O primeiro texto codificado
Índice
1. Introdução
2. Os erros
3. A fonte
![]() |
![]() |
| O primeiro texto | A frase codificada em destaque |
Durante muito tempo, a investigação sobre este primeiro texto esteve num impasse, sem se conseguir descobrir a fonte usada por Chérisey na sua composição. Tudo mudou em Dezembro de 2004, quando o alemão Wieland Willker, especialista em crítica textual bíblica, se deparou com o texto, identificando-o imediatamente. Segundo Willker, o autor do primeiro texto codificado baseou-se no Codex Bezæ.

Página do Codex Bezæ com a secção de Lucas 6, 1-4.
6:1 Factum est autem in sabbato secundo, primo, cum transiret per sata, vellebant discipuli ejus spicas, et manducabant confricantes manibus. 6:2 Quidam autem pharisæorum, dicebant illis : Quid facitis quod non licet in sabbatis ? 6:3 Et respondens Jesus ad eos, dixit : Nec hoc legistis quod fecit David, cum esurisset ipse, et qui cum illo erant ? 6:4 quomodo intravit in domum Dei, et panes propositionis sumpsit, et manducavit, et dedit his qui cum ipso erant : quos non licet manducare nisi tantum sacerdotibus ?
Comparemos esta versão com a transcrição do texto de Chérisey:
"ET FACTUM EST EUM IN SABBATO SECUNDO PRIMO ABIRE PER SCCETES DISGIPULI AUTEM ILLIRIS COEPERUNT VELLERE SPICAS ET FRICANTES MANIBUS + MANDUCABANT QUIDAM AUTEM DE FARISAEIS DTCEBANT EI ECCE QUIA FACIUNT DISCIPULI TUI SABBATIS + QUOD NON LICET RESPONDENS AUTEM INS SEIXTT AD EOS NUMQUAM HOC LECISTIS QUOD FECIT DAUTD QUANDO ESURUT IPSE ET QUI CUM EO ERAI + INTRO IBIT IN DUMUM DEI ET PANES PROPOSITIONIS REDIS MANDUCAVIT ET DEDIT ET QUI BLES CUM ERANT UXUO QUIBUS NON LICEBAT MANDUCARE SI NON SOLIS SACERDOTIBUS"
Como se pode constatar, o texto latino de base é muito diferente do da Vulgata. Mas sigamos a sugestão de Wieland Willker, e vejamos a transcrição deste trecho, conforme vem no Codex Bezæ:
"ET FACTUM EST EUM IN SABBATO SECUNDO PRIMO ABIRE PER SEGETES DISCIPULI AUTEM ILLIUS COEPERUNT VELLERE SPICAS ET FRICANTES MANIBUS MANDUCABANT QUIDAM AUTEM DE FARISAEIS DICEBANT EI ECCE QUID FACIUNT DISCIPULI TUI SABBATIS QUOD NON LICET RESOPONDENS AUTEM IHS DIXIT AD EOS NUMQUAM HOC LEGISTIS QUOD FECIT DAUID QUANDO ESURIIT IPSE ET QUI CUM EO ERAT INTRO IBIT IN DOMUM DEI ET PANES PROPOSITIONIS MANDUCAVIT ET DEDIT ET QUI CUM ERANT QUIBUS NON LICEBAT MANDUCARE SI NON SOLIS SACERDOTIBUS"
As semelhanças são inegáveis! Mas contudo, o texto de Chérisey possui alguns erros de latim, sendo que estes erros, longe de prejudicarem o trabalho de identificação, reforçam ainda mais a certeza de que o seu autor se estava a basear no Codex Bezæ, e que para mais não era um autor com conhecimentos sólidos de latim, uma vez que os erros cometidos, como veremos de seguida, são grosseiros. Há, inclusive, evidências claras de que Chérisey, manipulando a disposição do texto original, tentou inserir "pistas" para o Priorado de Sião: note-se como as últimas quatro linhas do documento falsificado foram truncadas de forma a permitir a leitura na vertical da palavra "SION"!
Um dado importante: após a descoberta de Willker, o jornalista francês Jean-Luc Chaumeil, que recebeu de Chérisey os originais dos "pergaminhos" falsificados, confirmou que este se tinha inspirado no artigo sobre o Codex Bezæ que se encontra na obra em cinco volumes de Fulcran Grégoire Vigouroux, Dictionnaire de la Bible (Letouzey et Ané, Éditeurs, Tomo I, 1895, pp. 1769-1772).
Os erros
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
, no texto codificado
, no Codex Bezæ
A fonte
É no tomo 1 da obra coordenada por Fulcran Grégoire Vigouroux, Dictionnaire de la Bible (Letouzey et Ané, Éditeurs, 1895, pp. 1769-1772) que encontramos o artigo intitulado "BEZÆ (CODEX)", da autoria de P. Batiffol. Segundo este artigo, o Codex Bezæ é um «importante manuscrito bilingue, grego e latino, dos Evangelhos e dos Actos [dos Apóstolos], que pertence à Biblioteca da Universidade de Cambridge, onde está sob a cota Nn.2.41». Na crítica textual bíblica, este manuscrito é designado pela letra "D". O texto bilingue, em escrita uncial, é apresentado com a versão em grego do lado esquerdo de cada folha e a versão em latim do lado direito.
![]() |
![]() |
| Lucas 6, 1-9 (lado grego) | Lucas 6, 1-9 (lado latino) |
O artigo explica que o texto data do século VI, tendo recebido adições posteriores por volta do século IX. É estimado que um total de oito pessoas terão efectuado alterações ou adições ao texto original ao longo dos séculos. A análise da caligrafia do texto original, no entanto, permite supor que um só escriba teria gerado tanto o texto grego como a variante em latim. As particularidades do Codex Bezæ são mais do que muitas, o que nos permite inferir que Phillipe de Chérisey teria escolhido este texto precisamente porque se tratava de um documento «à parte na tradição textual do Novo Testamento», conforme explica o artigo.
O Codex Bezæ apresenta uma adição inédita (em S. Lucas, VI, 5), apenas existente neste códice, bem como algumas adições extremamente raras (em S. João, VI, 56, em S. Mateus, XX, 28). O documento terá sido escrito no Ocidente, mas apenas é referido pela primeira vez no século XVI: Teodoro de Beza (1519-1605), calvinista francês nascido em Vézelay, «na sua segunda edição do Novo Testamento grego, publicada em Genebra, em 1582, serviu-se seguramente deste manuscrito, que ele qualifica de meum vetustissimum exemplar. No ano precedente, 1581, Teodoro de Beza tinha oferecido o manuscrito à Universidade de Cambridge», onde se encontra hoje em dia. Apesar de o manuscrito ter ficado para a posteridade com o nome de Beza, durante o tempo de vida deste, o próprio se referia a ele chamando-o de "Claromontanus". É razoável então supor que o manuscrito, antes de ficar na posse de Teodoro, teria estado em Clermont, uma vez que no Concílio de Trento (1546), o bispo de Clermont, Guilherme Dupré (1528-1561), utiliza numa das suas lições um antiquissimum codicem græcum cujas citações não se encontram em nenhum outro manuscrito senão neste.
O investigador Rendel Harris, no final do século XIX, estudou profundamente este manuscrito, concluindo com base no estudo das anotações à margem que o documento esteve em França entre os séculos IX e X. Analisando as anotações litúrgicas, Harris concluiu que não condiziam «com a liturgia grega ou com a liturgia romana, mas sim com a liturgia galicana, ou seja, a liturgia em uso nas igrejas francas antes da reforma litúrgica do tempo de Carlos Magno». Harris «estudou as formas ortográficas bárbaras de várias das palavras latinas do Codex Bezæ, pensando poder concluir o parentesco entre este latim de copista e o latim vulgar galo-romano do século VI». Segundo o autor do artigo, P. Batiffol, as conclusões de Harris «são observações a verificar».
Como referência, apresentam-se de seguida reproduções fac simile dos artigos "BEZÆ (CODEX)" e "BÈZE (Théodore de)" retirados da obra de Vigouroux atrás referida. As reproduções foram feitas com base no exemplar que se encontra na Biblioteca João Paulo II (Universidade Católica Portuguesa), sob a cota "22(03)=40 VIG".
![]() |
![]() |
![]() |
| Artigo "BEZÆ (CODEX)" | Artigo "BEZÆ (CODEX)" (cont.) Artigo "BÈZE (Théodore de)" |
Artigo "BÈZE (Théodore de)" (cont.) |