O Código Da Vinci
Perguntas e Respostas
1. A obra de Dan Brown, O Código da Vinci, é um romance?
2. Porquê apenas "formalmente" um romance?
3. Que teorias quer Dan Brown transmitir como verdadeiras aos seus leitores?
4. Como se pode provar que Dan Brown defende a veracidade dessas teorias?
5. À parte das declarações do autor, o livro tem alguma anomalia em termos de ficção?
6. O que tem a primeira página "FACTO" de tão condenável?
7. Qual é a consistência histórica das teses de Dan Brown?
8. Deve-se criticar esta obra? E a liberdade de expressão?
9. Porque que se preocupa tanta gente com os erros históricos deste romance?
10. O trabalho neste site é da autoria de um católico. Pode ser visto como parcial?
11. Tudo o que consta neste site é histórico e factual?
12. De volta à obra de Dan Brown, que riscos há na sua leitura literal?
13. Que diz ele sobre Leonardo da Vinci?
14. Está mesmo uma mulher sentada à direita de Cristo n'A Última Ceia?
15. O que dizem os especialistas sobre a tese "Madalena"?
16. E em relação ao Santo Graal? Vem de "sang real"? Refere-se a uma descendência de Cristo e Madalena?
17. É possível salientar o erro histórico mais grave d' O Código Da Vinci?
18. No meio de tantos erros históricos, há erros divertidos?
19. Como surgiu a fantástica burla do Priorado de Sião?
20. Como é que a história do padre Saunière poderia ajudar os planos merovíngios de Plantard?
21. Como entraram Jesus e Maria Madalena em toda esta história?
22. Como reagiu Plantard a esse aproveitamento por parte do trio?
23. Como, e em que altura, surge Dan Brown?
24. Porquê o Opus Dei? Dan Brown retrata fielmente o Opus Dei?
25. Ler ou não este livro? Ver ou não o filme?
26. Como usar este site para saber mais sobre este tema?
1. A obra de Dan Brown, O Código da Vinci, é um romance?
2. Porquê apenas "formalmente" um romance?
3. Que teorias quer Dan Brown transmitir como verdadeiras aos seus leitores?
4. Como se pode provar que Dan Brown defende a veracidade dessas teorias?
O facto mais importante é que o Santo Graal não é aquilo que as pessoas pensam que é... (...) O Santo Graal não é uma taça: é algo muito mais poderoso!
Ele também defende, na primeira página do seu livro, a veracidade factual de algumas das invenções do Priorado de Sião. Além de tudo isto, o seu site na Internet contém uma entrevista escrita. Nela, pode-se ler, a certa altura1:
O segredo descrito no romance tem sido narrado durante séculos
Fiquei surpreendido pelo facto de os historiadores estarem tão desejosos de partilharem os seus conhecimentos comigo
Um académico disse-me que o seu entusiasmo pelo Código Da Vinci estava baseado em parte na sua esperança de que «este antigo mistério fosse desvelado para uma audiência mais vasta»
Dan Brown quer passar a ideia falsa de que existe trabalho académico sólido por detrás da sua obra. No romance, personagens como o erudito Leigh Teabing, um suposto "especialista" no Santo Graal, servem para Dan Brown aliciar os seus leitores com teses históricas sem nenhum fundamento científico. Dan Brown faz-se passar por um escritor de ficção treinado em pesquisa histórica e documental. Mas as suas pesquisas foram conduzidas de forma bastante fantasiosa e imaginativa, junto de autores de pouca credibilidade. Afirmar que Dan Brown apenas quer fazer ficção é manifestamente falso.
5. À parte das declarações do autor, o livro tem alguma anomalia em termos de ficção?
6. O que tem a primeira página "FACTO" de tão condenável?
FACTO:
O Priorado de Sião. Sociedade secreta europeia fundada em 1099, é uma organização real. Em 1975, a Bibliothèque National[e] de Paris descobriu um conjunto de pergaminhos, conhecidos como "Les Dossiers Secrets", que identificam numerosos membros do Priorado de Sião, incluindo Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci. (...) Todas as descrições de obras de arte, edifícios, documentos e rituais secretos que aparecem neste romance são exactas.
Segundo erro: a lista de grão-mestres (e não a lista de "membros" como diz erradamente Dan Brown), que é uma recriação dos franceses Pierre Plantard e Phillipe de Chérisey baseada em listas falsas anteriores, foi depositada em 1967 na Biblioteca Nacional de Paris, e não em 1975, como afirma erradamente Dan Brown.
Terceiro erro: os famosos Dossiês Secretos, que de facto existem, são uma colectânea de documentos forjados em papel bem moderno e não em pergaminho. A palavra pergaminho é usada por Dan Brown para sugerir a antiguidade destes documentos. Assim se pode ver, de forma clara, que Dan Brown distorce a verdade para induzir no leitor uma predisposição para o que vai ler de seguida.
Três falsos "factos" num pequeno parágrafo. E isto sem mencionar a frase final relativa às "descrições de obras de arte, etc.", porque sendo tão genérica pode ser ao mesmo tempo enganadora para o leitor e, no entanto, de difícil crítica. Esta página inicial de Dan Brown viola, de certa forma, e pese embora a liberdade criativa de qualquer romancista, um certo compromisso de verdade factual feito com o leitor por via da palavra "FACTO". Muitos são os romancistas do género histórico que gostam de indicar ao leitor os pontos da sua ficção que são verídicos. Mas Dan Brown comete erros graves precisamente nesta primeira página, na qual se compromete a apresentar factos históricos.
7. Qual é a consistência histórica das teses de Dan Brown?
8. Deve-se criticar esta obra? E a liberdade de expressão?
9. Porque que se preocupa tanta gente com os erros históricos deste romance?
10. O trabalho neste site é da autoria de um católico. Pode ser visto como parcial?
11. Tudo o que consta neste site é histórico e factual?
12. De volta à obra de Dan Brown, que riscos há na sua leitura literal?
13. Que diz ele sobre Leonardo da Vinci?
"Vários académicos acreditam que o seu trabalho [o de Leonardo] fornece intencionalmente pistas para um segredo poderoso… um segredo que permanece protegido até aos dias de hoje por uma irmandade clandestina da qual Da Vinci era membro"
"Algumas das evidências mais dramáticas podem ser encontradas nas pinturas de Leonardo da Vinci"
"Contudo, o segredo por detrás do Código Da Vinci estava demasiadamente bem documentado para que eu o desprezasse"
14. Está mesmo uma mulher sentada à direita de Cristo n'A Última Ceia?
15. O que dizem os especialistas sobre a tese "Madalena"?
17. É possível salientar o erro histórico mais grave d' O Código Da Vinci?
Será que a Igreja Católica deve a sua sobrevivência, deve a sua vitória sobre as restantes heresias, ao apoio de Constantino?
Tentemos aproximar-nos, dentro do possível, das motivações de Constantino: o imperador procurava juntar a Cristandade numa definição textual explícita e clara da sua doutrina em Niceia, mas porque Constantino estava à procura de uma fé cristã sólida para o Império. O Édito de Milão, em 313, confirmava que o Cristianismo era uma religião legal, a par com os cultos pagãos (ainda se estava longe da instituição do Cristianismo como religião oficial, o que só sucederia com o Imperador Teodósio I, que viveu entre 346 e 395). O que Constantino desejava era a união do mundo cristão sob uma mesma doutrina, fosse ela qual fosse, procurando o Imperador sempre aquela doutrina que pudesse gerar maior consenso, visto que a verdade acerca da mesma era algo que possuia para ele interesse secundário.
O Imperador não está dentro das subtilezas teológicas da questão: para Constantino, pouco importa a veracidade do "homoousion" (a questão da "consubstancialidade" de Jesus Cristo com o Pai) ou outras minúcias do género. A prova disso está no facto de que poucos anos após ter promovido Niceia, Constantino estava activamente a promover a doutrina contrária, a ariana: após 333, Constantino chama de volta os bispos arianos exilados e une os seus esforços a Ário. Esta reacção de Constantino, de verdadeiro retrocesso à sua política de protecção às decisões do Concílio de Niceia, vai trazer consequências graves durante quase um século: toda a Europa, graças às políticas pró-arianas de Constantino, vai cair sob o fascínio desta heresia. Recordemos que é no ano de 358 que o exilado Papa Libério será obrigado a assinar uma profissão de fé muito duvidosa no dito Concílio de Sírmio. Mesmo depois do Concílio de Constantinopla (381), a europa permanecerá ariana durante muito tempo, em consequência deste verdadeiro volte face do Imperador, que infelizmente tão poucos comentadores modernos referem. Os Visigodos permanecerão arianos até ao baptismo de Clóvis no final do século V. Os Lombardos atrasarão o abandono do arianismo até meados do século VII3.
Perante estes factos históricos, não é possível manter a ideia de uma Igreja Católica escolhida de entre as seitas, e fortalecida graças à protecção de Constantino, mesmo que este Imperador tenha sido decisivo na legalização e fortalecimento da imagem do Cristianismo no seio do Império Romano.
Agora a segunda tese... Fica-se com a impressão de que esta é a tese principal que Dan Brown quer passar aos leitores, e parece ser a ideia chave que o livro tenta transmitir: a crença na divindade de Jesus não existia na origem da religião cristã, ou seja, não era uma crença partilhada pelos primeiros cristãos, e teria sido inventada e votada apenas em 325 d.C., no Concílio de Niceia. Também se tenta transmitir aos leitores a ideia errada de que a Bíblia foi modificada para satisfazer as políticas de um imperador romano.
Na verdade, este importantíssimo primeiro Concílio votou a condenação de uma heresia conhecida como arianismo. Os partidários do arianismo (que retira o seu nome do sacerdote Ário, de Alexandria) negavam a divindade plena de Cristo. Em Niceia, por esmagadora maioria (apenas dois votaram a favor da heresia), os bispos votaram uma condenação clara do arianismo. Mas a crença em Jesus como Deus e Filho de Deus está enraizada no cristianismo desde a sua origem. Os seus apóstolos afirmaram-no, os cristãos crêem-no desde o início, é algo estruturante ao cristianismo, e não uma qualquer decisão votada posteriormente.
Não se trata de discutir se Jesus é Deus ou não. Essa é uma questão de crença. Trata-se de discutir se os primeiros cristãos viam Jesus como Deus. E afirmar o contrário é um erro histórico facilmente detectável pelo estudo da patrística e dos textos neotestamentários. Um exemplo evidente é a obra de Santo Ireneu de Lião, que escreveu por volta de 180 d.C. a sua obra principal, Libros Quinque Adversus Haereses (“Cinco livros contra as heresias”), na qual se constata que a crença na divindade de Jesus é estruturante ao cristianismo e é uma peça central da doutrina4. Mas também poderíamos considerar as compilações do Novo Testamento, que já estavam bem sedimentadas no final do século II d.C. (o Codex Muratori5, a mais antiga compilação conhecida dos textos neotestamentários, data de 180-200 d.C.), nas quais é fácil encontrar afirmações explícitas acerca da divindade de Jesus, tanto em palavras atribuídas ao próprio Jesus como em palavras atribuídas aos seus discípulos.
Apesar das grandes e complexas divergências acerca da definição da divindade de Jesus, nesses tempos recuados, nem sequer os hereges mais obstinados consideravam Jesus como "mero profeta mortal", como sugere erradamente Dan Brown! Ninguém discordava que havia algo de divino em Cristo: as questões em debate incidiam sobre a forma como deveria ser interpretada a divindade de Jesus.
18. No meio de tantos erros históricos, há erros divertidos?
19. Como surgiu a fantástica burla do Priorado de Sião?
20. Como é que a história do padre Saunière poderia ajudar os planos merovíngios de Plantard?
21. Como entraram Jesus e Maria Madalena em toda esta história?
22. Como reagiu Plantard a esse aproveitamento por parte do trio?
23. Como, e em que altura, surge Dan Brown?
24. Porquê o Opus Dei? Dan Brown retrata fielmente o Opus Dei?
O retrato que Dan Brown faz do Opus Dei é grotesco, e contém inúmeros erros. Podemos aperceber-nos do que Dan Brown quer colocar em jogo, apenas pela leitura atenta do que lá vem escrito acerca do Opus Dei na primeira página do romance, intitulada "FACTO":
"The Vatican prelature known as Opus Dei is a deeply devout Catholic sect that has been the topic of recent controversy due to reports of brainwashing, coercion, and a dangerous practice known as "corporal mortification."
Em português,"A prelatura do Vaticano conhecida como Opus Dei é uma seita católica profundamente devota que tem sido objecto de controvérsias recentes devido a acusações de lavagem ao cérebro, coerção e uma prática perigosa conhecida como «mortificação corporal»"
Observe-se como Dan Brown entra em clara contradição, ao chamar o Opus Dei de "seita católica": se o Opus Dei fosse uma seita, estaria separado da Igreja Católica, logo não seria católico. Sendo o Opus Dei uma organização feita por católicos e sancionada pela Igreja Católica, automaticamente não pode ser uma seita! Dan Brown usa a palavra "seita", ligando-a mais adiante na frase a suspeitas de "lavagem cerebral" e "coerção", sem explicar ao leitor que a dita "polémica" não provém de casos concretos em Tribunal ou de investigações independentes, mas tem origem, sobretudo, num complexo fenómeno sociológico ligado a certos movimentos "anti-seita" ideologicamente motivados6.
25. Ler ou não o livro? Ver ou não o filme?
26. Como usar este site para saber mais sobre este tema?
1 Texto original no site de Dan Brown:
«- HOW DID YOU GET ALL THE INSIDE INFORMATION FOR THIS BOOK?
- Most of the information is not as "inside" as it seems. The secret described in the novel has been chronicled for centuries, so there are thousands of sources to draw from. In addition, I was surprised how eager historians were to share their expertise with me. One academic told me her enthusiasm for The Da Vinci Code was based in part on her hope that "this ancient mystery would be unveiled to a wider audience."»
2 Syr Thomas Malory, Le Morte d'Arthur no site da Universidade de Michigan. Neste site, encontra-se a versão original do texto, conforme editada por William Caxton.
3 Os dados históricos acerca do Concílio de Niceia e das medidas tomadas por Constantino foram extraídos de vários artigos do site da Catholic Encyclopedia e da obra de Jean Borella, Ésotérisme Guénonien et Mystère Chrétien, Delphica, 1997, Lausanne, Suíça.
4 Apenas como exemplo, o capítulo dezasseis do terceiro livro de Santo Ireneu é intitulado “Provas, a partir dos escritos apostólicos, de que Jesus Cristo era um e o mesmo, o único Filho de Deus, Deus perfeito e homem perfeito”. Santo Ireneu de Lião, Adversus Haereses (Livro III, Capítulo 16), ver o artigo Adversus Haereses no site da Catholic Encyclopedia.
5 O Codex Muratori deve o seu nome ao seu descobridor, e primeiro editor, Luigi Antonio Muratori (1672-1750), que em 1740 publica em Milão a obra Antiquitates italicae, em cujo livro terceiro é editado pela primeira vez o dito códice. Trata-se da compilação mais antiga que é conhecida do cânone do Novo Testamento. O Codex Muratori encontra-se na Biblioteca Ambrosiana de Milão. Para mais detalhes, consultar o artigo Muratorian Canon no site da Catholic Encyclopedia.
6 Massimo Introvigne, do Cesnur, dedicou um texto bastante detalhado ao estudo da relação entre os críticos ao Opus Dei e os recentes movimentos "anti-seita", tanto na Europa como nos Estados Unidos. Ver: Opus Dei and the Anti-cult Movement.