A igreja de Sta. Maria Madalena

 

Entrada da igreja Esquema da entrada
Entrada da igreja Esquema da entrada

     Esta igreja apresenta algumas características peculiares, que segundo algumas opiniões, contêm a chave do mistério. É preciso notar que a Igreja sofreu radicais transformações com a remodelação feita por Saunière. Ele teria provavelmente como intenção inicial o pacífico restauro de um edifício que estava à beira da ruína. Como já foi referido, a igreja era de construção carolíngia, erigida sobre antigas ruínas visigóticas. A necessidade de restauro parecia evidente e é razoável supor que Saunière não teria segundas intenções com a sua primeira intervenção na igreja. Contudo, a dada altura, a sua vida alterou-se bastante. Frequentemente, atribui-se às suas descobertas arqueológicas na igreja a culpa pelo desencadear de toda a sequência de acontecimentos misteriosos que marcariam o resto da sua vida. É a história dos famosos pergaminhos, de cuja descoberta não existe nenhuma prova. Saunière terá descoberto algumas jóias e relíquias, mas não há indícios que atestem o achado de qualquer tipo de tesouro de dimensões significativas, fosse ele um tesouro material ou de qualquer outro tipo. Nesta página serão expostas algumas fotografias do interior da igreja, acompanhadas por comentários sobre as características do restauro efectuado por Saunière.

     A primeira estranha redecoração diz respeito à inscrição gravada no do pórtico da igreja, "TERRIBILIS EST LOCUS ISTE" ("Este lugar é terrível"). Se tomarmos em consideração a outra inscrição presente na entrada, "HIC DOMUS DEI EST ET PORTA COELI" ("esta é a casa de Deus e a porta do céu"), podemos confirmar que se trata de uma citação do Livro do Génesis, capítulo 28, versículo 17. Trata-se do conhecido sonho de Jacob, quando dormia encostado a uma pedra em Betel: "Jacob saiu de Bersabé e tomou o caminho de Harran. Chegou a determinado sítio e resolveu ali passar a noite, porque o sol já se tinha posto. Serviu-se de uma das pedras do lugar como travesseiro e deitou-se. Teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e ao longo desta escada subiam e desciam anjos de Deus (...). Despertando do sono, Jacob exclamou: «O Senhor está realmente neste lugar e eu não o sabia!» Atemorizado, acrescentou: «Que terrível é este lugar! Aqui é a casa de Deus, aqui é a porta do céu.» (...)" - Génesis 28, 10-17. No meio da inscrição "HIC DOMUS..." encontramos ainda a frase "LUMEN IN COELO", que quer dizer "Luz no céu".
     A inscrição "Este lugar é terrível" parece uma frase demasiado desapropriada para figurar numa igreja. Contudo, como se pode constatar pela leitura dos preceitos normativos para a dedicação de uma igreja católica, esta é a frase que deve ser usada. Mais concretamente, a dedicação de uma igreja deve conter como antífona de entrada o versículo 17 do capítulo 28 do Génesis (versão da Vulgata Clementina):

28:17 Pavensque, Quam terribilis est, inquit, locus iste! non est hic aliud nisi domus Dei, et porta cæli.

     Na dedicação de uma igreja católica, são também usados excertos de S. Mateus, capítulo 21, versículo 13, e de S. Lucas, capítulo 11, versículo 10. No primeiro caso, trata-se da outra frase gravada na entrada: "DOMUS MEA DOMUS ORATIONIS VOCATIBUR", ou seja, "A minha casa há-de chamar-se casa de oração". O excerto evangélico em questão é: "Jesus entrou no Templo, expulsou dali todos os que nele vendiam e compravam, derrubou as mesas dos cambistas e as bancas dos vendedores de pombas, dizendo-lhes: «Está escrito: 'A minha casa há-de chamar-se casa de oração', mas vós fazeis dela um covil de ladrões»." - Mateus 21, 12-13.
     Encontra-se também a mesma frase proferida por Jesus nos seguintes evangelhos: S. Marcos, capítulo 11, versículo 17, e S. Lucas, capítulo 19, versículo 46. Uma pesquisa adicional revela que Jesus se refere a uma frase ainda mais antiga, do Antigo Testamento, do livro de Isaías: "porque a Minha casa será chamada a casa de oração para todos os povos", do capítulo 56, versículo 7. O original latino da Vulgata é:

56:7 adducam eos in montem sanctum meum et lætificabo eos in domo orationis meæ; holocausta eorum et victimæ eorum placebunt mihi super altari meo, quia domus mea domus orationis vocabitur cunctis populis.

     Mas porque é que os mistificadores procuram dar um sentido cátaro à frase "este lugar é terrível"? Já se sabe que Saunière era um homem com cultura, e sem dúvida possuía conhecimentos sobre a heresia cátara, mas seria de estranhar se um sacerdote católico como ele quisesse ligar de alguma forma a decoração da sua igreja, de execução rigorosamente ortodoxa e de acordo com as normas tridentinas, a esta doutrina herética. A explicação dos mistificadores até está bem inventada: conhecendo o catarismo será fácil aceitar que um cátaro acharia uma igreja católica romana um "lugar terrível". Os cátaros viam na Igreja de Roma uma manifestação das forças do Mal, viam-na como uma obra do Rex Mundi, e portanto, necessariamente má. Mas é pura especulação dizer que Saunière poderia ter sido neo-cátaro. É evidente que não se poderá ignorar a existência de uma igreja neo-cátara no tempo de Saunière, visto que Jules Doinel fundou uma em 1890, mas nada indica que Doinel pertencesse ao círculo de amigos de Saunière, ou que eles se tivessem conhecido. E nada prova que Saunière teria abraçado a heresia cátara.
     Assim, considerando todos estes factos e por falta de dados válidos por parte dos mistificadores, é evidente que estas inscrições são as inscrições correctas e apropriadas para o local. Os autores que se perdem em divagações em torno da suposta estranheza destas inscrições simplesmente não estão familiarizados com o rito católico e com questões fundamentais de doutrina.
     Para terminar, encontra-se ainda no pórtico a inscrição:

REGNUM MUNDI ET OMNEM ORNATUM SOECULI CONTEMPSI
PROPTER AMOREM DOMINI MEI JESU CHRISTI QUEM VIDI
QUEM AMAVI IN QUEM CREDIDI QUEM DILEXI

     No lado esquerdo da entrada, pode-se notar o pormenor da gárgula e da pomba branca colocadas em ambos os lados. Abaixo da gárgula lê-se uma inscrição com a data "1891", um ano marcante na vida de Saunière, como já foi referido atrás.

     A primeira visão que se tem ao entrar na igreja é, inevitavelmente, a do horrível diabo, que Gérard de Sède abusivamente associou ao demónio Asmodeu, o protector dos segredos e dos tesouros escondidos. Esta estátua não só é horrível e assustadora como é bastante invulgar numa igreja católica, mas tudo se explica pelo facto de Saunière considerar a República como o diabo, que deveria ser esmagada pela fé dos baptizados (este conjunto estatuário corresponde com detalhe ao simbolismo do discurso proferido por Saunière apenas quatro meses após a sua chegada a Rennes, na página O padre Bérenger Saunière). O diabo suporta a pia de água benta, que tem o formato de uma concha semelhante a uma tridacna. Acima da pia, encontramos quatro anjos num arranjo em cruz, colocados numa base sustentada de forma aparente por duas salamandras, onde está gravada a seguinte inscrição: "Par ce signe tu le vaincras", uma tradução da célebre frase latina "In hoc signo vinces", porém com a estranha inclusão do "le", como que a dizer: "Por este sinal, tu o vencerás". Esta frase lembra facilmente a lenda que conta que o imperador romano Constantino, durante a batalha da ponte Mílvia, teve uma visão celestial de uma cruz acompanhada da célebre frase. Diz-se que foi esta aparição que precipitou a vitória do exército romano e posteriormente a conversão de Constantino ao Cristianismo (foi devido a ele o Cristianismo se tornou mais tarde a fé oficial do Império).
     Encontramos ainda a frase "IN HOC SIGNO VINCES" no pórtico de entrada, colocada exactamente no topo do conjunto.
     Há que referir aqui a importância da colocação desta inscrição latina na igreja. No primeiro concílio de Niceia, em 325 d.C., o Arianismo, heresia que afirmava a natureza humana de Jesus, foi condenado. Esta heresia estava, contudo, de tal modo difundida na Europa Ocidental que era muito difícil erradicá-la. Assim, após este concílio, algumas cidades e aldeias europeias tiveram que diferenciar os dois cultos ariano e católico. Faziam-no por vezes usando igrejas separadas para cada culto. Deste modo, subsistiram durante muito tempo estes dois cultos, que sendo ambos de raiz cristã, eram diferenciados através da mensagem "In hoc signo vinces", pois os católicos seguidores da doutrina do concílio de Niceia colocavam sempre junto à cruz esta inscrição. Assim, qualquer interpretação dos elementos constituintes desta igreja deverá ser feita sempre à luz da sua doutrina inspiradora, baseada nos dogmas de Niceia. Saunière deve ser visto sempre como um verdadeiro padre católico. Um padre por vezes estranho, mas sempre um homem fortemente católico. Como era conhecedor das tradições cátaras e gnósticas da região, ele tem sido frequentemente retratado por alguns autores como um neo-cátaro. Algumas interpretações erróneas dos seus empreendimentos em Rennes tem ajudado a potenciar esta tese. Saunière, um neo-cátaro? O padre foi contemporâneo de um importante ressurgimento dos ideais cátaros, através da igreja neo-cátara fundada por Jules Doinel. Mas não há qualquer evidência de uma filiação ou sequer proximidade de Saunière com o movimento de Doinel, apesar desta ligação ser tantas vezes sugerida e tomada a sério por vários autores modernos. Trata-se de uma hipótese altamente improvável e, sobretudo, infundada.
     Podemos, contudo, interpretar a frase acima referida do seguinte modo: lembrando a atitude anti-republicana de Saunière, a inscrição pode estar somente a alertar o visitante para o facto de que só a cruz (só o sinal da cruz) vencerá o diabo, que neste caso simboliza a República. Claro que a estátua poderá ser vista de outras formas. Gérard de Sède interpreta esta estátua como a do demónio Asmodeu, que não só é tido só como o protector dos tesouros escondidos, mas é também tido como o guardião do Templo de Salomão. Há também uma interpretação que é frequentemente sugerida, e que leva em conta as tradições locais e a influência do catarismo na psique languedociana: o demónio Asmodeu, guardião dos tesouros escondidos e do Templo de Salomão, pode ser visto como o Rex Mundi cátaro, o senhor do mundo material, entidade essencialmente gnóstica. Mas para interpretarmos a estátua do Diabo na igreja de Rennes como sendo uma representação do demónio Asmodeu, teríamos que assumir que Saunière teria usado iconografia herética cátara na decoração de uma igreja católica, o que é inverosímil. A ideia que Saunière pretenderia passar era simples: a fé na cruz é a única verdadeira alternativa, e a República deve ser temida e recusada como o Diabo. Era portanto uma mensagem duplamente teológica e política aquela que Saunière queria transmitir.
     Duas salamandras aparentam sustentar a base onde se apoiam os anjos. Estas salamandras, que podem também ser mitologicamente vistas como grifos, assemelham-se às salamandras heráldicas, emblema dos Condes de Angoulême, e facilmente associadas ao rei Francisco I. No meio das salamandras e colocado um pouco acima encontra-se um selo com as iniciais B.S.. Claro que poderá tratar-se de pura coincidência (e será especulação tomar o que se segue como seguro), mas curiosamente são as iniciais de Bérenger Saunière, ao mesmo tempo que são as inicias dos dois padres de Rennes, Boudet (padre de Rennes-les-Bains) e Saunière (padre de Rennes-le-Château). São ainda as iniciais de Bon-Secours, o santuário de Puivert dedicado à Nossa Senhora. Já se referiu a importância que o renascer do culto da Virgem em Puivert pode ter tido na vida de Saunière. Estaria ele a fazer referência a Bon-Secours? Uma última e quase anedótica coincidência... A vidente de Lourdes (outro culto com importância para Saunière) chamava-se Bernardette Soubirous!
     Outra interpretação interessante que tem sido sugerida consiste em ver a estátua do diabo como sendo a representação da Terra, a pia baptismal como a Água, as salamandras como o Fogo, e os anjos como o Ar. Desta forma, os quatro elementos aristotélicos aparecem ordenados de forma a ligar o terreno ao celestial, ficando a cruz acima dos quatro elementos, símbolo do poder de Deus sobre toda a Criação.

Anjos dispostos em cruz Estátua do diabo O altar visto do centro da nave
Anjos dispostos em cruz Estátua do diabo O altar visto do centro da nave

     O altar-mor possui algumas características interessantes. Acima dele, um vitral retrata o episódio em que Maria Madalena lava os pés de Jesus com óleo perfumado. A própria Maria Madalena está retratada na face do altar, numa pintura em relevo, que é atribuída ao próprio Saunière, e que parece ter sido inspirada num retrato de Joana d'Arc encontrado num livro que pertenceu à biblioteca de Saunière. Na realidade desconhece-se a proveniência deste baixo-relevo, pois não há nenhuma factura da sua compra.
     Lateralmente estão colocadas duas estátuas: uma aparentemente de José com o menino Jesus e outra de Maria com... o menino Jesus. A presença de duas crianças é a característica mais peculiar nesta parte da igreja. Tem-se especulado que Saunière teria colocado as estátuas ou com a intenção de fazer deliberadamente notar ao visitante a presença de duas figuras do menino, uma com José, outra com Maria; ou com a intenção de colocar de um lado Maria com Jesus ao colo, e de outro, Jesus com uma criança. A mitologia moderna de Rennes-le-Château prefere, como seria de esperar, ver na estátua de José com Jesus ao colo, um retrato do próprio Jesus com uma criança ao colo, o que não seria nada de estranho visto que Jesus tinha especial apreço pelas crianças, mas que permite dar azo a todo o tipo de especulações fantasiosas, como por exemplo, a da descendência de Jesus.

Estátua de José do lado esquerdo do altar Altar-mor da igreja Estátua de Maria do lado direito do altar
Estátua de José do lado
esquerdo do altar
Altar-mor da igreja Estátua de Maria do lado
direito do altar

     No outro extremo da igreja, virado para o altar, encontra-se o "Monte da Beatitude", onde Jesus aparece imponente acima de várias figuras. Esta escultura foi encomendada à casa Giscard, em Toulouse, bem como todas as estátuas, a pia baptismal e a via-sacra, entre outros artigos decorativos.

Figuras do 'Monte da Beatitude', no extremo oposto ao altar-mor
"Monte da Beatitude",
no extremo oposto ao altar-mor

      As várias figuras representam enfermos e inválidos que Jesus chama a si com a intenção de os curar. Na base do baixo-relevo encontra-se uma inscrição que confirma precisamente esta interpretação: "Venez a moi vous tous qui souffrez et qui êtes accablés et je vous soulagerai". A frase é igual à do Novo Testamento, em Mateus 11:28, ou seja "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu aliviar-vos-ei". A dimensão deste baixo-relevo atesta bem a importância que Saunière devia dar a esta mensagem de conforto para os que sofrem, e ao seu apelo à peregrinação. O "Monte da Beatitude", ou a "Montanha Sagrada", seria Rennes-le-Château, convenientemente transformada em local de milagres e devoção, tudo graças ao esforço de Saunière. Veja-se ainda neste baixo-relevo a extrema influência que o culto da Nossa Senhora de Bon-Secours deverá ter tido na vida e obra do padre. A mensagem (e se calhar até alguns detalhes na pintura ou nas figuras) subjacente a este elemento decorativo aparenta ter uma ligação com as invocações feitas no santuário de Puivert à Nossa Senhora de Bon-Secours:

Texto original:

     "A Toi Notre Dame de Bon Secours, protège Puivert et ses alentours, sur nous veille toujours. Par Toi Bonne Mère, le pauvre affligé dans ses maux espère d'être soulagé, au malade encore tu rends la santé. Celui qui t'implore est vite exaucé."

Tradução:

     "A Ti Nossa Senhora de Bon-Secours, protege Puivert e os seus arredores, e vela sempre por nós. Por Ti Boa Mãe, o pobre aflito nos seus males espera ser aliviado, e ao doente tu dás a saúde. Aquele que te roga rapidamente vê o seu desejo satisfeito."

     A mensagem de cura e conforto é semelhante à apresentada no "Monte da Beatitude" de Saunière. Possivelmente Saunière não estaria a representar com este baixo-relevo os milagres de Puivert. Estaria sim, inspirado por estes milagres, e à semelhança do que se passava no santuário de Notre-Dame de Bon-Secours, a querer trazer a Rennes as dezenas de milhar de peregrinos e crentes que ajudassem a concretizar o seu sonho de fazer da aldeia um lugar santo, a sua "Montanha Sagrada". Assim se justifica a sua opção por este artigo decorativo.

     Continuando a análise da decoração da igreja, apresentam-se agora as figuras dos santos, que se encontram dispostas lateralmente ao longo da nave central, e que serão reproduzidas aqui encostadas à esquerda ou à direita consoante a sua posição face a um observador virado para o altar-mor. Ainda não estão disponíveis fotografias de todas as figuras. Cada figura encontra-se ladeada por estações da via-sacra, uma colocada à esquerda da figura e outra à sua direita.

 

   

Sta. Germaine

Estátua de Sta. Germaine

Estátua de Sta. Germaine

     Encontramos esta santa aqui representada como tendo um lenço cheio de rosas. Ao lado da figura encontra-se, do lado esquerdo, a
estação V, onde Simão de Cirene ajuda Jesus a transportar a cruz. Do lado direito está a estação IV, onde Jesus encontra a sua mãe. Podemos observar a partir desta imagem que o sentido da via-sacra está ao contrário do que é costume. Ao longo do lado esquerdo da nave a via-sacra percorre-se da direita para a esquerda, ou seja, na direcção oposta à do altar. Este fenómeno nada tem de estranho ou enigmático porque, apesar de ser algo pouco frequente, são inúmeras as igrejas cujas vias-sacras apresentam a mesma disposição.

 

 

 

     

S. Roque

Estátua de S. Roque

Estátua de S. Roque

     Esta figura apresenta-nos S. Roque. Lateralmente à figura encontra-se, à esquerda, a
estação XI, onde Jesus é subido à cruz, e à direita a estação X, onde Jesus é despojado das suas roupas.

 

 

 

 

 

     

Sta. Maria Madalena

Estátua de Sta. Maria Madalena

Estátua de Sta. Maria Madalena

     Encontramos de novo a santa que dá nome à igreja, agora representada numa das figuras dispostas lateralmente ao longo da nave. À sua esquerda, a
estação XIII e à sua direita a estação XII. Madalena transporta uma cruz, e tem aos seus pés um crânio. Na sua mão esquerda tem o vaso de alabastro cheio de óleo que usou nos pés de Jesus. O evangelista S. Lucas (Lucas 7, 36-50) faz-nos o relato deste episódio:

     "Um dos fariseus pediu-lhe que fosse comer com ele. Tendo entrado em casa do fariseu, pôs-se à mesa. Uma mulher, que era pecadora na cidade, quando soube que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro cheio de bálsamo. Colocando-se a seus pés, por detrás dele, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, os beijava, e os ungia com o bálsamo. Vendo isto o fariseu que o tinha convidado, disse consigo: «Se este fosse profeta, com certeza saberia quem é e qual é a mulher que o toca: uma pecadora». Então, respondendo Jesus, disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». Ele disse: «Mestre, fala». «Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, o outro, cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a dívida. Qual deles, pois, mais o amará?». Simão respondeu: «Creio que aquele a quem perdoou mais». Jesus disse-lhe: «Julgaste bem». Em seguida voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa, não me deste água para os pés; ela com as suas lágrimas banhou os meus pés, e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste o ósculo; porém ela, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste a minha cabeça com bálsamo, porém esta ungiu com bálsamo os meus pés. Pelo que te digo: São-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou. Mas, ao que pouco se perdoa, pouco ama». Depois disse à mulher: «São-te perdoados os pecados». Os convidados começaram a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa pecados?» Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou; vai em paz»."

     Esta mulher "pecadora" é geralmente vista como sendo Maria Madalena, a mesma que segundo os Evangelhos acompanharia Jesus até à sua morte e ressurreição, mas esta identificação não é certa. O próprio evangelista Lucas conta um pouco à frente que Jesus caminhando na companhia dos apóstolos, foi agrupando à sua roda um grande número de pessoas, entre elas "Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios (...)" - Lucas 8, 2. Seguidamente Jesus teria contado a parábola do semeador à população que se reunira à sua volta.
     Não é seguro identificar indiscutivelmente a Maria, chamada Madalena, da qual Jesus expulsou sete demónios, com Maria de Betânia, irmã de Lázaro, e com Maria Madalena, que acompanhou Jesus e os apóstolos até ao final e que foi testemunha da ressurreição. Poderão ser todas a mesma pessoa, mas tal identificação não é certa.

 

   

Púlpito com estátua de Cristo

     Este púlpito está encimado por uma estátua de Jesus, onde este aparece com uma mão no Céu e outra na Terra. Como Filho de Deus, e Salvador do Mundo, Jesus com a sua vida e morte, "fez a ponte" entre Deus-Pai e a Criação, a Nova Aliança com o Homem. Na base do púlpito, aparece-nos um baixo-relevo que parece representar a Virgem Maria segurando o cálice da Eucaristia. O púlpito foi criado por Saunière, durante os trabalhos de restauro da igreja, para que a estrutura desta ficasse conforme as normas estabelecidas no Concílio de Trento (1545-1563).

Púlpito com estátua de Cristo Detalhe da base do púlpito Maria com o cálice eucarístico
Púlpito com estátua de Cristo Detalhe da base do púlpito Maria com o cálice eucarístico

 


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