Do Enigma de Rennes-le-Château

ao Priorado de Sião

História de um Mito Moderno

 

 

 

Por

Bernardo Sanchez da Motta

 

A génese. 4

Entra o Priorado de Sião…. 6

Os pergaminhos 7

Porquê? 8

Entram o trio Lincoln, Baigent e Leigh…. 9

A “geração Rennes” 10

Dan Brown e O Código Da Vinci 11

Editora processada por Baigent e Leigh. 12

Uma crise cultural 13

A inversão dos símbolos 14

 

 

Com este documento, pretendo apresentar e sintetizar a minha obra, Do Enigma de Rennes-le-Château ao Priorado de Sião – História de um Mito Moderno, editada em Abril de 2005 pela Ésquilo Comunicação & Multimédia.

Trata-se da passagem a livro, numa forma ampliada e profundamente revista, de um trabalho de investigação que venho desenvolvendo desde Outubro de 1997 na Internet, em http://bmotta.planetaclix.pt. O trabalho versa sobre a sociedade secreta francesa conhecida pelo nome de “Prieuré de Sion”, ou “Priorado de Sião”, que tendo sido fundada em 1956 em França, se tem dedicado desde então à propagação de um embuste, de uma farsa esotérica poderosa, baseada num enigma francês originário da aldeia de Rennes-le-Château, localizada no topo de uma montanha nos Pirinéus.

Até ao Verão de 2004, o meu trabalho na Internet atraía pouco interesse, uma vez que se tratava de um tema muito específico. Tudo muda quando a editora Bertrand decide traduzir o romance O Código Da Vinci, do escritor norte-americano Dan Brown. Este romance está, em larga medida, baseado neste embuste francês, o que fez com que em Portugal, o meu trabalho passasse a ser muito mais procurado e lido.

O romance O Código Da Vinci, do escritor norte-americano, revelou-se um verdadeiro fenómeno sociológico. Visto por muitos críticos como uma ameaça, como um livro perigoso, atrevo-me a não partilhar necessariamente desse ponto de vista. Este romance pode, e deve, ser visto como uma oportunidade. Uma oportunidade para se reflectir sobre cultura, sobre erudição, sobre conhecimento científico e conhecimento popular, sobre a dita “sociedade da informação”. Sobre as modas e as tendências, mas também sobre profundas e relevantes questões sociológicas.

O livro de Dan Brown, por muito que isso surpreenda a maioria dos seus leitores, traz pouco de novo: é uma obra baseada, quase exclusivamente, nos livros de esoterismo popular O Sangue de Cristo e o Santo Graal, de Lincoln, Baigent e Leigh, O Segredo dos Templários, de Lynn Picknett e Clive Prince, e Maria Madalena e o Santo Graal, de Margaret Starbird. A verdadeira surpresa não está na obra de Brown, mas sim na adesão de milhões de leitores espalhados por todas as regiões do globo. É nesse sentido, ou seja, pela análise do sucesso deste livro, que se devem aprofundar outras reflexões.

Numa era dita “global”, de omnipresente comunicação mediática, é surpreendente que a esmagadora maioria dos leitores tenha encarado a obra de Dan Brown como novidade. Foram poucos os que detectaram, n’O Código Da Vinci, as ideias-chave de uma popular mistificação moderna que germinou em França nos anos cinquenta, e que alimenta desde então uma grande corrente à escala global de literatura esotérica popular e história fantástica. Por outras palavras, foram poucos os que sentiram na obra de Brown um forte déjà vu com o regresso em força do mito moderno do Priorado de Sião, ancorado no enigma da aldeia meridional francesa de Rennes-le-Château.

Com a sua génese localizada no século XIX em França[1], o enigma de Rennes-le-Château ficou para sempre ligado, na segunda metade do século XX, à história do Priorado de Sião, sociedade dita “secreta”, declarada oficialmente em 1956 pelo francês Pierre Plantard (1920-2000)[2], em Annemasse[3], na Alta Sabóia, em França.

A mistificação moderna do Priorado de Sião está apoiada num relato romanceado da vida de um padre francês, o padre Bérenger Saunière (1852-1917), que exerceu o sacerdócio em Rennes-le-Château a partir de 1885. Uma versão fantasiosa da vida de Saunière surge pela primeira vez nas obras de um colaborador de Pierre Plantard, o jornalista Gérard de Sède (1921-2004), sobretudo na sua obra Le trésor maudit de Rennes-le-Château[4]. Esta fantasia seria repetida, durante os anos setenta e oitenta, pelo trio anglo-saxónico Lincoln, Baigent e Leigh, na sua obra O Sangue de Cristo e o Santo Graal[5].

O palco desta história é o montanhoso sul de França, na região do Languedoc. Em finais do século XIX, em 1885, a aldeia de Rennes-le-Château recebe como padre Bérenger Saunière, uma personagem polémica que ficará para sempre ligada a este local.

Saunière atrai para si a fama, a inveja e a cobiça, em virtude das suas construções bizarras, das suas onerosas obras de restauro na aldeia, e de uma vida levada em aparente opulência. Cedo nasceram rumores de que o padre descobrira um tesouro. Contudo, com grande probabilidade, o padre Saunière não terá descoberto nenhum tesouro relevante. Pode-se demonstrar[6] que Saunière desviou fundos que pertenciam à Igreja Católica, mais concretamente donativos de fiéis para intenções de missas, tendo-os usado para benefício próprio para financiar os seus empreendimentos em Rennes-le-Château, o que pode ser demonstrado através de ampla documentação histórica[7]. Por tal facto, Saunière foi julgado à luz do direito canónico em dois processos distintos, que decorreram entre 1910 e 1911, e foi-lhe retirada a dignidade sacerdotal. Morreu em 1917, doente, sem paróquia e em sérias dificuldades económicas, resultantes das inúmeras hipotecas que foi obrigado a contrair para poder fazer face às dívidas junto dos seus fornecedores.

Umas décadas mais tarde, já no final da Segunda Guerra Mundial, um visitante parisiense chamado Noël Corbu, apaixonado pela aldeia, decidiu comprar uma das propriedades que o padre tinha deixado, transformando-a num hotel com restaurante, o Hôtel de la Tour. Mas os clientes eram poucos, naquela aldeia no topo de um monte, perdida na ruralidade do sul de França transpirenaico. O proprietário do restaurante decide então transformar os boatos e lendas locais sobre o padre Saunière num intrigante "mistério", que ele com algum engenho transforma numa propaganda que permite enfim a rentabilização do seu negócio turístico! Em breve, o seu Hôtel de la Tour cresce em fama e em clientes. Noël Corbu grava numa fita magnética o relato fantasioso do padre Saunière, o “padre dos milhões”, que “com um golpe de picareta, sob o altar-mor da Igreja de Rennes, teria posto a descoberto o tesouro da Rainha Branca de Castela”[8]. Este fita magnética é colocada durante as refeições para que os visitantes a escutem. A ideia fará sucesso, e a partir do final dos anos cinquenta inicia-se o desfile de hordas de turistas que visitam todos os anos a aldeia de Rennes-le-Château em busca de pistas para o lendário tesouro do “padre dos milhões”.

Assim nasce a mitologia moderna de Rennes-le-Château...

Mas em que consistia o enigma de Rennes, na sua origem, antes das efabulações iniciadas pelo pioneiro Corbu? De forma sintética, pode-se dizer que este enigma tem, na sua origem, uma base ideológica e estrutural bem definida: o anti-catolicismo. É correcto considerá-lo na sua génese como anti-católico, visto que o enigma nasce em França, país católico, e o inimigo visado pelos seus criadores é a Igreja Católica. Mas tentemos ir um pouco mais longe para compreendermos a razão desta afirmação…

O enigma de Rennes, logo na sua origem, pode ser visto sob dois prismas: o prisma histórico, através do qual encontramos uma curiosa história regional sobre um padre rural que enriquece de forma inusitada e efectua uma série de obras dispendiosas na sua aldeia; e o prisma lendário, através do qual nasce logo no século XIX toda uma série de mistificações em torno de Rennes-le-Château, tudo fruto de uma vingança intelectual levada a cabo por personagens anti-clericais (mais especificamente, anti-católicas) ligadas à Franco-Maçonaria. De que se vingavam? Provavelmente, vingavam-se dos movimentos católicos anti-maçónicos, cuja actividade no final do século XIX e início do século XX fora excepcionalmente intensa. Muitos católicos, por esta altura, aderiram a, e promoveram, uma polémica guerra anti-maçónica que ficou conhecida como o “caso Léo Taxil”, pelo qual foram propagandeadas falsas provas de práticas satânicas no seio da Franco-Maçonaria internacional. Tudo indica que o enigma de Rennes nasceu como uma vingança de certos maçons franceses contra os católicos que, neste país, combatiam a Maçonaria, como era o caso do padre Bérenger Saunière, do seu bispo Monsenhor Félix-Arsène Billard, e também do seu círculo de amigos e conhecidos.

O material nascido desta guerra intelectual seria aproveitado, décadas depois, para a mistificação do Priorado de Sião. Para um autor como Gérard de Sède, colaborador inicial de Pierre Plantard na difusão desta mistificação, que se dedicou a este tema a partir dos anos sessenta, o padre Saunière surge transformado num padre repleto de mistérios, conspirador, chantagista, ocultista, esoterista, que teria na sua posse um grande segredo esotérico, que prejudicaria a autoridade doutrinária da Igreja Católica.

Mais tarde, já nos anos oitenta, o trio anglo-saxónico Baigent, Leigh e Lincoln decide ir mais além de Gérard de Sède. Eles explicam, na obra O Sangue de Cristo e o Santo Graal, qual seria a natureza profunda do enigma de Rennes: provas concretas da sobrevivência de uma linhagem duplamente real e sagrada, descendente de um casamento de Jesus Cristo com Maria Madalena. Esta linhagem teria entroncado com a primeira dinastia dos Francos, os Merovíngios, cujo primeiro monarca é Clóvis (481 d.C.), neto do lendário Meroveu.

Segundo a tradição medieval cristã, o Graal seria um cálice[9]. Este cálice teria servido para conter o vinho na Última Ceia, e também teria servido para recolher o sangue de Jesus na Cruz. Mas para o trio anglo-saxónico, o Graal seria a própria Maria Madalena, mulher de Jesus, cujo ventre, tendo gerado descendência “sagrada”, seria como que um receptáculo do “sangue de Jesus” entendido agora como “linhagem” ou “estirpe” de Jesus, e teria originado mais tarde as imagens simbólicas tradicionais do Graal, onde o “verdadeiro” sentido, para estes autores, estaria oculto propositadamente. Noutra vertente, trabalhando uma série de teses que visam rever o relato tradicional da vida de Jesus em todos os seus aspectos, o trio dá também como muito provável a própria sobrevivência de Jesus à crucificação, o que torna a sua obra particularmente polémica.

O trio anglo-saxónico, seguindo Gérard de Sède, também vê o padre Saunière como um infiltrado no catolicismo, que após uma explosiva descoberta arqueológica em Rennes, se teria colocado numa posição de chantagem com o Vaticano, e que por isso teria ganho notoriedade e popularidade junto de grupos adversários da Igreja Católica, que no final do século XIX, em França, compunham um vasto leque de pessoas dos mais variados quadrantes sociais: políticos republicanos, maçons (do Grande Oriente de França), ocultistas (seguidores de Papus e Stanislas de Guaïta), teosofistas (membros da Sociedade Teosófica fundada por Helena Petrovna Blavatsky), neo-gnósticos (seguidores de Jules Doinel), espíritas (seguidores de Allan Kardec), entre tantos outros. Como vemos, com este estratagema, o monárquico, anti-republicano, anti-maçónico padre Saunière é transformado numa personagem ideologicamente localizada no exacto oposto.

Encarregada de proteger o suposto “segredo” e a própria “linhagem sagrada”, mantendo os “descendentes de Jesus” protegidos do perigo, estaria uma sociedade secreta, o Priorado de Sião, que é apresentada pelo trio Lincoln, Baigent e Leigh como tendo a sua origem no século XI, em Jerusalém, por iniciativa de Godofredo de Bulhão, campeão da Primeira Cruzada (1099). O trio informara-se junto de Pierre Plantard, que se apresentava como “grão-mestre” do Priorado de Sião. Segundo o trio, o Priorado de Sião ter-se-ia mantido sempre activo ao longo da história europeia até aos dias de hoje, e estaria a preparar as bases para os “Estados Unidos da Europa”, uma monarquia de estados federados que seria governada por um monarca a instituir, escolhido da estirpe sagrada de Jesus! Para o trio, esse monarca futuro teria um nome, “Pierre Plantard de Saint-Clair”. Como vemos, trata-se do próprio Pierre Plantard, o criador do Priorado de Sião, que deu inúmeras entrevistas e documentação ao trio.

Estas são as linhas gerais do enredo. São também as linhas com que se coseram grande parte das “teses” históricas usadas no romance O Código Da Vinci, de Dan Brown[10]. Romance de estrutura pouco convencional, porque é por demais evidente que o autor norte-americano está a querer transmitir uma “tese” histórica pessoal através do enredo e das personagens. Como agravante, este romance principia com uma página intitulada “FACTO”, que contém graves erros históricos, e que deste modo viola o compromisso feito com o leitor.

Mas tentemos sintetizar, nos seus traços gerais, os vários passos da montagem desta complexa história…

A génese

Antes de mais, a aldeia languedociana de Rennes-le-Château é uma terra de tesouros, sejam eles reais ou lendários. Até porque muitas vezes as lendas são vividas mais intensamente do que a própria realidade. Os enigmas estão ali há muitos anos, como estão em tantos outros locais de forte simbolismo e conturbado passado histórico. O Languedoc é também terra de heresia: ela está no folclore, nas lendas, nos cantares. Basta evocar a herança dos hereges cátaros, através da memória da sangrenta cruzada que ali teve lugar durante a primeira metade do século XIII. Mas mesmo sem ir ao extremo da heresia, temos que ter sempre presente a dicotomia da ortodoxia versus heterodoxia: dois termos que exprimem uma instabilidade que as gentes do sul de França sempre sentiram na pele, no dia-a-dia. Mas as lendas do sul de França são bem antigas, e devem ser, dentro do possível, separadas do enigma de Rennes-le-Château, porque este sim, tem solução e pode ser compreendido.

A história de Bérenger Saunière é o epicentro desse enigma. Saunière tinha um sonho, e não deixara que ninguém se intrometesse no seu projecto, na concretização desse sonho: fazer de Rennes um lugar de peregrinação e devoção, semelhante ao local das aparições de Lourdes. Nem as autoridades eclesiásticas o iriam impedir de chegar ao seu objectivo… Ele oscilava entre o dever de submissão e obediência à autoridade eclesiástica e o intenso desejo de terminar a sua obra. Um feitio determinado e enérgico, de quem se habituara desde novo a remar contra a corrente... No final do século XIX, a França caminhava a passos largos para a laicização, sendo que a classe política era cada vez mais composta de personalidades que afirmavam categoricamente uma posição anti-clerical.

Os ideais da República, aliados ao anti-clericalismo, eram o oposto dos ideais de figuras como o padre Saunière, católico e monárquico legitimista, apoiante do pretendente Bourbon, o Conde de Chambord. Mas Saunière estava do lado perdedor… No que dizia respeito à Monarquia, o Conde de Chambord abdicara da sua pretensão ao trono, recusando assumir a bandeira tricolor, o que desiludira grande parte dos adeptos da causa. Também a Igreja Católica, a partir de Leão XIII, deixara de unir os seus esforços aos da causa monárquica. Por outro lado, no que dizia respeito ao catolicismo, em França, a realidade era também preocupante. Uma intensa vaga anti-clerical aterrorizava as hostes católicas. Em Roma, o Papa também não era excepção e não se sentia seguro: Pio IX teve que lutar para evitar o fim da Igreja Católica. Saunière era também, como a maioria dos sacerdotes do seu tempo, um fervoroso adversário da Maçonaria, em cujas fileiras estavam alistados muitos republicanos e anti-clericais do seu tempo.

Os que pensavam como Saunière sentiam o desânimo das causas perdidas, mas Saunière transformou, desde muito cedo, este desânimo em determinação. No plano religioso e vocacional, ele decidira transformar Rennes-le-Château num local de refúgio, num espaço sagrado de peregrinação, devoção e oração. No plano pessoal, como fuga dos seus problemas familiares, Saunière via Rennes-le-Château como a sua verdadeira casa, o lugar onde se sentia feliz e onde tinha paz. Para realizar o projecto da sua vida, Saunière não hesitara em fazer uma gestão independente e irregular dos donativos dos fiéis. Quando a situação começou a ser investigada pelos seus superiores diocesanos, Saunière fechou-se em auto-defesa. Ninguém o tiraria de Rennes, nada o afastaria do que ele tinha construído. Segundo Saunière, a sua obra em Rennes nada tinha de irregular, porque tudo fora feito com a melhor das intenções.

Tudo indica que Saunière fazia parte de um grupo restrito de sacerdotes monárquicos, provavelmente organizados numa ou várias confrarias semi-secretas[11], que trabalhavam para defender um catolicismo que andava de braço dado com ideais monárquicos tradicionalistas. O padre Henri Boudet, seu vizinho de Rennes-les-Bains, poderia ter feito parte desse grupo, e provavelmente também o desafortunado padre Antoine Gélis, que morreria assassinado na sua paróquia de Coustaussa por motivos ainda hoje por esclarecer. Estavam todos muito próximos do círculo de Frohsdorf, que se unira em torno da Condessa de Chambord na defesa da monarquia legitimista e do projecto de consagrar a França à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, através da mediação da Virgem Maria. Não poucas vezes, estes movimentos assumiam também fortes posições anti-maçónicas.

Mas as importantes figuras intelectuais da agitada cultura cosmopolita de Paris não estavam desatentas a estes movimentos. Escritores como Victor Hugo, Maurice Leblanc e Gaston Leroux sentiam um profundo desprezo pelo catolicismo conservador, desprezo esse que era ampliado quando o catolicismo surgia aliado à monarquia. Para eles, tais posições estavam profundamente erradas. Estes escritores usaram o seu talento para deixar, ao longo de várias obras de ficção, marcas evidentes deste desprezo. Usando sátira amarga, recuperando nomes e apelidos de figuras reais, os seus romances transpiravam crítica social por todos os poros, sendo que os alvos preferenciais eram o catolicismo e a monarquia. Mas a crítica anti-clerical de Leblanc, de Leroux, ou de Victor Hugo, era sui generis: usava uma arma potente – a cultura hermética e esotérica, muitas vezes numa vertente maçónica, que atingira o auge de criatividade, popularidade e influência na cultura francesa no final do século XIX. Esta cultura reclamava a herança do simbolismo hermético perdido na Idade Média, opondo-se aos dogmas e rituais católicos, por ela considerados como “decadentes”. Autores como Leblanc, Leroux e Hugo não eram mange-prêtres, ou seja, “papa-padres” obcecados com o anti-clericalismo per se. A sua concepção do mundo era maturada, estudada, reflectida. Era, segundo eles, filosófica e científica. Era, também segundo eles, o resultado do estudo, das “Luzes”, da modernidade, de uma nova intelectualidade, em suma, de um novo pensar, que surgia muitas vezes aliado à herança cultural hermética e a uma opção pelo ritual e pelo simbolismo maçónico…

Dotados de uma enorme erudição, estes autores, para além da cultura hermética e esotérica, recorriam abundantemente às lendas, à história e ao património cultural francês. Faziam parte de uma elite intelectual. Padres monárquicos como Saunière, ou padres perenialistas[12] e tradicionalistas como Boudet, eram para eles figuras totalmente desprezíveis, ultrapassadas e ridículas, e que por isso deviam ser ridicularizadas. Possivelmente, autores como Leroux, Leblanc ou Hugo procuraram, através de uma ficção brilhante, vingar-se da determinada acção anti-maçónica exercida por muitos prelados católicos da altura.

É neste ambiente de guerra intelectual que nasce o enigma de Rennes-le-Château. É neste meio fértil e erudito que são criadas as primeiras peças do puzzle de Rennes, que servirão para um jogo de trevas e luz, onde o que é verdadeiro passará a falso e o que é falso passará a verdadeiro.

Um excelente exemplo encontra-se na distorção de que é alvo, desde muito cedo, o padre perenialista Henri Boudet, transformado num neo-gnóstico, num ocultista. A sua “catequese céltica”, plasmada na obra La Vraie Langue Celtique, baseava-se nos abundantes vestígios arqueológicos celtas daquela região de França. Se bem que ligeiramente heterodoxo, tratava-se de um perenialismo pleno de ilacções eucarísticas no qual os antigos celtas surgiam como percursores de Cristo. No entanto, a “catequese céltica” de Boudet é transformada numa “catequese diabólica”, suposta prova da prática oculta de um ritual secreto e herético. Foi precisamente assim que tudo começou: uma guerra intelectual entre duas facções…

Entra o Priorado de Sião…

O Priorado de Sião iria aproveitar a fértil e complexa herança desta guerra intelectual entre católicos monárquicos anti-maçónicos e maçons anti-clericais republicanos, na qual esteve envolvido o padre Bérenger Saunière, para reforçar a sua tese mistificadora central: a sociedade secreta existira desde tempos bastante recuados para proteger o legado dos “descendentes merovíngios”:

 

«… os descendentes merovíngios estiveram sempre na base de todas as heresias, desde o arianismo, passando pelos cátaros e pelos templários até à franco-maçonaria. Com o nascimento do protestantismo, Mazarin em Julho de 1659 fez destruir o seu [dos descendentes merovíngios] castelo de Barberie que datava do século XII (Nièvre, França). Esta casa não tem gerado através dos séculos senão agitadores secretos contra a Igreja…»

 

Como vemos, uma clássica teoria da conspiração. Neste caso, uma conspiração claramente anti-católica, em defesa de “todas as heresias”.

Um dos documentos mais elucidativos que integra os famosos Dossiers Secrets d’Henri Lobineau[13], um conjunto de material desinformativo depositado pelo Priorado de Sião de Pierre Plantard na Biblioteca Nacional de Paris em 1967, é a seguinte carta forjada, atribuída à International League of Antiquarian Booksellers, enviada no dia 2 de Julho de 1966 ao senhor Marius Fatin, proprietário do castelo de Rennes[14]. Nesta carta, fala-se na importância deste castelo e dos pergaminhos que teriam o selo de Branca de Castela, e que teriam sido supostamente descobertos pelo padre Saunière:

 

“Caro Senhor,

Após a nossa visita da semana passada ao seu castelo de RENNES, e antes de sairmos de França, nós temos o grande prazer de o informar que o seu castelo é, com efeito, historicamente o mais importante de França, pois constituiu lugar de refúgio em 681 ao Príncipe SIGIBERT IV, filho do Rei DAGOBERTO II, mais tarde canonizado São DAGOBERTO, bem como de seus descendentes, os Condes de Rhedae e Duque de Razès;

Factos comprovados por dois pergaminhos com o selo da Rainha BRANCA de CASTELA (tendo ela própria nunca estado em Razès) com o testamento de FRANÇOIS-PIERRE d'HAUTPOUL registado a 23 de Novembro de 1644 por CAPTIER, Notário em Espéraza (Aude), peças compradas em 1948 pela nossa Liga com uma parte da Biblioteca do Sr. Padre E. H. Hoffet, 7, Rue Blanche em PARIS, que possuía estas peças do Sr. Padre SAUNIÈRE, antigo cura de RENNES-le-CHATEAU.

A pedra sepulcral de SIGIBERT IV, figura no livro de Stüblein, edição de Limoux em 1884, ela encontrava-se na Igreja de Sta. Madalena de RENNES-le-CHATEAU, ela está hoje em dia no museu lapidar de CARCASSONNE.

O seu Castelo é, portanto, duplamente histórico!

Receba Caro Senhor, os nossos sinceros cumprimentos."

 

A farsa era simples, mas poderosa: segundo o Priorado de Sião, o padre Saunière, durante as obras de restauro do velho altar-mor da igreja de Santa Maria Madalena em Rennes-le-Château, teria posto a descoberto um conjunto de pergaminhos com o selo da Rainha Branca de Castela, que provariam a existência de uma descendência do monarca merovíngio Dagoberto II, descendência essa que teria sido protegida precisamente no castelo de Rennes-le-Château. Assim, Rennes-le-Château teria sido, graças aos esforços protectores de um milenar “Priorado de Sião”, a capital herética de França e o centro umbilical de uma guerra de séculos travada contra a Igreja Católica!

Os pergaminhos

Como vimos, os pergaminhos são de vital importância na mistificação do Priorado de Sião. Estas “provas documentais” foram forjadas para suportar as teses de Pierre Plantard e dos seus apoiantes.

O ano de 1967 é um marco na mitologia do Priorado. Neste ano, o assunto ganharia ampla publicidade em França graças à publicação pela Juillard do livro de Gérard de Sède, L’Or de Rennes, com o sub-título La vie insolite de l’abbé Saunière. Nesta obra surgem pela primeira vez reproduções de dois dos pergaminhos codificados. Segundo Paul Smith[15], esta obra fora inicialmente um manuscrito do próprio Plantard, que tendo sido recusado várias vezes por diversos editores, teria sido entregue a Gérard de Sède para servir de base a um livro que se revestisse do estilo do jornalista e se enquadrasse bem no seu currículo literário. Tanto Plantard (mentor do texto) como Phillipe de Chérisey (autor dos falsos pergaminhos codificados) deveriam receber uma parte dos lucros da venda do livro de Gérard de Sède.

Contudo, uma mal resolvida questão de percentagens terminou em desavença: Chérisey acusava Gérard de Sède de ter usado os seus pergaminhos sem autorização. Uma carta datada de 8 de Outubro desse ano, enviada a Chérisey pelo seu advogado, o Dr. Boccon-Gibod, dá conta desta situação:

 

“Caro Senhor,

Recebi a sua carta e de imediato escrevi à Casa Juillard, bem como ao senhor de Sède, para protestar contra a utilização sem autorização, de dois pergaminhos por vós fabricados e que me foram entregues para estudo, na obra «L’Or de Rennes».”[16]

 

Não poucas vezes, Phillipe de Chérisey assumiu a autoria dos pergaminhos. Como por exemplo numa entrevista que figura na obra de Jean-Luc Chaumeil, Le Trésor du Triangle d’Or (1979). Hoje em dia, os investigadores deste assunto ocupam-se, sobretudo, na determinação exacta da fonte que serviu de inspiração a Phillipe de Chérisey. Não é possível efectuar aqui a uma exposição completa sobre estes pergaminhos, mas esta pode ser lida na Internet[17].

Porquê?

Mas porquê toda esta complexa charada?

O Priorado de Sião deve ser compreendido à luz das motivações das suas três figuras mais importantes: Pierre Plantard, Phillipe de Chérisey e Gérard de Sède.

Comecemos por Chérisey… Era um artista, actor de teatro e de televisão, uma figura erudita e culta, com um elevadíssimo sentido de humor. Era também um entusiasta do surrealismo. Para além da amizade de juventude que o unia a Plantard, o Marquês de Chérisey tinha um fascínio pelos jogos, pelas charadas, pelos enigmas históricos. Entusiasmava-o a ideia de criar uma tese histórica surrealista ancorada na vida misteriosa de Saunière e nas lendas de Rennes-le-Château. Uma teia ficcional e irreal, mas ligada à História por pequenos pontos, pelos quais obtinha a aparência de verdade. Como vimos, Rennes-le-Château tinha tudo para fascinar uma pessoa inquieta e ávida de divertimento erudito como era Phillipe de Chérisey.

Gérard de Sède foi um escritor imaginativo e multifacetado, que se deve ter divertido imenso com a sua escrita. Como Phillipe de Chérisey, era um admirador da corrente surrealista, tendo frequentado estes círculos em Toulouse e Paris. No plano ideológico, estamos perante um escritor com um passado de trotskista e revolucionário militante, que fez parte da Fédération de l'Art Revolutionnaire Indépendant, criada em 1938 por André Breton (1896-1966). Gérard de Sède também escreveu sobre as aparições de Fátima, por ele chamadas de “imposturas”[18], tendo sido premiado em 1977 pela Liga de Ateus Franceses. No seu funeral, em 2004, os seus antigos camaradas revolucionários prestaram-lhe uma derradeira homenagem cantando a Internacional. As posições políticas e ideológicas de Gérard de Sède devem ser tidas em conta para contextualizar a sua obra.

E Pierre Plantard?

É bem mais difícil compreendê-lo. Para alguns, Plantard é um mitómano, uma pessoa com problemas psíquicos que justificaríam a sua obsessão pela mentira e por viver uma vida fantasiosa. Foi esta a conclusão de um tribunal francês em 1993. Para outros, Plantard era apenas um oportunista: um ambicioso sem limites que queria para si um lugar na História. Durante a Segunda Guerra, esta fora a opinião dos serviços secretos e da polícia, facto que pode ser atestado pela leitura dos inúmeros relatórios policiais sobre a sua pessoa[19]. Há também quem pense que Plantard dedicou toda a sua vida a inventar uma história que servisse como uma amarga vingança anti-católica. Um catolicismo de juventude que acabara mal, talvez fruto de alguma experiência desagradável nos seus tempos de católico militante enquanto era ainda adolescente em Paris? Plantard poderá ter desenvolvido no início da sua vida adulta uma aversão ao catolicismo romano, levando-o a querer criar uma sociedade secreta que se apresentava como “ultra-católica”, ou seja, mais católica do que a de Roma. Recordemos que o mote do Priorado de Sião era o de que os merovíngios, em cuja descendência Plantard se fizera incluir, “estiveram sempre na base de todas as heresias, desde o arianismo, passando pelos cátaros e pelos templários até à franco-maçonaria”, numa presumida guerra permanente contra a Igreja de Roma através dos séculos.

Sou da opinião de que a verdade sobre Plantard deverá ser um misto destas três teses: a do Plantard mitómano, com a do Plantard oportunista e arrivista, e finalmente com a do Plantard anti-católico.

Entram o trio Lincoln, Baigent e Leigh…

O trio conhece a história atribulada de Rennes durante os anos setenta. Estava-se no rescaldo de grandes transformações sociais a todos os níveis. No plano espiritual, vivia-se no auge do New Age, do cortar laços com a Tradição, que passava a ser vista como caduca e ultrapassada, da adesão à euforia sincrética que levara muitos a interessarem-se pelas religiões orientais, ou por farsas dessas religiões, vendidas por falsos gurus. Regressava em força o fascínio pelos celtas, pelos egípcios, pelas lendas da Atlântida. Para muitos, era a aurora da Era do Aquário, um período de intensa evolução espiritual que traria enfim a felicidade, a liberdade e a realização plena do Homem.

Do ponto de vista do catolicismo, o Concílio Vaticano II marcou também toda a geração que presenciou a alvorada do New Age. As mudanças conciliares alteraram os hábitos religiosos dos católicos. Os sinais de abertura da Igreja Católica para o aggiornamento, bem como o crescente uso da liberdade de expressão, criaram o ambiente social propício a uma obra como a do trio. Estes autores, provenientes de países de cultura anglo-saxónica, nos quais a presença do protestantismo é bastante acentuada ao invés do que sucede nos países latinos, iriam aproveitar-se do rescaldo pós-conciliar, em que as novas medidas ainda estavam a ser implementadas a pouco e pouco por todo o mundo católico, para sugerir aos seus leitores uma tese ousada, que era vendida como uma moderna tese de investigação científica: Jesus fora casado com Maria Madalena, de quem tivera descendência. Plantard, com o seu mítico Priorado, não se atrevera a tanto!

No centro desta tese do trio Lincoln, Baigent e Leigh está a interpretação do Graal como “sangue real”. Segundo estes autores, a expressão “santo graal” proviria de sangréal, o que seria uma contracção das palavras “sang” e “réal”. Esta interpretação é um equívoco, um erro comum das pseudo-etimologias baseadas em homofonias[20]. Nos romances do Graal, é frequente encontrar a palavra “graal” isolada, o que invalidaria à partida a interpretação do trio. René Guénon, num artigo dedicado ao simbolismo graálico, Le Sacré Coeur et la Légende du Saint Graal (Regnabit, 1925), afirma que o Graal surge como um vaso ou taça (grasale, gradale). É esta a interpretação que reúne maior consenso. Os especialistas em simbolismo e filologia não validam a nova interpretação que o trio faz do Graal como “sangue real”.

Emma Jung e Marie-Louise von Franz afirmam mesmo categoricamente:

 

“Uma nova tentativa de derivação, falsa com toda a segurança, a partir de san greal, frequentemente escrito assim, obtém sang real, sangue real, com o que estaria a fazer referência ao sangue de Cristo, que é o que deveria conter o Graal.”[21]

 

Contudo, a derivação incorrecta de Lincoln, Baigent e Leigh fez sucesso. A autora norte-americana Margaret Starbird, na sua obra Maria Madalena e o Santo Graal, é disso exemplo: em toda a sua obra, ela recorre à palavra “sangreal”, evitando a todo o custo o uso do tradicional termo “graal”. A autora força esta nova interpretação incorrecta, uma vez que também partilha da tese da “linhagem sagrada” de Jesus Cristo e Maria Madalena.

É também com o trio Lincoln, Baigent e Leigh que surge a tese de que Jesus fora “eleito Deus” no Concílio de Niceia em 325 d.C. por instigação do Imperador Constantino, tese que não resiste a uma investigação, mesmo superficial. Um bom contra-exemplo, com enorme peso histórico e doutrinal, encontra-se em São Ireneu de Lião, que escreveu no final do século II d.C. a sua obra fundamental de refutação das heresias, Libros Quinque Adversus Haereses, “Cinco livros contra as heresias”, e que contém inúmeros e valiosos detalhes sobre a doutrina dos primeiros séculos de cristianismo. O capítulo dezasseis do terceiro livro de São Ireneu é intitulado “Provas, a partir dos escritos apostólicos, de que Jesus Cristo era um e o mesmo, o único Filho de Deus, Deus perfeito e homem perfeito”[22]. Muito antes do Concílio de Niceia, os primeiros cristãos já haviam fixado a crença na divindade de Jesus Cristo. O próprio Novo Testamento, cujos textos são datados do século I d.C., fornece abundantes exemplos de que Jesus Cristo se apresentava como Deus, Filho de Deus, bem como era reconhecido como tal pelos seus seguidores.

O trio Lincoln, Baigent e Leigh omite também que Constantino era o anfitrião do Concílio de Niceia, que teve lugar em território imperial. Niceia ficava na actual Turquia, a sul da capital Constantinopla. O imperador romano não era versado em teologia, e num Concílio, o voto era um direito exclusivo dos bispos participantes. Constantino não era bispo. Tudo indica que Constantino jogou um papel importante na moderação das várias facções, porque estava interessado em que os bispos chegassem a um consenso. Mas Constantino não conduziu o Concílio e não tomou parte na votação. Omitir esta importante informação pode conduzir à ideia incorrecta de que a invenção da divindade de Jesus deve, de certa forma, ser atribuída a Constantino.

O Concílio de Niceia lidou com as ideias de Ário, condenando vivamente a sua escolha[23] doutrinária, e fixando o credo católico num texto que ficou conhecido pelo nome de “Símbolo de Niceia”[24].

Em Niceia, não se votou Jesus como Deus: votou-se, entre outras coisas, a condenação dos que não o viam plenamente como tal: os seguidores da heresia de Ário. Subtil, mas importante, diferença que não deve ser descurada.

Em suma, a obra do trio Lincoln, Baigent e Leigh deve ser lida como uma obra de esoterismo popular e de história fantástica, que procurou aproveitar, fora de França (onde o embuste do Priorado fora descoberto no final dos anos setenta e início dos anos oitenta), a riqueza e a complexidade do material compilado pelo Priorado de Sião. Dois dos autores, Michael Baigent e Richard Leigh, fazem parte de organizações maçónicas anglo-saxónicas, e têm, por isso, uma especial apetência por todo este material que, relembramos, teve a sua origem numa vingança da Franco-Maçonaria contra os católicos que estiveram envolvidos em ataques anti-maçónicos, como foi caso paradigmático o da farsa perpetrada por Léo Taxil.

A “geração Rennes”

As teorias de Lincoln, Baigent e Leigh fizeram escola. Uma lista infindável de autores bebeu inspiração da obra do trio. Picknett e Prince, autores d’O Segredo dos Templários, pertencem à “geração Rennes”, ou seja, foram educados na leitura assídua e compulsiva dos livros de Lincoln, Baigent e Leigh, e também na dos livros de Gérard de Sède. Mario Arturo Iannaccone faz um breve recenseamento de outras teses semelhantes provenientes da “geração Rennes”:

 

“As conclusões das investigações são invariavelmente estas: Jesus morreu na Cruz (sem ressuscitar) ou sobreviveu; «fez-se desaparecer» o seu corpo transportando-o para outro lugar; ele era um essénio, um sacerdote egípcio ou um «proto-maçon». Emigrado para França, teria dado origem a uma dinastia real, de descendentes de David e de Hiram Abiff; Madalena poderia ter-se estabelecido em Rennes, ou pelo menos no sul de França. A dinastia assume nomes diversos: «Sang Réal» (Lincoln e co-autores), «Fraternidade de Troyes» (Dafoe), «Rex Deus» (Simmans e co-autores), «Fraternidade da Serpente» (Wood) ou «Ordem de Baphomet» (Terhart), e ainda outros, segundo as inclinações e ao gosto dos autores que as propõem.”[25]

 

O que torna especialmente interessante o espantoso sucesso da obra de Dan Brown, de um ponto de vista sociológico, é que estes temas, amplamente aproveitados durante os anos setenta, oitenta e noventa numa literatura pseudo-esotérica “light”, ainda regressam como suposta novidade no início do presente século!

Dan Brown e O Código Da Vinci

Dan Brown poderia ter adoptado uma posição inatacável. Escrevendo apenas um romance, estaria a salvo da crítica. Evitaria assim a chuva de críticas que caíra sobre os ombros de Lincoln, Baigent e Leigh durante os anos oitenta. Mas O Código da Vinci é um romance histórico que não obedece aos padrões de uma obra deste tipo. Eis como principia esta obra, onde se lê logo na primeira página:

 

“FACTO:

O Priorado de Sião.

Sociedade secreta europeia fundada em 1099, é uma organização real. Em 1975, a Bibliothèque National[e] de Paris descobriu um conjunto de pergaminhos, conhecidos como Les Dossiers Secrets, que identificam numerosos membros do Priorado de Sião, incluindo Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci. (…)

Todas as descrições de obras de arte, edifícios, documentos e rituais secretos que aparecem neste romance são exactas.”[26]

 

Primeiro, o Priorado de Sião não data de 1099 mas de 1956.

Segundo, a lista de grão-mestres (e não apenas “membros”) foi depositada em 1967 na Biblioteca Nacional de Paris, e não em 1975.

Terceiro, os Dossiers Secrets são uma colectânea em papel e não em pergaminho.

Três falsos “factos”! E isto sem mencionar a frase final relativa às “descrições”, porque sendo tão genérica pode ser ao mesmo tempo enganadora para o leitor e, no entanto, de difícil crítica.

Este texto inicial de Dan Brown viola o compromisso feito com o leitor. Muitos são os romancistas do género histórico que gostam de indicar ao leitor os pontos da sua ficção que são verídicos. Mas Dan Brown comete erros graves precisamente na página onde se compromete a apresentar “factos”. Possivelmente embaraçada com a situação, a editora Mondadori, que traduziu para italiano O Código Da Vinci, recusou-se a inserir esta página a partir da segunda edição do livro.

E para quem poderia pensar que Dan Brown apenas quis escrever ficção, nada melhor do que uma visita rápida ao seu site na Internet[27]:

 

“Algumas das evidências mais dramáticas podem ser encontradas nas pinturas de Leonardo da Vinci“

“Vários académicos acreditam que o seu trabalho [o de Leonardo] fornece intencionalmente pistas para um segredo poderoso… um segredo que permanece protegido até aos dias de hoje por uma irmandade clandestina da qual Da Vinci era membro”

“Contudo, o segredo por detrás do Código Da Vinci estava demasiadamente bem documentado para que eu o desprezasse”

“Deparei-me pela primeira vez com os mistérios escondidos nas pinturas de Da Vinci enquanto estudava história de arte na Universidade de Sevilha, em Espanha“

“Anos depois, enquanto pesquisava para o livro Anjos e Demónios e nos Arquivos Secretos do Vaticano, encontrei de novo o enigma Da Vinci”

“O segredo descrito no romance tem sido narrado durante séculos“

“Fiquei surpreendido pelo facto dos historiadores estarem tão desejosos de partilharem os seus conhecimentos comigo”

“Um académico disse-me que o seu entusiasmo pelo Código Da Vinci estava baseado em parte na sua esperança de que «este antigo mistério fosse desvelado para uma audiência mais vasta»”

 

Como se vê, é insustentável a tese de que Dan Brown queria apenas fazer ficção!

E, no entanto, teria sido fácil a Dan Brown usar este álibi: bastaria não ter inserido a página inicial de falsos “factos”, bem como não ter afirmado nas suas entrevistas que acreditava na veracidade histórica das teses do seu livro.

No Código da Vinci não se encontra uma só palavra sobre Rennes-le-Château. E as dezenas de livros que Dan Brown certamente leu sobre o Priorado de Sião, sobre Pierre Plantard, e sobre todas as peripécias desta mistificação moderna? Silêncio quase total. Apenas uma “fraqueza” de Dan Brown: decidira dar ao curador do Louvre o apelido Saunière. Brown sabe bem que está a colaborar numa mentira, o que torna as suas declarações no seu site particularmente enganadoras e desonestas.

Brown até chega a colocar, no seu romance, na boca do erudito Leigh Teabing[28] a tese de que o inglês era a “língua primitiva”, algo que só pode ter sido retirado da obra La Vraie Langue Celtique do padre Henri Boudet, vizinho do padre Saunière. É para nos darmos conta até que ponto Dan Brown conhece bem o enigma de Rennes-le-Château e a mistificação do Priorado de Sião. Mas este detalhe, bem como tantos outros que poderíam traí-lo, passou despercebido a milhões de leitores por esse mundo fora…

Editora processada por Baigent e Leigh

A 3 de Outubro de 2004, o London Sunday Telegraph noticiava[29] que Michael Baigent e Richard Leigh iriam processar a editora de Dan Brown, a Doubleday, subsidiária do gigante Random House, por plágio na obra O Código da Vinci.

Eis alguns excertos do artigo, que aqui deixo para referência:

 

“Dois escritores vão processar os editores do «Código da Vinci», o maior sucesso de vendas de todos os tempos na área da ficção para adultos, afirmando que foi copiado do seu best-seller de há mais de vinte anos atrás. (…)

Michael Baigent e Richard Leigh afirmam que Dan Brown, o antigo professor de Inglês de 39 anos de idade de New Hampshire, «usou toda a arquitectura» da pesquisa que eles tinham efectuado no seu trabalho não ficcional, «O Sangue de Cristo e o Santo Graal» que eles escreveram em parceria com Henry Lincoln.

Eles afirmam que as semelhanças entre os dois livros são tais que eles não têm outra hipótese senão processar a Random House, cuja subsidiária Doubleday é a editora da novela do senhor Brown.

Leigh disse ao Sunday Telegraph após o lançamento do processo: «Não é apenas porque Dan Brown pegou em certas ideias porque várias pessoas já o tinham feito antes. É porque ele pegou na arquitectura inteira – o puzzle inteiro – e apresentou-o como um thriller ficcional». (…)

Baigent e Leigh afirmam que a premissa da novela e pilhas de pesquisa factual foram plagiadas da sua hipótese histórica, que vendeu mais de 2 milhões de cópias, apesar de ter sido denunciada por vários comentadores eclesiásticos como sendo «pseudo-história».

Baigent disse: «Se a nossa hipótese está certa ou errada é irrelevante. O facto é que se trata de um trabalho que montámos e passámos anos a construir».

«O Sangue de Cristo e o Santo Graal» baseou-se em seis anos de pesquisa e hipóteses de que Jesus casou com Maria Madalena e fundou uma linhagem real protegida por uma série de sociedades esotéricas incluindo os Templários e o Priorado de Sião, de quem se diz ter Leonardo da Vinci sido «grão-mestre».

Os autores argumentam que Brown lhes retirou a importante lista dos grão-mestres, que supostamente guardavam os documentos secretos relativos à linhagem de Cristo, sem lhes pedir autorização.

A única menção feita ao seu livro é quando o vilão do «Código Da Vinci» um excêntrico historiador inglês, chamado called Sir Leigh Teabing, retira um exemplar da sua prateleira e diz: «Na minha opinião, os autores fizerm alguns saltos duvidosos nas suas análises, mas a sua premissa fundamental é sólida».

O nome Leigh Teabing é um anagrama de Leigh e Baigent, apontam os autores, enquanto que a sua descrição física – ele anda com o auxílio de muletas – é alegadamente baseada no terceiro autor, Henry Lincoln, que coxeia.

Lincoln decidiu não tomar parte na acção de copyright devido a problemas de saúde, mas diz-se que a suporta.

Paul Sutton, um advogado da empresa londrina Orchard, que representa Baigent e Leigh, esteve indisponível para comentar.”

Uma crise cultural

Nos anos oitenta, com o seu best-seller O nome da Rosa, Umberto Eco provocara sobressalto no meio cultural pela forma como conseguira com a sua escrita seduzir um vasto número de leitores à escala global para questões teológicas quase esquecidas como as da querela entre franciscanos e dominicanos no final da Idade Média.

O nome da Rosa era um romance histórico hábil, feito, como é tipico em Eco, com base em charadas, em trocadilhos linguísticos, e numa sofisticadíssima erudição intelectual. Era um livro simultaneamente pedagógico e divertido.

Contudo, volvidos vinte e cinco anos, o sobressalto seria provocado por outro romance histórico, O Código Da Vinci, de Dan Brown, mas desta vez tratava-se de um romance com uma qualidade impossível de equiparar à do romance de Umberto Eco, não obstante tratarem-se de dois sucessos de vendas dedicados às mesmas temáticas. O Código da Vinci é uma obra repleta de graves equívocos e lacunas, onde se pode detectar a falta de preparação de Brown para escrever sobre simbolismo ou sobre religião, mesmo sob a capa de um romance histórico.

A quebra na qualidade é notória. No entanto, o livro de Dan Brown superou largamente as vendas do livro de Umberto Eco, que não obstante fora também um notável best-seller no mesmo segmento. Estamos perante uma crise cultural?

Penso que sim.

A crise da chamada “literatura esotérica «light»” no mundo ocidental não afecta apenas a esfera cristã. Afecta também a intelectualidade e a cultura como um todo. Os escaparates das livrarias estão repletos de obras que bombardeiam os leitores com milhões de referências a nomes, datas e sociedades secretas esotéricas, sem que se faça o mínimo esforço para os informar ou esclarecer.

O leitor não prevenido submerge. Infelizmente, sou da opinião de que, perante esta overdose de desinformação pseudo-esotérica, a maioria dos leitores opta por uma posição crédula, o que se afigura deveras preocupante.

Eis o que diz Francisco García Bazán sobre o actual contexto literário:

 

“(…) nos nossos dias, o género literário do romance histórico de ficção alcançou uma grande vantagem de vendas em relação ao romance histórico e este, como seria de esperar, em relação às publicações de ciência histórica.”[30]

 

É de especial interesse a distinção feita por Bazán entre o “romance histórico de ficção”, categoria onde cai o romance de Dan Brown, e o tradicional romance histórico. Neste último, sob a trama imaginada em torno de personagens ficcionais, é comum encontrar uma matriz histórica fidedigna. O que não encontramos em Dan Brown.

A inversão dos símbolos

Queria terminar com uma reflexão sobre a inversão dos símbolos, que julgo estar patente nestas obras pseudo-esotéricas. No simbolismo, há uma premissa fundamental: o símbolo, ou signo, é uma imagem de algo que o transcende. No caso do Santo Graal, o símbolo do cálice representa conceitos superiores: a perfeição como meta espiritual, a pureza de intenções, a centralidade do ser, a morada da imortalidade, a fonte da juventude, entre tantos outros conceitos supra-materiais.

Na literatura popular moderna, como é o caso das obras O Sangue de Cristo e o Santo Graal, O Segredo dos Templários, Maria Madalena e o Santo Graal ou O Código da Vinci, este simbolismo surge invertido: o símbolo deixa de representar realidades transcendentes para representar algo de material. É neste sentido invertido que o cálice representaria o útero de Maria Madalena. Como referem justa e sucintamente Sandra Miesel e Carl Olson:

 

“Dan Brown inverte a antiga ideia de que o corpo de uma mulher é simbolicamente um recipiente e torna o recipiente, simbolicamente, o corpo de uma mulher.”[31]

 

Normalmente os leitores, e mesmo alguns destes autores, não se dão conta de que, na prática, o símbolo do Graal foi invertido. Termino com estas palavras de René Guénon, um esoterista sério, se bem que polémico, mas um profundo conhecedor do simbolismo e das suas mecânicas. Guénon fala, neste artigo de 1925, precisamente deste símbolo do Graal, que desde o final do século XIX tem vindo a ser progressivamente interpretado desta forma invertida:

 

“Se se quis por vezes, nos tempos modernos, associar a tal representação um sentido blasfematório, é porque se alterou, conscientemente ou não, o significado primeiro dos símbolos, ao ponto de inverter o seu valor normal. (…) compreender-se-á que há nisto qualquer coisa que torna muito delicada a manipulação dos símbolos, e também que este ponto requer uma atenção muito especial quando se trata de descobrir o sentido real de certos emblemas e de os traduzir correctamente.”[32]

 

Lisboa, 30 de Junho de 2005,

 

Bernardo Sanchez da Motta



[1] É necessária alguma cautela com o uso da palavra “génese”. Apesar do nascimento do enigma de Rennes-le-Château ser frequentemente colocado no ano em que o padre Bérenger Saunière foi destacado como sacerdote oficiante para a aldeia, ou seja, em 1885, este enigma, para ser amplamente compreendido, necessita de explicações que só se encontram mais para trás na História.

[2] Juntamente com André Bonhomme, Armand Defago e Jean Deleaval, que contudo não tiveram responsabilidade alguma no processo de mitogénese iniciado pelo seu sócio Pierre Plantard.

[4] Título da edição em livro de bolso da editora J’ai Lu, de 1968, pois o título da edição original da editora Juillard era L’Or de Rennes, Paris, 1967.

[5] Londres, Dell, 1982.

[6] Vide, por exemplo, a obra de Jean-Jacques Bedu, Rennes-le-Château, Autopsie d’un Mythe, Éditions Loubatières.

[7] Um dos primeiros historiadores a demonstrá-lo foi René Descadeillas, de Carcassonne, que escreveu em 1974 a obra fundamental Mythologie du trésor de Rennes.

[8] É com estas palavras que o jornalista Albert Salamon, do periódico regional La Dépêche du Midi, reaviva estas lendas em 1956, na sequência de uma série de entrevistas com Noël Corbu.

[9] O riquíssimo simbolismo do Graal não se extingue apenas no símbolo do cálice – o Graal também é retratado frequentemente como uma pedra (ex: a obra Parzifal de Wolfram von Eschenbach, que viveu entre 1170 e 1220), entre tantos outros símbolos, cuja profusão e significado exigiriam um estudo especial que sairia totalmente do âmbito deste artigo.

[10] Editado em Portugal pela Bertrand (2004).

[11] Mario Arturo Iannaccone é um dos autores que defende esta tese, na sua obra Rennes-le-Château, una decifrazione. SugarCo Edizioni, 2004.

[12] O perenialismo, da palavra “perene”, é uma corrente de pensamento que sustenta a tese de que o Espírito Santo esteve sempre presente na Humanidade, e que se encontram em todas as doutrinas antigas os traços de uma mesma espiritualidade. Alguns perenialistas chegam mesmo a afirmar que as formas religiosas e espirituais hoje conhecidas proviriam de uma tradição pré-diluviana. René Guénon é um desses casos, referindo-se a ela usando a expressão “Tradição Primordial”. Outro exemplo surge com a obra de Frithjof Schuon, que prefere usar a expressão “Filosofia Perene”.

[13] De seu verdadeiro nome Les dossiers secrets d’Henri Lobineau, o conjunto foi depositado a 27 de Abril de 1967. Os Dossiers Secrets são atribuidos a Henri Lobineau, um pseudónimo, e são depositados com a assinatura de um certo Phillipe Toscan du Plantier, provavelmente outro pseudónimo. Trata-se de um conjunto de 26 páginas de material espúrio, depositado sob a cota BNP: 4º Lm1 249.

[14] Marius Fatin recebeu, de facto, esta carta. No livro de Jean-Luc Chaumeil, Le trésor du triangle d’or (Éd. Lefeuvre, 1979), surge uma fotografia do próprio Fatin com a carta na mão. O que não significa que tal carta provenha da International League… Outro dado importante é este: como Marius Fatin morreu no final de 1966, a carta tem que datar, o mais tardar, do ano de 1966.

[16] Letter from Phillipe de Chérisey’s sollicitor, no site de Paul Smith.

[18] Gérard de Sède, Fatima, enquête sur une imposture, Moreau, Paris, 1977.

[20] Não é correcto estabelecer etimologias com base em semelhanças fonéticas, ou seja, homofonias.

[21] Emma Jung, Marie-Louise von Franz, La Leyenda del Grial, Editorial Kairós, Barcelona, Maio de 1999.

[22] Adversus Haereses (Book III, Chapter 16), by St. Irenaeus of Lyons, do site da Catholic Encyclopedia, em http://www.newadvent.org.

[23] A palavra heresia, etimologicamente, vem do latim e significa simplesmente “escolha”. Inicialmente, o termo “heresia” não era pejorativo, tendo adquirido com o passar dos anos um significado mais negativo, como “escolha errada”, ou “escolha censurável”.

[24] Numa versão muito próxima da versão definitiva do credo católico.

[25] Iannaccone, op. cit., p. 167.

[26] Dan Brown, O Código Da Vinci, p. 11.

[28] Um anagrama feito com os nomes de Baigent e Leigh.

[29] Suit takes crack at “Da Vinci Code”, por Elizabeth Day, 3 de Outubro de 2004.

[30] Francisco García Bazán, em Jesus, as mulheres e os vínculos familiares nos textos gnósticos, parte integrante da obra Verdade ou Ficção?, Paulus Editora, 2005, p. 102. O Dr. Bazán é um especialista em platonismo e gnosticismo, e é co-editor da biblioteca de Nag Hammadi em castelhano.

[31] Sandra Miesel, Carl E. Olson, A fraude de “O Código Da Vinci”, p. 177.

[32] Le Sacré Coeur et la légende du Saint Graal, um artigo escrito para a revista Regnabit em 1925.