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O segundo texto codificado

 

Índice

1. Introdução
2. O processo de decifração:
   0) Obtenção da sequência de letras inicial
   1) Primeira transformação de Vigenere
   2) Avanço de uma letra
   3) Segunda transformação de Vigenere
   4) Avanço de uma letra
   5) Transposição
3. A criação do anagrama
4. Os passos seguintes
5. Resumo
6. Conclusão
 

 

     Este segundo texto (bem como o outro que o acompanha) veio a público através de um livro de Gérard de Sède, "L'or de Rennes", publicado pela editora francesa Juillard em 1967. Contudo, tão cedo como em 1965, um documento foi depositado na Biblioteca Nacional, sob o pseudónimo de Madeleine Blancassal, onde se fazia referência a uns supostos "pergaminhos" descobertos por Saunière em Rennes-le-Château, e onde se apresentava já a frase resultante da descodificação. Este documento é uma farsa e foi certamente elaborado pelo Priorado de Sião. Por seu lado, Gérard de Sède, apesar de não pertencer ao Priorado, ajudou bastante aos seus propósitos. De Sède é um "investigador" de longa data deste mistério, e é conhecido pela sua insistente precipitação em publicar livros repletos de erros e de factos não autenticados. Porém, o texto só passaria a ser conhecido por um público mais vasto com o primeiro programa de televisão da BBC em que Henry Lincoln participou, chamado "Chronicle" e que foi para o ar em 1979. Neste programa Henry Lincoln apresentava os textos, bem como a sua tradução, juntamente com um grande número de informações que iriam supostamente revolucionar a investigação do mistério de Rennes.
     Hoje em dia sabe-se que Henry Lincoln tinha recebido a grande maioria dos documentos e dados de Gérard de Sède. Ora este autor, por sua vez, tinha recebido toda a informação de Pierre Plantard e de Phillipe de Chérisey. Já foi referido na página anterior que estes dois personagens desempenharam um activo papel de desinformação, ajudando a propagandear informações falsas, motivando e encorajando assim mitos e fantasias que confundem os historiadores e investigadores na busca da verdade. Já não subsistem dúvidas de que Plantard e Chérisey contaminaram os trabalhos de Gérard de Sède e de Lincoln com as suas invenções. Os próprios autores o admitem, e esta contaminação foi perfeitamente consciente: Gérard de Sède publicou no final da década de 80 um livro no qual ele repudiava o conteúdo de todas as suas publicações anteriores, alegando que fora manipulado. Uma saída airosa para Gérard de Sède. Mas, contudo, este seu livro desmascara algumas farsas e contribui grandemente para provar a tese de que tudo não passou de uma gigantesca manobra de desinformação. Ao longo dos livros de Lincoln, Baigent e Leigh podemos também ler o relato de inúmeros encontros entre estes e Pierre Plantard. Não há dúvidas de que Plantard influenciou os livros destes autores: naquela que é considerada a obra mais importante de Gérard de Sède, "Les templiers sont parmi nous", há uma secção intitulada "Point de vue d'un esoteriste" ("Ponto de vista de um esoterista"). Nesta secção, Gérard de Sède inseriu uma longa entrevista com Pierre Plantard, na qual coloca questões pertinentes ao seu entrevistado, sempre tomando-o como uma autoridade no assunto. Esta entrevista constitui prova de que Gérard de Sède se deu muito bem, a dada altura, com Pierre Plantard.
     Chérisey, ao mesmo tempo que fornecia dados a Gérard de Sède, ajudando assim à divulgação do mistério de Rennes junto do público, depositou na Biblioteca Nacional, em Paris, um grande número de documentos desinformativos. São os chamados "Dossiers Secrets". Lincoln usou esta informação no seu programa, bem como no seu livro "The Holy Place", que não tem edição portuguesa. Mais à frente será efectuada, passo a passo, toda a descodificação de modo a evidenciar ao leitor todos os passos necessários, mas para já, eis, segundo o referido método, a sequência de passos que devem ser executados para obter a célebre frase já apresentada, que é conhecida como a decifração do segundo texto: "bergere pas de tentation que poussin teniers gardent la clef pax DCLXXXI par la croix et ce cheval de dieu j'acheve ce daemon de gardien a midi pommes bleues":

0. Obtenção da sequência de letras inicial: separação das 128 letras inseridas no texto base em latim, do Novo Testamento, de João 12, 1-11. Com estas letras forma-se uma tabela inicial.

1. Transformação da sequência segundo o método de Vigenere: este método de criptografia será explicado mais adiante. Depois deste passo, fica-se com uma nova tabela do mesmo tamanho que a inicial. A transformação de Vigenere necessita de uma palavra-chave, e Lincoln recebeu-a de Gérard de Sède (que a terá recebido de Plantard ou Chérisey): "MORT" e "EPEE" juntas numa só palavra, "MORTEPEE". A segunda parte da palavra-chave, a palavra "EPEE", pode ser obtida extraindo as quatro letras pequenas presentes no epitáfio da pedra tumular vertical da Marquesa de Blanchefort.

2. Deslocamento de uma letra no alfabeto: este passo, bem simples, consiste em fazer avançar cada letra da sequência anterior de uma letra no alfabeto. Assume-se continuidade circular, ou seja, a seguir a 'Z' vem 'A'.

3. Nova transformação segundo o método de Vigenere: agora usa-se como palavra-chave uma sequência de 128 letras, colocadas pela ordem inversa, constituída pelas 119 letras da pedra tumular vertical de Marie d'Hautpoul de Blanchefort, localizada em Rennes-le-Château (ver o desenho apresentado mais adiante, da autoria de Elie Tisseyre), e por mais nove letras seguidas: "PSPRAECUM". Estas letras retiram-se do desenho não autenticado da laje horizontal da Marquesa de Blanchefort, do pseudo-Stüblein, que foi depositado na Biblioteca Nacional de Paris.

4. Novo deslocamento de uma letra no alfabeto.

5. Uso de uma solução do problema do "passeio do cavalo" como ferramenta anagramática: esta ferramenta gráfica faz uso de um tabuleiro de xadrez, onde uma sequência de movimentos do cavalo (que tem que percorrer todas as 64 casas do tabuleiro), é usada para alterar a ordem às letras e chegar ao conjunto final, onde é legível a frase acima mencionada: "bergere...".

     Estes passos constituem uma receita bastante complexa. Cada um dos passos parecerá mais simples quando for analisado individualmente. O que importa agora realçar é o seguinte: a receita funciona, ou seja, a frase é correctamente obtida. Mas passou-se algo de curioso e de difícil explicação: Lincoln e todos os outros investigadores não compreenderam bem a "receita" e explicaram-na mal nas suas obras. Ou seja, a receita propagandeada e explicada por eles não funciona.
     A maior falha de Lincoln diz respeito ao comprimento do alfabeto usado no código. Lincoln, bem como todos os investigadores que falaram ou escreveram sobre este assunto nunca deram por uma grande falha no método, que foi ignorada vezes e vezes sem conta. Eis Lincoln no seu livro "The Holy Place":

Texto original:

     "When de Sède sent the decipherment, he employed a normal 26 letter alphabet and it was this method which was demonstrated in the 'Chronicle' films. I must thank a number of television viewers who wrote to me to point out that the letter W was not commonly incorporated in the French alphabet during the eighteenth century when, it is assumed, the cipher was devised. The removal of the letter W from the alphabet produces a slight simplification in the decipherment process in its latter stages. (...) Stage Four, like Stage Two, is a one-letter shift down the alphabet. (De Sede's original 26 letter alphabet version necessitated a two-letter shift at this stage.)"

Tradução:

     "Quando de Sède me mandou a decifração, ele tinha usado nesta um alfabeto de 26 letras e foi este o método que foi apresentado nos programas 'Chronicle'. Tenho que agradecer a muitos telespectadores que me escreveram a avisar que a letra W não fazia parte do alfabeto francês durante o século dezoito, quando supostamente a cifra foi criada. A remoção da letra W do alfabeto produz uma ligeira simplificação no processo de decifração nos seus estágios finais. (...) O quarto passo, como o segundo passo, consiste num deslocamento de uma letra no alfabeto (a versão de Gérard de Sède, que empregava o alfabeto de 26 letras precisava de um deslocamento de duas letras neste passo)."

     Ora nada é mais falso! É espantoso como podem tantos investigadores e autores optar pelo caminho fácil, de modo a não terem o trabalho de verificar eles próprios o processo. Por vezes, arriscar não compensa! Eis a verdade sobre o alfabeto e sobre este W que estraga completamente o método "oficial":

     - A única maneira de decifrar o código é usar um alfabeto de 25 letras, sem o W! Isto será explicado mais adiante;
     - Lincoln, bem como tantos outros investigadores, nunca se deu ao trabalho de fazer ele mesmo a decifração. Por isso, quando foi confrontado com a inclusão ou não do W decidiu afirmar que isso não iria perturbar em nada, chegando mesmo a dizer a barbaridade de que isso até iria "acelerar o método nos estágios finais";
     - Lincoln terá possivelmente perguntado a de Sède se o código original teria ou não que ser descodificado usando o alfabeto de 26 letras. Devido à reacção de Lincoln podemos imaginar que de Sède lhe terá respondido que isso não importava, que bastava avançar duas casas no quarto passo. Podemos assim imaginar que também Gérard de Sède não percebia bem o método!

     A inclusão do W tornou-se, graças a de Sède e a Lincoln, um facto consumado: todos os livros sobre Rennes-le-Château que se seguiram reflectiram sempre a mesma asneira, o que leva a que se conclua que nunca ninguém teve paciência para confirmar os passos e verificar que as 26 letras com o W não levam a lado nenhum e que de facto o texto só pode ser decifrado com 25 letras. Ted Cranshaw, o autor do artigo que serve de base a este capítulo, ficou estupefacto quando reparou que o método com o W não funcionava! Ao que parece, até hoje mais ninguém se tinha manifestado publicamente conhecedor deste erro.
     Podemos ter a certeza de que Phillipe de Chérisey, um homem de considerável cultura e erudição, criou o código usando o alfabeto antigo, mas seria sempre prematuro da parte de qualquer investigador datar logo o texto como anterior ao século XIX, porque obviamente a pessoa que o inventou poderia muito bem ser do século XX e ter bons conhecimentos para tomar a decisão de não incluir o W, dando assim mais credibilidade à antiguidade do documento! Foi o que Phillipe de Chérisey efectivamente fez...
     Antes de passar ao processo de decifração, serão ainda referidos mais dois casos de autores que não se deram ao trabalho de verificar eles mesmos o processo explicado por Lincoln e de Sède. Num dos seus livros sobre Rennes, o autor Fanthorpe decide, devido à dificuldade do tema, incluir um apêndice da autoria do conhecido perito em programação, Paul Townsend. Ora neste apêndice, Townsend explica como criou, com a ajuda de um computador, uma mensagem codificada, imitando quase todos os passos usados no texto de Rennes-le-Château. O que não se compreende é como é que pode Townsend exemplificar tão bem o processo usando um texto inventado por ele, sem nunca se dar ao trabalho de testar o seu programa na mensagem original! Se ele o tivesse feito, teria reparado que o alfabeto com o W não produzia a solução.
     Finalmente, veja-se o caso do best-seller "The Tomb of God", da autoria de Andrews e Schellenberger. Neste livro, uma obra de especulação e de pseudo-investigação, os autores a certa altura abordam a decifração do segundo texto. Citando-os:

Texto original:

     "Before exploring the possibility of interpreting this enigmatic message, it should be noted that whoever supplied de Sède with the deciphering sequence and solution had either to be the orginator, or to have discovered the sequence written out and concealed by the code-maker. And there lies a clue to the date of the Parchment. For the sequence provided by de Sède involves the use of the normal, 'modern', 26 letter alphabet."

Tradução:

     "Antes de explorar a possibilidade de interpretar esta enigmática mensagem, deve-se notar que quem forneceu a de Sède a sequência de decifração, bem como a solução, teria que ser ou o criador, ou alguém que tivesse descoberto a sequência original, escondida pelo criador. E aqui está uma pista para a datação do pergaminho, pois a sequência fornecida por de Sède usa o alfabeto 'moderno' de 26 letras."

     Como já se viu, isto está errado: a sequência de letras que de Sède forneceu a Lincoln só é decifrada mediante o uso do alfabeto antigo. Com a suspeição de que tanto Lincoln como Gérard de Sède nunca se deram ao trabalho de fazer eles mesmos a descodificação, podemos supor que Phillipe de Chérisey e Pierre Plantard foram maus professores para Gérard de Sède!

 

O processo de decifração

 

O segundo texto
O segundo texto

 

Passo 0 - Obtenção da sequência de letras inicial

 

     O primeiro passo consiste em separar do texto base em latim do Novo Testamento as letras que lá foram inseridas. Logo à partida, coloca-se um problema importante: que versão latina se deve usar como texto base?
     O problema é que ainda não se sabe exactamente que texto latino serviu de base à construção dos textos codificados. Por isso, arriscámos inicialmente escolher a Vulgata Clementina (1592), a segunda edição pós-tridentina impressa nas tipografias do Vaticano. A título de referência, esta edição surgiu dois anos após a grande revisão de Pio V, impressa em 1590. Contudo, esta edição estava de tal modo eivada de erros de tipografia, que após a morte de Pio V, o papa Clemente VIII decidiu editar uma nova com os erros tipográficos corrigidos. Por um lado, o complexo labirinto das versões anteriores à Vulgata de Jerónimo (manuscrita, séc. IV) fez-nos fugir inicialmente para terreno mais seguro. Por outro lado, o uso de letras semelhantes a uncial coloca a pertinente questão: com o uso do uncial, não terá o criador do código partido de uma versão latina manuscrita que não a Vulgata?
     Considerando tudo isto, parece-nos importante, todavia, partir do texto clementino, porque assim se torna mais evidente a seguinte tese: os textos codificados possuem duas camadas fundamentais, a) uma camada pré-tridentina, o texto base, possivelmente proveniente de fontes exteriores à Vulgata de Jerónimo; b) uma camada recente, composta das letras, que tratadas correctamente revelam palavras em francês moderno.

Frontispício da edição vaticana da Vulgata Clementina (1592) - Fonte: http://www.bible-researcher.com
Frontispício da edição vaticana da Vulgata Clementina (1592)
Fonte: http://www.bible-researcher.com

     Assim, apresenta-se primeiro o texto de João 12, 1-11, extraído da Vulgata Clementina, da edição de Colunga e Turrado (Madrid, 1946), através da versão electrónica de Michael Tweedale (Londres, 2004):

     12:1 Jesus ergo ante sex dies Paschæ venit Bethaniam, ubi Lazarus fuerat mortuus, quem suscitavit Jesus. 12:2 Fecerunt autem ei cœnam ibi, et Martha ministrabat, Lazarus vero unus erat ex discumbentibus cum eo. 12:3 Maria ergo accepit libram unguenti nardi pistici pretiosi, et unxit pedes Jesu, et extersit pedes ejus capillis suis : et domus impleta est ex odore unguenti. 12:4 Dixit ergo unus ex discipulis ejus, Judas Iscariotes, qui erat eum traditurus : 12:5 Quare hoc unguentum non veniit trecentis denariis, et datum est egenis ? 12:6 Dixit autem hoc, non quia de egenis pertinebat ad eum, sed quia fur erat, et loculos habens, ea quæ mittebantur, portabat. 12:7 Dixit ergo Jesus : Sinite illam ut in diem sepulturæ meæ servet illud. 12:8 Pauperes enim semper habetis vobiscum : me autem non semper habetis. 12:9 Cognovit ergo turba multa ex Judæis quia illic est, et venerunt, non propter Jesum tantum, sed ut Lazarum viderent, quem suscitavit a mortuis. 12:10 Cogitaverunt autem principes sacerdotum ut et Lazarum interficerent : 12:11 quia multi propter illum abibant ex Judæis, et credebant in Jesum.

     Voltemo-nos agora para a transcrição do segundo texto codificado. Como no texto as palavras se encontram justapostas sem espaços, tomámos a decisão de as separar para auxiliar a compreensão. Eis então a transcrição completa (acompanhada da legenda), que destaca propositadamente de forma colorida os diferentes grupos de letras que se podem identificar:
A azul
As letras do texto base (João 12, 1-11) que serviu para a construção do pergaminho;
A encarnado
As 128 letras inseridas que serão usadas nos próximos passos do método;
A verde
As letras minúsculas espalhadas pelo texto que formam juntas a frase "rex mundi";
A castanho
As 12 letras que se encontram escritas acima das outras e que formam a frase: "AD GÉNÉSARÈTH". Estas letras não são usadas no código;
A laranja
As letras A (alfa) e W (ómega), o "princípio" e o "fim".

"JESUS EVRGO ANTCE SEX DPIES PASCSHAE VENJIT BETHQANIAM URAI FUERAOT LAZArVUS MORTYUUS QUEMM SUSCIYTAVIT IYESUS FEDCERUNT LAUTEM eTI CAENAPM IBI ET O MARTHAF MINISTRRABAT LBAZARUS OVERO UNXUS ERATT Ex DISCOUMLENTDILUS CUJM MARIA LERGO ACBCEPIT LKIBRAM UNNGENTIJ NARDI PFISTICI QPRETIOUSI ET UNEXIT PEDPES IERUA ET EXTEJRSIT CAYPIIRISN SUIS PEPDES ERTPI ET DOMBES IMPLFITA ESTE EX UNGEINTI ODAERE DIXALT ERGO URNUM EX DGISCIPUHLIS EIUIX IUDDX ISCARJORTIS QUIY ERAT CUBM TRADITTURUS QTUARE HOCC UNBENVTUM NON T VENIIT TGRECENPDIS DENAARIIS ET DDATUM ESGT EGENIÉS? DIXINUTEM HOÉC QUSIA DE EGAENIS PERRTINEBÈAT AD CUTM SED QUHIW FUR ELRT ET LOUCULOS HCABENS ECA QUAE MVITEBANMTUR POTRAB ETE DIXIT EJRGO IESHUS SINEP ILLAM UNT IX DIEPM SEPULGTURAE MSEAE SERVNET ILLQUD PAUPJERES ENHIM SEMPGER HABEMTIS NOBLIISCUM FME AUTETM NON SESMPER HAVBETIS CJOGNOVILT ERO TZURBA MUQLTA EX IMUDACIS TQUIA ILOLIC ESTX ET VENEARUNT NONN PROTEPR IESUm ETANTuMM SED UT LUZARUMP VIDEREHnT QUEM KSUSCIAOVIT A MORRTUIS CPOGITAVKERUNT AHUTEM PRVINCIPEJS SACERCDOTUM UMT ET LAZCARUM INATERFICTERENT QLUIA MULVTI PROPQTER ILHXUM ABIBGNT CX UGIdAEIS NET CRCDDEBANT iTN IESUM"

     Ao longo da transcrição existem diferenças claras entre a base latina do texto codificado e o texto da Vulgata Clementina. Também surgem problemas ao nível da identificação das próprias letras, porque alguns pares de letras são escritos da mesma forma: V poderá ser V ou U; T poderá ser T ou I; o A minúsculo poderá ser A ou D, e algumas letras H parecem ser R. Também surgem problemas ao nível da identificação das próprias letras, porque alguns pares de letras são escritos da mesma forma: V poderá ser V ou U; T poderá ser T ou I; o A minúsculo poderá ser A ou D, e algumas letras H parecem ser R.

     Phillipe de Chérisey confessou a várias pessoas a autoria do texto aqui em análise. A alguns, ele revelou mesmo detalhes importantes, como a Jean-Luc Chaumeil (Le trésor du triangle d'or, 1979, p.80):

     "Os pergaminhos foram feitos por mim. Eu retirei o texto antigo, em uncial, da Biblioteca Nacional (em Paris, N.T.), do trabalho de Dom Cabrol, «l'Archéologie chrétienne»"

     Sigamos Pierre Jarnac (Histoire du Trésor de Rennes-le-Château, 1985): "esta referência indica de facto uma obra imensa intitulada «Dictionnaire d'archéologie chrétienne et de liturgie», em 15 volumes (1924-1952), publicada sob a direcção de Dom Fernand Cabrol". Há claras anomalias no texto que serve de base ao pergaminho e que são identificadas na página seguinte. Contudo, apesar de ser interessante conhecer melhor o trabalho de Dom Cabrol que serviu de base à falsificação de Phillipe de Chérisey, o texto base é perfeitamente irrelevante para as fases seguintes, porque Gérard de Sède, ao publicar reproduções dos "pergaminhos", fá-las acompanhar das letras inseridas, que estão a mais no texto base. Estas letras espúrias constituem a matéria-prima para as próximas fases do código.
     Convencionou-se colocar, na transcrição acima apresentada, as letras tal como elas podem ser lidas no pergaminho, à excepção das que têm que ser usadas no código. Essas foram "impostas" à transcrição, mesmo quando no pergaminho a letra não está presente ou está alterada, e isto porque Phillipe de Chérisey divulgou este conjunto de letras, poupando-nos o trabalho de as "pescar" no seu artístico texto! Também se tentou não forçar a interpretação das restantes letras em função do texto latino da Vulgata, à excepção dos casos demasiado evidentes, como por exemplo, a distinção das letras semelhantes referidas atrás, visto que parece evidente que Chérisey não usou a Vulgata como texto base.

     A transcrição aqui apresentada é uma tentativa de identificação do conjunto de letras. Até a separação das letras é subjectiva, porque foi feita com base no que pareceu ser mais lógico e coerente com o texto base em latim. Não se sabe com tanto detalhe como Phillipe de Chérisey compôs o texto, mas também tal conhecimento não é essencial.
     Para chegar à frase final, há que usar um conjunto fixo de 128 letras, letras essas que se tentaram encontrar no pergaminho. Na sua maioria elas estão lá, ou pelo menos encontram-se lá, mas alteradas. O que tentou fazer foi a conciliação do conjunto de 128 letras com o pergaminho. À parte de algumas diferenças, a conciliação é possível. Por causa destas diferenças será normal não conseguir encontrar no pergaminho algumas das letras atrás apresentadas. Estes problemas na identificação serão estudados com detalhe na página que se segue e para já, deixamo-los de lado de modo a evidenciar o conjunto de letras que se terá que usar para prosseguir com a decifração.

     Note-se que não serão usadas as doze letras "AD GÉNÉSARÈTH", apesar destas estarem a mais no texto original. Os restantes conjuntos de letras (a laranja e a verde), apesar de curiosos, pertencem ao texto base em latim e portanto não serão usadas. À primeira vista pareceria lógico usar como conjunto de partida as 128 letras a encarnado e as 12 a castanho, porém, relembra-se de novo o leitor que o documento que aqui estamos a analisar, bem ou mal elaborado, é da autoria de Phillipe de Chérisey, e ele próprio revelou o conjunto de letras. Só tendo bem presente a cadeia de pessoas envolvidas neste fenómeno se compreenderá que o que aqui se apresenta é um método que foi revelado. Ninguém "descobriu" o conjunto de letras. Este conjunto de letras simplesmente veio a público como o ponto de partida para a interpretação, juntamente com o pergaminho e com as regras para o decifrar. A frase "AD GÉNÉSARÈTH" deve ser um significado qualquer para Phillipe de Chérisey. Este explicou num documento privado, intitulado "Pierre et Papier" o significado de todos os detalhes do código e explicou também como este foi composto e como pode ser decifrado. Este documento foi recentemente trazido a público por Jean-Luc Chaumeil no programa TimeWatch da BBC2 intitulado "The History of a Mistery" e exibido em 1996. Jean-Luc Chaumeil é, então, o actual detentor do documento que prometeu divulgá-lo em breve na sua próxima obra.
     Eis então o conjunto das 128 letras, doravante apelidado de "sequência VCPS", que será usado nos próximos passos da descodificação:

VCPSJQROVYMYYDLTPEFRBOXTODJLBKNJ
FQUEPAJYNPPBFEIELRGHIIRYBTTCVTGD
LUCCVMTEJHPNPGSVQJHGMLFTSVJLZQMT
OXANPEMUPHKORPKHVJCMCATLVQXGGNDT

 

Passo 1 - Primeira transformação de Vigenere

 

     A sequência de letras obtida no passo anterior será agora transformada noutra, de igual comprimento, usando um método conhecido como método da Tabela de Vigenere. Antes, porém, convém falar um pouco de métodos de criptografia. Quando se quer codificar uma mensagem podemos usar métodos de dois tipos principais, os de transposição e os de substituição. No pergaminho em questão são usados os dois tipos de métodos. Nos de transposição, uma regra conhecida apenas pelo autor e pelo destinatário é usada para trocar a ordem das letras; nos de substituição, uma regra apropriada é usada para substituir os símbolos do texto original pelos de outro conjunto com tantos símbolos como o número de letras no alfabeto. Assim, por exemplo, uma letra no texto original que seja a quarta no alfabeto será trocada pela quarta letra do conjunto auxiliar.
     Os métodos de substituição simples são monoalfabéticos, ou seja, cada letra no alfabeto corresponde a uma e uma só letra no conjunto auxiliar. Estes métodos não são muito eficientes na sua tarefa de esconder a mensagem original: conhecendo a distribuição probabilística das letras do alfabeto na língua original pode-se tentar adivinhar a correspondência de símbolos. Por exemplo, a letra "E" é muito frequente na nossa língua. Imagine-se que a esta letra correspondia a letra "Z" no conjunto auxiliar. Então, se notássemos que esta letra aparecia muitas vezes, num número próximo do de "E" dado pela distribuição de frequências, então poderíamos assumir que "Z" correspondia a "E". Repetindo o processo para as restantes letras, se o texto fosse suficientemente longo e representativo, conseguir-se-ia obter a maioria das correspondências. Depois, atendendo ao contexto, poder-se-ia tentar reconstruir a mensagem original. Se esta tivesse separação de palavras, esta informação adicional poderia ser usada para ajudar à decifração. A observação da palavras pequenas, de três e quatro letras ajudaria a achar ainda mais correspondências, e em pouco tempo o texto estaria decifrado. Assim, como se vê, os métodos monoalfabéticos de substituição não são suficientemente poderosos. Possivelmente por esta razão, não foram usados métodos deste tipo no texto em estudo.
     A solução para obter o desejado aumento de eficiência está no uso de um método polialfabético. Este método foi inventado em 1586 por Blaise de Vigenere (1523-1596). Vigenere era funcionário de tribunal e praticava alquimia. Este método consiste em usar não um conjunto auxiliar de letras mas vários conjuntos. Depois, uma palavra-chave dirá qual o conjunto a usar em cada letra da mensagem codificada. Eis como funciona o método de codificação: escreve-se numa linha a mensagem original; escreve-se debaixo desta, letra sob letra, a palavra-chave repetida tantas vezes quanto necessário para ocupar todo o tamanho da mensagem; depois, suponha-se que queríamos codificar a letra "F": bastava ver que ela era a sexta letra no alfabeto, e notar que tínhamos debaixo dela a letra "B" da palavra-chave. Então, a nova letra seria a sexta letra do segundo conjunto (designado pela letra "B"). Vigenere formalizou este método através de uma tabela, a Tabela de Vigenere:

Tabela de Vigenere
Tabela de Vigenere

     Esta tabela agrupa 25 conjuntos de letras, cada um começando uma letra à frente no alfabeto. As letras na tabela são acedidas através do cruzamento da linha com a coluna adequada. Veja-se um conhecido exemplo, apresentado no livro de Fanthorpe referido há pouco. Neste exemplo, a mensagem original é "TRESOR EST A RENNES" ("o tesouro está em Rennes"), e a palavra-chave é "SAUNIERE":

Frase original:   TRESORESTARENNES
Palavra-chave:    SAUNIERESAUNIERE
Frase codificada:  MRZGXVVXMAMRVRVX

     É simples obter a frase consultando a Tabela de Vigenere: a primeira letra a codificar é "T"; para esta letra, temos a letra "S" da palavra-chave; cruzando a linha "T" com a coluna "S" obtemos a letra "M". Note-se que se cruzarmos a linha "S" com a coluna "T" temos também a letra "M". Por esta razão a codificação pelo uso desta tabela é um processo puramente aditivo. Repare-se que devido a este facto não interessa qual das sequências é a palavra-chave e qual é a mensagem original. Se trocarmos os papéis, obtemos a mesma frase final. Contudo, na descodificação já não há esta comutatividade: para descodificar a letra "M" temos que achar ao longo da diagonal do "M", a coluna que intersecta a linha do "S" da palavra-chave. Também se pode procurar nessa diagonal a linha que intersecta a coluna do "S", pois é indiferente aceder por colunas ou por linhas. Mas repare-se que agora o processo não é comutativo: se se trocar a palavra-chave pela frase codificada não se obtém a mensagem original. Aconselha-se o leitor a fazer a experiência.

     Após a leitura desta breve explicação é relativamente simples aplicar a transformação à sequência VCPS, usando como palavra-chave as duas palavras "MORT" e "EPEE" juntas numa só: "MORTEPEE". Por exemplo, cruzando a linha "V" com a coluna "M" chegamos à letra "I". Cruzando a linha "C" com a coluna "O" chegamos à letra "Q", e por diante. O processo é tedioso e foi utilizado um programa de computador para produzir o novo conjunto de letras. Era essencial proceder à verificação do conjunto de letras, e realmente, o programa produziu as mesmas letras divulgadas por Lincoln como sendo as resultantes da aplicação da Tabela de Vigenere, e que doravante serão designadas por "sequência IQHM":

IQHMNGVSIMERCSPYCSXLFEBYBRBFFARN
RFMYTPNCAEHUJTMIYGYBMYVCNILVAJKH
YJTVACYIVVHHTVXADYZAQBJYFKBFDGQY
BLRHTTQZCVCIVFOLIYTGGPYPIFOAKDHY

     Há um pormenor bastante estranho neste passo, tão estranho que nem se deveria chamar pormenor. A Tabela de Vigenere aplica-se no sentido directo quando se quer codificar. Parte-se de uma mensagem original e mediante uma chave atinge-se uma mensagem codificada. Este é o processo de codificação como foi há pouco exposto. Ora neste caso, o método que é usado consiste em extrair do pergaminho a mensagem codificada e usar uma chave, "MORTEPEE", para atingir a mensagem acima apresentada. Assim, executando uma codificação pela Tabela de Vigenere estamos a descodificar a mensagem inserida no texto! Claro que a sequência obtida no fim deste passo ainda é incompreensível mas avançou-se claramente no sentido de atingir a frase final, executando meticulosamente as instruções do "método oficial". Porque se tem que "codificar à Vigenere" para descodificar as letras, deduz-se que Phillipe de Chérisey teve que "descodificar à Vigenere" para codificar as suas letras nesta fase...

     Convém também falar um pouco sobre a palavra-chave. Atrás, vimos que em métodos monoalfabéticos era possível extrair informação das distribuições de frequência dos símbolos do código. A palavra-chave usada num método polialfabético cumpre precisamente o objectivo de minimizar ou até destruir a informação que pode ser retirada de uma mensagem codificada. Como se viu, numa mensagem codificada polialfabeticamente, uma letra pode ser representada por várias letras diferentes graças ao efeito desta palavra-chave. Métodos estatísticos como o teste do c-quadrado permitem obter medidas da eficiência da codificação. Seria interessante efectuar estes testes às sequências aqui apresentadas, pois eles são úteis para mostrar o poder dos métodos polialfabéticos. Idealmente, uma mensagem bem codificada deveria apresentar distribuições de frequência tão próximas quanto possível das obtidas em sequências aleatórias. A codificação por Tabela de Vigenere, quando efectuada com uma palavra-chave adequada, pode aproximar-se dos níveis ideais de codificação. Eis algumas notas importantes acerca da palavra-chave, conforme apresentadas pelo matemático Ted Cranshaw:

1. Como regra geral, uma palavra-chave grande é mais eficiente na codificação que uma palavra-chave pequena;
2. Uma palavra-chave com uma gama variada de letras é mais eficiente que uma com letras repetidas;
3. Duas transformações sucessivas com palavras-chave de comprimento m e n são aproximadamente tão poderosas como uma única transformação usando uma palavra-chave de comprimento m x n;
4. Se uma palavra-chave tiver comprimento igual ao do texto a descodificar, e se tiver variedade suficiente de letras, então é impossível quebrar o código sem a usar;
5. É sempre possível, dada uma sequência de tamanho m, descobrir a palavra-chave que a transforma numa outra sequência de igual comprimento.

     Agora, acerca da própria palavra-chave: "MORTEPEE"... A primeira parte, "MORT", nada tem de original ou extraordinário, apesar de não se saber porque razão é que ela foi usada. A segunda parte, contudo, é deveras peculiar: "EPEE". O uso desta palavra num código aparentemente sofisticado como este parece uma piada de criptografia. Acontece que "EPEE" é a única palavra francesa com a estrutura xyxx, e por isso, parece anedótico que se use neste código uma palavra-chave tão conhecida no mundo da criptografia. Por exemplo, usando um código de substituição monoalfabético, se encontrássemos uma palavra isolada com esta estrutura, por exemplo "JTJJ", saberíamos que se a palavra original fosse em francês ela teria que ser forçosamente "EPEE". Então esta palavra é claramente a pior palavra francesa de quatro letras para servir de palavra-chave! Três das suas quatro letras são iguais, o que é claramente desfavorável num código baseado numa Tabela de Vigenere. Contudo, protegido pela complexidade dos restantes passos, Phillipe de Chérisey poderá ter achado que não havia necessidade em escolher uma palavra-chave demasiado difícil, pois a eficiência continuaria alta. Adicionalmente, é claro que no conjunto da intenção "artística" do autor, deverá existir algum significado na escolha desta palavra.
     Um importante detalhe é fornecido pela pedra tumular da Marquesa de Blanchefort, que será apresentada mais adiante nesta página. No epitáfio que foi gravado na pedra, quatro letras destacam-se por terem sido gravadas como minúsculas, ao contrário do resto do texto: três delas são letras "E" e a quarta é um "P". Trocando a ordem pela qual elas aparecem no texto, tem-se claramente "EPEE". A ligação entre a pedra e o código aqui discutido é cada vez mais clara, ficando óbvio que Phillipe de Chérisey usou este epitáfio para fazer a sua composição.
     Hoje conhecem-se bem todos estes detalhes e palavras-chave, bem como todo o método, sobretudo graças aos livros de autores como Lincoln e Gérard de Sède. Virão estas pistas, mais uma vez, dos mistificadores Chérisey ou Plantard? Certamente. É importante sublinhar que esta descodificação seria impossível sem as instruções que vieram a público. Investigadores atentos, efectuando este simples raciocínio, já tinham sugerido que o "pergaminho" era uma completa farsa e que Phillipe de Chérisey, o autor do código, trabalhara com Plantard para trazer toda esta mistificação a público. Em 1974, o historiador local René Descadeillas já tinha avançado com esta hipótese, e Frank Marie partilharia da mesma opinião em 1978. Chérisey e Plantard, trabalhando em duas frentes, usavam o jornalista Gérard de Sède para "descobrir" as suas pistas na Biblioteca Nacional de Paris, enquanto as colocavam lá, sob pseudónimos variados e significativos. Jean Delaude, por exemplo, é um pseudónimo que faz evocar o rio Aude, um rio importante da região de Rennes-le-Château. Outros rios são usados para compor pseudónimos: Madeleine Blancassal, por exemplo, tem o primeiro nome óbvio de Madalena, e tem um apelido composto com os nomes dos rios Blanc e Sals. Como vemos, o nível de detalhe de toda esta montagem é profundíssimo e muito sofisticado.
     Mas o duo Plantard e Chérisey nunca poderia prever que os três ingleses Lincoln, Baigent e Leigh iriam multiplicar por mil a farsa dos pergaminhos e catapultá-la para a cena internacional através dos seus dois explosivos best-sellers. Desde então, gerações de autores de pouca credibilidade têm explorado e ainda exploram este filão, dos quais um exemplo recente é o norte-americano Dan Brown.

 

Passo 2 - Avanço de uma letra

 

     Este passo é bastante simples. Consiste em deslocar cada letra na sequência IQHM de uma letra abaixo no alfabeto. Relembra-se de novo que neste alfabeto de 25 letras, a seguir a "V" tem-se "X". Há continuidade circular, ou seja, o alfabeto regressa ao início e assim, a seguir a "Z" vem "A". Aplicando este passo à sequência IQHM ficamos com esta nova sequência:

JRINOHXTJNFSDTQZDTYMGFCZCSCGGBSO
SGNZUQODBFIVKUNJZHZCNZXDOJMXBKLI
ZKUXBDZJXXIIUXYBEZABRCKZGLCGEHRZ
CMSIUURADXDJXGPMJZUHHQZQJGPBLEIZ

     Este passo, quando comparado com os outros, parece estranhamente simples e até desnecessário. Para quê introduzir um passo tão simples se ele não complica o código? Note-se que se alterássemos ligeiramente a Tabela de Vigenere, mudando por exemplo, a letra de cada linha para a anterior no alfabeto (ou seja, as linhas passariam de "AB...Z" para "ZA...Y"), este passo seria produzido automaticamente. Foi dito há pouco que se fazem dois destes passos, um agora, e o outro depois da segunda transformação de Vigenere. Sendo cada um destes deslocamentos de apenas uma letra no alfabeto, porque não os fazer de uma só vez descendo duas letras? Qual é a lógica de fazer os dois passos separadamente? Procedendo deste modo não se complica o código, mas sim o processo.

     A Tabela de Vigenere é um pouco incómoda de usar, sobretudo para grandes mensagens, e desde o seu aparecimento logo começaram a surgir instrumentos que simplificavam grandemente o processo. Em França, a forma mais comum destes instrumentos era a de uma régua com duas partes deslizantes, tendo cada uma, um alfabeto. Em Inglaterra, o formato mais usado era o de dois discos de raios diferentes que eram presos no meio e que podiam rodar sobre o seu centro. Cada disco tinha um alfabeto e o disco de raio maior era colocado atrás, de modo a possibilitar a leitura dos dois alfabetos simultaneamente.
     Estes instrumentos simplificavam a transformação, mas se aplicados no nosso método não poderiam efectuar o deslocamento de uma letra automaticamente como se pode fazer com uma Tabela de Vigenere. Se fossem usados estes instrumentos, os dois passos de deslocamento teriam que ser feitos separadamente. Assim, ficamos com uma de três hipóteses: ou Phillipe de Chérisey usou a Tabela de Vigenere, demorando assim uma eternidade; ou usou instrumentos como os referidos, mas que obrigavam no fim a fazer os deslocamentos separadamente; ou então recorreu a outro processo que conseguisse conjugar as duas coisas. Apontamos claramente para esta última hipótese, que será agora defendida.

     De um ponto de vista computacional, a melhor maneira de implementar a transformação de Vigenere é através de um método de valor posicional. É a maneira mais intuitiva de programar a transformação, pois a cada letra é atribuído um valor (tipicamente a sua posição no alfabeto) e depois para codificar a mensagem basta somar os valores das letras e subtrair 25 caso a soma ultrapasse este valor. Por exemplo: queremos obter a primeira letra da mensagem codificada "IQHM", "I". A letra original é "V", a primeira da sequência VCPS, e a letra da palavra-chave que lhe corresponde é "M". A letra "V" tem o valor 22 (assumindo que "A" tem o valor 1), e "M" tem o valor 13. Ora 22+13=35, o que ultrapassa 25. Então há que subtrair 25 ao resultado: 35-25=10. E que letra é a décima no alfabeto? Como se pode verificar, é a letra "J"! O que é que se passou? Era suposto obter-se a letra "I", a mesma dada pela Tabela de Vigenere, mas obteve-se a letra seguinte, "J", ou seja, sem sabermos, executámos os dois passos ao mesmo tempo: a transformação e o deslocamento de uma letra!
     Isto explica-se muito facilmente: quando se implementa uma técnica de valor posicional, que como já vimos é a mais lógica se queremos fazer um programa de computador que faça transformações de Vigenere, partimos do princípio que o alfabeto é numerado como "A"=1, "B"=2, ..., "Z=25". Na Tabela de Vigenere, contudo, a letra "A" é neutra, pois uma palavra-chave só com letras "A" não altera em nada a mensagem original. Assim, de modo a obtermos a mesma sequência "IQHM", deveríamos mudar o método de valor posicional de modo a torná-lo equivalente a uma Tabela de Vigenere, ou seja, dando a "A" o valor do elemento neutro da adição, que é 0, e por diante, até "Z" com o valor 24. Porém, esta numeração é pouco intuitiva, e parece bem mais lógico dar a "A" o valor 1. Além de que, como já vimos, com esta numeração ficaria por efectuar o passo de deslocamento de uma letra.

     Tendo em conta todos estes factos, parece bastante lógico que o código terá sido criado de modo a ser descodificado usando métodos de valor posicional, que pela sua natureza já efectuam o avanço de uma letra. É pouco provável que Chérisey estivesse a pensar em Tabelas de Vigenere como a maneira mais lógica de descodificar a sua mensagem. Mas como vimos, os métodos de valor posicional são perfeitos para aplicação computacional, mas difíceis de usar para um descodificador humano. Não é razoável pensar Chérisey dispusesse de um computador nos anos sessenta, mas certamente terá disposto de umas boas horas do seu tempo livre! Assim, mal informado como foi, Lincoln divulga um método que necessita dos deslocamentos de uma letra: como usa Tabelas de Vigenere em vez de técnicas de valor posicional, os deslocamentos têm que ser feitos à parte. Nem Lincoln nem Gérard de Sède compreenderam o método que lhes foi revelado por Chérisey e Plantard. Após tantas obras que são vendidas como investigação séria, é difícil convencer milhares de leitores entusiasmados, que viajam até Rennes-le-Château todos os anos e que compram tudo que se escreve sobre este assunto, sobretudo o mais bombástico e polémico. Como explicar-lhes que a sua história preferida, para eles uma realidade inquestionável, não passou e não passa de uma brincadeira de vários fins-de-semana levada longe demais?

 

Passo 3 - Segunda transformação de Vigenere

 

     Neste passo começa-se por determinar a sequência de 128 letras que irá servir de palavra-chave para a nova transformação de Vigenere, que partindo da sequência JRIN permitirá chegar à próxima sequência. Agora será usada uma palavra-chave do mesmo tamanho que a mensagem original que se pretende descodificar. Mais uma vez, à semelhança do que aconteceu no passo 1, vamos usar neste passo uma codificação de Vigenere para progredir no sentido da descodificação da sequência JRIN. A palavra-chave é composta pelas 121 letras do epitáfio de Marie d'Hautpoul de Blanchefort (laje vertical), acrescidas das nove letras "PSPRAECUM", que figuram no desenho da laje horizontal da sepultura que é apresentado num documento dos Dossiers Secrets do pseudo-Henri Lobineau. Claro que este documento é mais uma criação do Priorado de Sião, nas pessoas de Phillipe de Chérisey e Pierre Plantard. No documento, diz-se que o desenho foi retirado de um livro, até agora nunca encontrado, chamado "Pierres Gravées du Languedoc", de Eugène Stüblein. Para mais detalhes sobre a laje horizontal remete-se o leitor para o quinto capítulo da página sobre Poussin.
     Prosseguindo com o método, começa-se por extrair as letras da pedra tumular vertical. Importa sublinhar que já nada resta hoje da sepultura de Marie de Blanchefort. Contudo, esta laje, que continha o epitáfio, foi reproduzida por um arqueólogo amador, Elie Tisseyre, que efectuou o desenho a 25 de Junho de 1905, dia em que se deslocou a Rennes-le-Château. Segundo ele, a pedra encontrava-se abandonada no cemitério, partida em duas partes. Apesar deste facto, Elie Tisseyre desenhou-a inteira.
     A população local atribuiu, via tradição oral, as culpas da destruição da laje vertical e do desaparecimento da laje horizontal a Bérenger Saunière. Diz-se que Saunière alisou a laje horizontal, apagando as inscrições, e que com ela fez a sua própria pedra tumular, que ainda hoje é visível em Rennes-le-Château. A cópia de Tisseyre (desenho da direita) foi referenciada no "Bulletin de la Société d'Études Scientifiques de l'Aude", vol. XVII, pág. 105, ano de 1906. Esta cópia é semelhante ao desenho que aparece nos Dossiers Secrets, a par com o desenho da pedra horizontal. A referida sociedade é uma entidade idónea, o que confere credibilidade ao desenho de Tisseyre. Resumindo, o desenho da laje vertical com o epitáfio é credível visto estar documentado em fontes seguras, ao contrário do da laje horizontal.
     Foi criada uma réplica desta laje que se encontra no museu da Associação Terre de Rhedae, em Rennes-le-Château. Abaixo encontram-se: à esquerda uma fotografia da réplica da pedra, e à direita o referido desenho:

Réplica da pedra tumular vertical com o epitáfio de Marie de Blanchefort Desenho da pedra tumular vertical - autoria de Elie Tisseyre
Réplica da pedra tumular vertical
com o epitáfio de Marie de Blanchefort
Desenho da pedra tumular vertical
Autoria de Elie Tisseyre

     Retirando as letras do epitáfio, tem-se:

CT GIT NOBLe MARIE DE NEGRe DARLES DAME DHAUPOUL De BLANCHEFORT AGEE DE SOIXANTE SEpT ANS DECEDEE LE XVII JANVIER MDCOLXXXI REQUIES CATIN PACE

     Cuja tradução aproximada será:

AQUI JAZ A NOBRE MARIE DE NEGRE DARLES SENHORA DHAUPOUL DE BLANCHEFORT COM A IDADE DE SESSENTA E SETE ANOS FALECIDA A XVII DE JANEIRO DE MDCOLXXXI QUE DESCANSE EM PAZ

     Repare-se nas quatro letras minúsculas assinaladas a cor diferente, que formam a palavra "epee", que foi usada na primeira transformação de Vigenere como a segunda parte da palavra-chave. Já foi atrás referido que esta é a única palavra francesa que se pode fazer com estas letras. A sequência de letras ficará, depois de se adicionar "PSPRAECUM":

CTGITNOBLEMARIEDENEGREDARLESDAME
DHAUPOULDEBLANCHEFORTAGEEDESOIXA
NTESEPTANSDECEDEELEXVIIJANVIERMD
COLXXXIREQUIESCATINPACEPSPRAECUM

     Segundo o método, deve-se usar como palavra-chave a sequência invertida. Assim, eis a palavra-chave a usar na transformação de Vigenere:

MUCEARPSPECAPNITACSEIUQERIXXXLOC
DMREIVNAJIIVXELEEDECEDSNATPESETN
AXIOSEDEEGATROFEHCNALBEDLUOPUAHD
EMADSELRADERGENEDEIRAMELBONTIGTC

     Aplicando a transformação de Vigenere à sequência JRIN, ficamos com a seguinte sequência:

VMKROZMMZRHSSHZSDVQQOASDTBZDDMHQ
VSFDDMCDKNQRHZZNDKDERCPQODCBTOFV
ZHDLTHCNBDICMLDFLBNBDDOCRGQVZHZC
GZSLNZDRDAHBDKDQMDDZHDDCKUDUTKCB

 

Passo 4 - Avanço de uma letra

 

     Este passo já dispensa explicações. Mais uma vez, se se tivesse usado um método de valor posicional para descodificar a sequência JRIN, o passo já estaria implicitamente feito. Então eis a sequência VMKR avançada de uma letra no alfabeto:

XNLSPANNASITTIATEXRRPBTEUCAEENIR
XTGEENDELORSIAAOELEFSDQRPEDCUPGX
AIEMUIDOCEJDNMEGMCOCEEPDSHRXAIAD
HATMOAESEBICELERNEEAIEEDLVEVULDC

 

Passo 5 - Transposição

 

     Na sequência XNLS já temos todas as letras da mensagem final. Falta só aplicar a esta sequência uma ferramenta anagramática de transposição baseada numa solução do problema do "Passeio do Cavalo" ("The Knight's Tour", como aparece no texto de Ted Cranshaw). Esta ferramenta baseia-se, então, numa solução de um problema muito antigo, que consiste em descobrir uma sequência de passos para o cavalo, de modo a fazê-lo visitar todas as 64 casas do tabuleiro de xadrez, sem passar pela mesma casa duas vezes. Este problema já era estudado pelos Árabes, mas nos últimos séculos foi resolvido por vários matemáticos. Em 1720, o matemático Brook Taylor (1685-1731) reaviva o problema, mas o mérito para a descoberta da primeira solução pertence a De Moivre (1667-1754). Rapidamente outras soluções apareceram, mas é a De Moivre que se costuma atribuir o crédito da primeira solução publicada. Apresento agora quatro soluções para este problema, sendo as três primeiras da autoria dos matemáticos De Moivre, Montmort, Mairan, e a última, feita por um computador através de um método CSA ("Computer Simulated Annealing"). Estão desenhados sobre os tabuleiros os percursos que passam pelas 64 casas. Para percorrer um passeio inteiro, começa-se pela casa com o número "1" e progride-se até à casa marcada com o número "64".

 

Solução de De Moivre Solução de Monmort
1. Solução de De Moivre 2. Solução de Monmort

Solução de Mairan Solução obtida pelo método CSA
3. Solução de Mairan 4. Solução obtida pelo método CSA

 

     Comparando estas quatro soluções, vemos claramente que as que foram obtidas pelos matemáticos são bastante mais regulares que a solução pelo método CSA. Muito sucintamente, este método, claramente só concretizável através de um computador, consiste em definir uma sequência aleatória com os números das 64 casas. Sempre que duas casas consecutivas na sequência estão separadas no tabuleiro por uma distância cujo quadrado é cinco (ou seja, casas que distem uma da outra de um salto do cavalo), a "energia" desse par é feita nula. A "energia" não passa, no fundo, de uma função de custo, que serve para medir a qualidade de uma sequência, e deseja-se que o valor desta função de custo seja tão baixo quanto possível. Casas consecutivas na sequência que não distem de um salto do cavalo recebem um valor energético positivo qualquer. Depois, o computador troca os pares de casas entre si (claro, apenas os que ainda não distam de um salto do cavalo), até atingir uma sequência de passos cuja energia total dê zero. Então ter-se-á atingido uma solução para o problema pois todas as 64 casas consecutivas na sequência distarão de um salto do cavalo.
     A mente humana usa, obviamente, métodos bem diferentes para resolver o problema. Tipicamente, tenta-se primeiro dividir o tabuleiro em duas regiões que possam ser resolvidas separadamente. Observando as soluções feitas pelos matemáticos é fácil constatar que eles usaram métodos bem claros: Monmort preferiu dividir o tabuleiro em duas metades, resolvendo cada uma separadamente; Mairan e De Moivre preferiram fazer a separação entre a periferia do tabuleiro e o seu centro. Claramente, a solução CSA contrasta das primeiras por não revelar qualquer padrão ou estrutura regular.
     Será fácil concordar com o facto de que a solução de De Moivre é a mais elegante das quatro apresentadas. De Moivre separa claramente o percurso na periferia iniciado no canto superior direito com o fim do "passeio", quando se entra na zona central. Como é evidente que não se pode fazer um passeio num quadrado de lado quatro, é de esperar que De Moivre tivesse que usar duas casas da região central para o seu percurso periférico. Simplesmente não se pode fazer um passeio que use todo o anel periférico de 48 casas e que depois passe à região central de 16 casas. Assim, a escolha das duas casas da região central que irão ser usadas no percurso na periferia constitui um grau liberdade que leva a que exista uma quantidade razoável de soluções parecidas com a de De Moivre. A solução que é usada no código do pergaminho para transpor a sequência XNLS é uma variante da solução de De Moivre. Pode-se observar que é grande a semelhança entre as duas pois os passos na periferia são praticamente os mesmos, e assim, pode-se dizer que Phillipe de Chérisey poderá ter ido buscar inspiração à solução de De Moivre, ou então retirou a solução usada de um livro de matemática.
     A solução que iremos usar neste método é cíclica, ou seja, há reentrância: da casa 64 pode-se saltar por um movimento do cavalo para a casa 1 e recomeçar o passeio de novo. Criptograficamente, pouco se ganha com o uso da reentrância. Apenas ficamos com uma solução mais elegante! Claro que, usando uma solução cíclica, o descodificador tem que saber qual a casa que deve usar como casa de partida, pois todas servem para executar um passeio completo, mas só uma leva à descodificação. Mas visto que, como já referimos, o código per se é impossível de descodificar sem o fornecimento completo do método, não se compreende porque é que Phillipe de Chérisey se daria ao trabalho de ir à procura de uma solução reentrante só para dificultar a descodificação. Assim, os seus interesses só poderiam ser de tipo estético, esotérico ou ambos. E se ele tinha interesse em executar a transposição das letras usando uma solução cíclica, bastaria usar as regras criadas por Euler (1707-1783) em 1759, que permitem facilmente alterar a solução de De Moivre de modo a obter uma solução cíclica. Como exemplo, veja-se na figura 5 uma variante da solução de De Moivre tornada cíclica, ou reentrante, pelas regras de Euler:

 

Solução de De Moivre tornada cíclica Solução a usar no código
5. Solução de De Moivre tornada cíclica 6. Solução a usar no código

 

     Provavelmente, Phillipe de Chérisey não se preocupou com tanto detalhe matemático. Ele deve ter encontrado esta solução numa obra de matemática e deve ter gostado do seu aspecto. Por sorte, era reentrante, o que dava alguma beleza à codificação. Tanto melhor! Chérisey não precisava de saber que Euler tinha regras para tornar reentrante uma solução do problema do "passeio do cavalo"...
     Concentremo-nos agora no esquema da solução que irá ser usada neste passo, a da figura 6. Uma análise cuidada da estrutura interna desta solução permite-nos especular sobre as razões que terão levado Chérisey a escolhê-la em vez de usar directamente a de De Moivre: há uma clara simetria no desenho do percurso entre os passos 1 e 10, onde se nota claramente um padrão de estrela nos nove quadrados em torno da casa 36. Este padrão pode servir de base ao desenho de uma estrela de David. Além disso, nos quadrados 4, 6 e 8, o percurso faz uma curva apertada de 37 graus. A razão por detrás desta escolha poderá ser esotérica, ou até simplesmente estética. Porém, fica fora de dúvida que o criador desta solução possuía um grande domínio na manipulação dos movimentos do cavalo. Trata-se certamente do trabalho de um matemático. Assim, parece evidente, apesar de não se poder provar, que Phillipe de Chérisey retirou esta solução do trabalho de alguém para poder ter um esquema de transposição para a sua sequência de letras.

     Há ainda mais uma dificuldade antes de se chegar à frase final! O leitor mais atento já terá reparado que num tabuleiro como o representado na figura 6 só cabem 64 letras. Ora as sequências que temos vindo a descodificar são todas de comprimento 128. Parece então óbvio usar dois tabuleiros. Mas não basta simplesmente aplicar a primeira metade da sequência a um tabuleiro e aplicar a outra metade a um segundo tabuleiro. Pode-se claramente aplicar a primeira metade da sequência XNLS a um tabuleiro igual ao da figura 6, mas a segunda metade terá que ser transposta usando um tabuleiro diferente. Este segundo tabuleiro terá que ser uma versão verticalmente invertida do primeiro. Veja-se como se devem colocar as letras da sequência XNLS em cada tabuleiro:

 

Primeiro tabuleiro Segundo tabuleiro
Primeiro tabuleiro Segundo tabuleiro

 

     Agora a transposição faz-se facilmente percorrendo os dois tabuleiros e recolhendo as letras que se encontram pelo percurso entre as casas marcadas com "1" e "64". Fica-se assim com as duas sequências:

BERGEREPASDETENTATIONQUEPOUSSINT
ENIERSGARDENTLACLEFPAXDCLXXXIPAR

LACROIXETCEVHEVALDEDIEUJACHEVECE
DAEMONDEGARDIENAMIDIPOMMESBLEUES

 

BERGERE PAS DE TENTATION QUE POUSSIN TENIERS GARDENT LA CLEF PAX DCLXXXI PAR LA CROIX ET CE CHEVAL DE DIEU J'ACHEVE CE DAEMON DE GARDIEN A MIDI POMMES BLEUES

     Finalmente obtém-se a frase que constitui a descodificação do código oculto no segundo pergaminho. Esta frase continua enigmática, apesar de já estar em francês normal, mas podem-se retirar algumas pistas que o codificador terá querido transmitir ao receptor. As referências a Poussin e a Teniers são bastante explícitas, pois tratam-se dos nomes próprios de dois pintores que estão relacionados com o mistério de Rennes-le-Château. Veja-se a página Nicolas Poussin e "Os Pastores da Arcádia".

     Mas a maior surpresa ainda está para vir: no final desta descodificação podemos reparar que a frase final é um anagrama da frase do epitáfio. Da pedra tumular de Marie d'Hautpoul de Blanchefort retirava-se uma sequência de 121 letras às quais se juntavam as 7 letras "PSPRAECUM". Ora acontece que esta sequência é um anagrama da frase final, ou seja, usa exactamente as mesmas letras que esta! Trocando-se a posição das letras da sequência final pode-se obter a frase do epitáfio e vice-versa. Este facto surpreendente levou a que muitos investigadores ficassem imediatamente convencidos da autenticidade do método de descodificação. Se já era surpreendente a destreza mental que era necessária para criar um código como este, com a descoberta deste anagrama fica-se quase sem palavras!

 

A criação do anagrama

 

     Phillipe de Chérisey partiu certamente da única mensagem em toda esta confusão que faz algum sentido, e que é totalmente real e verídica: a mensagem inscrita na pedra tumular vertical de Marie de Blanchefort. Esta frase é simples, e à parte de alguns erros de soletração e espaçamento parece ser um texto bem normal para um epitáfio. Diz o nome da pessoa ali enterrada, a data da sua morte, e além disso contém uma pequena frase, aliás bem típica, "requiescat in pace", "que descanse em paz". Convém referir que é bastante difícil construir um anagrama lógico para uma frase tão grande sem ter que recorrer a alguns truques como inserir algumas letras ou truncar palavras. Por isso a frase final parece ser tão enigmática. Como Antoine Bigou era o padre de Rennes-le-Château no tempo de Marie de Hautpoul, sendo inclusive o confessor desta, foi ele quem tratou do seu enterro. Assim, Chérisey não hesitou em escolher Bigou como o "autor" deste código, visto que assim a sua história pareceria mais sólida.
     Será prematuro atribuir a este padre a autoria dos erros inscritos na pedra, tentando ver neles algum código escondido. A pedra foi já bastante maltratada. Segundo os relatos locais, o próprio Saunière rasurou a pedra ao ponto de impedir a sua leitura. É lógico admitir que Chérisey usou um desenho da pedra original para dela extrair o texto do epitáfio (possivelmente usou o trabalho de Tisseyre), que depois foi arranjado em anagrama para gerar a mensagem "bergere pas de tentation(...)". Tanto o texto do epitáfio (na forma como é usado neste processo) como a mensagem oculta contêm incongruências e pormenores estranhos. Isto, como já foi referido, deve-se à necessidade de simplificar a obtenção do anagrama. Posto isto, vejamos como o autor poderá ter conseguido este difícil feito:

ct git noble m
arie de negre
darles dame
dhaupoul de
blanchefort
agee de soix
ante sept ans
decedee le
xvii janvier
mdcolxxxi
requies catin
pace ps
praecum
bergere pas de
tetation que
poussin teniers
gardent la clef
pax dclxxxi
par la
croix et ce
cheval de dieu
jacheve ce daemon
de gardien
a midi
pommes
bleues
O anagrama

     Ted Cranshaw, no seu artigo, apresenta assim as duas mensagens, dispostas uma ao lado da outra, e a ocuparem o mesmo número de linhas. Inicialmente, Chérisey terá partido do texto original do epitáfio com uma ideia da mensagem que pretenderia transmitir através do código. Depois poderá ter cortado o texto da esquerda em grupos de duas, três ou mais letras, de modo a produzir o anagrama. Teoricamente um anagrama é produzido pela troca da ordem das letras no texto, mas letra a letra. Contudo, algumas semelhanças entre grupos de letras nas duas mensagens levam a ponderar seriamente a hipótese do texto original ter sido cortado em blocos e reorganizado de modo a criar o anagrama. Com este processo, o autor poderá ter tomado decisões em relação à frase que queria construir, de modo a ver a sua tarefa simplificada.
     Para facilitar a identificação dos grupos de três ou mais letras que existem em ambas as mensagens, estes foram escritos a cheio. Muitas observações pertinentes podem ser extraídas destas semelhanças. Note-se o grupo que mais se destaca: "LXXXI". Este grupo, o maior, composto por cinco letras, representa um número romano no epitáfio, 81, como fazendo parte da data da morte de Marie de Hautpoul, 17 de Janeiro de 1781. Muitos autores têm interpretado as letras "DCLXXXI" na segunda mensagem como sendo também um número romano, 681, mas possivelmente, esta foi a forma elegante que Chérisey encontrou para se ver livre do problema de ter que encaixar no anagrama tantas letras "X" juntas.
     Não se deve dar grande importância a este número. Antes de mais nada, a data da morte de Marie de Hautpoul está errada na lápide original. Como o desenho de Elie Tisseyre é credível, a única explicação para não encontrar-mos "MDCCLXXXI", 1781, mas sim "MDCOLXXXI", que não corresponde a nenhum número romano válido, é a de um erro da parte do artesão que talhou a pedra. Uma vez que quase todos os artesãos da região, nesta altura, eram analfabetos, e que a pedra era cara, seria um luxo encomendar uma lápide nova se esta tivesse sido executada com erros, o que sucedia frequentemente.
     Mesmo assim, há que ter alguma sensatez e não interpretar as anomalias da mensagem como portadoras de algum segredo. Phillipe de Chérisey não era mágico e já é um feito notável a criação de um código tão complexo como este. Não sobrevalorizemos o autor... Criar anagramas é uma tarefa difícil; parece mais provável que o autor ter-se-á decidido a usar uma frase um pouco estranha de modo a conseguir ter um anagrama do epitáfio. Mais do que usar uma frase clara e concisa, Chérisey queria sobretudo dar um ar credível a toda a farsa, e por isso decidiu-se a criar um código fortemente entranhado numa lápide real e já por si polémica. O que conseguiu Chérisey? Conseguiu: a) associar o Priorado de Sião a um suposto "segredo" de Rennes; b) associar Poussin e Teniers ao assunto (veremos mais tarde porquê); c) reutilizar a lenda dos pergaminhos de Saunière em benefício das intenções do Priorado; d) valorizar o seu amigo Pierre Plantard como alguém dotado de poderes políticos, de um segredo histórico imenso, e de uma vasta cultura esotérica. Pura propaganda! Ter isto presente é vital, pois quase todos os livros sobre Rennes-le-Château que mencionam o processo de descodificação demoram-se em interpretações precárias e forçadas deste pergaminho, do seu código, e do seu significado.

 

Os passos seguintes

 

     Após a obtenção de um anagrama válido que relacionasse o texto do epitáfio com a frase desejada, o autor progrediu na construção do código aplicando o já apresentado método de transposição do "passeio do cavalo". Aparece assim a sequência XNLS. Note-se agora o complicado conjunto de anagramas: como já se viu, a sequência BERG é um anagrama de XNLS, obtido através do "passeio do cavalo"; por outro lado, BERG é um anagrama do texto do epitáfio, a sequência MUCE. O autor usou MUCE para codificar pelo método de Vigenere a sequência XNLS e obter assim a sequência JRIN. No meio de toda esta complicação, o autor piorou a qualidade do seu código.
     Como MUCE foi usada para codificar XNLS e assim obter JRIN, pela comutatividade entre texto e palavra-chave de que se falou há pouco, pode-se dizer que JRIN é a sequência chave que permite converter XNLS em MUCE. Assim, JRIN é uma sequência que transforma uma mensagem, XNLS, noutra que é um seu anagrama. Além disto será de esperar que XNLS, BERG e MUCE tenham a mesma distribuição de frequências que tem o texto normal, pois os três são anagramas uns dos outros. Note-se que para não aumentar a confusão, não foram referidos os óbvios deslocamentos de letras que acompanham estas transformações, sempre em concordância com o que foi explicado atrás. Também não se referiu que o autor, ao progredir no sentido de chegar a JRIN usou uma descodificação de Vigenere para codificar a sequência BERG. Estes dois aspectos já foram referidos, mas convém relembrá-los, especialmente aos leitores que poderão estar a tentar seguir estes passos no papel.
     Um fenómeno estranho existente na sequência JRIN deve-se precisamente a estes passos. Note-se a grande abundância da letra "Z" nesta sequência. Há ao todo catorze letras "Z", o que resulta numa frequência de 14/128=11%! Isto ultrapassa largamente tanto a probabilidade do "Z" num texto aleatório, (1/25=4%), como a probabilidade de "Z" num texto normal. O teste do c-quadrado dá à sequência JRIN uma probabilidade de 3% de ser um texto aleatório.
     Agora imaginemo-nos no papel de Chérisey... Teve imenso trabalho a criar o anagrama. Quando consegue obter uma mensagem que contém a informação que ele pretende esconder ao mesmo tempo que é um anagrama do texto do epitáfio, aplica o método do "passeio do cavalo" seguido da transformação de Vigenere, e atinge a sequência JRIN. Provavelmente ele pensa que já tem um código suficientemente poderoso, mas entretanto repara que teve que pagar um preço caro pelo uso de tanto anagrama. A sequência JRIN é bastante fraca no seu papel de sequência em código. O teste do c-quadrado automaticamente "chumba" esta sequência. É sabido que o que se quer num bom código é que seja praticamente tão vazio de significado como um texto aleatório. Ora a sequência JRIN tem uma abundância de letras "Z" muito suspeita.
     Esta abundância é facilmente explicável: já foi dito que os três anagramas têm a mesma distribuição de letras que um texto comum, precisamente porque BERG e MUCE são textos normais em francês. XNLS é um anagrama destes textos e claro, partilha da mesma distribuição de frequências. Assim, em XNLS e em MUCE a probabilidade de aparecer a letra "E" é a mesma e é relativamente alta, como num texto normal. As letras como o "E" ou o "A", ou seja, as mais frequentes, aparecem por vezes alinhadas no texto a codificar e no texto codificado, chegando-se assim à conclusão de que a sequência chave deverá ter nessas posições a letra "Z" (a letra neutra numa transformação de Vigenere é o "A", mas ainda se deverá fazer o tal deslocamento da letra, o que leva a que no nosso caso, a letra neutra na chave seja a letra "Z"). Quando duas letras estão coincidentes em XNLS e em MUCE, um "Z" aparecerá em JRIN.

     Tendo tudo isto em conta, agora parece óbvio porque é que o autor recorre ainda a mais uma transformação de Vigenere. A sequência JRIN simplesmente ainda não era suficientemente poderosa como código. Sendo assim, a escolha da palavra-chave "MORTEPEE" poderá não ter sido tão infeliz como há pouco se referiu. O autor apenas queria complicar JRIN um pouco mais, e a palavra-chave para esta última transformação não teria que ser tão importante assim. Se calhar, o autor achou que a palavra "MORT" e a famosa palavra "EPEE" que surge no texto do epitáfio formariam juntas uma chave interessante e suficientemente eficaz. Depois deste passo, estava obtida a sequência VCPS que seria posteriormente espalhada letra a letra pelo texto latino de S. João, usando o autor imitações das letras de uncial.

 

Resumo

 

1. Phillipe de Chérisey criou um anagrama do epitáfio de Marie de Hautpoul de forma a gerar uma frase interessante e com referências dotadas de significado. Sobre esse anagrama efectuou uma série de operações criptológicas e escondeu a "sopa de letras" resultante num texto antigo em latim retirado do trabalho do erudito Fernand Cabrol (1855-1933), Dictionnaire d'archéologie chrétienne et de liturgie (Paris, Letouzey et Ané, 1907-1953). O resultado foi um documento, com aspecto de pergaminho carolíngio, que foi reproduzido pela primeira vez em 1967 num livro de Gérard de Sède, intitulado "L'Or de Rennes".

2. O método aqui apresentado usa codificações de Vigenere para progredir no sentido da descodificação. Este facto indicia que o autor não é perito nos processos de criação de códigos polialfabéticos.

3. Phillipe de Chérisey, o autor do código, levou-o ao conhecimento do jornalista Gérard de Sède, possivelmente através de Pierre Plantard. Contudo, Gérard de Sède sugere o uso de tabelas de Vigenere para executar as codificações. Ora já se viu que usando a Tabela de Vigenere será necessário executar os estranhos deslocamentos de uma letra. É razoável pensar que o código foi construído usando o método de valor posicional, que recorrendo a simples somas e subtracções dispensa os tais deslocamentos de letras, e assim, é provável que tenha havido uma quebra na cadeia de transmissão do processo. Terá Gérard de Sède sido um mau aluno?

4. A escolha das palavras-chave é peculiar. As palavras "MORT" e "EPEE" não ajudam a complicar o código. Antes pelo contrário parecem até muito mal escolhidas. "EPEE" é a única palavra francesa com a estrutura "xyxx". Por seu lado, "MORT" revela, no mínimo, pouca imaginação. Porém, foi referido que o autor poderá ter achado que não era necessário complicar demasiado um código que já só precisava de mais alguma complexidade. Provavelmente a codificação com a palavra-chave "MORTEPEE" foi apenas executada devido à fragilidade criptográfica que a sequência JRIN apresentava, com a sua abundância de letras "Z", abundância esta que foi provocada, como se explicou atrás, pelo jogo anagramático entre o texto original e a sequência chave que o autor decidiu criar. Claro que a palavra "EPEE" poderá ter sido forçosamente escolhida por causa do texto do epitáfio.

5. A transposição pelo método do "passeio do cavalo" foi efectuada usando uma variante da solução de De Moivre tornada reentrante. A geometria do percurso na sua secção central é bastante regular e poderá ter sido escolhida precisamente para permitir a elaboração de significados esotéricos. A estrutura desta solução evidencia um domínio raro da geometria e um controlo absoluto do arranjo dos passos do cavalo num tabuleiro de xadrez. O autor do código terá certamente retirado esta solução do trabalho de algum matemático.

6. O método revelado a Gérard de Sède, e reutilizado por Henry Lincoln, contém erros e incongruências. O mais grave diz respeito ao uso de um alfabeto de 26 letras, com o "W" incluído. Lincoln, quando confrontado pelos seus leitores com a inclusão ou não do "W" no alfabeto a usar no método terá talvez recorrido às suas fontes, que por sua vez também não souberam arranjar uma resposta convincente. Porém, durante duas décadas ninguém deu pelo erro, e Lincoln, como outros autores, propagandearam o erro de que esse era um detalhe de pouca importância para a obtenção da mensagem final.

 

Conclusão

 

     Phillipe de Chérisey explica (citado do livro de Jean Robin, "La Colline Envoutée", edições Guy Trédaniel, 1982):

     "Quando regressei a Rennes-les-Bains em 1961 e soube que, a seguir à morte do padre, a Câmara Municipal de Rennes-le-Château tinha ardido (juntamente com todo o seu arquivo) aproveitei a oportunidade para inventar a história de que o Presidente da Câmara tinha tido uma cópia exacta dos Pergaminhos descobertos pelo padre. Assim, seguindo a sugestão de Francis Blanche, lancei-me na tarefa de fazer uma cópia incorporando um código baseado nalgumas passagens dos Evangelhos, e depois descodificar o que tinha acabado de codificar. Finalmente, por via indirecta, entreguei os frutos do meu trabalho a Gérard de Sède. Este documento tem tido uma vida para além do que eu poderia alguma vez imaginar."

     De onde surge a figura de Francis Blanche? Trata-se de um fantasista, amigo muito próximo de Phillipe de Chérisey, que ficou conhecido no mundo da rádio pela sua autoria de uma famosa série radiofónica intitulada "Signé Furax". Chérisey conheceu-o certamente no mundo do jornalismo, porque antes de ser actor exerceu jornalismo. Sigamos mais uma vez as explicações esclarecedoras de Chérisey:

     "Conheci-o pela primeira vez num clube nocturno perto da Place Saint-Georges em Paris. Ele tentou assustar-me e certamente conseguiu-o. Ele desempenhou um importante papel na minha vida quando eu trabalhava como actor em Bruxelas em 1961, quando o filme belga «Vive le Duc» estava em rodagem (...). Voltámo-nos a encontrar no Cornehs, um perito em marionetes, e novamente num clube nocturno na Gare du Nord, agora demolido. Ele contou-me histórias sobre o tesouro, e sobre os cilindros de madeira dos quais o padre Bérenger Saunière tinha tirado os Pergaminhos que desde então desapareceram nos cofres de um banco Inglês.
     «- Pode-me fazer alguns? Estou à caça de coisas como essas...
     - Fazer o quê?
     - Alguns pergaminhos. Desenrasque-me esta pequena farsa para mim e envie-a ao Arnaud de Chassipoulet. Depois aparecerá na minha série na rádio.»
     A série radiofónica chamava-se «Signé Furax», e será com certeza ainda lembrada por alguns ouvintes. Mas você acreditaria que uma pessoa chamada Pierre-Arnaud de Chassipoulet existisse realmente? Eu conheci uma vez este homem, que tinha uma loja de gravadores de cassete perto da Rue de la Boëtie, sem chegar a dar-lhe coisa alguma. Os pseudo-pergaminhos tinham assumido um papel tão importante na minha vida que a história se tinha tornado demasiado grande e complexa para caber numa série de rádio".

     Phillipe de Chérisey morreu a 17 de Julho de 1985. Não se irá especular aqui sobre as suas filiações e amizades. Um "núcleo de estudos" francês, dedicado a assuntos merovíngios, de nome "Cercle Saint Dagobert II", em nome do último monarca merovíngio de relevo (que morreu assassinado a 23 de Dezembro de 679, numa floresta nas Ardenas, perto da capital Stenay), dedicou-lhe o artigo que se apresenta de seguida. Ele foi mandado por fax para Phillipe Contal, o autor das plataformas de discussão existentes em Projet Beaucéant : les Templiers et leur histoire. Este fax, mandado por Roger-René Dagobert, foi depois colocado na plataforma nº 15. Pelo menos, o artigo serve para evidenciar a morte de Chérisey, bem como algumas das suas amizades.

Artigo lamentando a morte de Chérisey
Artigo lamentando a morte de Chérisey

     Os pergaminhos feitos por Chérisey encontram-se agora na posse do escritor Jean-Luc Chaumeil, que também tem em sua posse um texto de Phillipe de Chérisey, de nome Pierre et Papier, que contém a explicação da composição dos pergaminhos e do método a usar para a sua descodificação. Jean-Luc Chaumeil prometeu para breve, na sua próxima obra, revelar o dito Pierre et Papier. Referiu-se aqui que o carácter críptico da frase final pode dever-se à dificuldade em montar um anagrama do texto do epitáfio mantendo ao mesmo tempo a essência do que se pretende transmitir. Porém, Chérisey não se esquiva a apresentar explicações para todas as palavras nesta frase. Estas palavras, segundo Chérisey, estão todas relacionadas com nomes, lugares e piadas maçónicas.

     Pierre Plantard morreu a 3 de Fevereiro de 2000, às onze horas e dez minutos da manhã. Com ele afundaram-se muitas das pistas que poderiam esclarecer a imensa teia de mentiras que ele e o seu amigo Phillipe de Chérisey montaram para usufruírem a seu bel-prazer do mistério de Rennes-le-Château. Muitas testemunhas e personagens deste folhetim moderno de Rennes-le-Château estão ainda hoje vivas, como é o caso de Gino Sandri, actual secretário do Priorado de Sião, e o escritor Jean-Luc Chaumeil, quem sabe o maior perito actual na história desta montagem genial do Priorado de Sião. Podemos, isso é certo, contar ainda com numerosos e interessantes episódios desta trama.

     Para ilustrar claramente todos os problemas existentes ao nível da interpretação das letras base, segue-se uma página que irá levar este assunto ainda mais além, num esforço para encontrar o que resta do texto original.

 

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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