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Personagens importantes

 

     Aqui serão reunidos os contemporâneos de Saunière que estiveram directa ou indirectamente envolvidos nos acontecimentos. A informação disponível é reduzida e tentar-se-á de futuro apresentar dados adicionais referentes a estas pessoas. A maior parte dos dados biográficos aqui apresentados provêm do livro de Pierre Jarnac, "Les archives du trésor de Rennes-le-Château" (ver bibliografia).

 

Índice

Antoine Gélis
Emma Calvet
Ernest Cros
Eugène Stüblein
Félix-Arsène Billard
Henri Boudet
Jean Rivière
Joseph Courtauly
Joseph Rescanières
Jules Doinel
Louis Lawrence
Marie Dénarnaud
Paul Courrent
Paul de Beauséjour
Simon Laborde

 

Emma Calvet

Emma Calvet (1858-1942) - fotografia de 1907
Emma Calvet (1858-1942)
Fotografia de 1907
     Rosa Noëmie Emma Calvet nasceu em Decazeville, no Midi, a 15 de Agosto de 1858. Era filha do empresário Justin Etienne Calvet e de Adèle Léonie Astores. Emma Calvet passou a sua infância na aldeia de Labastide-Pradines. Viajou até Paris ainda muito nova para ter aulas de aperfeiçoamento da voz, que naquela altura já era elogiada.
     Em 1881, Emma foi contratada pelo Théâtre de la Monnaie, em Bruxelas. Foi nesta altura que a conselho do seu professor ela decidiu alterar o seu apelido para Calvé, porque segundo ele "era mais musical". A sua carreira progrediu depressa, mas a cantora não acumulou grande fortuna. Não existem factos que comprovem a relação de Emma Calvé com Saunière, mas mesmo assim surgiram rumores como o de que a cantora teria financiado grande parte das obras do padre de Rennes. Ora tal afirmação não faz sentido. Basta consultar o seu diário privado (citado por Jean-Pierre Monteils, Nouveaux trésors à Rennes-le-Château ou le retour d'Ulysse, Editions Octogone, Vestric): "Encore 100.000 francs de dettes, pourquoi tant de fatique, à quoi bon tant de travailler.". Esta frase surge no final do ano 1893, em pleno apogeu das intervenções de Saunière na igreja de Sta. Maria Madalena.
Castelo de Cabrières
Castelo de Cabrières
     Um ano depois, saldadas as dívidas, Emma compra o castelo de Cabrières. Este castelo ficava perto de Aguessac, na região do rio Aveyron, muito perto do seu local de nascimento e da aldeia onde passara a infância. O castelo, que se encontrava na altura da compra em mau estado de conservação, foi recuperado pelo arquitecto Pons, seu amigo. Diz-se que Saunière ofereceu o segundo pilar visigótico que sustinha o antigo altar da igreja de Rennes a Emma Calvé, e que esta o teria colocado no castelo. Tal facto não pode ser comprovado, mas hoje em dia pode-se constatar que só existe um dos pilares. O desaparecimento do segundo pilar ocorreu certamente durante o primeiro período de trabalhos de Saunière, e se o padre conheceu de facto a cantora e foi amigo desta (ou amante, como também se diz!), não é de estranhar tal oferta, visto que Emma Calvé dedicava-se com afinco à decoração do seu castelo. Adicionalmente, como se sabe, não se podem gabar de Saunière as qualidades de arqueólogo e protector do património...
     É frequentemente referido que Emma Calvé se movia com facilidade no meio esotérico parisiense. Tal afirmação parece corresponder à verdade, considerando autêntico um documento assinado por ela e por uma série de ocultistas a 11 de Novembro de 1892, no cabaré Chat Noir. A reunião aparenta ter tido como objectivo a atribuição de um diploma honorário a Papus (pseudónimo de Gérard Encausse). Infelizmente o documento em questão não pode ser aqui reproduzido, mas está disponível na Internet. No conjunto de assinaturas é possível discernir "Emma Calvé, S. I." (muito possivelmente "Supérieur Inconnu", um grau iniciático), e ainda outros importantes ocultistas como Camille Flammarion e Stanislas de Guaïta.
     Factos aparentemente distintos como os contactos que Emma Calvé mantinha no meio esotérico e o interesse da cantora pela compra do castelo de Cabrières surgem inesperadamente ligados quando se tenta investigar uma lenda relativa ao castelo. Segundo Pierre Borel (Trésor de recheches et antiquités gauloises et françaises, 1655), o dono do castelo de Cabrières (na altura da obra, ou seja, em finais do século XVII) possuía o original de um livro cabalístico que pertencera a Nicolas Flamel e que teria até passado pelas mãos do cardeal Richelieu nos seus últimos anos de vida. O livro, de nome Asch Mezareph, era da autoria de Abraão, o Judeu, e possuía uma segunda parte, chamada "La Sagesse divine", obra da qual uma cópia estava na posse de Stanislas de Guaïta. Assim, a aquisição do castelo por parte de Emma Calvé ganha maior significado, enquanto que a amizade entre a cantora e ocultistas como Stanislas de Guaïta se torna mais verosímil.
     No final da sua carreira, Emma conhecerá tempos bem infelizes: problemas familiares e financeiros, e uma saúde debilitada e pouco melhorada com a frequência assídua de estâncias termais irão marcar os seus últimos anos. Por volta de 1930 ela decide-se a vender o castelo de Cabrières a um industrial, alegando que já não era capaz de viver sozinha numa casa tão grande e que lhe trazia "tão doces, mas também tão cruéis lembranças". Em 1940 ela escreve o seu livro autobiográfico "Sous tous les ciels, j'ai chanté". Por esta altura, ela já não cantava, tendo-se retirado para um apartamento em Millau. Num estado de doença agravada, ela é internada numa clínica em Montpellier, onde vem a morrer em Janeiro de 1942.

 

Ernest Cros

     Ernest Cros era natural de Castres, no Tarn, onde nasceu em 1857. Ernest era filho do negociante Auguste Cros, que foi Presidente do Tribunal do Comércio de Castres. Auguste Cros morreu em 1906.
     Fez o curso da Escola Politécnica ("École Polytechnique") e trabalhou toda a vida nos caminhos-de-ferro, tendo atingido o grau de ingénieur principal (o grau mais alto era o que se seguia: ingénieur en chef). Possivelmente a sua falta de ambição profissional fez com que ele nunca chegasse ao topo da carreira.
     Em 1880 casou-se com Christine Lassave, cujo dote continha as termas de Ginoles, de quem teve duas filhas: Marthe, que veio a casar-se com o médico Étienne May, que exercia em Paris; e Lucille, que se casou com o médico Pierre Ménard, que também exercia em Paris. O doutor Ménard morreu em 1919 e a viúva Lucille, que exercia pediatria, passou a morar com os pais.
     Em 1924, Ernest Cros reforma-se, e passa a dedicar-se à gestão das termas de Ginoles, indo frequentemente a Paris, onde possuía uma residência no Boulevard Péreire. É possivelmente nesta fase da sua vida, talvez a partir do fim da Primeira Guerra Mundial, que Ernest Cros intensifica a sua dedicação à epigrafia. Cros passeava muito pela região, registando e estudando inscrições, e efectuando inúmeras actividades de carácter arqueológico.
     Cros terá conhecido o padre Bérenger Saunière a quem teria pedido explicações relativamente à laje horizontal do túmulo da Marquesa de Blanchefort. A dar crédito a um registo anónimo (apresentado adiante) deste encontro entre as duas personagens, quando inquirido por Cros sobre a razão que o levara a apagar as inscrições da pedra e a usar abusivamente a mesma para o seu futuro túmulo, o padre de Rennes-le-Château teria respondido que já não se lembrava das inscrições que apagara, mas que a sua importância era nula. Relembra-se que Ernest Cros recolheu junto dos habitantes de Rennes algumas descrições que lhe permitiram efectuar uma reconstituição. Gérard de Sède apresentou o seguinte desenho como tendo sido extraído do falso "Pierres gravées du Languedoc", mas deverá tratar-se de uma versão adulterada do trabalho de Cros:

Laje horizontal da sepultura de Marie de Négri-d'Ables - desenho não autenticado
Laje horizontal da sepultura de Marie de Négri-d'Ables
Desenho não autenticado

     Ernest Cros tinha ouvido dizer dos habitantes da aldeia que existiam caracteres estranhos gravados na pedra original. A mitologia mais recente em torno do mistério de Rennes tornou bem conhecida a frase grega ET IN ARCADIA EGW, que se pode observar no desenho apresentado por Gérard de Sède. Contudo, Cros não se atreveu a colocar uma só letra grega no seu desenho, o que dá crédito à hipótese de que os habitantes da aldeia já não se lembravam dos caracteres. Adicionalmente, parece pouco credível que os aldeões soubessem reconhecer caracteres gregos. Assim, a frase grega deverá ter sido adicionada de forma fraudulenta muitos anos depois do trabalho de Ernest Cros.
     A sua descoberta mais importante consiste na pedra de Coume Sourde, um pico localizado na cota 532. Esta pedra, inevitavelmente trazida a público nos anos sessenta por Gérard de Sède, fora encontrada por Cros em 1928. Todos os dados relativos a esta pedra estão presentes num documento dactilografado, cujo autor se desconhece, intitulado "Recherches de Mons. l'Ingénieur en Chef Cros":

Primeira folha do documento sobre os trabalhos de Cros Segunda folha do documento Terceira folha do documento
Primeira folha do documento
sobre os trabalhos de Cros
Segunda folha do documento Terceira folha do documento

     Neste documento encontra-se representado, ao que se crê de forma fiel, um desenho da pedra de Coume Sourde efectuado por Ernest Cros. É conveniente contrapor este desenho ao publicado por Gérard de Sède, visto que existem diferenças importantes, devendo-se dar mais crédito à versão do documento dactilografado:

Desenho da pedra de Coume Sourde - versão de Ernest Cros Desenho da pedra de Coume Sourde - versão de Gérard de Sède
Desenho da pedra de Coume Sourde
Versão de Ernest Cros
Desenho da pedra de Coume Sourde
Versão de Gérard de Sède

     Em relação a desenho desta pedra, deve-se atender a uma importante constatação: a inscrição "PS PRAECUM" que se encontrava na pedra tumular vertical também está presente na pedra de Coume Sourde. É ainda prematuro efectuar a análise desta pedra ou avançar com conclusões. Contudo, se o desenho apresentado no documento dactilografado é fiel, atendendo aos dados que Ernest Cros recolheu junto dos habitantes de Rennes-le-Château relativamente às inscrições que estavam na pedra tumular da Marquesa de Blanchefort, parece que estamos perante uma série de enigmas em pedra. Possivelmente as três pedras, as duas do túmulo e a pedra de Coume Sourde, possuem uma mesma explicação, ainda por encontrar.
     Regressando à biografia de Ernest Cros, sabe-se que a sua filha Lucille viria a morrer em 1951, e a sua filha Marthe em 1965, três anos depois da morte do seu marido. Cros ficaria viúvo em 1940. Ele viveria os seus últimos anos, que coincidiram com a Segunda Guerra Mundial, em Ginole. Em 1945, ano da sua morte, Cros mudara-se para Paris, para um apartamento na Avenida Niel. Quando Cros abandonou Ginoles pela última vez, os seus documentos pessoais foram colocados numa casa pequena na estrada principal da aldeia, em frente à antiga capela das termas.
     Em 1960, a casa foi assaltada por desconhecidos que levaram consigo os documentos de Cros. Dois anos depois deste assalto, que deixou os herdeiros perplexos, estes decidiram vender o imóvel.

 

Eugène Stüblein

Eugène Stüblein (1832-1899)
Eugène Stüblein (1832-1899)
     Charles-Louis-Eugène Stüblein nasceu em Sigean, no Aude, a 10 de Setembro de 1832. Era filho de François-Louis-Esprit Stüblein, natural de Saint-Avold, Moselle, na Lorena. François Stüblein foi dos primeiros a obter o diploma de bacharel (pela Universidade de Paris, em 1812). Ele trabalhava para o Duque de La Rochefoucauld, gerindo-lhe a sua fundição em Quillan. La Rochefoucauld obtivera a fundição aquando da morte da sua tia, a Marquesa de Poulpry, em 1820.
     Quando, alguns anos mais tarde, o Duque vendeu a fundição ao Marechal Chauzel, este conseguiu que François Stüblein e a sua mulher Eglantine Maury se mudassem para Sigean, para que este, ficando estabelecido na região, pudesse ficar mais próximo da fundição. Deste casamento nasceram dois filhos: Emile e Charles-Louis-Eugène. Emile foi professor, e viria a morar bastante tempo em Alet-les-Bains.
     Eugène Stüblein casou-se com Joséphine Lacapelle e teve quatro filhas: Eglantine, Corenthine, Arissie e Maria. Como o seu irmão, Eugène também exerceu como professor em várias localidades do Aude: Issel, Ouveillan, Ladern, Saint-Jean-de-Paracol, Alzonne, Quillan, Espéraza e em Nébias, onde ele morou a maior parte da sua vida. Em Nébias, a recordação que persiste dele é sobretudo a de um músico organista e compositor. Eugène dedicava-se a animar as igrejas e as escolas com coros que ele organizava e regia.
     Homem multifacetado, Eugène Stüblein possuía várias paixões: gostava de astronomia, e sobretudo de meteorologia. Tendo obtido sucesso numa série de previsões meteorológicas, Eugène foi contactado por vários jornais locais (Petit Marseillais, Courier de l'Aude, La Dépèche) para escrever pequenos artigos e fazer as suas previsões. Passava também grande parte do seu tempo num moinho de vento, hoje desaparecido devido à Segunda Grande Guerra, onde tinha instalado um pequeno observatório. Stüblein escreveu uma série de cadernos, alguns sobre a história e a geografia de Nébias, outros sobre meteorologia.
     Nos últimos anos da sua vida mudou-se para a quinta de Sauzils (em Les Saules). Sem nunca deixar de lado os seus interesses pela astronomia ele conseguiu em 1882 do Conselho Municipal de Fa (do qual Sauzils depende) a concessão de um terreno comunal para a construção de um observatório. A 18 de Maio de 1884 o presidente da Câmara Municipal, Cyrille Dellac, elegeu-o seu adjunto, e a 10 de Setembro de 1885 ele subiu ao cargo de presidente.
     Eugène Stüblein morreu a 2 de Fevereiro de 1899, na quinta de Sauzils. A sua mulher Joséphine viria a morrer alguns anos mais tarde, a 23 de Junho de 1906.
     Stüblein surge ligado ao mistério de Rennes por lhe ser atribuída a autoria de um livro intitulado "Pierres gravées du Languedoc", impresso em Limoux em 1884. Este livro conteria desenhos de várias pedras e monumentos do Languedoc, nomeadamente os que dizem respeito a este assunto: as duas lápides da Marquesa de Blanchefort e o desenho da Laje dos Cavaleiros. O único vestígio desta "obra" consiste numa série de cópias depositadas na Biblioteca Nacional, em Paris, agora armazenados em microfilme. É possível pedir cópias dos microfilmes, mas são extremamente caras, e sobretudo, desnecessárias, uma vez que se deve tratar de uma infame falsificação.
     Em relação aos desenhos das lápides tumulares da Marquesa de Blanchefort, remete-se o leitor para a análise apresentada na página sobre Nicolas Poussin, mencionando apenas que um deles é da autoria de Elie Tisseyre e o outro é baseado numa reconstituição feita por Ernest Cros, o que iliba automaticamente Eugène Stüblein. Quanto à Laje dos Cavaleiros, é sabido que a descoberta desta pedra deu-se durante os primeiros trabalhos de recuperação levados a cabo pelo padre Saunière. Ora, tendo Saunière chegado a Rennes-le-Château em 1885, não teria descoberto esta laje antes deste ano. Assim, um livro de Eugène Stüblein, ou de quem quer que fosse, publicado em 1884, não poderia conter uma cópia desta pedra. Além disso, o desenho existente nas cópias depositadas na Biblioteca Nacional é idêntico ao do pintor J. Ourtal que foi publicado no Bulletin de la Société d'Études Scientifiques de l'Aude, em 1926, com a excepção de que a assinatura de Stüblein foi forjada. É sabido que ele assinava sempre "Stüblein (des Corbières)":

Assinatura de Eugène Stüblein
Assinatura de Eugène Stüblein

     A assinatura, presente num exemplar de um livro seu existente na Biblioteca de Carcassonne, vem acompanhada de um aviso: todos os exemplares que não possuam a assinatura do autor devem ser considerados como contrafacção. Assim, estando os desenhos depositados na Biblioteca Nacional providos de uma assinatura falsa, e podendo-se atribuir autores verdadeiros aos desenhos, pode-se concluir que estes não foram nunca efectuados por Eugène Stüblein, e o livro "Pierres gravées du Languedoc" nunca existiu.
     O que torna tão simples atribuir um livro forjado a este autor é o facto de as suas obras não estarem devidamente catalogadas. À parte dos seus cadernos sobre meteorologia e nos anúncios em periódicos, Stüblein terá escrito três obras de relativa importância, nenhuma delas devotada a temas arqueológicos:

1. "Description d'une voyage aux établissements thermaux de l'arrondissement de Limoux", de 1877, impresso em Limoux, na casa C. Boute, Rue des Augustins, 13. 31 páginas.
2. "But de promenades et objects curieux qui existent dans les environs de Rennes-les-Bains", de 1884, impresso em Toulouse, na casa Douladoure.
3. "Rennes-les-Bains, Description", impresso em local desconhecido, de 1886.

     As três obras enumeradas estão descritas no livro do cónego Sabarthès, "Bibliographie de l'Aude" (Imprimière F. Caillard, Rue Corneille, 2, Narbonne, 1914), porém, estranhamente, as últimas duas não se encontram em nenhuma biblioteca pública. Nem na Biblioteca Nacional, nem na Biblioteca de Carcassonne, nem nos Arquivos Departamentais do Aude, e nem sequer na Biblioteca de Toulouse, onde pelo menos o segundo livro deveria legalmente existir, em virtude do seu depósito legal naquela cidade. O primeiro livro, esse pelo menos existe nas bibliotecas referidas.
     Assim, como se pode ver, é relativamente fácil depositar cópias forjadas na Biblioteca Nacional, e atribuir-lhes um autor que por si só não se encontra devidamente referenciado. Seja como for, deve dar-se crédito às referências feitas às três obras de Stüblein no livro do cónego Sabarthès, uma vez que este foi padre em Sigean, terra natal de Stüblein.

 

Félix-Arsène Billard

Obituário de Monsenhor Billard
Obituário de Monsenhor Billard
     Monsenhor Félix-Arsène Billard nasceu em Saint-Valéry-en-Caux, a 23 de Outubro de 1829. A sua origem era modesta: o seu pai era tanoeiro e a sua mãe explorava uma mercearia. Em 1850 entra no Grande Seminário de Rouen. Exerce simultaneamente o cargo de professor em Bois-Guillaume, na Institution de Join-Lambert, desde 4 de Outubro de 1850. A 17 de Dezembro de 1853 é ordenado padre. Cinco anos mais tarde, Billard abandona o seu cargo de professor para se tornar vigário em Saint-Rémy de Dieppe, a 29 de Junho de 1858.
     Billard ocupou durante a sua carreira uma série de postos. Exerce em Saint-Patrice de Rouen a partir de 2 de Fevereiro de 1860, e posteriormente na Catedral de Rouen a partir de 14 de Novembro de 1863. A 10 de Agosto de 1868 é colocado pelo seu bispo em Caudebec-lès-Elbeuf. Neste local, Billard faz construir uma igreja em estilo gótico. Torna-se cónego titular de Rouen a 1 de Janeiro de 1877. Com a morte de papa Pio IX em 1878, Billard acompanha o Cardeal de Bonnechose a Roma, ao conclave no qual é eleito Leão XIII. A 10 de Janeiro de 1880 é promovido a vigário-geral de Rouen. No ano seguinte é finalmente nomeado bispo de Carcassonne, a 17 de Fevereiro de 1881, sucedendo ao bispo Leuillieux. Após a nomeação ele é preconizado a 13 de Maio, sagrado em Rouen a 25 de Julho, e finalmente instalado no episcopado de Carcassonne a 6 de Agosto.
     Assim, é Monsenhor Billard quem ocupa o trono episcopal em Carcassonne quando Saunière chega a Rennes-le-Château a 1 de Julho de 1885. O bispo Billard sempre se mostrou simpático com Saunière. Esteve presente na cerimónia de inauguração da igreja, após o restauro, a 6 de Junho de 1897. Nunca entrou em conflito com Saunière nem nunca se deu ao trabalho de investigar a fundo as suas actividades ou os seus recursos financeiros. Muito pelo contrário, é notória a atitude de protecção do bispo, que ajudou o padre nos seus primeiros tempos conturbados em Rennes-le-Château, quando ele pronunciou um discurso fortemente político contra o regime republicano. É também sabido que Billard lutava activamente contra o anti-clericalismo em voga na altura, o que o tornaria mais indulgente e protector face às atitudes de Saunière.
     Porém, Billard estava longe de ser um bispo íntegro. Proteccionista para com alguns padres (Saunière era um deles) e negligente para com outros, o bispo de Carcassonne praticava o tráfico de influências, era facilmente subornável, e geria os dinheiros episcopais de forma duvidosa. Para uma análise mais detalhada destas actividades, veja-se a nota biográfica relativa ao padre Simon Laborde, de Paziols, que publicou um fascículo em 1901 no qual denunciou tudo o que tinha presenciado e tudo o que lhe fora contado.
     Para além das irregularidades na gestão da caixa das pensões de reforma, das quais o bispo nunca apresentou contabilidade justificativa, Billard manteve, sobretudo nos seus últimos anos de vida, dúvidas enormes e injustificadas. Por tal facto, o Vaticano condenou-o a três meses de suspensão, com proibição de rezar a missa, e de cumprir com os seus actos de administração episcopal. Como forma de se penitenciar, o Vaticano impôs-lhe a doação de 200.000 francos para as obras em Prouille. Billard colocara a primeira pedra da nova basílica do mosteiro a 22 de Julho de 1886, e agora era-lhe imposto que abdicasse de parte da sua fortuna pessoal para este empreendimento. O Vaticano especifica que, estando o bispo Billard prestes a receber uma herança, era desta que deveria provir a quantia de 200.000 francos.
     Esta situação, a recepção de heranças por parte de Billard como pessoa individual e não na autoridade de bispo, esteve longe de ser rara. Laborde denuncia tudo isto, aludindo de forma clara à última e mais escandalosa situação de apropriação de heranças em que o bispo Billard esteve envolvido directamente. Não se sabe se seria esta a herança a que se referia a ordem do Vaticano, mas o caso é suficientemente escandaloso para ser aqui mencionado.
     A dada altura da sua carreira episcopal, Billard recebeu uma série de visitas de uma senhora, natural de Coursan, cujo nome de solteira era Rose Denise Marguerite Victorine Sabatier. Ela estava casada com Paul Serge Hérail. Os Hérail tiveram um filho único, que morreu com 15 anos, em Setembro de 1868. Desde nova que Rose Sabatier era tida como mentalmente doente. Um médico de Narbonne, o doutor Py, tratara em tempos as suas crises de histeria. A morte do seu filho único afundou-a ainda mais na demência, levando-a a actos cada vez mais extravagantes. O convívio com a sua mulher num estado tão demente levou Paul Hérail a abandoná-la, tendo ido residir para Paris.
     Nos seus últimos anos de vida, Rose terá convivido mais intensamente com o bispo Billard. As suas visitas ao palácio episcopal deixavam as testemunhas estupefactas pela singular situação do bispo dedicar tanto tempo a uma mulher demente. Porém, Billard estava longe de ficar contagiado pela demência da sua nova aliada. Esta possuía uma fortuna bastante aliciante, avaliada em 1.200.000 francos em 1891.
     A 25 de Março de 1891, Rose sofreu uma crise mais aguda, que lhe provou uma forte apoplexia. Paralisada em metade do corpo, quase incapaz de articular correctamente as palavras, Rose ficou forçosamente encamada. A 15 de Abril, um segundo ataque deixou-a no estado de afasia (perda total ou parcial da voz). Durante todo este período crítico, Rose era assistida por algumas irmãs de uma congregação de Coursan.
     No dia 2 de Maio, um notário apresenta-se no quarto de Rose. Ela ditou-lhe na íntegra a versão final do seu testamento. Note-se que Rose escrevera já uma série de testamentos, a dada altura 40 versões numa só semana, durante o ano de 1880. esta versão final instituía o bispo Billard como o legatário universal de todos os seus bens, logo após a morte do seu marido Paul Hérail.
     A morte de Rose marcou o início de uma contenda jurídica que se prolongaria por anos. Dois dos herdeiros naturais de Rose, o sr. Allègre e o sr. Buscaillon, decidiram contestar o julgamento, e levaram a questão a tribunal, alegando o seu estado de incapacidade mental durante a elaboração do testamento. Foi apresentada uma queixa contra Félix-Arsène Billard por apropriação de herança. Os juízes, Durand, Cros-Mayrenvieille e Joullin, decidiram-se pela inocência de Billard, não se deixando convencer pelas provas de demência apresentadas pela acusação. Os juízes acharam que havia várias razões para considerar Rose como habilitada para elaborar o seu testamento. Primeiro, ela sempre pudera aceder aos sacramentos religiosos, evidência clara da sua razoável saúde mental. Depois, os seus actos extravagantes podiam ser perfeitamente justificados pela dor provocada pela morte do seu filho, sem ser necessário recorrer à justificação da demência. Em última análise, as violentas apoplexias que ela sofreu, e que em última análise lhe provocaram a morte, não poderiam ser responsáveis por uma perda de saúde mental. Como, para além de tudo isto, o legatário universal não estivera presente na elaboração do documento, a tese de apropriação indevida da herança foi rejeitada e Billard saiu incólume.
     A situação, contudo, era bem grave... Uma leitura atenta de uma parte do testamento revela uma influência clara de Billard. Se não, vejamos:

Texto original:

     "Le présent legs est fait à M. Billard, non pas en sa qualité d'Évêque, mais au contraire en son propre et privé nom. Dans le cas où par suite de prédécès, répudiation, ou toute autre cause, M. Billard ne recueillerait pas ce legs, je lui substitue M. Jules Bligny, ancien notaire à Rouen, et pour ce cas mais pour ce cas seulement, j'institue le dit de Bligny pour mon légataire universel."

Tradução:

     "O presente legado é feito ao sr. Billard, não na sua qualidade de Bispo, mas pelo contrário em seu próprio e privado nome. No caso ou na sequência de morte precoce, repúdio, ou qualquer outra causa, o sr. Billard não recolher este legado, eu o substituo pelo sr. Jules Bligny, antigo notário em Rouen, e neste caso mas somente neste caso, eu instituo o dito Bligny como meu legatário universal."

     A situação apresenta claramente o bispo envolvido na elaboração deste documento, se bem que o poderá ter feito à distância, ou talvez antes das crises finais de Rose Hérail. Muito provavelmente, Rose não conheceria este senhor Bligny, "notário de Rouen". Além da clara distância geográfica entre Rouen e Coursan, sabendo que Bligny era um velho amigo de Billard todo o puzzle se encaixa. O texto do testamento garante a Billard, que mesmo que algo venha a interpor-se entre ele e a herança, esta cairá nas mãos de alguém que lhe é muito próximo, e certamente de confiança. Concluindo, ao pé de Billard, os actos desonestos de Saunière decrescem bastante em gravidade.
     Estes incidentes podem ajudar a esclarecer a relação entre os dois homens. O facto de ter sido Billard que presumivelmente recomendou a Saunière a viagem a Paris, tendo-lhe indicado o seminário Saint-Sulpice, onde seria recebido pelo abade Bueil e por Emile Hoffet, dá valor à hipótese de que monsenhor Billard conheceria o segredo, ou pelo menos, estaria a par da sua importância. Contudo, nada prova que o bispo tenha mandado Saunière a Paris. Apenas existem rumores não comprovados.
     Em Março de 1898, Billard sofre uma paralisia que o viria a debilitar progressivamente, obrigando-o a retirar-se para o mosteiro de Prouille. A sua morte a 3 de Dezembro de 1901, no mosteiro de Prouille, foi o início de um período de tormentas para Saunière, pois o novo bispo de Carcassonne, Paul de Beauséjour, dedicou-se a investigar com pormenor a vida peculiar do padre de Rennes.

 

Henri Boudet

     Jean-Jacques Henri Boudet nasceu a 16 de Novembro de 1837, em Quillan. Estudou no seminário de Carcassonne, onde se evidenciou como aluno brilhante, e onde obteve a sua licenciatura em Inglês. Boudet foi ordenado padre no dia de Natal de 1861. Depois da ordenação foi também professor de liceu em Carcassonne.
     Boudet exerceu em várias localidades antes de ser colocado em Rennes-les-Bains. Foi vigário em Durban e padre em Caunes-Minervois antes de ser colocado em Frestes, em 1866. Finalmente, foi destacado para Rennes-les-Bains a 16 de Outubro de 1872, onde substituiu o padre Jean Vié, que morrera a 31 de Agosto do mesmo ano. Foi em Rennes-les-Bains que exerceu o seu último cargo, durante 42 anos, até 30 de Abril de 1914. Nesta data, o padre Boudet reforma-se, passando a residir na sua casa de família em Axat. A casa pertencera ao seu irmão Edmond, notário daquela cidade, que morrera a 5 de Maio de 1907.
Vista da igreja de Rennes-les-Bains
Vista da igreja de Rennes-les-Bains

     Boudet era um homem erudito e dominava perfeitamente o grego, o latim, o inglês e o saxão. Era conhecedor da história da região e pode-se dizer que fez parte do círculo de amigos próximos de Bérenger Saunière. Este é, sem dúvida, depois de Saunière, uma das personagens mais importantes. Se houve qualquer segredo, é muito provável que Boudet estivesse a par dele. Há quem pense até que foi este quem o revelou a Saunière. É também plausível a ligação de Boudet à redecoração da igreja de Rennes-le-Château e às obras que Saunière empreendeu ao longo da sua vida.
     À semelhança do padre de Rennes-le-Château, também se atribuem a Boudet actividades suspeitas no cemitério. Diz-se que ele modificou a pedra tumular do seu antecessor Jean Vié, alterando a data da sua morte. No cemitério de Rennes-les-Bains existe ainda outro pormenor estranho: existem duas sepulturas com o mesmo nome, o do conde Paul-Urbain de Fleury, neto da marquesa Marie d'Hautpoul de Blanchefort.
     Grande estudioso da história da região, Boudet publicou uma obra intitulada "La vraie langue celtique et le cromleck de Rennes-les-Bains", cujo conteúdo é bastante polémico pois Boudet faz estranhas conclusões sobre o passado linguístico da região, insinuando a sua origem celta, e sobretudo afirmando que a língua saxónica é a mais antiga de todas as línguas e que os nomes bíblicos têm nela a sua origem. A obra foi totalmente desprovida de reconhecimento académico e muitos estudiosos disseram que Boudet estava louco quando escreveu o livro. Os críticos mais positivos comentaram que a obra, apesar do visível esforço do autor, não passava de uma fantasia inocente e inconsequente. Adicionalmente, há um facto estranho na sua publicação: a capa do livro refere que ele foi impresso em Carcassonne, na editora de François Pomiès, em 1886, quando é sabido que esta editora encerrou em 1880.

Capa do livro 'La Vraie Langue Celtique', de Henri Boudet Sepultura de Edmond e Henri Boudet - desenho da laje
Capa da primeira edição do livro
La Vraie Langue Celtique, de Henri Boudet
Sepultura de Edmond e Henri Boudet
Desenho da laje

     Quando morreu, a 30 de Março de 1915, Henri Boudet foi sepultado em Axat. O seu túmulo contém uma curiosa inscrição em iniciais gregas sobre o desenho de um pequeno livro: "I.C.O.T.S." (ver a reconstituição acima apresentada da pedra tumular, da autoria de Gilbert Tappa, Cahiers de Rennes-le-Château, vol. III, 1984). Tudo aponta para que sejam as iniciais de uma frase em grego cuja tradução será: "Jesus Cristo Filho de Deus Salvador".

 

Jean Rivière

O padre Jean Rivière
O padre Jean Rivière
     Jean Rivière nasceu a 4 de Abril de 1867 em Quillan. Estudou na escola Saint-Louis, de Limoux, antes de entrar para o Grande Seminário de Carcassonne, onde foi um aluno exemplar.
     Após a sua ordenação, Rivière foi vigário em Saint-Vincent, na cidade de Carcassonne, cargo que começou a exercer em 1890. Em 1900 foi colocado em Brénac, e em 1906 em Espéraza, aldeia natal de Marie Dénarnaud. Em 1920, veio substituir o padre Roudière em Coursan, perto de Narbonne. Na noite de 25 para 26 de Fevereiro de 1929, Jean Rivière sofreu um ataque cardíaco fatal. Foi enterrado no cemitério antigo de Coursan, no jazigo reservado aos padres.
     Jean Rivière surge associado ao mistério de Rennes-le-Château por ter sido ele quem deu a extrema-unção a Saunière. Segundo Gérard de Sède (L'Or de Rennes ou la vie insolite de Bérenger Saunière, curé de Rennes-le-Château, editado no último trimestre de 1967), após ter sido convocado ao quarto do padre de Rennes, Rivière ter-se-ia recusado a administrar-lhe a extrema-unção, tendo abandonado o local num estado de forte perturbação. Gérard de Sède vai ao ponto de dizer que este padre nunca mais sorriu. O autor deverá ter recolhido esta fantasia das lendas orais que circulavam pela aldeia nos anos 60, salvo se a afirmação provir da sua prodigiosa imaginação ou da inspiração directa de Pierre Plantard.
     Já foi afirmado na página de apresentação que, muito naturalmente, Saunière recebeu a extrema-unção do padre Rivière. Sem este derradeiro sacramento, Saunière não teria sido enterrado a preceito, o que decorreu dentro da maior das normalidades no dia 24 de Janeiro de 1917. E não faltam testemunhas ainda vivas que afirmam terem visto Jean Rivière a rir de forma saudável durante os doze anos entre a morte de Saunière e a sua própria morte!

 

Sepultura do padre Jean Rivière
Sepultura do padre Jean Rivière

     Tudo indica que Saunière tenha deixado esta vida sem qualquer laivo de exotismo ou sem qualquer mistério associado à sua morte. Os rumores sobre a morte "estranha" de Saunière vêm, sobretudo, do escritor Gérard de Sède, que como sabemos foi um dos instigadores da mitologia moderna de Rennes-le-Château...

 

Joseph Courtauly

     Citaremos da obra de René Descadeillas, "Mythologie du Trésor de Rennes", páginas 75 e 76, as seguintes notas biográficas sobre o padre Joseph Courtauly, que foram obtidas pelo autor nos Arquivos Diocesanos:

     "Nascido em Villarzel-du-Razès a 31 de Maio de 1890, ele fez os seus estudos em Saint Stanislas, em Carcassonne. Ele não tinha ainda terminado o seu serviço militar quando a guerra eclodiu. Tendo entrado no Grande Seminário após o final das hostilidades, ele foi ordenado padre a 26 de Junho de 1921. Depois de ter exercido durante dois anos no Pequeno Seminário de Castelnaudary como professor, tornou-se cura de Orsans. No seguimento, foi chamado sucessivamente a Villar-St-Anselme, em 1933, a Montmaur em 1940, a Soupex em 1945, a Ladern em 1957. Foi nesta localidade que chegou ao fim o seu ministério. Reformado por razões de saúde na sua aldeia natal a 24 de Agosto de 1961, ele morreu a 11 de Novembro de 1964, com a idade de 71 anos."

 

Jules Doinel

     Jules-Stanislas Doinel nasceu em 1842 em Moulins, no Allier. Doinel surge ligado a este assunto por ter sido uma personagem essencial de um movimento neocátaro que surgiu no final do século passado em França. A sua carreira de arquivista e paleógrafo iniciou-se nos Archives du Cantal, e posteriormente na Biblioteca de Loiret. Foi nesta última que ele encontrou algo que aparentemente mudou a sua vida: uma carta com a assinatura de um chanceler episcopal, de nome Etienne, que fora queimado em 1022, em Orleães, por heresia.
     Foi através desta carta que Doinel tomou conhecimento do grupo sectário do qual Etienne fazia parte. Tratava-se de uma seita de popelicanos, da qual faziam parte homens e mulheres de forma indistinta, e que se estabeleceu na diocese de Orleães, no século XI, durante o reinado de Roberto II. Os membros desta seita eram dualistas, ou seja, acreditavam na luta eterna entre as forças do Bem e do Mal.
     As reuniões da seita tinham lugar em Orleães. Doinel descobriu que uma mulher eslava tinha vindo da península itálica para participar nos encontros, o que indicia que se deveria tratar de alguém com importância para os membros da seita. Possivelmente, a mulher seria uma bogomil, o nome pelo qual são conhecidos os cátaros eslavos. Doinel conseguiu obter várias informações sobre o que se passava nas reuniões dos popelicanos, possivelmente lendo os documentos relativos ao processo do herético Etienne. As reuniões principiavam com todos os participantes entoando litanias com uma vela acesa na mão. Depois, um animal, que deveria representar uma divindade, entrava na sala e colocava-se no meio da assembleia. Era o sinal para que cada um escolhesse um parceiro do sexo oposto e se unisse com ele.
     De entre as crianças que nasciam destes encontros, uma era escolhida para ser "purificada pelo fogo", ou seja, queimada cerimonialmente. Das suas cinzas compunha-se uma mistura que era depois administrada como extrema-unção. Estes horríficos cerimoniais não tiveram vida longa, devido à traição de um dos membros da seita. Um tal de Héribert denunciou-os a um cavaleiro, de nome Arefast, que logo comunicou a situação ao rei. A 25 de Dezembro de 1022, os heréticos foram todos presos e chamados perante o Sínodo, na catedral de Orleães. Três dias depois, treze dos heréticos conheceram a morte pelo fogo, sendo dois deles considerados como os instigadores da seita: Etienne, e o cónego Lisoius, de Sainte-Croix d'Orléans.
     Jules Doinel deverá ter ficado fortemente impressionado pela curta história destes popelicanos, ao ponto de passar a interessar-se fortemente pelas crenças cátaras e pelo gnosticismo. Deve-se, contudo, fazer uma ressalva: os popelicanos não eram, nem cátaros, nem gnósticos. Quando muito, nos seus cerimoniais de sacrifícios humanos, seriam dualistas por mesclarem os princípios do Bem e do Mal. Talvez na sequência do contacto com esta história, Doinel tornara-se num irredutível adepto da gnose. Ele concebia-a da seguinte forma:

Texto original:

     "Le salut vient de la connaissance et non de la foi. La Gnose, joyeuse et forte, aime et jouit de ce qu'elle aime. Dieu, c'est l'amour. L'amour qui est un feu, se distingue de sa soeur déchue, la Débauche, parce que la débauche n'aime pas."

Tradução:

     "A salvação vem do conhecimento e não da fé. A Gnose, alegre e forte, ama e desfruta do que ela ama. Deus, é o amor. O amor que é um fogo, distingue-se da sua irmã pecadora, a Devassidão, porque a devassidão não ama."

     Assim, em 1889, depois de tomar contacto com todas estas ideias, e depois de ter orientado a sua forma de pensar na direcção do gnosticismo, Jules Doinel decide criar uma igreja neognóstica, da qual ele foi, durante muitos anos, o patriarca. Doinel adopta o nome de Valentino II e os títulos de Primado do Albigense e Bispo de Montségur. O ano 1890 assiste ao "renascimento da gnose", com Jules Doinel a organizar a igreja e o culto de acordo com a sua concepção do que deveria ser uma igreja gnóstica, e a declarar numa cerimónia o ano de 1890 como o ano I da restauração da gnose. Restabelece os três sacramentos basilares do catarismo: o Consolamentum, a Fracção do Pão, e o Appareillamentum.
     Doinel estabelece a hierarquia da sua igreja através da nomeação de onze bispos, dos quais uma mulher, Sofia de Varsóvia, e de uma série de diáconos de ambos os sexos. Ao grupo inicial das onze dioceses episcopais (uma por bispo), Montségur, Toulouse, Béziers, Concorezzo, Paris, Milão, Rennes, Varsóvia, Lyon, Bordéus, Carcassonne, juntaram-se posteriormente mais quatro: a diocese da Bulgária, de Perpignan, de Orleães e, finalmente, a da Boémia. Em Setembro de 1893, o sínodo neognóstico reuniu-se para atribuir a Jules Doinel, ou seja a Valentino II, a tutela da diocese episcopal mais importante, a de Montségur. Importa referir que, alguns dias depois da tomada de posse de Doinel, a este movimento neognóstico se veio juntar nas assembleias sinodais a influente Ordem Martinista, criada pelo ocultista Papus (pseudónimo de Gérard Encausse).
     Foi também instituída a Ordem do Paracleto, em honra dos mártires cátaros mortos na Cruzada contra os Cátaros. Doinel empregava ainda os títulos de Bispo de Alet e de Mirepoix. Era frequentemente visto a deambular pelas ruas de Orleães com os seus paramentos violetas. Porém, Doinel iria abandonar cedo este cargo, tendo apresentado a sua demissão em 1894.
     A igreja neocátara ira continuar até à metade da Segunda Grande Guerra. A Doinel sucedeu o poeta Fabre des Essarts, que era redactor no Ministério da Instrução Pública. Fabre, que usou o nome Synesius, ocupou o cargo até à sua morte a 22 de Fevereiro de 1917, em Versailles. Sucedeu-lhe o escritor Jean Bricaud, Johannes, que dirigiu a igreja até à sua morte em 1934. A igreja neocátara terminaria com o sucessor de Bricaud, de nome Chevillon. Este acumulava a liderança do movimento neocátaro com os títulos de Grão-Mestre da Ordem Martinista e Grão-Mestre do Rito de Misraïm, ou do Egipto. Chevillon estava sediado em Lyon, onde tinha o seu "Santuário Soberano" na Rue des Maccabées. O seu fim foi trágico: em 1941, a polícia do governo colaboracionista de Vichy ordenou a sua prisão e a apreensão dos documentos encontrados na sede de Lyon. Os documentos foram considerados sinárquicos e reformistas, ou seja, contrários aos interesses de Vichy. Apesar de não ter nada em comum com a Maçonaria do Grande Oriente, que era claramente anticlerical, e sobretudo subversiva aos olhos de Vichy, a igreja neocátara, bem como todo o movimento martinista que Chevillon encabeçava, foi vista como tal. Chevillon foi condenado à morte e exectuado.
     Regressando a Jules Doinel...
     Sabe-se que é da sua autoria uma obra anónima intitulada La Loque Noire, livro repleto de extravagâncias e de frases inconsequentes. Em 1895, Doinel publica uma obra antimaçónica, "Lucifer Démasqué", sob o pseudónimo de Jean Kotska. Em 1896, dois anos depois do seu abandono da igreja neocátara, Doinel foi nomeado conservador dos Arquivos de Carcassonne. A partir desta data, as suas publicações ganham um tom mais sério e científico, estando relacionadas com a sua actividade de conservador. Como colaborador da Revue Méridionale, publica em 1899 o "Inventaire des titres du monastère royal de Notre-Dame de Prouille". Em 1902 publica "Resurgant". Doinel é ainda o autor da obra "Histoire de Blanche de Castille", editada em Tours.

Capa do livro 'Histoire de Blanche de Castille', de Jules Doinel
Capa do livro
Histoire de Blanche de Castille, de Jules Doinel

     Uma das facetas mais importantes da sua vida é a colaboração activa na revista "La Gnose", baluarte jornalístico da Igreja Gnóstica Universal. O director da revista era René Guénon, o conhecido autor de importantes obras esotéricas como "Le Règne de la Quantité", "La Grande Triade", "L'Ésotérisme de Dante", "Le Roi du Monde", e "Symboles Fondamentaux de la Science Sacrée". Jules Doinel, sob o pseudónimo Valentin, e René Guénon, sob o pseudónimo Palingénius, trabalharam juntos numa catequese gnóstica, elaborada sob a forma de perguntas e respostas, que retratava de modo coerente e, segundo os autores, autêntico, o pensamento gnóstico antigo.
     Jules Doinel morreu em 1902.

 

Marie Dénarnaud

Marie Dénarnaud (1868-1953)
Marie Dénarnaud (1868-1953)
     Marie Dénarnaud era natural de Espéraza, filha de Guillaume e de Alexandrine Dénarnaud. Nasceu a 12 de Agosto de 1868, sendo portanto muito nova (18 anos) quando entrou ao serviço de Saunière como sua governanta. Tinha um irmão chamado Barthélémy.
     Marie Dénarnaud era a confidente de Saunière. A mitologia de Rennes-le-Château atribui-lhe uma série de atitudes e actos não comprovados: diz-se que a governanta jurou silêncio ao padre quando se apercebeu do seu segredo, e que ela o teria surpreendido durante as suas investigações nocturnas no cemitério e na igreja. Diz-se também que ela teria posteriormente passado a auxiliar o padre nestas actividades. Apesar de existirem provas de que Saunière efectuava actividades ilegais a horas tardias (existem várias cartas de queixa por parte da população da aldeia), nada aponta para que Marie o acompanhasse.
     Marie Dénarnaud sabia certamente guardar segredos. Nunca fez nenhumas revelações sobre Saunière, mesmo após a morte deste. Limitava-se a contar aos visitantes histórias do tempo de Saunière, nas quais ela louvava o espírito afável do padre, mas sempre sem entrar em polémicas de tesouros escondidos. Era uma governanta exemplar e a sua devoção ao padre nunca foi posta em causa.
     Saunière albergou a família de Marie no seu presbitério, tendo o seu irmão Barthélémy e o seu pai Guillaume trabalhado como operários na fábrica de chapéus em Espéraza, entre 1895 e 1909 e entre 1894 e 1907 respectivamente. Há rumores de que Saunière se dava muito mal com a mãe de Marie e que tinham frequentes discussões. Numa destas, ele teria abandonado o presbitério para ir dormir na pequena divisão que ele construiu ao lado do cemitério. Marie levar-lhe-ia as refeições, pois Saunière recusar-se-ia a comer à mesma mesa que Alexandrine Dénarnaud. No seu diário, Saunière registou:

Texto original:

     "19/04/1892 - Retour de Carcassonne. Drame le soir. Marie rentre chez elle.
     22/04/1892 - Beau temps. Marie continue à m'apporter les repas."

Tradução:

     "19/04/1892 - Regresso de Carcassonne. Drama (discussão) à noite. Marie volta para casa dela.
     22/04/1892 - Bom tempo. Marie continua a trazer-me as refeições."

     Diz-se que numa das noites em que Saunière dormiu na pequena divisão, Marie foi ter com ele e entraram no cemitério, aproveitando a escuridão para tentar abrir uma sepultura. Teriam sido apanhados pelo presidente da câmara, que impediu assim a profanação. O padre efectuava de facto estas escavações, e após vários avisos, Saunière desistiu deste tipo de práticas, pois corria o sério risco de ser expulso e submetido a tribunal. Contudo, não existem quaisquer provas de que Marie ajudava o padre nas suas escavações, hipótese que até parece inverosímil tendo em conta as exigências físicas que tal trabalho implicaria.
Marie Dénarnaud nos seus últimos anos de vida
Marie Dénarnaud
nos seus últimos anos de vida
     Todas as propriedades de Saunière estavam em nome de Marie Dénarnaud. A governanta servia de fachada legal para as suas posses e quando o padre morreu não havia nada a distribuir, pois tudo o que Saunière tinha pertencia legalmente a Marie. O padre confirmou a legitimidade dela como proprietária através do seu testamento, apoiando-se como justificação na enorme dedicação e devoção da governanta.
     Marie Dénarnaud viveu com conforto na Villa Béthanie até ao fim da Segunda Grande Guerra, altura em que o estado decidiu proceder à renovação do franco, exigindo a prestação de declarações de rendimentos. Marie não possuía tais declarações e apercebeu-se de que o dinheiro que tinha herdado do padre já não tinha valor. Diz-se que ela foi vista a queimar maços de francos velhos.
     Nos seus últimos anos de vida, numa tarde, apareceram na aldeia dois visitantes. Era Noël Corbu e a sua mulher. Tendo ouvido falar da história de Saunière decidiram-se a bater à porta de Marie. Esta contou-lhes a história de Saunière de forma tão empolgante que Noël lhe comprou as propriedades, na modalidade de venda contra renda vitalícia. Ou seja, a família Corbu viveria em casa de Marie, e pagaria a esta uma renda vitalícia. Com a morte de Marie Dénarnaud, as propriedades em nome desta passariam imediatamente para o nome de Noël Corbu. A oficializar este acto, temos uma carta escrita pelo punho de Marie, datada de 22 de Julho de 1946, em que esta institui Corbu como seu legatário universal. Após a morte de Marie, Corbu decide converter a Villa Béthanie num hotel com restaurante que explorasse a vertente turística do mistério de Rennes. Segundo Corbu, Marie prometera-lhe contar "o segredo", porém ela morreu a 26 de Janeiro de 1953 sem cumprir a sua promessa.

 

 

Paul de Beauséjour

Monsenhor de Beauséjour
Monsenhor de Beauséjour
     Monsenhor Paul-Félix Beurain de Beauséjour entra ao serviço como bispo de Carcassonne a 9 de Junho de 1902, em consequência da morte de Félix-Arsène Billard. Após a eleição do novo bispo, Saunière gozou de um período de relativo sossego até 1909, quando educadamente, monsenhor de Beauséjour exige a Saunière explicações para o seu comportamento, explicações estas sempre recusadas. O bispo ordena a sua transferência para a paróquia de Coustouge e o padre Marty é nomeado para Rennes-le-Château a 2 de Julho de 1909. A 4 de Julho, Marty já está em Rennes. A população recusa a substituição, deixando Marty a dar a missa numa igreja completamente vazia. O bispo inicia a sua luta litigiosa contra Saunière, conseguindo a sua condenação a uma pena de dez dias de retiro num convento, que Saunière cumpre a 5 de Maio de 1911. O bispo constitui uma comissão de inquérito, que conseguirá do padre um relatório de despesas. Contudo, este relatório não satisfaz a comissão, e novo processo é movido contra Saunière, sob a acusação de desvio de fundos. A luta prossegue nos tribunais eclesiásticos do Vaticano, e monsenhor de Beauséjour não descansa enquanto não consegue a exoneração de Saunière, que ocorre finalmente a 11 de Abril de 1915.

 

 

 

 

Simon Laborde

O padre Simon Laborde
O padre Simon Laborde
     Simon Laborde, natural de Fraisse Cabardès, no Aude, nasceu a 11 de Março de 1842. Este padre, que exercia na aldeia de Paziols desde 1888, foi contemporâneo de Saunière e do bispo Billard. Laborde permaneceu praticamente desconhecido e aparentemente desligado do assunto em estudo, até à publicação de um fascículo de 12 páginas, por ele assinado, relativo ao bispo Billard. O texto, que consiste basicamente numa nota biográfica, foi escrito um mês após a morte do bispo (a 3 de Dezembro de 1901), com o título Notice biographique sur Mgr Billard, feu Évêque de Carcassonne ("Notícia biográfica sobre Monsenhor Billard, defunto Bispo de Carcassonne"). O padre Laborde assinou o fascículo, datando-o de 25 de Dezembro de 1901.
     Usando uma escrita forte e directa, Laborde ataca de todas as formas possíveis a administração diocesana encabeçada pelo recém-falecido bispo. Laborde critica não só a pessoa do bispo mas também os padres seus protegidos, que aproveitaram os anos de doença do bispo para ganhar poder, cometendo irregularidades. Sigamos um pouco o texto desde o seu início:

Texto original:

     "Notre Diocèse de Carcassonne vient de perdre, ce 3 décembre 1901, son Évêque Mgr Billard Félix Arsène. La lettre capitulaire annonçant cette nouvelle, appelle cette mort un affreux malheur. Ce malheur pourrait être affreux pour les créatures de Mgr Billard si le nouvel Évêque voulait réparer les bévues de son prédécesseur; mais pour le diocèse qui, avec son Évêque malade depuis dix ans, était administré à la diable, on ne voit pas très bien que ce malheur puisse dire affreux; je dis plus: le diocèse peut même regarder cette mort comme une heureuse délivrance."

Tradução:

     "A nossa Diocese de Carcassonne acaba de perder, no passado dia 3 de Dezembro de 1901, o seu Bispo Monsenhor Billard Félix Arsène. A carta capitular que anuncia esta nova, chama a esta morte uma horrível infelicidade. Esta infelicidade pode ser horrível para as criaturas de Monsenhor Billard se o novo Bispo quiser reparar os erros do seu predecessor; mas para a diocese que, com o seu Bispo doente desde há dez anos, era administrada ao acaso, não se vê muito bem como esta infelicidade possa ser dita horrível; digo mais: a diocese pode mesmo encarar esta morte como uma feliz libertação."

     A idoneidade de Laborde pode ser facilmente atestada, mesmo por uma superficial análise biográfica. O padre Laborde estudou medicina, o que lhe granjeou os conhecimentos para enfrentar com altruísmo a grave epidemia da gripe espanhola, que afligiu a região nos anos de 1918 e 1919. Durante este período, o padre nunca se poupou a esforços. Exerceu o ministério de uma forma séria e íntegra do princípio ao fim. Era conhecido pelas suas qualidades humanas, das quais se destacava a humildade. Ele dizia frequentemente: "Para os meus amigos, eu corro; mas para os meus inimigos, eu voo!".
     Laborde vivia com poucos luxos, e satisfazia-se com o simples. Dispunha apenas de uma governanta, por sinal sua irmã, Madame Bonnafous, que o ajudava com as tarefas domésticas. O padre dedicava-se ainda à arqueologia, ocupação de lazer que ele exercia com outra personagem importante para este assunto: o doutor Courrent, de Rennes-les-Bains. Ambos efectuaram em conjunto escavações em sepulturas antigas na periferia de Paziols.
     Laborde recusou-se sempre a pactuar com as actividades irregulares do seu bispo. Por exemplo, o padre de Paziols nunca, durante todo o seu ministério, acedeu em entregar os donativos das suas missas à caixa episcopal. Laborde não confiava na forma como o seu bispo geria os dinheiros da diocese. As irregularidades financeiras foram, segundo ele, excessivas e escandalosas. Vejamos mais algumas partes do fascículo supracitado:

Texto original:

     "Sous prétexte de bonnes oeuvres, des dames viennent avec leur charmant sourire, ouvrir largement leurs bourses à Mgr pour que sa Grandeur y puise à son aise. Après de tels services et de copieux diners, comment voulez-vous que Mgr n'écoute pas cette noble dame qui demande un poste important pour tel prêtre qui lui convient? Et un prêtre méritant est mis de côté naturellement.
     (...)
     Si Mgr avait à faire avec un prêtre dénoncé, alors l'évêque distinguait qu'il ne voulait pas frapper les amis ni les protégés, il se disait à lui-même: «Il y a ici fagots et fagots; distinguons». Si le dénoncé était un créature de sa Grandeur, ou un fils à papa ou un protégé quelconque, Mgr ne tenait aucun compte de la dénonciation...
     (...)
     Pour avoir de l'argent, Mgr n'a jamais, pendant 19 ans, rendu des comptes sur la caisse de retraites. D'après le compte-rendu, nullement éxagéré, de M. le curé de Saint-Marcel, la caisse aurait dû posséder 1.082.121 francs. Mgr, sains raison aucune, n'a voulu, dans la réunion du 27 octobre 1896, accuser que 658.000 francs; et, encore, sans aucune pièce justificative. Le comptable avoue franchement qu'il n'y en avait point: ce qui ahurit tous les prêtres à cette réunion. Je ne dis pas que Mgr ait mis ici de l'argent dans ses poches; mais la caisse aurait eu à sa tête un malhonnête homme d'évêque que ce malhonnête homme ne s'y serait pas pris autrement que l'a fait, pendant 19 ans, sa Grandeur Mgr Billard. Voici un fait brutal qui autorise toutes les suppositions."

Tradução:

     "Sob o pretexto de boas obras, senhoras vinham com o seu sorriso charmoso, abrir largamente as suas bolsas a Monsenhor para que sua Grandeza daí colhesse à sua vontade. Após tais serviços e copiosos jantares, como quereríeis vós que Monsenhor não escutasse uma nobre senhora que pede um lugar importante para tal padre que lhe convém? E um padre de mérito é posto de lado naturalmente.
     (...)
     Se Monsenhor tivesse que lidar com um padre denunciado, então o bispo reconhecendo que não queria atacar os amigos e os protegidos, diria a si mesmo: «Nem todos podem ser iguais» (tradição livre de um provérbio francês, N.T.). Se o denunciado era uma criatura de sua Grandeza, ou um filho do papá ou um protegido qualquer, Monsenhor não levava em conta a denúncia...
     (...)
     Para ter dinheiro, Monsenhor nunca, durante 19 anos, prestou contas da caixa de pensões de reforma. Segundo o relato, nada exagerado, do sr. padre de Saint-Marcel, a caixa teria possuído 1.082.121 francos. Monsenhor, sem razão alguma, não quis, na reunião de 27 de Outubro de 1896, apresentar mais que 658.000 francos; e, ainda, sem nenhuma factura justificativa. O contabilista confirma francamente que ele não as possuía: o que pasmou todos os padres nesta reunião. Eu não digo que Monsenhor tenha colocado aqui dinheiro nos seus bolsos; mas a caixa teria tido à sua frente um homem desonesto por bispo de forma que este homem desonesto não seria visto de outra forma como o fez, durante 19 anos, sua Grandeza Monsenhor Billard. Eis um facto brutal que autoriza todas as suposições."

     Podemos constatar, pelo relato do padre Simon Laborde, que a gestão episcopal de Monsenhor Billard era extremamente irregular. Além de ter "protegidos", o bispo Billard era facilmente subornável no que tocava a colocações e promoções. Mais grave era a sua gestão da caixa de pensões de reforma. Sem possuir contabilidade justificativa, esta caixa era usada pelo bispo como um pequeno tesouro particular. Laborde denuncia actos gravosos da parte do episcopado no que diz respeito a esta caixa de pensões. De acordo com o artigo sexto dos estatutos do Seminário de Carcassonne, entidade tutelada pelo bispado, "Nenhum seminarista será promovido ao sub-diaconato se ele não se comprometer, por escrito, a uma subscrição imediata à caixa de pensões após a sua ordenação". Laborde não hesita em qualificar estas atitudes como sendo da mais pura e inqualificável simonia.
     O padre de Paziols cita ainda a escandalosa situação da apropriação de heranças, a actividade mais grave a que o bispo de Carcassonne se dedicou (para mais detalhes sobre esta situação, veja-se o artigo biográfico relativo a Monsenhor Billard). Tendo em vista estes factos, é agora fácil ver o padre de Rennes-le-Château como um dos mais certos "protegidos" do bispo Billard. Saunière seria com toda a certeza cúmplice do seu bispo, quanto mais não fosse por manter silêncio relativamente a estas actividades. Em contrapartida, Billard veria em Saunière um bom aliado pelo simples facto do carisma do padre de Rennes ser o veículo ideal para angariar fundos e donativos. Porém, comparado com as actividades do seu bispo, o tráfico de missas de Saunière parece bem menos grave!
     Sempre contestatário, Laborde e a sua irreverência levaram a que o seu superior o demitisse. O padre foi forçado a deslocar-se a Roma para aceder ao arbítrio do Papa, que acabou por lhe dar razão. Laborde veio a morrer com 83 anos, a 9 de Abril de 1925, tendo sido enterrado no cemitério de Paziols, onde ainda hoje se pode ver a sua sepultura.

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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