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Anomalias no segundo texto

 

Índice

1. Introdução
2. Apresentação do texto
3. Identificação e estudo dos problemas
4. Conclusões
 

 

     Na página anterior foi apresentada a descodificação do segundo texto que o Priorado de Sião diz que Saunière descobriu na igreja de Sta. Maria Madalena em Rennes-le-Château.
     À primeira vista, o documento aparenta uma autenticidade quase convincente. A caligrafia assemelha-se à escrita carolíngia, apesar de contaminada com uma série de letras que não podem ser carolíngias. Especialistas em paleografia analisaram o documento e deduziram que ele era uma falsificação. O grande peso dos seus argumentos está precisamente na caligrafia, que descrevem como sendo a obra de um falsificador amador com conhecimentos limitados da escrita carolíngia. Contudo, deve-se considerar uma hipótese pouco explorada: a da adulteração de um texto original por parte do falsificador. O problema subsiste porque o texto, claramente uma farsa, ainda assim coloca questões difíceis de explicar. Uma investigação mais cuidada provoca sempre uma sensação de fraude descarada, mas ao mesmo tempo levanta uma série de questões e revela uma série de detalhes que não são de desprezar.
     O problema, ou melhor, os problemas surgem quando se tenta executar um estudo crítico do referido documento, porque as inconsistências são tantas, e as ambiguidades tão frequentes que seria preciso bem menos para desanimar e pôr o texto de lado. Mesmo o mais feroz defensor da autenticidade deste texto perde a razão quando confrontado com o processo de descodificação apresentado na página anterior. O sucesso destes documentos (do segundo texto em conjunto com o primeiro) deve-se em grande parte à complexidade da descodificação que assusta qualquer um. Sem grande vontade de perder um grande número de horas e juízo em frente a um texto horroroso de ler e de compreender, a grande maioria dos que seguem com interesse este assunto não dão pelas incongruências e pelos erros abundantes que este texto contém e decidem-se sempre por um de dois caminhos: ou desprezam o texto, declarando-o uma farsa inútil, o que é uma atitude legítima e justificada mas talvez um pouco precipitada; ou então pura e simplesmente aceitam-no, sem qualquer tipo de reservas, o que também demonstra pouca racionalidade e espírito crítico.
     Resumidamente, com este texto constata-se que é complexo, que foi realizado por alguém com uma destreza notável em criptografia e matemática, e que apresenta sinais aparentes de adulteração. Simples divertimento de pessoas dotadas?
     É precisamente graças a estas dúvidas que se decidiu efectuar uma última análise ao documento. Na página anterior, avançou-se com a hipótese, que se mantém de pé, de Phillipe de Chérisey não ser o genuíno autor do documento, mas sim apenas o seu adulterador. Uma hipotética adulteração revela alguma destreza mas pouco cuidado em manter a coerência e estrutura originais. Provavelmente este desleixo provirá da certa credulidade do público que se quer manipular. Vítimas desta manipulação, essas já são muitas, Henry Lincoln, que já a admitiu, e Gérard de Sède, que também já contou num livro as atribulações a que se sujeitou durante a série de anos em que defendeu a autenticidade dos textos. Estes dois autores serviram assim, inconscientemente, o propósito de publicitar as ideias de Plantard e de Chérisey.

     Deste modo, há algum interesse em analisar com uma lupa bem potente todo o texto, do princípio até ao fim. É o que se pretende efectuar neste capítulo.

 

 

Apresentação do texto

 

O segundo texto
O segundo texto

 

     Começa-se por apresentar uma nova versão da transcrição, onde só serão destacadas as letras que se usam no código (desta vez escritas como elas aparecem - nenhuma letra será forçada ao que descodificação exige), e as letras problemáticas. Serão também colocadas nesta transcrição algumas letras que parecem fazer falta, porque foram ou omitidas, ou simplesmente removidas na adulteração. Nesta transcrição não foram consideradas problemáticas as letras do evangelho que são semelhantes, como os I que são T ou I, ou os V que são V ou U. Como estas letras podem ser comparadas com a Vulgata, o seu valor real é fácil de determinar.

A azul
As letras inofensivas, que não apresentam problemas e que surgem na Vulgata;
A encarnado
As 128 letras que devem ser retiradas para o código;
A verde
As letras que aparentemente deviam existir no texto, por razões de estrutura e coerência;
A castanho
As 12 letras que se encontram escritas acima das outras e que formam a frase: "AD GÉNÉSARÈTH". Estas letras não são usadas no código;
A laranja
As letras problemáticas.

 
  "JESUS EVRGO ANTCE SEX DPIES PASCSHAE VENJIT BETHQANIAM URAI FUERAOT LAZArVUS MORTYUUS QUEMM SUSCIYTAVIT IYESUS FEDCERUNT LAUTEM eTI CAENAPM IBI ET O MARTHAH MINISTRRABAT LBAZARUS OVERO UNXUS ERATT Ex DISCOUMLENTDILUS CUJM MARIA LERGO ACBCEPIT LKIBRAM UNNGUENTIJ NARDI PFISTICI QPRETIOUSI ET UNEXIT PEDPES IERUA ET EXTEJRSIT CAYPIIRISN SUIS PEPDES ERTPI ET DOMBES IMPLFITA ESTE EX UNGEINTI ODAERE DIXALT ERGO URNUM EX DGISCIPUHLIS EIUIX IUDDX ISCARJORTIS QUIY ERAT CUBM TRADITTURUS QTUARE HOCC UNBENVTUM NON X VENIIT TGRECENPDIS DENAARIIS ET DDATUM ESGT EGENIÉS? DIXINUTEM HOÉC QUSIA DE EGAENIS PERRTINEBÈAT AD CUTM SED QUHIW FUR ELRAT ET LOUCULOS HCABENS ECA QUAE MVITEBANMTUR PORTTRABAT ETE DIXIT EJRGO IESHUS SINEP ILLAM UNT IX DIEPM SEPULGTURAE MSEAE SERVNET ILLQUD PAUPJERES ENHIM SEMPGER HABEMTIS NOBLIISCUM FME AUTETM NON SESMPER HAVBETIS CJOGNOVILT ERGO TZURBA MUQLTA EX IMUDACIS TQUIA ILOLIC ESTX ET VENEARUNT NONN PROTEPR IESUm ETANTuMM SED UT LUAZARUMP VIDEREHnT QUEM KSUSCIAOVIT A MORRTUIS CPOGITAVKERUNT AHUTEM PRVINCIPEJS SACERCDOTUM UMT ET LAZCARUM INATERFICTERENT QLUIA MULVTI PROPQTER ILHXUM ABIBGANT CX UGIdAEIS NET CRCDDEBANT iTN IESUM"

Atalhos para os problemas

[1][2][3][4][5][6][7][8][9][10][11][12][13][14][15][16][17][18][19][20]
[21][22][23][24][25][26][27][28][29][30][31][32][33][34][35][36][37][38][39][40]

 

 

Identificação dos problemas

 

     Para facilitar o estudo dos problemas que surgem com a análise deste texto, e de modo a facilitar futuras discussões, será usada uma numeração. Assim, cada problema será apresentado (numerado) e analisado ao longo do texto. Lembra-se que a transcrição apresentada acima contém as letras tal qual elas podem ser observadas no documento. Foram escritas a encarnado as letras a retirar do texto para a descodificação, mas tal qual elas aparecem, isto porque algumas letras da sequência que se usa no método de decifração não correspondem ao texto.
     Durante o processo de análise dos erros serão feitos comentários, quando pertinentes, sobre o cumprimento ou não da equidistância das letras a usar no código. Acontece que praticamente todas as letras que são para extrair do texto (as letras a encarnado) obedecem a uma separação rigorosa de 7 letras. O significado místico e numerológico do algarismo 7 é óbvio.

 
Problema nº 1
URAI
Aqui não há grandes dúvidas de que a palavra em questão é UBI (com o R do código inserido na segunda posição, claro), e a letra que se encontra no texto é um A minúsculo, que se estivesse invertido ficaria um B (repare-se que o arco do A está tão vertical que se se inverter a letra, fica-se com um B perfeito). Compare-se a imagem original, com outra, onde o A foi invertido:
Detalhe da palavra UBI  A palavra UBI, alterada, com o A invertido para ficar B
(consultar as letras)

 

Problema nº 2
LAZArVUS
A primeira letra não é facilmente lida como um L. Porém, como é uma letra inofensiva, porque não entra no código, e é conciliável com o texto da Vulgata, este problema não é grave.
Detalhe da palavra LAZArUS
(consultar as letras)

 

Problema nº 3
CAENAPM
Este problema é puramente linguístico. Após consultadas duas versões latinas deste evangelho, a palavra aqui apresentada aparece como cenam, e como cænam, que significa "ceia", mas no documento temos um caenam, talvez interpretável como cænam. Em princípio, esta situação, aparentemente problemática, pode ter perfeita legitimidade para existir, porque cenam é equivalente a caenam, e nas versões mais antigas, esta palavra pode aparecer escrita como cænam.
Detalhe da palavra CAENAM
(consultar as letras)

 

Problema nº 4
ET O MARTHA
Agora o problema é que, segundo o método de decifração, a letra a retirar é o E. Mas o texto assim fica estranho: to martha. Só se consegue a conjungação com a Vulgata se se retirar o O, de modo a ficar-se com et martha. Curiosamente, a troca do E pelo O altera apenas uma letra da frase final descodificada. A sequência de letras "DCLXXXI" passa a "DCLXOXI". Este pormenor importante será discutido mais adiante.
Detalhe da sequência ET O MARTHA
(consultar as letras)

 

Problema nº 5
MARTHAH MINISTRRABAT
A letra a retirar é aquela que parece um H, e que por isso foi assim transcrita. Contudo, segundo o método de decifração, a letra a retirar é um F, ou seja, aquilo que parece um H deverá ser interpretado como um F de modo a chegar-se à frase descodificada. Na realidade, a má qualidade da cópia do documento (defeito existente em todas as cópias, porque a versão de Gérard de Sède, a primeira tornada pública, também foi apresentada com má qualidade) poderá fazer-nos ler um F como sendo um H.
Detalhe da sequência MARTHA F MINISTRRABAT
(consultar as letras)

 

Problema nº 6
LBAZARUS
Aqui há um detalhe interessante: a letra Z está invertida, e não pode tratar-se de uma distracção ou de um defeito de qualidade da imagem! Há também mais um pormenor estranho: o B a retirar a seguir ao L não é um B muito convincente. Parece um H com a perna ligeiramente encurvada para dentro. Mas é razoável aceitar esta letra como um B.
Detalhe da palavra LAZARUS
(consultar as letras)

 

Problema nº 7
DISCOUMLENTDILUS
O problema na palavra discumbentibus é que os dois B estão tão mal escritos que parecem dois L (também mal escritos!). Este problema parece inexplicável porque no resto do documento os B estão na sua maioria facilmente reconhecíveis.
Detalhe da palavra DISCUMLENTILUS
(consultar as letras)

 

Problema nº 8
IERU
esta palavra, que devia ser Iesu, aparece com um R em vez de um S.
Detalhe da palavra IERU
(consultar as letras)

 

Problema nº 9
CAYPIIRIS
Aqui está uma verdadeira palavra "pesadelo". Em vez de capillis, temos capiiris, se bem que o último I poderia ser lido como Y. Assim, mesmo que este último I fosse mesmo I, ainda deveríamos ter LL em vez das letras IR.
Detalhe da palavra CAPIIRIS
(consultar as letras)

 

Problema nº 10
ERTPI
Eis mais um problema complicado: em vez de eius, tem-se erti, já com o P tirado.
Detalhe da palavra ERTI
(consultar as letras)

 

Problema nº 11
DOMBES
A palavra apresentada deveria ser domus ("casa"), mas em vez dela aparece-nos domes. Não parece latim correcto, se bem que podemos estar perante uma forma alternativa, e já extinta, de escrever "casa". Curiosamente, esta palavra é a raiz de domesticus, que significa "doméstico", ou "relativo à casa".
Detalhe da palavra DOMES
(consultar as letras)

 

Problema nº 12
IMPLFITA
Novo problema com o latim: a palavra deveria ser impleta ("cheia"), mas em vez dela tem-se implita. O problema é que em latim, os únicos particípios do verbo impleo ("encher"), são impleta, impletus e impletum. Veja-se a palavra como aparece no documento (na realidade, a palavra está partida pela quebra de linha, mas foram justapostas as duas partes):
Detalhe da palavra IMPLITA
(consultar as letras)

 

Problema nº 13
ODAERE
Mais uma incongruência no latim: a palavra deveria ser odore ("cheiro"), mas em vez dela tem-se odare. A palavra latina odore pode ser escrita como odor, mas nunca odare. Quando muito há o verbo odorare ("perfumar") mas assim sai-se do contexto: "e a casa encheu-se com o cheiro do perfume".
Detalhe da palavra ODARE
(consultar as letras)

 

Problema nº 14
EIUIX
De novo a palavra eius mal escrita. Agora na forma eiux.
Detalhe da palavra EIUX
(consultar as letras)

 

Problema nº 15
IUDDX
O nome de Judas Iscariotes, Iudas, ou Judas, aparece como Iuddx. Possivelmente pode-se interpretar o segundo D como um A minúsculo com a perna muito comprida, mas mesmo assim tem-se Iudax.
Detalhe da palavra IUDDX
(consultar as letras)

 

Problema nº 16
SCARJORTIS
O apelido de Judas, Scariotis, aparece como Scarjotis. Este problema pode não ter razão para existir, porque em latim, J é o mesmo que I.
Detalhe da palavra SCARJOTIS
(consultar as letras)

 

Problema nº 17
CUBM
O primeiro C deve ser lido como um E, pois assim forma-se a palavra eum, que é confirmada pelo texto do evangelho. Note-se ainda que a letra que se retira para usar na descodificação, o B, está mal desenhado. Já no problema nº 6 se viu um exemplo de um B semelhante.
Detalhe da palavra EUM
(consultar as letras)

 

Problema nº 18
UNBENVTUM
A palavra unguentum ("perfume" ou "óleo perfumado"), encontra-se mal escrita. Aparece no texto escrito deste modo: unbentum, onde o B é de novo um B pouco convincente, do mesmo estilo dos que já apareceram antes, mas definitivamente um B (pelo menos mais B que G!). Além deste B que devia ser um G, falta ainda o U a seguir a esta letra. Veja-se como a palavra aparece no texto (as duas partes foram de novo justapostas pois estavam separadas pela quebra de linha):
Detalhe da palavra UNBENTUM
(consultar as letras)

 

Problema nº 19
NON X
A letra X não faz parte do texto base, e portanto entraria para o código, mas segundo o método, aqui devemos encontrar a letra T! Este é um erro importante, e será investigado mais tarde.
Detalhe da letra X
(consultar as letras)

 

Problema nº 20
VENIIT
A palavra veniit deve ser equivalente a venii, que é o pretérito perfeito de veneo ("vender"). A questão de interesse aqui não é a palavra em si, mas a maneira como os dois I são escritos. Em todo o texto, os dois I juntos apenas ocorrem duas vezes, e são sempre escritos da mesma forma: um V com dois pontos por cima. Interpretou-se este símbolo como dois I por duas razões: a primeira, porque na Vulgata a palavra que deve existir é veniit, e a segunda porque, em alternativa, teria que se ler venut, e essa palavra não existe. Para manter a equidistância entre as letras a tirar para o código (separação de sete letras), estes dois I têm que ser contados como uma só letra, o que faz sentido pois as duas letras na realidade estão mesmo colapsadas neste estranho V.
Detalhe da palavra VENIIT
(consultar as letras)

 

Problema nº 21
TGRECENPDIS
A palavra trecentis ("trezentos") aparece como trecenpis, pois onde se lê um P devia estar um T.
Detalhe da palavra TRECENPIS
(consultar as letras)

 

Problema nº 22
DENAARIIS
A palavra denariis aparece de novo com os dois I juntos numa só letra, o já referido V com dois pontos por cima. Refira-se que esta é a segunda e a última vez que este símbolo será usado no texto. Como curiosidade, em latim os dois I podem escrever-se como IJ. Assim, esta palavra poderia vir como denarijs.
Detalhe da palavra DENARIIS
(consultar as letras)

 

Problema nº 23
EGENIÉS?
A palavra egenis ("pobres", "pessoas necessitadas") aparece como egeniés, palavra que foi claramente deturpada, devido ao uso do acento de E fechado, acento que é tão característico do francês. Sinónimos de egenis são, por exemplo, egens e egentis, mas nunca egentés, e logo com o acento. Note-se que este É faz parte da frase que se pode obter destacando as letras de sete em sete: "AD GÉNÉSARETH". Estas letras não são usadas no código.
Também é interessante notar que o ponto de interrogação que se segue (aliás o único sinal de pontuação usado) conta para a separação de sete letras.
Detalhe da palavra EGENIÉS
(consultar as letras)

 

Problema nº 24
QUSIA
A palavra quia nada tem de estranho, à parte do uso de um alfa maiúsculo em vez do A final.
Detalhe do alfa na palavra QUIA
(consultar as letras)

 

Problema nº 25
CUTM
A palavra eum aparece com a primeira letra trocada por um C. Pode-se ter dado também o caso da perna do meio ter desaparecido no processo de cópia e digitalização do documento original.
Detalhe da palavra EUM
(consultar as letras)

 

Problema nº 26
QUHIW
Quia aparece com um W (ómega) em vez do A final. Note-se que é curioso as duas letras A e W aparecem no fim desta mesma palavra: quia.
Detalhe do ómega na palavra QUIA
(consultar as letras)

 

Problema nº 27
ELRAT
A letra marcada a verde, o A, não está presente no documento, mas devia estar, para completar a palavra erat. Porém, ao introduzir este A, estraga-se a métrica, pois a letra L, que deve ser retirada, passa a distar 8 letras da seguinte (U).
Detalhe da palavra à qual falta uma letra, ERT
(consultar as letras)

 

Problema nº 28
HCABENS
Na palavra habens, temos de novo outra letra B mal desenhada. Para se obter concordância com o texto do evangelho, temos que ler esta letra como um B, mas como ela não é significativa em termos de código, não existe qualquer problema para além da mera curiosidade que ela levanta.
Detalhe da palavra HABENS
(consultar as letras)

 

Problema nº 29
PORTTRABAT
esta palavra, portabat no texto da Vulgata, aparece como um estranho porab. Mas como a métrica entre letras a retirar falha nesta zona, há que analisar a situação com mais cuidado, porque faltam letras de certeza, letras essas que poderiam completar a palavra.
A última letra que é retirada antes desta palavra é um M, inserido no meio da palavra mittebantur. Desse M até ao T colocado no meio desta palavra vão exactamente seis letras, donde se conclui, que falta uma letra neste intervalo. Em seguida, do T até ao E colocado depois de et vão também só seis letras. Falta então uma letra a este intervalo. No total, faltam duas letras, e como portabat tem oito letras, e porab apenas cinco, podemos deduzir que para recompor a palavra teremos que violar a separação de sete letras. Veja-se: se for inserido um R antes do T a retirar, arranja-se a métrica no primeiro intervalo. Depois, basta adicionar um T logo a seguir ao T a retirar, e antes do RAB. No fim, adiciona-se AT. Mas note-se que no total adicionaram-se três letras, e apenas faltavam duas. Consequência: do T ao E (próxima letra a retirar) há agora uma distância de oito letras.
Detalhe da palavra PORAB  Detalhe do grupo (sequência NMTUR POTRAB ET E)
(consultar as letras)

 

Problema nº 30
IX DIEPM
Na primeira palavra, ix, deveria estar um N em vez do X, e assim tinha-se in. Além disto, a letra P que deve ser retirada (a encarnado) está mal desenhada. Se não se soubesse pelo método que daqui se retira um P, seria complicado interpretar a letra, porque se parece também um R. Mais tarde será experimentada uma troca desta letra P por um R para se ver que alterações ocorrem na frase final.
Detalhe da palavra IX e do P mal desenhado
(consultar as letras)

 

Problema nº 31
SERVNET
A palavra servet (forma do verbo "guardar") aparece mal escrita, com um N em vez do V. Curiosamente, a letra que precede este N é um V, letra que, obviamente, vem mesmo a calhar! Mais tarde serão averiguadas as consequências de retirar o N em vez do V.
Detalhe da palavra SERNET
(consultar as letras)

 

Problema nº 32
NOBLIISCUM
Na palavra vobiscum, que significa "convosco", aparecem duas situações estranhas: em vez do V inicial, temos um N; e ainda surge a incongruência de serem usados dois I em vez de um só. Parece que uma das letras foi aqui colocada a posteriori, pois elas não surgem ligadas como nos outros dois casos de I duplo. Contudo, note-se que a métrica de sete letras é respeitada. Talvez seja esta a razão para a inserção do segundo I.
Detalhe da palavra NOBLIISCUM
(consultar as letras)

 

Problema nº 33
ERGO
Nesta palavra, ero, falta claramente um G para a equiparar à palavra existente na Vulgata, e que é ergo. Convenientemente, há um intervalo de apenas seis letras entre o L (letra a ser retirada antes de ero, da palavra cognovit) e o Z (letra a ser retirada depois de ero, da palavra turba). Assim, a adição do G iria tornar a métrica correcta e coerente com o resto do documento.
Detalhe da palavra ERO  Detalhe da sequência CJOGNOVILT ERO TZURBA
(consultar as letras)

 

Problema nº 34
IMUDACIS
De novo um E mal desenhado, desta vez na palavra Iudaeis ("Judeus"), que assim lê-se Iudacis.
Detalhe da sequência IMUDACIS
(consultar as letras)

 

Problema nº 35
LUAZARUMP
Aqui, a palavra Lazarum ("Lázaro") aparece sem o primeiro A. Como entre o U que se tem que retirar e a letra seguinte a retirar, o P, há um intervalo de apenas seis letras, aqui há mais uma vez espaço para se inserir a letra que falta a seguir ao U.
Detalhe da sequência LUZARUMP
(consultar as letras)

 

Problema nº 36
ILHXUM
A palavra illum ("dele") aparece como ilhum, porque o L foi trocado por um H. A palavra ilhum simplesmente não existe.
Detalhe da sequência ILHXUM
(consultar as letras)

 

Problema nº 37
ABIBGANT
Abibant ("afastavam-se", no contexto do evangelho) aparece como abibnt, e mais uma vez, acontece que a separação entre o G (a encarnado) e a próxima letra a retirar (também um G) é de apenas seis letras, e assim, pode-se supor que deveria existir um A depois do G, o que tornaria a palavra correcta.
Detalhe da sequência ABIBGNT
(consultar as letras)

 

Problema nº 38
CX
A palavra ex vem logo a seguir a abibant, e de novo surge um E mal escrito, parecendo-se com um C.
Detalhe da palavra EX
(consultar as letras)

 

Problema nº 39
UGIdAEIS
A palavra Iudaeis está incorrectamente escrita, parecendo que houve uma troca entre o I e o U, logo no início da palavra.
Detalhe da palavra UIDAEIS
(consultar as letras)

 

Problema nº 40
CRCDDEBANT
Para terminar, um problema simples: em credebant, o primeiro E surge mal escrito, parecendo um C. Eis a palavra, com as duas partes juntas (no documento a palavra está partida em duas partes devido ao fim de linha):
Detalhe da palavra CRCDEBANT
(consultar as letras)

 

 

Conclusões

 

     E estão apresentados todos os problemas que foram identificados! Provavelmente ainda existirão mais alguns, e até poderá acontecer que alguns dos que foram apresentados não têm razão de ser. Uma correcta interpretação destes problemas poderá trazer à luz o que resta do documento original, porque poderá dar-se o caso de ter havido um processo de deturpação em grande escala. A existência de quarenta problemas torna plausível essa hipótese. Se o autor de uma hipotética deturpação não se preocupou muito em manter a coerência foi porque provavelmente isso exigiria um esforço que não seria notado pela maioria dos investigadores.
     A explicação mais simples poderá, contudo, ser a correcta: Phillipe de Chérisey inventou tudo. Elaborou os dois textos, tentando imitar escrita carolíngia (uma má imitação, como disseram vários peritos), e incluindo códigos e mensagens cifradas criadas por si. O tempo ajudará a discernir qual a correcta...

 

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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