Regressar ao índice anterior

A questão dos "pergaminhos"

 

1. Introdução
2. Os textos codificados
3. O destino dos "pergaminhos"
4. O caso da International League

 

     Neste capítulo será exposto o conteúdo destes documentos, na forma como eles vieram a público, de modo a fornecer ao leitor a informação actualmente disponível. Como já foi referido, a descoberta destes documentos não surge referenciada em nenhum documento do tempo do padre Saunière, e esta tese é totalmente posta de parte pelos habitantes da aldeia. Claire Corbu e Antoine Captier contam-nos no seu livro (ver L'Héritage de l'Abbé Saunière na página de bibliografia) que Léontine Marre, contemporânea de Saunière, lhes disse o seguinte:

Texto original:

     "Ils ne mettent jamais dans leurs journaux ce que je leur dis, ils parlent toujours de parchemins trouvés dans le pilier de l'autel alors que je ne leur ai jamais raconté une chose pareille."

Tradução:

     "Eles (os jornalistas, N. T.) nunca colocam nos seus jornais o que eu lhes digo, eles falam sempre de pergaminhos encontrados no pilar do altar quando eu nunca lhes contei nada disso."

     Os "pergaminhos" são uma falsificação, que tendo começado como uma montagem complexa e sofisticada de surrealismo histórico, atingiu uma dimensão e popularidade nunca imaginadas pelos seus autores. Neste preciso momento, centenas de leitores recém-chegados ao mistério de Rennes, ou leitores já experientes que ficaram perdidos algures no meio da confusão, acreditam ou pelo menos dão plausibilidade à veracidade destes documentos.
     Diz o Priorado que dois dos pergaminhos conteriam genealogias datadas de, respectivamente, 1244 e 1644. Uma das genealogias, a de 1244, conteria o selo real de Branca de Castela, mãe do rei Luís IX, e revelaria provas de uma descendência da dinastia merovíngia, a primeira dinastia dos Francos. A outra genealogia, datada de 1644, seria da autoria de François-Pierre d'Hautpoul, senhor de Rennes-le-Château. Conteria informação genealógica, abrangendo um período de quatrocentos anos, entre 1244 a 1644. Um terceiro pergaminho conteria o testamento de Henri d'Hautpoul, datado de 1695, e diz-se que este documento faria menção a um segredo de Estado. Adicionalmente, um quarto pergaminho, escrito em código dos dois lados, completaria o quadro dos documentos cuja desoberta é atribuída pelo Priorado a Saunière.
     O terreno é pantanoso... Quantos pergaminhos? Datados de quando? Escritos por quem? Descobertos como? São tantas as questões quantas as respostas que surgiram para elas. As explicações provêm de várias fontes e são contraditórias e confusas. Iniciemos esta viagem ao mundo da mentira, certos de que também as mentiras e as farsas, quando compreendidas e desvendadas, são extremamente pedagógicas...

 

Os textos codificados

 

     No livro de Gérard de Sède, L'or de Rennes (Juillard, 1967), vieram a público reproduções de dois textos codificados, propagandeados pelo autor como sendo dois dos quatro pergaminhos. Mais tarde, Plantard afirmou que os dois textos codificados eram cópias, mais ou menos adulteradas, dos dois lados de um único pergaminho. Apresentam-se de seguida as digitalizações dos dois textos. Do total de quatro pergaminhos mencionados por Plantard no relato "tradicional" do Priorado, apenas foram forjados dois textos, que se analisam de seguida.
     Por costume, são tratados pelas designações de "primeiro texto" e "segundo texto". Também, por hábito, se costuma nomear estes textos como "primeiro pergaminho" e "segundo pergaminho", apesar de os originais, actualmente na posse do jornalista francês Jean-Luc Chaumeil, terem sido compostos em papel bem moderno.

Primeiro texto Segundo texto
Primeiro texto Segundo texto

     Assim, sob esta forma fraudulenta, Pierre Plantard e Phillipe de Chérisey (o confesso autor dos textos codificados), em parceria com o jornalista Gérard de Sède, trouxeram a público a história fantasiosa dos "pergaminhos do padre Saunière". É no pitoresco relato de Gérard de Sède que se popularizam as lendas de que estes documentos datariam de 1780 e seriam da autoria de Antoine Bigou, antecessor de Saunière na paróquia de Rennes-le-Château.
     Efectivamente, Antoine Bigou foi padre em Rennes-le-Château e o tio de Bigou, o padre Jean, foi capelão dos Blanchefort, senhores de Rennes-le-Château, família que era ainda muito importante na região antes da Revolução Francesa. Ou seja, a "história" de Gérard de Sède parte, pelo menos, de personagens reais! E a proximidade dos dois padres Bigou à família Blanchefort ajuda à farsa porque se torna plausível que estes padres fossem "portadores do segredo" e que Antoine Bigou o resolvesse ocultar sob a forma de um código escondido num "quarto" pergaminho. Mas vejamos os textos mais de perto... Ambos estão escritos em latim. No primeiro texto, mais curto, contendo frases extraídas do Novo Testamento, as linhas terminam de modo aleatório tendo sido cortadas algumas palavras ao meio só para mudar de linha e algumas letras estão ligeiramente levantadas em relação às restantes letras da mesma frase. O texto que serve de base ao documento pertence a um episódio bastante importante do Novo Testamento, importante porque vem citado quase sem alterações em três evangelhos diferentes. Vem descrito em Marcos 2, 23-28, em Lucas 6, 1-4, e em Mateus 12, 1-8, e diz respeito à observância judaica do Sábado. A versão que serviu de base ao texto codificado é a de Lucas 6, 1-4:

     "Num dia de sábado, passando Jesus através das searas, os Seus discípulos puseram-se a arrancar e a comer espigas desfazendo-as com as mãos. Alguns fariseus disseram: «Porque fazeis o que não é permitido fazer ao sábado?». Jesus respondeu: «Não lestes o que fez David quando teve fome, ele e os seus companheiros? Como entrou na casa de Deus, e tomando os pães da proposição, deles comeu e deu aos seus companheiros, esses pães que só aos sacerdotes era permitido comer?»"

     É fácil ver no
primeiro texto as letras levantadas. Estas formam a seguinte frase coerente em francês:

A DAGOBERT II ROI ET A SION EST CE TRESOR ET IL EST LA MORT

     A frase pode ser traduzida facilmente para "A Dagoberto II rei e a Sião pertencem este tesouro e ele está lá morto". É notória a referência a Dagoberto II e enigmática a afirmação "(...) e ele está lá morto".

     A descodificação do segundo texto é tarefa muito mais complexa que a da frase acima escrita, pois no texto base inseriram-se várias letras aparentemente aleatórias. Mais uma vez, o texto base em latim foi extraído da Bíblia e corresponde à chegada de Jesus a Betânia, seis dias antes da Páscoa. Eis o texto bíblico que serviu de base a este texto e que se encontra em João 12, 1-11:

     "Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde estava Lázaro, o que falecera e a quem Jesus ressuscitara dos mortos. Ofereceram-lhe uma ceia, Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-os com os cabelos; e a casa encheu-se com o cheiro do perfume. Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, aquele que o havia de entregar, disse: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?» Disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa, tirava o que nela se metia. Respondeu Jesus: «Deixai-a, ela tinha-o guardado para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim, nem sempre me tereis». Soube então um grande número de judeus que ele estava ali, e ali foram, não só por causa dele, mas também, para ver Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. Os príncipes dos sacerdotes tinham deliberado matar também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, afastavam-se e acreditavam em Jesus."

     A versão descodificada do segundo texto que é tradicionalmente aceite é a mesma que foi publicada nalguns livros sobre o mistério de Rennes-le-Château e em dois documentários sobre o assunto realizados para a BBC por Henry Lincoln. Esta descodificação está correcta e a forma como ela foi obtida está explicada no capítulo seguinte. Note-se que a descodificação está correcta porque o autor do código participou na sua publicação e na publicação do método de decifração (sublinhe-se de novo que foi a dupla Plantard e Chérisey que forneceu o falso "pergaminho" ao jornalista Gérard de Sède)! Podem ser tiradas interessantes conclusões sobre a estrutura do código inserido neste texto. Remetemos os interessados para a página respectiva, após a conclusão da leitura deste capítulo. Para já, aceite-se como facto que as letras inseridas neste texto, depois de descodificadas, revelam a seguinte frase:

bergere pas de tentation que poussin teniers gardent la clef pax DCLXXXI
par la croix et ce cheval de dieu j'acheve ce daemon de gardien a midi pommes bleues.

     Em português ficará: "pastor nenhuma tentação que poussin teniers guardam a chave paz DCLXXXI (681) pela cruz e este cavalo de deus eu completo (ou destruo) este demónio guardião ao meio-dia maçãs azuis". É pouco provável que alguém seja capaz de extrair sentido de uma frase destas. Certamente o autor do código quis que este contivesse palavras comprometedoras, como as palavras "demónio", "cruz", "deus", "chave", etc., bem como a referência a dois pintores, Poussin e Teniers (veremos adiante porquê). Por outro lado, a frase composta pelas letras levantadas que se encontra no primeiro texto é evidente e de fácil comprovação para qualquer um que o leia com atenção.

     No fim do segundo texto encontra-se uma frase, curiosamente a mesma que esteve outrora inscrita no baixo-relevo do altar da igreja de Sta. Maria Madalena:

Jésu. medèla. vulnérum * Spes. una. poenitentium Per. magdalenae. lacrymas * Peccata. nostra. diluas.

     Uma tradução possível é:

Jesus. cura. as feridas * A esperança. unida. ao arrependimento Pelas. lágrimas. (de) madalena * Os nossos. pecados. sejam diluídos

     Visto que o baixo-relevo data da altura do restauro levado a cabo por Saunière, o mais certo é que os nossos falsificadores tenham querido evidenciar uma ligação dos textos a Saunière. No fundo, a implicação insinuada "Saunière manda fazer o baixo-relevo com a inscrição para imitar os pergaminhos que descobriu" não corresponde à verdade. Torna-se claro que é isso que se quer que o público pense, mas a verdade é que Phillipe de Chérisey deu mais poder ao seus textos colocando a frase do baixo-relevo para aumentar a credibilidade dos mesmos.

 

O destino dos "pergaminhos"

 

     Com base no que foi revelado pelo Priorado de Sião, eis como se classificam os famosos "quatro pergaminhos" que o Priorado afirma terem sido descobertos por Saunière, durante as obras de restauro em Rennes-le-Château:

Primeiro Grupo (textos nunca vistos nem publicados)

Genealogia de 1244
Marcada com o selo real de Branca de Castela. Diz-se que prova a existência de uma descendência do monarca merovíngio Dagoberto II.
Genealogia de 1644
Da autoria de François-Pierre d'Hautpoul. Diz-se que contém informação genealógica sobre um período de quatrocentos anos, de 1244 a 1644.
Testamento de Henri d'Hautpoul, datado de 1695
Diz-se que revela um segredo muito importante, considerado segredo de Estado. Segundo uma das várias versões, este testamento e a genealogia estão juntos num só pergaminho, pois o testamento não será o de Henri mas o de François-Pierre d'Hautpoul.

Segundo Grupo (textos publicados na obra de Gérard de Sède, L'Or de Rennes)

Primeiro texto
Baseado no Evangelho de S. Lucas, capítulo 6, versículos 1 a 4. Possui letras destacadas, que perfazem uma frase que referencia Dagoberto II, Sião e alguém que "(...) está lá morto".
Segundo texto
Baseado no Evangelho de S. João, capítulo 12, versículos 1 a 11. Contém uma mensagem codificada de forma muito complexa, fazendo referência a Poussin, Teniers e a uma chave.

     O primeiro grupo constitui, segundo o Priorado, o cerne do presumido achado documental de Saunière e contém documentos anteriores ao século XVIII. Como estes documentos nunca vieram a público, pode suceder que nunca tenham sequer existido, que tenham existido mas que se tenham perdido, ou que existam e estejam na posse de alguém. O segundo grupo é composto apenas pelos dois textos.

     Pierre Plantard, o famoso e omnipresente mitómano, bem conhecido dos que acompanham este mistério há alguns anos, disse aos autores Lincoln, Baigent e Leigh que estes dois textos que vieram a público em 1967 seriam versões adulteradas por Phillipe, marquês de Chérisey, do quarto pergaminho achado por Saunière. De facto, Plantard já disse tanta coisa sobre este assunto que já se contradisse variadíssimas vezes. Plantard afirmou que o pergaminho original continha uma mensagem codificada de cada lado, e que os dois textos estavam relacionados entre si. Segundo Plantard, esta relação desapareceu quando Phillipe de Chérisey separou os textos em duas folhas, não respeitando as escalas, pois no original, estas seriam iguais nos dois lados.
     A farsa tradicional veiculada nas obras de Gérard de Sède e presente nos primeiros documentos do Priorado depositados na Biblioteca Nacional de Paris entre 1964 e 1966 afirma que os pergaminhos foram levados a Paris por Saunière e foram colocados (parte deles, ou a sua totalidade) à guarda de Emile Hoffet, colaborador do abade Bueil do seminário de Saint-Sulpice. Quando o padre Hoffet morreu, a sua biblioteca teria sido adquirida pela International League of Antiquarian Booksellers, e tendo todo o seu espólio literário passado para a posse desta instituição, os pergaminhos poderiam ter sido ou comprados, ou simplesmente roubados dissimuladamente no meio da operação.

     Mas a verdade é que o marquês de Chérisey, em várias oportunidades, divulgou uma versão bem diferente da história dos pergaminhos, afirmando publicamente que ele era o completo e único autor dos textos. Em 1974, uma carta assinada pelo punho do próprio Chérisey apresenta-o como único autor e inventor dos pergaminhos.
     Em 1977, sob o pseudónimo de Jean Delaude, alguém depositou um documento intitulado Le Cercle d'Ulysse na Biblioteca Nacional em Paris. Trata-se mais uma vez de uma mistificação do Priorado, muito provavelmente da mão de Chérisey. Neste documento fica-se a conhecer a versão Chérisey da história dos pergaminhos, que tendo sido descobertos pelo padre Saunière foram vendidos por uma sua sobrinha (uma tal "Madame James") em 1965 ao Capitão Roland Stanmore (Nutting) e a Sir Thomas Frazer, e que foram colocados num cofre no Lloyds Bank Europe Ltd., em Londres. Paul Smith, a quem devemos tantos avanços na desmistificação deste assunto, questionou o filho de Sir Thomas Frazer acerta deste assunto, o qual respondeu:

Texto original:

     "After your previous letters, and having the photocopies which you enclosed, I sent these to my solicitor, who was one of my father's executors, to see if he could throw any light on the matter. He says they ring no bells as far as he is concerned, and he has no recollection of anyone by the name of Captain Roland Stanmore. He has been in touch with Lloyds Bank International (into which I gather Lloyds Bank Europe has now been absorbed) and received the following reply: «In accordance with your request we have made a search in our present and past records and regret to advise you that we cannot trace having maintained a dossier in the above name (Sir Thomas Frazer, OBE), or jointly with Captain Roland Stanmore. We are also unable to trace a record of a safe-deposit box or any details in connection with the documents to which you refer» (dated 20th August 1983)".

Tradução:

     "Após as suas cartas anteriores, e tendo as fotocópias que você anexou, enviei-as ao meu solicitador, que era um dos executores testamentários do meu pai, para ver se ele lançar alguma luz sobre o assunto. Ele diz que (os documentos, N.T.) não lhe dizem nada, e que ele não se lembra de ninguém com o nome de Capitão Roland Stanmore. Ele esteve em contacto com o Lloyds Bank Internation (no qual o Lloyds Bank Europe foi agora integrado) e recebeu a seguinte resposta: «De acordo com o seu pedido fizemos uma busca ao nosso registo presente e passado, e lamento ter que avisá-lo que não temos nenhum registo de um dossier no nome acima mencionado (Sir Thomas Frazer, OBE), ou juntamente com um Capitão Roland Stanmore. Não somos também capazes de encontrar registos de um cofre de depósito ou de detalhes relacionados com os documentos que refere» (datada de 20 de Agosto de 1983)".

     Em 1979, em entrevista com Jean-Luc Chaumeil, publicada na obra deste último, Le Trésor du Triangle d'Or, Chérisey reafirma esta tese, demarcando os pergaminhos "genealógicos" (atrás chamados de "Primeiro Grupo") dos pergaminhos codificados, que seriam da sua autoria. O marquês revelou que tinha recebido grande parte das "pistas" da mão de um idoso aristocrata, Henri, conde de Lenoncourt. Chérisey afirmava que o conde lhe tinha revelado informações sobre o "achado" de Saunière, tendo-lhe dito:

     "Saunière encontrou-os e nunca se separou deles. A sua sobrinha, a senhora James, de Montazels, herdou-os em Fevereiro de 1917. Em 1965, ela vendeu-os à Liga International de Livreiros Antiquários. Nunca teve conhecimento de que um dos dois respeitáveis advogados era o capitão Ronald Stansmore, do Serviço de Informações britânico, e o outro era sir Thomas Frazer, a «eminência parda» de Buckingham. Os pergaminhos de Branca de Castela encontram-se actualmente num cofre do Lloyds Bank Europe Limited."

     A páginas tantas do livro Le Trésor du Triangle d'Or, lemos este excerto da entrevista de Chaumeil a Chérisey:

Texto original:

     "Jean-Luc Chaumeil: Le Curé Bérenger Saunière avait bien découvert des parchemins en 1891 dans son église?
     Philippe de Chérisey: Très exact, mais les documents découverts se trouvent à Londres dans le coffre privé d'une banque depuis 22 ans ! Ce sont les généalogies publiées par vous-même dans un numéro du Charivari de 1973. Il ne faut pas les confondre avec les parchemins des évangiles de St Luc fabriqué par moi, dont j'ai pris le texte en onciale à la bibliothèque Nationale sur l'ouvrage de Dom Cabrol, l'Archéologie Chrétienne casier C25. Pour parvenir à mon codage, j'ai utilisé le texte de la pierre tombale et le saut du cavalier sur le jeu d'échec."

Tradução:

     "Jean-Luc Chaumeil: O padre Bérenger Saunière descobriu de facto pergaminhos em 1891 na sua igreja?
     Phillipe de Chérisey: Exacto, mas os documentos descobertos encontram-se em Londres num cofre privado de um banco desde há 22 anos! São as genealogias publicadas por vós mesmo num número da Charivari de 1973. Não convém confundi-los com os pergaminhos dos evangelhos de S. Lucas fabricado por mim, para os quais eu tomei o texto em uncial da biblioteca Nacional da obra de Dom Cabrol, o «Archéologie Chrétienne», caixa C25. Para chegar à minha codificação, utilizei o texto da pedra tumular e o salto do cavalo no jogo do xadrez."

     Curioso este excerto! Porque o confesso autor dos pergaminhos comete um erro grave, misturando os dois textos na mesma frase: enquanto que o primeiro texto foi de facto baseado no evangelho de Lucas, os detalhes do uso da pedra tumular e do salto do cavalo no tabuleiro de xadrez são relativos apenas ao segundo texto, que como vimos está baseado em S. João e não em S. Lucas! Uma simples distracção de Chérisey? Lamentamos, mas não temos ainda uma resposta definitiva sobre este detalhe perturbante. Apesar de tudo indicar que Chérisey é o autor dos pergaminhos falsificados, este equívoco não abona em favor da tese que defendemos.

 

O caso da International League

 

     Um dos documentos depositados na Biblioteca Nacional em Paris pelo Priorado de Sião, sob o pseudónimo de Henri Lobineau, no caderno intitulado Dossiers Secrets, é a seguinte carta da International League of Antiquarian Booksellers, supostamente enviada no dia 2 de Julho de 1966 ao senhor Marius Fatin, proprietário do castelo de Rennes. Nesta carta, fala-se na importância deste castelo e no pergaminho genealógico com o selo de Branca de Castela. De seguida, apresenta-se uma fotocópia do dito documento dos Dossiers Secrets, podendo-se ver um cabeçalho forjado da International League e duas assinaturas ilegíveis. O documento é uma farsa, e a instituição já negou ter tido alguma vez um papel timbrado com este aspecto:

Texto original:

     "Paris, le 2 Juillet 1966

        À Monsieur Marius FATIN
              Archéologue
         Château de Rennes
         RENNES-le-CHATEAU
              par COUIZA
                            (Aude)

 

     Cher Monsieur,
     Après notre visite de la semaine dernière à votre château de RENNES, et avant de quitter la France, nous avons le grand plaisir de pouvoir vous informer que votre château est en effet historiquement le plus important de France, car cette demeure fut le refuge en 681 du Prince SIGIBERT IV, fils du Roi DAGOBERT II, devenu Saint DAGOBERT, ainsi que de leurs descendants, les Comtes de Rhedae et Duc du Razès;
     Faits attestés par deux parchemins pourtant le sceau de la Reine BLANCHE de CASTILLE (qui n'est elle même jamais été dans le Razès) avec le testament de FRANÇOIS-PIERRE d'HAUTPOUL enregistré le 23 Novembre 1644 par CAPTIER, Notaire à Espéraza (Aude), pièces achetées en 1948 par notre Ligue avec une partie de la Bibliothèque de Mr. l'Abbé E. H. Hoffet, 7, Rue Blanche à PARIS, qui détenait ces pièces de Mr. l'Abbé SAUNIERE, ancien curé de RENNES-le-CHATEAU.
     La pierre tombale de SIGISBERT IV, figure dans le livre de Stüblein, édition de Limoux en 1884, elle se trouvait dans l'Eglise Ste Madeleine de RENNES-le-CHATEAU, elle est de nos jours au musée lapidaire de CARCASSONNE.
     Votre Château est donc doublement historique!
     Donc nous vous prions de croire Cher Monsieur, à nos sentiments très dévoués."

Tradução:

     "Paris, 2 de Julho de 1966

        Ao Sr. Marius FATIN
              Arqueólogo
         Castelo de Rennes
         RENNES-le-CHATEAU
              por COUIZA
                            (Aude)

 

     Caro Senhor,
     Após a nossa visita da semana passada ao seu castelo de RENNES, e antes de sairmos de França, nós temos o grande prazer de o informar que o seu castelo é, com efeito, historicamente o mais importante de França, pois constituiu lugar de refúgio em 681 ao Príncipe SIGIBERT IV, filho do Rei DAGOBERTO II, mais tarde canonizado São DAGOBERTO, bem como de seus descendentes, os Condes de Rhedae e Duque de Razès;
     Factos comprovados por dois pergaminhos com o selo da Rainha BRANCA de CASTELA (tendo ela própria nunca estado em Razès) com o testamento de FRANÇOIS-PIERRE d'HAUTPOUL registado a 23 de Novembro de 1644 por CAPTIER, Notário em Espéraza (Aude), peças compradas em 1948 pela nossa Liga com uma parte da Biblioteca do Sr. Padre E. H. Hoffet, 7, Rue Blanche em PARIS, que possuía estas peças do Sr. Padre SAUNIÈRE, antigo cura de RENNES-le-CHATEAU.
     A pedra sepulcral de SIGISBERT IV, figura no livro de Stüblein, edição de Limoux em 1884, ela encontrava-se na Igreja de Sta. Madalena de RENNES-le-CHATEAU, ela está hoje em dia no museu lapidar de CARCASSONNE.
     O seu Castelo é, portanto, duplamente histórico!
     Receba Caro Senhor, os nossos sinceros cumprimentos."

Carta da 'International League of Antiquarian Booksellers'
Carta da International League
of Antiquarian Booksellers

     A carta, para além de servir como reforço à tese da descoberta, por parte de Saunière, de pergaminhos em Rennes-le-Château, serve principalmente como pista abonatória da tese da sobrevivência de uma dinastia merovíngia secreta, escondida nesta aldeia. Através desta carta, o Priorado afirma que o castelo de Rennes teria sido ocupado pela dinastia secreta, logo após 681, tendo Segisberto IV, presumido filho de Dagoberto II, sido o primeiro a ali morar. De acordo com as "actas Captier"1, mais um documento forjado pelo Priorado, eis o elenco dos príncipes merovíngios que teriam vivido no local:

Segisberto IV
De cognome "Plant Ard", teria nascido em 676 e morrido em 758. Estaria sepultado sob a "Laje dos Cavaleiros", na Igreja de Santa Maria Madalena, em Rennes-le-Château.
Segisberto V
Teria nascido entre 695 e 698 e teria morrido entre 763 e 768, sendo enterrado em Rhédae (Rennes-le-Château).
Bera III
De cognome "Tounko", teria nascido em 715 e teria morrido em 771, sendo sepultado em Rhédae. A data da sua morte coincidiria (sempre segundo as "actas Captier") com a data da deposição da "Laje dos Cavaleiros" no chão da igreja.
Guillemon
De cognome "Braou", com data de nascimento desconhecida, teria morrido em 773.
Bera IV
De cognome "Bolo", teria nascido em 755 e teria morrido em 813.
Argila
De cognome "Rocko", teria nascido entre 775 e 776 e teria morrido em 836.
Bera V
Teria nascido em 794 e teria morrido em 860.
Hilderico I
Teria nascido em data incerta e morrido em 867.
Segisberto VI
De cognome "Ursus", teria nascido em data incerta e morrido em 885. As "actas Captier" trazem a seguinte informação sobre este presumido monarca: «Proclamado rei na conjuração de Bernard de Gothie em 877 contra Luís II, "Bègue". Vencido em 881 em Poitiers. Morto em Dezembro de 884 ou Janeiro de 885 e enterrado em Rhedon da Bretanha onde tinha buscado refúgio. Era casado com Rotilda, uma das filhas de Carlos II, dito "o Calvo", e de Ermentrude. A descendência de Segisberto IV segue directamente até aos nossos dias sem nenhuma reivindicação da coroa.»

     É, no mínimo, curioso que estes "condes de Rhedae" e "duques de Razès" descendam de alguém com cognome "Plantard" (de "plant + ard", ou "rebento ardente"), o que serve perfeitamente a Pierre Plantard. Mas nenhum historiador menciona este cognome do filho de Dagoberto II. A própria questão da existência de Segisberto IV é tratada com muita precaução pelos historiadores, devido à falta de informação fidedigna. Apesar de algumas fontes referirem um filho masculino a Dagoberto II que se chamaria Segisberto2, as que o fazem afirmam que terá morrido alguns anos antes ou após a morte do pai. Ele apenas existe como um adulto ocupante do castelo de Rennes na fantasia sustentada pelos documentos do Priorado. Sem provas independentes que reforçem esta tese, toda a genealogia apresentada pelas "actas Captier" aparenta não passar de uma farsa.

     Como se vê, o destino dos pergaminhos pode-se revelar um assunto ainda mais complexo que o seu conteúdo! Pierre Plantard "confirmou" a versão de Chérisey, na tese de que a fonte de informação era Henri de Lenoncourt, e que este dizia que os pergaminhos estariam na década de 60 num cofre do Lloyds Bank Europe Limited, em Londres. Hoje em dia, este banco mudou de nome para Lloyds Bank International Limited, mas não perdeu certamente os seus arquivos, e o banco em causa já afirmou desconhecer completamente o assunto e não ter recebido à sua guarda tais pergaminhos. Contudo, existem duas teses diferentes para o intermediário: na versão original, o intermediário teria sido o padre parisiense Emile Hoffet. Na versão de Chérisey, o intermediário teria sido uma suposta "sobrinha" de Saunière, "Madame James".

     Não se chegou ainda à explicação de todos os detalhes nesta história... Ainda pode suceder que o Priorado e os seus elementos ou ex-elementos possuam documentos históricos, que usam para criar a sua versão da História, e que guardam para impedir que a verdade seja definitivamente estabelecida. O primeiro passo, contudo, consiste em ter os pés na terra e compreender a dimensão da farsa. Os detalhes, a seu tempo, acabarão sempre por ser esclarecidos.

 

1 Parte integrante do apócrifo de Antoine L'Ermite (pseudónimo), Un Trésor mérovingien à Rennes-le-château, depositado na Biblioteca Nacional de Paris a 13 de Maio de 1966, sob a cota 8- LJ9- 9537.
2 É o caso do Dr. G. Sirjean, na sua obra Encyclopédie générale des maisons souveraines du monde.

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
Todos os direitos reservados