O assassinato do padre Gélis

 

     O ano de 1897 foi um ano importante na vida de Saunière. Em Maio, os trabalhadores da casa Castex executam as alterações mais significativas na decoração da igreja. Em finais de Junho, é instalado todo o aparato de estátuas, pia baptismal com o diabo, e baixo-relevo. A igreja ficaria nesta altura praticamente pronta. As facturas respeitantes a despesas com a igreja feitas depois deste ano devem-se quase só à compra de objectos relativos ao culto.
      A 6 de Junho, o bispo de Carcassonne, Monsenhor Billard, faz uma visita solene à aldeia na ocasião da festa do Pentecostes, acompanhado pelo padre missionário lazarista Mercier. Para marcar o evento, Saunière grava uma inscrição num pedestal que sustém a cruz do calvário:

CHRISTUS VINCIT
O Cruz Ave
Souvenir
de la visite épiscopale
de Sa Grandeur Monseigneur
Félix Arsène BILLARD
Évêque de Carcassonne
et de la mission prêchée par
le R. P. MERCIER LAZARISTE
En la fête de la Pentecôte
6 JUIN 1897

     A inscrição tem um significado simples: "Recordação da visita de Sua Grandeza Monsenhor Félix Arsène Billard, bispo de Carcassonne e da missão pregada pelo Rev. Pe. Mercier, Lazarista, na festa do Pentecostes, 6 de Junho de 1897". Na parte de trás do pedestal encontra-se ainda a inscrição:

CHRISTUS A. O. M. P. S. DEFENDIT

     Vários autores não hesitaram em interpretar as letras como as iniciais de "Antiqus Ordo Mysticusque Prioratus Sionis", ou "Antiga Ordem Mística do Priorado de Sião", o que faria pensar que Saunière estaria a aludir à controversa ordem do Priorado de Sião, que mistificadores como Pierre Plantard (ver a página sobre os pergaminhos) insistem ter existido continuamente até hoje desde a sua hipotética fundação em Jerusalém por Godfroi de Bouillon em 1099. A existência da ordem não está comprovada historicamente, e deverá tratar-se de mais uma farsa de Pierre Plantard. Felizmente, esta frase tem sido usada com frequência ao longo dos séculos e é possível identificá-la mesmo na presença de iniciais. Um bom exemplo é a inscrição que se encontra no obelisco do papa Sisto V (mandado construir no segundo ano do seu pontificado, em 1586), na praça de S. Pedro, no Vaticano, na face do obelisco que dá para a fachada da basílica:

CHRISTVS VINCIT
CHRISTVS REGNAT
CHRISTVS IMPERAT
CHRISTVS AB OMNI MALO
PLEBEM SVAM
DEFENDAT

     Esta é a forma correcta de ler a inscrição que Saunière mandou gravar no pedestal do seu Calvário, e o seu significado é simples: "Que Cristo defenda o Seu povo de todo o mal".

     Este ano de 1897 foi assaz movimentado para Saunière. Porém, foi também um ano sombrio... A 2 de Novembro, o padre Gélis, da freguesia vizinha de Coustaussa, é encontrado morto na cozinha do seu presbitério, assassinado com um golpe violento na cabeça. Tinha 70 anos de idade.
     Jean-Antoine-Maurice Gélis nasceu em Villesèque (Landes) a 1 de Abril de 1827. Exerceu a função de padre em Durban e Lanet, e foi destacado para Coustaussa no ano de 1857. Gélis era uma pessoa aparentemente sem inimigos, e fazia parte do círculo de amigos de Saunière. Estimado por todos, exerceu o seu ministério em Coustaussa sem grandes atribulações. Tinha poucos familiares: duas sobrinhas, uma das quais cozinhava-lhe as refeições, e dois sobrinhos, um emigrado na América e outro padre em Gèzes, perto de Coustaussa. Antoine Gélis passou quase uma vida inteira na mesma aldeia e a sua morte trágica pôs termo a uma carreira de quarenta anos.
     O crime é difícil de compreender: o cadáver foi encontrado na cozinha do presbitério, deitado de costas, sobre uma poça de sangue; a causa da morte, claramente a fractura brutal do crânio. O assassino tinha morto o padre, na noite de Domingo para Segunda-feira (31 de Outubro para 1 de Novembro), com um violento golpe na cabeça, deixando depois o corpo disposto de uma forma tão cuidadosa que intrigou os investigadores da polícia. Gélis estava deitado de costas, completamente direito, e com os braços cruzados sobre o peito.
     O assassino foi deveras meticuloso ao sair do local do crime, não deixando para trás nenhuma marca que o denunciasse, e conseguindo mesmo evitar espalhar manchas e sinais fora das três poças de sangue que estavam perto da vítima. Não foram encontradas nenhumas impressões digitais, e os poucos rastos da sua movimentação depois de ter morto o padre resumem-se a alguns vestígios de uma busca levada a cabo no piso superior, no quarto de dormir. Tendo abandonado a cozinha quase intacta, o assassino seguiu para o quarto de Gélis com o objectivo de achar alguma coisa. O móbil do crime dificilmente teria origem material, pois foram encontrados 683 francos em ouro e notas na sua escrivaninha, e ainda 106,90 francos na cómoda. O objectivo seria muito provavelmente outro bem diferente: o trinco de um saco de viagem em pele encontrava-se arrombado e o saco revistado. Como este saco continha documentos pertencentes a Gélis, podemos avançar com a hipótese de que o assassino não seria um comum ladrão, movido por sede de dinheiro.
     Antes de fugir, o assassino deixou no chão, sobre uma das poças de sangue (a que se encontrava mais perto da janela), um bloco de papel para tabaco de enrolar da marca Tzar. Não se sabe se o fez na pressa da fuga ou propositadamente, mas esta última hipótese será a mais acertada porque o bloco de papel trazia escrito a lápis duas palavras que até hoje nunca foram explicadas: "Viva Angelina". Elas podem, muito provavelmente, conter algumas pistas, ou até mesmo a solução para o misterioso assassinato. Sabe-se que Gélis não fumava e detestava o cheiro do tabaco; logo, aquele maço de papel não poderia ser dele.
     Gélis era um homem desconfiado e prudente, e não iria deixar um estranho entrar no presbitério a uma hora tão tardia se não se tratasse de alguém conhecido. Não havia quaisquer sinais de arrombamento em nenhuma das entradas do edifício, o que leva realmente a considerar que o assassino deveria ter a confiança do padre. Como já foi referido, Gélis tinha uma sobrinha que tomava conta dele, trazendo-lhe todos os dias as refeições. Esta sobrinha, Françoise, era casada com um pequeno proprietário de Coustaussa, de nome Joseph. Este sobrinho por afinidade procurava Gélis constantemente por razões monetárias. O padre, perturbado pela insistência do sobrinho, acedia frequentemente aos seus pedidos. Por razões óbvias esta personagem vestia perfeitamente a pele do assassino porque era alguém íntimo de Gélis e que se sabia que vivia com problemas financeiros. O juiz de instrução chegou mesmo a declará-lo culpado, mas ele conseguiu apresentar como álibi a sua presença naquela noite em Luc-sur-Aude. Porém, perseguido e atormentado pelo medo da raiva popular, vê-se forçado a fugir da região.

     A reacção de consternação e choque em relação a este crime não tarda: o periódico La Semaine religieuse de Carcassonne publica, a 5 de Novembro, um artigo relativo a este acontecimento:

Texto original:

     "Un crime horrible a été commis dans la nuit du dimanche à lundi, dans la paroisse de Coustaussa. M. l'abbé Gélis est tombé victime de blessures à la tête et étendu dans la cuisine du presbytère, baignant dans son sang (...). Devant le cadavre ensanglanté d'un prêtre, on maudit dans un sentiment d'horreur, la main sacrilège qui l'a frappé. Aussi, la nouvelle de cet épouvantable forfait a jété dans la consternation, non seulement la paroisse de Coustaussa mais encore le diocèse tout entier.
     On se perd en conjectures sur le mobile qui a poussé le meurtrier. Le mystère plane encore sur ce douloureux événement bien que le parquet et la gendarmerie travaillent à établir, avec la plus louable activité, les responsabilités. L'abbé Gélis était un prêtre pieux qui reduisait dans son activité toute la douceur de caractère qui convient à un Ministre de Jésus-Christ.
     Aussi jouissait-il de l'estime et de l'affection de ses paroissiens, au service desquels il s'était dévoué pendant 40 ans, confondant dans une même affection les fidèles de Coustaussa et ceux de Cassaignes, son annexe.
     Qui aurait jamais crû qu'il trouverait dans cette paroisse une fin si tragique et aussi lamentable!"

Tradução:

     "Foi cometido um crime horrível na noite de Domingo para Segunda-feira, na paróquia de Coustaussa. O padre Gélis encontrava-se caído no chão, vítima de feridas na cabeça, e estendido na cozinha do presbitério, ensopado no seu próprio sangue (...). Face ao cadáver ensanguentado de um padre, amaldiçoamos com um sentimento de horror, a mão sacrílega que o matou. A notícia deste medonho acontecimento deixou na consternação, não só a paróquia de Coustaussa mas também toda a diocese.
     Conjectura-se sem sucesso acerca do motivo que impulsionou o assassino. O mistério paira ainda sobre este doloroso acontecimento, apesar do Ministério Público e da polícia trabalharem no sentido de estabelecer, com a mais louvável actividade, as responsabilidades. O padre Gélis era um sacerdote piedoso que sintetizava na sua actividade toda a doçura de carácter que convém a um Ministro de Jesus Cristo.
     Ele gozava da estima e da afeição dos seus paroquianos, ao serviço dos quais ele se dedicou durante os últimos 40 anos, tratando com igual afeição os fiéis de Coustaussa e os de Cassaignes, povoação anexa.
     Quem poderia jamais acreditar que ele encontraria nesta paróquia um fim tão trágico e lamentável!"

     O seu enterro teve lugar em Coustaussa e contou com a participação de Saunière, do padre de Rennes-les-Bains (Henri Boudet), dos padres de Couiza, Arques, Montazels, Luc-sur-Aude e de Antugnac, e ainda com a presença do representante do bispo de Carcassonne, o Vigário-Geral Cantegril. A cerimónia decorreu sem incidentes, e a estranhar há só um facto: a sepultura do padre Gélis não se encontra hoje em dia com a mesma orientação que as sepulturas suas vizinhas. Ela está alinhada na direcção de Rennes-le-Château!
     Como curiosidade, veja-se de seguida uma imagem da sepultura e do texto do epitáfio com a respectiva tradução:

Sepultura do padre Gélis   Epitáfio do padre Gélis

SOUVENEZ-VOUS DANS VOS PRIÈRES
de l'âme de
Mr GÉLIS ANTOINE

Curé de Coustaussa de 1857 à 1897
Assassiné dans cette paroisse
Victime de la haine des méchants
Dans la nuit du 31 octobre
Au 1er novembre 1897

Erat vir simplex et rectus, ac timens
Deum, et recedens a malo.

+

Hic est veré Martyr, qui pro christi
nomine sanguinem suum fudit.

Tradução:

     "Lembrai-vos nas vossas orações da alma de GÉLIS ANTOINE, Padre de Coustaussa de 1857 a 1897, assassinado nesta paróquia, vítima da fúria dos maldosos, na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro.

       Era um homem simples e recto, temeroso a Deus, e que se desviava do mal.
       Eis um verdadeiro Mártir, que em nome de Cristo derramou o seu sangue."

 

     O inquérito levado a cabo pelo Ministério Público e pelo juiz de instrução de Limoux, Raymond Jean, foi iniciado a 2 de Novembro, um dia depois da morte de Gélis. Por sorte, o dossier da investigação foi encontrado por dois advogados, Julien Coudy e Maurice Nogué, e publicado no Midi Libre, a 3 de Outubro de 1975. Vejamos um excerto do artigo:

Texto original:

     "Les précautions prises démontrent une présence d'esprit incroyable. La cuisine après un tel saccage, est retrouvé dans un orde parfait, aucune empreinte de pas. Le meurtrier a su éviter les trois grandes flaques de sang. Aucune trace à l'extérieur. À l'étage, dans la chambre de l'abbé Gélis, deux goutelettes minuscules attestent le passage de l'assassin qui a, sans laisser la moindre empreinte sanglante, forcé la serrure d'un sac de voyage qui contient divers papiers et documents appartenant au prêtre.
     L'assassin a ouvert le sac, non pour voler, mais pour chercher quelque chose. En effet, dans le bureau du prêtre, on retrouve 683 frs en or et en billets; dans sa commode, on retrouve 106 frs 90. Plus curieux encore, le cadavre a été rangé vers le centre de la pièce, sur le dos, la tête et la figure dans une position normale, les mains ramenées sur la poitrine, comme un gisant. De ce drame sanglant, commis sans motif apparent, nous n'avons qu'un témoin muet: alors que l'abbé ne fume pas et déteste les odeurs de tabac, flotte, dans la deuxième flaque de sang, près de la fenêtre, un carnet entier de papier à cigarettes de marque Tzar avec sur une feuille, au crayon, la mention, «Viva Angelina».
     Le curé Gélis, de nature méfiante, vivait cloîtré dans son presbytère et avait reçu, ce soir lá, une visite tardive... Le Juge d'instruction inculpe le neveu du prêtre, le 13 avril 1898, mais la Cour d'appel de Montpellier rendra un non-lieu le 2 août 1898. Le neveu, toujours à la recherche d'argent, harcelait le vieux prêtre et pour l'opinion publique se trouvait être le suspect le plus convenable; en fait, ce dernier, la nuit du crime, était à Luc-sur-Aude... Il dût quitter le pays, poursuivi par la suspicion populaire. L'enquête ne fut jamais poursuivie..."

Tradução:

     "As precauções tomadas demonstram uma presença de espírito incrível. A cozinha, após o assalto, é encontrada numa ordem perfeita e sem nenhuma pegada. O assassino soube evitar as três grandes poças de sangue. Nenhum vestígio no exterior. No primeiro andar, no quarto do padre Gélis, duas minúsculas gotas atestam a passagem do assassino que conseguiu, sem deixar o mínimo vestígio de sangue, forçar a fechadura de um saco de viagem que continha diversos papéis e documentos pertencentes ao padre.
     O assassino abriu o saco, não para roubar, mas à procura de alguma coisa. Com efeito, na escrivaninha do padre, encontramos 683 francos em ouro e em notas; na sua cómoda, encontramos 106,90 francos. Mais curioso ainda, o cadáver estava disposto no centro da divisão, deitado de costas, com a cabeça e o resto do corpo numa posição normal, e as mãos colocadas sobre o peito. Deste drama sangrento, cometido sem motivo aparente, não ficámos senão com um testemunho mudo: sendo que o padre não fuma e detesta o cheiro do tabaco, flutua, na segunda poça de sangue, perto da janela, um bloco inteiro de papel de enrolar da marca Tzar, com uma inscrição feita a lápis sobre uma das folhas, «Viva Angelina».
     O padre Gélis, desconfiado por natureza, vivia enclausurado no seu presbitério e tinha recebido naquela noite uma visita tardia... O juiz de instrução inculpa o sobrinho do padre, a 13 de Abril de 1898, mas o Tribunal de 2ª instância de Montpellier consegue apresentar um álibi a 2 de Agosto de 1898. O sobrinho, sempre em busca de dinheiro, atormentava o velho padre, e para a opinião pública este era o suspeito mais conveniente; com efeito, este, na noite do crime, estava em Luc-sur-Aude. Ele teve que abandonar a região, perseguido pela suspeita popular. O inquérito nunca mais foi retomado..."

     Algumas hipóteses aparecem naturalmente após a leitura do relato deste crime: Gélis não seria uma personagem tão secundária quanto se poderia pensar à partida. Se não, veja-se: o crime é claramente cometido com fins não monetários; o assassino não era um qualquer estranho pois não há sinais de arrombamento; Gélis tinha uma relação estreita com Rennes-le-Château e com Saunière, e daí poderia resultar que Gélis estivesse a par de alguma coisa, ou estivesse na posse de alguns documentos, o que justificaria o crime apresentado. Note-se que a sepultura de Gélis está hoje em dia virada na direcção de Rennes-le-Château. Isto foi frequentemente publicitado por muitos autores como sendo um indício de que Gélis conheceria o "segredo" de Saunière. Contudo, uma explicação bem mais simples foi já várias vezes trazida à discussão: algumas cheias violentas durante este século poderiam ter provocado deslizamentos de terras no cemitério, o que justificaria a deslocação da sepultura. Esta explicação não é, mesmo assim, intocável, pois fica por explicar porque é que aparentemente só a sepultura de Gélis é que sofreu este processo.
     Atenda-se ainda ao facto de Gélis possuir na altura da sua morte quantias significativas de dinheiro consigo. Estaria ele a par de alguma coisa? Conheceria ele as intenções de Saunière e estaria a receber alguma coisa por meio dos mesmos fundos do padre de Rennes? Outros factos são interessantes: Saunière e Boudet estavam presentes no enterro de Gélis; Coustaussa fica a dois quilómetros de Rennes-le-Château, e uma proximidade importante entre estes três padres não será improvável. Há ainda rumores de que Saunière confiou somente em Boudet e em Gélis aquando das suas hipotéticas descobertas explosivas na igreja de Rennes. Certamente os três sacerdotes conheciam-se bem... Mas até que ponto?
     Como último pormenor importante, saliente-se a localização temporal deste crime. No início desta página mencionou-se que 1897 foi um ano importante para Saunière: o ano da conclusão das suas intervenções na igreja. A 31 de Outubro, véspera do crime, Mathieu Mestre, um marceneiro de Limoux, entrega a Saunière uma factura comprovando a compra e entrega de vários móveis para a sacristia. Exactamente dois dias a seguir, Saunière acordaria com a notícia do brutal assassinato de Gélis. É depois deste crime que Saunière decide concluir as intervenções na igreja para passar a algo bem maior: a construção do seu domínio, que iria incluir a Torre Magdala, a Villa Béthanie e os jardins circundantes.

 


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