o tipo de censura. Nenhuma obra deve ser censurada, na minha opinião. O outro excesso consiste em afirmar que a obra está acima de crítica, ou afirmar que quem a critica não tem o direito de o fazer.
 
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9. Porque que se preocupa tanta gente com os erros históricos deste romance?

Por uma simples razão: Dan Brown quer que o seu livro seja lido como um trabalho que teve anos de pesquisa histórica por detrás. Dan Brown quer que os seus leitores acreditem nas teorias do livro. Como essas teorias são falsas, é perfeitamente natural que tantas pessoas procurem informar os leitores, que já são dezenas de milhões, dos perigos de uma leitura literal desta obra. Para mais, como as falsidades históricas que constam na obra dizem respeito, sobretudo, à figura de Jesus Cristo e à história da Igreja Católica, é normal que os cristãos, mas principalmente os católicos, procurem esclarecer os leitores acerca destes factos.
 
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10. O trabalho neste site é da autoria de um católico. Pode ser visto como parcial?

É evidente que esse risco existe. Nunca escondi de ninguém o facto de ser católico. E por isso mesmo, envidei todos os esforços para apresentar neste site um trabalho neutro. Este site está na Internet desde 1997, portanto, muito antes do aparecimento de Dan Brown e de toda esta polémica. O objectivo inicial do site permanece o mesmo: um local de documentação sobre o enigma de Rennes-le-Château, que é afinal, o berço de todas estas teorias, e sobre a magnífica e genial fraude do Priorado de Sião, que me diverte desde que me deparei com ela pela primeira vez por volta de 1994. Nessa altura, acreditei totalmente nas teses do Priorado de Sião. Este site tem crescido e mudado à medida que me fui informando acerca do tema, ao longo de todos estes anos.
 
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11. Tudo o que consta neste site é histórico e factual?

Sim. Este site apresenta apenas informação histórica e factual, de uma forma transparente e clara, que permite aos leitores seguirem eles mesmos as referências que usei, e terem acesso às obras e aos autores que consultei. Faço questão de afirmar que todo este trabalho poderia ter sido escrito por um ateu: aliás, não poucos ateus ajudaram-me neste trabalho.
 
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12. De volta à obra de Dan Brown, que riscos há na sua leitura literal?

Se o livro for lido como contendo verdades históricas, o leitor pode criar uma visão distorcida da História. A obra de Dan Brown não distorce apenas o Cristianismo e a História da Igreja Católica. Há teorias n'O Código da Vinci que ferem também outras áreas do saber. Dan Brown comete inúmeros erros acerca de Matemática, de Geometria, de História de Arte, de Cinema, de História da Música, e qualquer pessoa séria conhecedora destes temas procurará também corrigir estes erros. Um dos erros que mais leitores convenceu diz respeito ao que Dan Brown afirma sobre o pintor Leonardo da Vinci.
 
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13. Que diz ele sobre Leonardo da Vinci?

Estas afirmações encontram-se no seu site:

"Vários académicos acreditam que o seu trabalho [o de Leonardo] fornece intencionalmente pistas para um segredo poderoso… um segredo que permanece protegido até aos dias de hoje por uma irmandade clandestina da qual Da Vinci era membro"
"Algumas das evidências mais dramáticas podem ser encontradas nas pinturas de Leonardo da Vinci"
"Contudo, o segredo por detrás do Código Da Vinci estava demasiadamente bem documentado para que eu o desprezasse"

Esta "irmandade clandestina" de que fala Dan Brown é o famoso Priorado de Sião, que data apenas de meados do século XX. Por isso, é evidente que Leonardo da Vinci, pintor nascido no século XV, não poderia ter feito parte de uma organização que apenas foi criada em França no século XX! Dan Brown retirou os detalhes falsos acerca do Priorado de Sião das obras pseudo-históricas de autores anglo-saxónicos como Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, autores de O Sangue de Cristo e o Santo Graal, e o casal Lynn Picknett e Clive Prince, autores de O Segredo dos Templários, ambos livros reeditados recentemente em português para aproveitar a popularidade d'O Código da Vinci. Todos estes autores apresentam as suas obras como trabalhos de pesquisa, mas na verdade, a sua pesquisa foi conduzida de forma muito deficiente. É também fácil demonstrar que em várias situações o modo de proceder destes autores é propositadamente enganador.
 
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14. Está mesmo uma mulher sentada à direita de Cristo n'A Última Ceia?

Não. Em 500 anos de admiração e estudo da obra de Leonardo da Vinci, nunca ninguém o afirmou. Até 1997, esta teoria simplesmente não existia. É neste ano que o casal Picknett e Prince editam a sua obra O Segredo dos Templários. São eles os criadores da tese de que seria Maria Madalena a personagem retratada ao lado de Cristo nesta pintura. Mas é curioso notar que os seus antecessores, o trio Lincoln, Baigent e Leigh, em 1982, o ano em que saiu a obra O Sangue de Cristo e o Santo Graal, tinham defendido a teoria de que à direita de Cristo nesta pintura estivesse o apóstolo Tomé, referido por estes autores como o "irmão gémeo" de Jesus! Onde o trio consegue ver em 1982 um homem gémeo de Jesus, o casal Picknett e Prince descobre, em 1997, que essa figura é, afinal, uma mulher.
Podemos imaginar os entusiasmados leitores do best-seller de Lincoln, Baigent e Leigh a discutirem animadamente, no início dos anos oitenta, as teses do "gémeo" Tomé. Deste modo, damo-nos conta da insensatez de assistirmos de novo, apenas volvidas duas décadas, ao mesmo entusiasmo, mas desta vez procurando-se, no lugar do "gémeo" Tomé, uma mulher, que seria Maria Madalena!
Na verdade, tudo vale, quando o que interessa é vender pseudo-história. Pergunte-se a qualquer especialista em arte quem ali está representado e a resposta será a mesma: à direita de Jesus está o apóstolo João, o "discípulo amado", sempre colocado à direita de Jesus em qualquer quadro com a Última Ceia. João ocupa sempre o lugar de eleição. João era o mais novo dos apóstolos: em quase toda a pintura ocidental cristã, João é pintado com feições de adolescente, muitas vezes sem barba e com uma face delicada. A pintura do gótico retrata-o frequentemente com uma estatura menor da dos restantes apóstolos para reforçar a sua juventude face aos demais. No caso da pintura de Leonardo, é bem sabido que este artista recorria frequentemente à representação efeminada de homens jovens. O seu quadro de São João Baptista, por exemplo, mostra-nos um jovem com traços bem femininos. O facto de o apóstolo São João ser, tradicionalmente, retratado como um jovem ainda não adulto permitiu a Leonardo representar este apóstolo como uma figura efeminada sem que isso levantasse qualquer suspeita aos monges que comeram naquele refeitório durante anos a fio.
 
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15. O que dizem os especialistas sobre a tese "Madalena"?

Todos são unânimes. A figura à direita de Jesus é São João. A obra de Leonardo da Vinci não contém segredos sobre Maria Madalena ou uma suposta "linhagem sagrada". Cito apenas um exemplo: a Prof. Veronica Field, (docente da Universidade de Londres, presidente da Leonardo da Vinci Society) classifica esta teoria de "absurda".
 
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16. E em relação ao Santo Graal? Vem de "sang real"? Refere-se a uma descendência de Cristo e Madalena?

Não. Essa tese é falsa. Trata-se de uma tese relativamente moderna, timidamente sugerida pelo Priorado de Sião nos anos sessenta e reaproveitada nos anos oitenta pelo trio Lincoln, Baigent e Leigh. Não é correcto deduzir derivações de palavras apenas porque soam parecidas. "Sang real" é, de facto, parecido com "san graal". Mas isso não chega, em termos científicos, para deduzir uma expressão da outra. Aliás, na maior parte das vezes, a palavra "Graal" surge isolada, sem o adjectivo "santo". Há, contudo, excepções...
É frequente ver-se referida a obra de Thomas Malory (1405-1471), Le Morte d'Arthur2 como uma prova de que certos autores teriam usado a expressão sangreal no sentido de "sangue real". Neste romance sobre o Graal figura em abundância a expressão sangreal, mas também surge a expressão saynt greal. Deste modo, fica claro que Malory concatena as palavras saynt e greal para construir a expressão sangreal, sempre com o significado de "Santo Graal". A decomposição de sangreal em duas palavras distintas, sang e real, é uma invenção recente dos autores Lincoln, Baigent e Leigh, para tentar obter crédito para as suas teorias acerca de uma descendência de Jesus.
A questão do Graal é muito complexa e delicada. Em certas obras literárias, o Graal surge como um cálice, o cálice que teria recebido o sangue de Jesus na Cruz, o mesmo usado na Última Ceia. Mas o Graal também surge noutras formas, ora como um livro, ora como uma pedra, ora como uma lança! Como é que um livro, uma pedra ou uma lança são compatíveis com a "tese Madalena"? Uma das obras mais importantes para o estudo do simbolismo do Graal é a obra Parzifal de Wolfram von Eschenbach, que viveu entre 1170 e 1220. Nesta obra, o trovador alemão descreve o Graal como uma "pedra caída dos céus", uma pedra preciosa multifacetada que estaria incrustada na testa de Lúcifer, e que daí teria caído para a Terra, para parte incerta. Como é que a teoria do Graal-útero se encaixa nos relatos clássicos do Graal? Nenhum dos romances medievais sobre o Graal alguma vez menciona Maria Madalena como símbolo graálico.
Recomenda-se a leitura, neste mesmo site, da página sobre o Santo Graal: http://bmotta.planetaclix.pt/santograal.html.
 
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17. É possível salientar o erro histórico mais grave d' O Código Da Vinci?

Escolho, como erro histórico mais grave, aquele erro que poderá provocar mais impacto nos leitores. A afirmação historicamente falsa de que o Imperador romano Constantino institucionalizou a Igreja Católica conforme a conhecemos hoje, tendo patrocinado a "votação de Jesus como Deus" no Concilio de Niceia, no ano 325. Dan Brown sugere que este imperador teria seleccionado os textos do Novo Testamento, queimando os que não queria. Um imperador romano nunca teria autoridade canónica para o fazer, à revelia da autoridade dos bispos!
Repare-se como esta ideia falsa é poderosa: se assim fosse, a Igreja Católica como a conhecemos hoje seria um mero produto da política ambiciosa de um imperador romano, e a crença na divindade de Jesus seria uma adição posterior em três séculos ao próprio Jesus Cristo!
Vejamos com algum detalhe estas duas teses:

Será que a Igreja Católica deve a sua sobrevivência, deve a sua vitória sobre as restantes heresias, ao apoio de Constantino?
Tentemos aproximar-nos, dentro do possível, das motivações de Constantino: o imperador procurava juntar a Cristandade numa definição textual explícita e clara da sua doutrina em Niceia, mas porque Constantino estava à procura de uma fé cristã sólida para o Império. O Édito de Milão, em 313, confirmava que o Cristianismo era uma religião legal, a par com os cultos pagãos (ainda se estava longe da instituição do Cristianismo como religião oficial, o que só sucederia com o Imperador Teodósio I, que viveu entre 346 e 395). O que Constantino desejava era a união do mundo cristão sob uma mesma doutrina, fosse ela qual fosse, procurando o Imperador sempre aquela doutrina que pudesse gerar maior consenso, visto que a verdade acerca da mesma era algo que possuia para ele interesse secundário.
O Imperador não está dentro das subtilezas teológicas da questão: para Constantino, pouco importa a veracidade do "homoousion" (a questão da "consubstancialidade" de Jesus Cristo com o Pai) ou outras minúcias do género. A prova disso está no facto de que poucos anos após ter promovido Niceia, Constantino estava activamente a promover a doutrina contrária, a ariana: após 333, Constantino chama de volta os bispos arianos exilados e une os seus esforços a Ário. Esta reacção de Constantino, de verdadeiro retrocesso à sua política de protecção às decisões do Concílio de Niceia, vai trazer consequências graves durante quase um século: toda a Europa, graças às políticas pró-arianas de Constantino, vai cair sob o fascínio desta heresia. Recordemos que é no ano de 358 que o exilado Papa Libério será obrigado a assinar uma profissão de fé muito duvidosa no dito Concílio de Sírmio. Mesmo depois do Concílio de Constantinopla (381), a europa permanecerá ariana durante muito tempo, em consequência deste verdadeiro volte face do Imperador, que infelizmente tão poucos comentadores modernos referem. Os Visigodos permanecerão arianos até ao baptismo de Clóvis no final do século V. Os Lombardos atrasarão o abandono do arianismo até meados do século VII3.
Perante estes factos históricos, não é possível manter a ideia de uma Igreja Católica escolhida de entre as seitas, e fortalecida graças à protecção de Constantino, mesmo que este Imperador tenha sido decisivo na legalização e fortalecimento da imagem do Cristianismo no seio do Império Romano.

Agora a segunda tese... Fica-se com a impressão de que esta é a tese principal que Dan Brown quer passar aos leitores, e parece ser a ideia chave que o livro tenta transmitir: a crença na divindade de Jesus não existia na origem da religião cristã, ou seja, não era uma crença partilhada pelos primeiros cristãos, e teria sido inventada e votada apenas em 325 d.C., no Concílio de Niceia. Também se tenta transmitir aos leitores a ideia errada de que a Bíblia foi modificada para satisfazer as políticas de um imperador romano.
Na verdade, este importantíssimo primeiro Concílio votou a condenação de uma heresia conhecida como arianismo. Os partidários do arianismo (que retira o seu nome do sacerdote Ário, de Alexandria) negavam a divindade plena de Cristo. Em Niceia, por esmagadora maioria (apenas dois votaram a favor da heresia), os bispos votaram uma condenação clara do arianismo. Mas a crença em Jesus como Deus e Filho de Deus está enraizada no cristianismo desde a sua origem. Os seus apóstolos afirmaram-no, os cristãos crêem-no desde o início, é algo estruturante ao cristianismo, e não uma qualquer decisão votada posteriormente.
Não se trata de discutir se Jesus é Deus ou não. Essa é uma questão de crença. Trata-se de discutir se os primeiros cristãos viam Jesus como Deus. E afirmar o contrário é um erro histórico facilmente detectável pelo estudo da patrística e dos textos neotestamentários. Um exemplo evidente é a obra de Santo Ireneu de Lião, que escreveu por volta de 180 d.C. a sua obra principal, Libros Quinque Adversus Haereses (“Cinco livros contra as heresias”), na qual se constata que a crença na divindade de Jesus é estruturante ao cristianismo e é uma peça central da doutrina4. Mas também poderíamos considerar as compilações do Novo Testamento, que já estavam bem sedimentadas no final do século II d.C. (o Codex Muratori5, a mais antiga compilação conhecida dos textos neotestamentários, data de 180-200 d.C.), nas quais é fácil encontrar afirmações explícitas acerca da divindade de Jesus, tanto em palavras atribuídas ao próprio Jesus como em palavras atribuídas aos seus discípulos.
Apesar das grandes e complexas divergências acerca da definição da divindade de Jesus, nesses tempos recuados, nem sequer os hereges mais obstinados consideravam Jesus como "mero profeta mortal", como sugere erradamente Dan Brown! Ninguém discordava que havia algo de divino em Cristo: as questões em debate incidiam sobre a forma como deveria ser interpretada a divindade de Jesus.

 
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18. No meio de tantos erros históricos, há erros divertidos?

Há erros para todos os gostos! Quando Dan Brown, por exemplo, fala em milhares de templários queimados cujas cinzas teriam sido lançadas por ordem do Papa Clemente V ao rio Tibre, em Roma. Ora, sucede que o número de templários queimados não chega sequer às centenas, sucede que a ordem para a sua execução veio do rei francês Filipe IV e não do Papa, e sucede, pior ainda, que o Papa Clemente não estava sequer em Roma, mas sim em Avinhão, em França. O Papado esteve durante décadas fora de Roma! Dan Brown parece ignorar os factos mais elementares dos temas que trata! É também divertida a afirmação de que a cidade de Paris foi fundada pelos Merovíngios, ou seja, dataria de cerca do século V d. C., quando qualquer criança que lê os livros do Astérix sabe bem que Paris se chamava Lutécia no tempo das campanhas de Júlio César, portanto, já no século I a.C.!
 
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19. Como surgiu a fantástica burla do Priorado de Sião?

A história é complexa. Escrevi, no início de 2005, um livro intitulado Do Enigma de Rennes-le-Château ao Priorado de Sião, editado pela Ésquilo. Uma apresentação do livro pode ser lida neste endereço: http://bmotta.planetaclix.pt/livro.htm. Este livro contém o resultado de alguns anos de trabalho, e é uma tentativa de síntese desta fantástica história do Priorado de Sião.
Os protagonistas do Priorado de Sião são três franceses, companheiros na criação de uma burla histórica incrível. Pierre Plantard, desenhador industrial, pessoa de origens humildes, era amigo de longa data do intelectual Phillipe de Chérisey, marquês falido e actor de teatro e televisão. Estes dois amigos, profundamente cultos e sabedores da história do seu país e da cultura europeia, decidiram criar uma farsa com o objectivo de tentar provar que Plantard era o legítimo herdeiro à coroa de França. Plantard queria provar que descendia da primeira dinastia dos Francos, a dinastia dos Merovíngios. Ele inventara o Priorado de Sião, fingindo tratar-se de uma organização secreta e poderosa, dizendo que a sua função sempre fora proteger uma linhagem merovíngia secreta, da qual Plantard afirmava que era o actual representante directo. Ele dizia que o Priorado estivera sempre por detrás de todas as heresias e que esta organização era a maior inimiga da Igreja Católica. Porquê? Porque, segundo Plantard, a Igreja Católica traíra o pacto estabelecido com o fundador da dinastia dos Merovíngios a partir do momento em que reconhecera e legitimara o primeiro rei da dinastia seguinte, a dos Carolíngios.
Segundo Plantard, a suposta dinastia merovíngia oculta, representada por ele, estaria pronta, no século XX, para se vingar da traição da Igreja Católica, e para repor os merovíngios no trono de França. Durante anos, Plantard criou grupos e publicações de reduzida dimensão, ensaiando tácticas de desinformação e falsificação de documentos históricos, tentando ser visto como alguém politicamente relevante e tentando convencer o máximo possível de pessoas de que ele era o legítimo herdeiro da coroa. O caso ganha maior amplitude quando, nos anos sessenta, por intermédio do terceiro elemento, o jornalista e trotskista Gérard de Sède, os dois amigos descobrem as lendas de Rennes-le-Château, uma aldeia pequena nos Pirinéus franceses...
Nesta aldeia, no final do século XIX, vivera o padre Saunière, um sacerdote cuja vida polémica fez correr rios de tinta. Saltando muitos detalhes que podem ser lidos na parte principal deste site, o padre Saunière foi culpado de décadas de desvio de donativos que pertenciam à Igreja Católica. Com esse dinheiro, Saunière construiu propriedades e viveu uma vida relativamente abastada, aproveitando para também beneficiar os habitantes da pequena e pobre aldeia de Rennes-le-Château. Por isso, era um padre amado pelo povo de Rennes. Mas as suas actividades não eram lícitas, em termos de Direito Canónico. Os últimos anos da sua vida foram bem tristes: Saunière foi alvo de um processo eclesiástico por parte do seu superior, o bispo de Carcassonne. Saunière era justamente acusado de desvio de fundos. Foi-lhe retirada a dignidade sacerdotal e morreu na miséria, falido, com inúmeras dívidas relativas às suas obras e às despesas elevadas que tinha tido com o processo em tribunal.
Após a morte de Saunière, a sua governanta, a jovem Marie Dénarnaud, decide limpar o bom nome do seu antigo patrão, inventando a história de que a fortuna do padre se devera à descoberta de um fabuloso tesouro. É assim que nasce a lenda do tesouro de Rennes-le-Château.
 
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20. Como é que a história do padre Saunière poderia ajudar os planos merovíngios de Plantard?

Esta é a parte brilhante da burla do Priorado de Sião. Plantard e os seus amigos decidiram tentar transmitir a ideia de que o segredo do padre Saunière não tinha a ver com um tesouro material, mas sim com um enorme segredo político e religioso. Segundo o Priorado de Sião, o padre Saunière tinha descoberto, durante as obras de remodelação da sua igreja em Rennes-le-Château, uns antigos pergaminhos que provavam que uma dinastia merovíngia tinha vivido escondida durante séculos em Rennes-le-Château. Segundo eles, o padre Saunière ficara rico porque teria recebido, graças à importância da sua descoberta, o apoio imediato do Priorado de Sião, e teria sido usado numa operação secreta de chantagem contra a Igreja Católica. Plantard e os seus amigos inventaram uma versão totalmente distorcida da vida do padre Saunière. Segundo eles, o padre, devido à sua descoberta, teria sido recebido como um herói em Paris, junto dos grupos ocultistas. O padre passara assim a liderar uma luta dos ocultos grupos esotéricos franceses contra a Igreja Católica, recebendo apoio do Priorado de Sião. Para juntar algo de pitoresco, Plantard e os seus amigos lançaram a ideia de que Saunière tivera um caso com uma famosa cantora de ópera do seu tempo, Emma Calvé. Tudo isto é perfeitamente falso. Saunière nunca se deu com qualquer grupo ocultista, nunca conheceu a dita cantora de ópera, e enriqueceu apenas à custa de donativos de particulares e de uma vida inteira de desvio de fundos pertencentes à Igreja Católica.
 
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21. Como entraram Jesus e Maria Madalena em toda esta história?

Esta tese não é uma invenção exclusiva do Priorado de Sião.
Plantard afirmara, em tempos, que a dinastia dos Merovíngios provinha da estirpe real de David, mas sem fornecer argumentos concretos. O seu amigo Chérisey também usou, frequentemente, a figura de Madalena nos seus textos esotéricos. Visto que Plantard e os seus colaboradores estavam, a partir dos anos sessenta, a usar activamente a história de Saunière para a construção da sua farsa, e como a igreja de Rennes-le-Château estava dedicada a Maria Madalena, sempre existiu um interesse relativo do Priorado pela sua figura. Mas até ao final dos anos setenta, o mito do Priorado de Sião era apenas uma história fantástica, exclusivamente francesa, inventada por Plantard e pelos seus amigos para tentar legitimá-lo como herdeiro da Coroa de França. Em toda esta farsa francesa nada se sugeria acerca de Jesus e Maria Madalena terem sido casados ou terem tido descendência.
Mas sucedeu que o actor e realizador britânico Henry Lincoln, durante umas férias no sul de França no final dos anos sessenta, encontrou e leu um dos livros do jornalista Gérard de Sède, um dos elementos do grupo do Priorado de Sião. Lincoln ficou fascinado pela mistificação de Plantard e dos seus amigos. Achou que se tratava de óptimo material para um ou mais documentários televisivos, e mesmo para um livro que pudesse transportar a mistificação para o Reino Unido, e quem sabe, para o resto do Mundo.
Lincoln, juntamente com outros dois amigos oriundos da Maçonaria anglo-saxónica, Richard Leigh e Michael Baigent, teve uma ideia original: porquê parar na dinastia merovíngia? Porque não fazer de Plantard um descendente de Cristo? Bastaria aos três autores inventar uma teoria para ligar, de algum modo, Jesus aos Merovíngios. O material do Priorado, em si mesmo, já potenciava essa teoria, só que Plantard nunca se atrevera a tanto.
O mais espantoso é que eles foram avisados por um jornalista francês, Jean-Luc Chaumeil, antes da publicação em 1982 do seu livro O Sangue de Cristo e o Santo Graal, de que o Priorado de Sião era uma farsa. Esse mesmo jornalista já o afirmou publicamente várias vezes. Diz ele que avisou Lincoln e os seus amigos de que Plantard era um burlão e que tudo não passava de uma farsa. Lincoln e os seus colegas simplesmente ignoraram o aviso. Eles já tinham o seu objectivo bem definido...
A obra O Sangue de Cristo e o Santo Graal tornou-se best-seller logo a partir em 1982. Lincoln e os seus colegas colocaram de pé uma tese muito original, feita da colagem da mitologia do Priorado de Sião às novas teses do trio relativamente a Jesus, a Maria Madalena, à nova interpretação do Graal e à sua inventada descendência através dos Merovíngios.
 
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22. Como reagiu Plantard a esse aproveitamento por parte do trio?

Publicamente, reagiu mal. Em entrevista a uma rádio francesa, Plantard afirmou que apenas reclamava uma ascendência merovíngia. Ficou chocado ao saber que os três autores de língua inglesa se tinham aproveitado da sua criação, e tinham feito dele próprio, sem a sua autorização, um descendente de Jesus. Plantard afirmou que as teorias do trio eram disparatadas. Mas já não havia nada a fazer para evitar a disseminação do embuste! Centenas de milhares de leitores compraram e gostaram do livro O Sangue de Cristo e o Santo Graal. Muitos levaram este livro a sério porque se apresentava como uma obra de pesquisa histórica séria. Eu fui um deles!
 
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23. Como, e em que altura, surge Dan Brown?

O trio Lincoln, Baigent e Leigh iria fazer escola, levando ao aparecimento de uma claque de seguidores desde o início dos anos oitenta. Autores como Lionel e Patricia Fanthorpe, Michael Bradley, Richard Andrews e Paul Schellenberger, Robin Mackness e Guy Patton, David Icke, Ean Begg, David Wood, Ian Campbell, Patrick Byrne, Lynn Picknett e Clive Prince, Christopher Knight e Robert Lomas, Marilyn Hopkins, Graham Simmans, Timothy Wallace-Murphy, Andrew Sinclair, Laurence Gardner, Barbara Thiering e Margaret Starbird fazem todos parte da criativa "geração Rennes". Nasceram e cresceram com a leitura das obras de Gérard de Sède, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln. Todos se tornaram adeptos da mitologia de Rennes, e as suas obras revelam uma adesão total e inabalável às teses do Priorado de Sião.
Dan Brown simplesmente inspirou-se neste meio literário de fantasia. Ele percebeu, melhor do que todos, o imenso potencial mediático e financeiro desta história fantástica. Dan Brown conseguiu ainda fazer das complexas teorias do Priorado de Sião uma síntese simplista e apelativa: o escritor coloca, de um lado, os "Bons", ou seja, os hereges, a "Igreja de Madalena", o Priorado de Sião, o Culto da Deusa, ou o que se lhe quiser chamar. Do outro lado, Brown coloca os "Maus", ou seja, a "machista" Igreja Católica, a "Igreja de Pedro", cujo segredo seria protegido graças a sequazes do Opus Dei.
 
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24. Porquê o Opus Dei? Dan Brown retrata fielmente o Opus Dei?

Há um século atrás, os romances anti-católicos faziam-se valer dos Jesuítas, que eram sempre os "maus da fita". Basta que nos lembremos de episódios de desinformação já quase esquecidos pelo tempo, como o do falso "Juramento Jesuíta", um caso clássico de fraude documental. Nos tempos modernos, a opinião pública já não reagiria com interesse a um jesuíta assassino. Reagiria com muito mais entusiasmo ao ler uma história na qual membros do Opus Dei, uma organização mediaticamente estereotipada, e deste modo rotulada por muitos como retrógrada ou mesmo mafiosa, surgissem como os "maus da fita". Se não teve outro mérito, Dan Brown teve pelo menos o enorme talento de saber exactamente o que é que os seus leitores gostariam de ler e o que é que eles estariam prontos a passar a acreditar. Dan Brown também sabia que os seus leitores, na sua grande maioria, não estavam preparados para distinguir a verdade da ficção!
Com uma escrita rápida e empolgante, a fórmula só poderia funcionar: o resultado do sucesso está à vista!

O retrato que Dan Brown faz do Opus Dei é grotesco, e contém inúmeros erros. Podemos aperceber-nos do que Dan Brown quer colocar em jogo, apenas pela leitura atenta do que lá vem escrito acerca do Opus Dei na primeira página do romance, intitulada "FACTO":

"The Vatican prelature known as Opus Dei is a deeply devout Catholic sect that has been the topic of recent controversy due to reports of brainwashing, coercion, and a dangerous practice known as "corporal mortification."

Em português,

"A prelatura do Vaticano conhecida como Opus Dei é uma seita católica profundamente devota que tem sido objecto de controvérsias recentes devido a acusações de lavagem ao cérebro, coerção e uma prática perigosa conhecida como «mortificação corporal»"

Observe-se como Dan Brown entra em clara contradição, ao chamar o Opus Dei de "seita católica": se o Opus Dei fosse uma seita, estaria separado da Igreja Católica, logo não seria católico. Sendo o Opus Dei uma organização feita por católicos e sancionada pela Igreja Católica, automaticamente não pode ser uma seita! Dan Brown usa a palavra "seita", ligando-a mais adiante na frase a suspeitas de "lavagem cerebral" e "coerção", sem explicar ao leitor que a dita "polémica" não provém de casos concretos em Tribunal ou de investigações independentes, mas tem origem, sobretudo, num complexo fenómeno sociológico ligado a certos movimentos "anti-seita" ideologicamente motivados6.
Por outro lado, a afirmação de que a mortificação corporal, uma prática duas vezes milenar e profundamente cristã, é uma "prática perigosa" do Opus Dei pode fazer-nos pensar de que se trata de uma invenção dessa organização. Nada é mais falso. Por mortificação corporal, entende-se uma série de práticas de devoção cristã, de opção puramente pessoal e por isso mesmo nunca obrigatórias, que partindo da privação ou de um moderado desconforto físico, procuram benefícios espirituais como forma de imitação do sofrimento corporal do próprio Jesus Cristo. Na categoria da mortificação corporal entram práticas tão variadas e inofensivas como o jejum ou a opção por formas precárias de alimentação, dormir em leitos desconfortáveis, tomar banho com água fria, andar descalço, usar o cilício como forma de desconforto físico (sem qualquer sangue, ao invés do que é retratado n'O Código da Vinci), permanecer em silêncio durante períodos prolongados, entre outras.
 
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25. Ler ou não o livro? Ver ou não o filme?

Li O Código da Vinci, mas devo confessar que a qualidade policial da escrita de Brown não fez efeito nenhum em mim, uma vez que Dan Brown repete insistentemente chavões bem conhecidos de quem estudou o enigma de Rennes-le-Château e de quem leu o material panfletário do Priorado de Sião. É incrível reparar que Dan Brown conhece bem a farsa do Priorado e a versão deturpada do enigma de Rennes, apesar do nome desta aldeia não surgir nem uma vez em todo o romance: desde os detalhes do assassinato de Jacques Saunière no Museu do Louvre, que é parecido com o enigmático crime de Coustaussa; até às teorias de Leigh Teabing sobre a língua inglesa, que foram claramente retiradas da obra do padre Henri Boudet, vizinho do padre Saunière, passando pelo uso na trama da igreja parisiense de Saint-Sulpice (lugar fétiche para a mitologia do Priorado de Sião) tudo indica de forma bem clara que Dan Brown conhece este material melhor do que confessa. O que chega para demonstrar que Dan Brown é uma pessoa intelectualmente desonesta, porque sabendo tantos detalhes sobre este tema, sabe certamente que se trata de uma fraude. E como tal, não deveria afirmar publicamente que tais teorias são sérias ou que são apoiadas por "académicos" cujos nomes Brown nunca identifica.
Mas Dan Brown não é o primeiro, nem será o último, autor pouco sério a ficar milionário graças à desonestidade intelectual. Considerando que o tema é fascinante, e que a sua escrita é empolgante, não vejo problemas numa leitura madura e adulta deste livro. Haverá muitas formas adequadas de o ler, desde o leitor que não está à espera de encontrar qualquer ligação com a verdade histórica e procura apenas um bom policial, até ao leitor adepto deste estilo literário que esteja bem familiarizado com os temas tratados ao ponto de saber distinguir a verdade da ficção.
O essencial, nesta situação como em muitas, é estar apto a saber distinguir a verdade da ficção. Infelizmente, a grande maioria dos leitores d'O Código Da Vinci não consegue fazer esta distinção. No que diz respeito ao filme de Ron Howard, estreado a 19 de Maio de 2006, fui vê-lo e não fiz qualquer campanha contra ele. Ficção pouco séria e intencionalmente enganadora como esta torna-se perfeitamente inofensiva para um leitor ou um espectador informado. O segredo é sempre o mesmo: conhecimento. Quem sabe, não corre o risco de ser enganado.
Em suma, não diria que a obra de Dan Brown é de leitura obrigatória, mas também nunca condenaria a sua leitura. Sou contra todo o tipo de censura, mas não deixarei de criticar a falta de seriedade desta obra. E tenciono fazê-lo da melhor forma possível: informando...
 
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26. Como usar este site para saber mais sobre este tema?

Este site (http://bmotta.planetaclix.pt) está dividido em duas partes: uma sobre Rennes-le-Château e outra sobre o Priorado de Sião. Recomendo que o leitor interessado pelos detalhes comece por se familiarizar com o enigma de Rennes-le-Château, que é afinal o berço e a origem de toda esta história, iniciando a leitura do site logo pelo Prefácio. A partir desta página, os vários temas são apresentados de forma encadeada e lógica, com um índice numa barra do lado esquerdo, de forma a tornar cómoda a mudança de capítulo. Mas quem estiver mais curioso acerca do Priorado de Sião poderá saltar directamente para a página introdutória, que contém uma série de perguntas e respostas que sintetizam o tema, e ler de seguida os capítulos Pierre Plantard, Noël Corbu e os caçadores de tesouros, e História do Priorado de Sião.
 
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1 Texto original no site de Dan Brown:
«- HOW DID YOU GET ALL THE INSIDE INFORMATION FOR THIS BOOK?
- Most of the information is not as "inside" as it seems. The secret described in the novel has been chronicled for centuries, so there are thousands of sources to draw from. In addition, I was surprised how eager historians were to share their expertise with me. One academic told me her enthusiasm for The Da Vinci Code was based in part on her hope that "this ancient mystery would be unveiled to a wider audience."»

2 Syr Thomas Malory, Le Morte d'Arthur no site da Universidade de Michigan. Neste site, encontra-se a versão original do texto, conforme editada por William Caxton.
3 Os dados históricos acerca do Concílio de Niceia e das medidas tomadas por Constantino foram extraídos de vários artigos do site da Catholic Encyclopedia e da obra de Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, Delphica, 1997, Lausanne, Suíça.
4 Apenas como exemplo, o capítulo dezasseis do terceiro livro de Santo Ireneu é intitulado “Provas, a partir dos escritos apostólicos, de que Jesus Cristo era um e o mesmo, o único Filho de Deus, Deus perfeito e homem perfeito”. Santo Ireneu de Lião, Adversus Haereses (Livro III, Capítulo 16), ver o artigo Adversus Haereses no site da Catholic Encyclopedia.
5 O Codex Muratori deve o seu nome ao seu descobridor, e primeiro editor, Luigi Antonio Muratori (1672-1750), que em 1740 publica em Milão a obra Antiquitates italicae, em cujo livro terceiro é editado pela primeira vez o dito códice. Trata-se da compilação mais antiga que é conhecida do cânone do Novo Testamento. O Codex Muratori encontra-se na Biblioteca Ambrosiana de Milão. Para mais detalhes, consultar o artigo Muratorian Canon no site da Catholic Encyclopedia.
6 Massimo Introvigne, do Cesnur, dedicou um texto bastante detalhado ao estudo da relação entre os críticos ao Opus Dei e os recentes movimentos "anti-seita", tanto na Europa como nos Estados Unidos. Ver: Opus Dei and the Anti-cult Movement.

 

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