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Noël Corbu e os caçadores de tesouros

 

Índice

1. Introdução
2. A família Corbu
3. O Hôtel de la Tour
4. A imprensa regional acorda
5. Os caçadores de tesouros
6. Robert Charroux
7. As peripécias de Cholet e família
 

 

     Regressemos ao passado, ao tempo da morte do padre Saunière, numa madrugada fria de Janeiro de 1917. A aldeia ficara consternada naquela manhã. O choque fora grande, porque o padre Saunière era uma pessoa muito estimada em Rennes-le-Chatêau e ainda tinha muitos amigos, que apesar das amarguras nunca o abandonaram.
     A 25 de Março de 1917, Marie Dénarnaud requer à Câmara de Rennes a renovação da licença de habitação do presbitério de Rennes, pelo preço de cinquenta francos anuais. A Câmara acede ao pedido, e a licença fica efectiva a 15 de Abril desse ano1.
     Recordemos a difícil situação em que se encontra a governanta: Saunière deixara-lhe tudo o que possuía, mas era uma herança amarga. Ela ficara com todos os imóveis, mas estes estavam hipotecados e o padre não deixara dinheiro algum. Marie tinha que suportar sozinha os custos de manutenção dos imóveis, bem como as prestações ao banco e aos fornecedores, a quem Saunière ficara ainda a dever somas consideráveis.
     Mesmo nesta situação difícil, vender o domínio não era uma opção para Marie, que não era capaz de se separar dos locais onde fora tão feliz. Face à necessidade, Marie optava por vender, a pouco e pouco, o recheio da casa. Assim, de vez em quando, lá fazia o sacrifício de se ver livre de um livro, de um móvel, de uma loiça, para conseguir obter o mínimo indispensável para pagar uma dívida ou para se alimentar.
     No ano de 1925, Dénarnaud acolhia em sua casa a professora da aldeia, de apenas vinte anos de idade. Provavelmente a necessidade de se sentir mais acompanhada levava Marie a acolher pessoas de tempos a tempos. Durante as férias escolares, Marie também acolhia o órfão de Alfred Saunière, irmão de Bérenger, que nascera de uma união com Emilie Salière. As crianças eram bem recebidas em casa de Marie. Eis um testemunho, de René Espeut:

     “Nasci em Espéraza. A minha família conhecia a família Dénarnaud. Em 1925, com catorze anos de idade, eu subia regularmente a Rennes-le-Château. Ia ver Marie Dénarnaud. Ela vivia assaz miseravelmente. Eu estudava a minha harmonia com os harmónios, que [entretanto] desapareceram.”2

     Os poucos padres que tinham permanecido amigos fiéis de Saunière não se esqueceram de Marie Dénarnaud, e visitavam-na frequentemente para com ela partilharem uma refeição, ou para saberem como ela estava. Um destes bons amigos era o padre Grassaud, que foi confidente de Marie durante estes anos difíceis, e que a ajudara a tentar encontrar um comprador para as propriedades. Numa carta datada de 10 de Maio de 1918, o padre Grassaud comunicava a Marie que ela iria em breve receber a visita de um ou dois compradores. A amizade desinteressada de Grassaud por Marie surge evidente nestas recomendações:

     “Recebi da mesma pessoa que lhe falei numa carta há um mês atrás, uma carta onde é dito que você receberá a visita de uma ou duas pessoas para a compra do castelo.
     1) Peça 200.000 francos, e só desça mais tarde a 190.000 francos se for necessário: seja firme. Trate você do assunto sem recorrer ao notário (…).
     2) Os imóveis tornaram-se muito caros.
     3) Neste momento os novos-ricos, os Ingleses e os Americanos, estão à procura de belos imóveis.
     4) Seria melhor que guardasse em sua casa aquilo que quer reservar para si.
     5) Mantenha-se firme no preço.
     6) Quando receber a visita, escreva-me e salvo consiga esse preço, não se comprometa por escrito, sem me escrever [primeiro].
     7) Pergunte sempre quem são as pessoas, ou da parte de quem é que vêm, e coloque isso por escrito.”3

     Na carta, quando se fala no “castelo” é da Torre Magdala que se trata. Deduzimos que Marie estava apenas disposta a vender este imóvel. Passados dois anos, nenhuma venda se concretizara. Marie desabafava com o seu amigo que nunca conseguiria vender por mais de cem mil francos. Cada vez mais desesperada, Marie começava a pensar noutra modalidade: a venda “en viager”, ou seja, a venda contra renda vitalícia. Ela estava disposta a ceder as suas propriedades a quem a quisesse albergar e sustentar, contra o pagamento de uma renda, até à sua morte. Mesmo assim, as ofertas não surgiam…
     O senhor Vergé, de Quillan, recorda como a sua família, depois de ponderar, recusara esta oferta:

     “Eu conhecia bem a criada, mas era ainda demasiado novo para a interrogar sobre o que ela poderia saber. Ela queria deixar todos os seus bens aos meus pais na condição de que estes a tomassem a seu cargo até à sua morte, mas os meus pais não quiseram. Foi certamente uma pena, porque tudo o que ela ainda possuía, a villa, a capela, a torre, os terrenos, a biblioteca, etc., valia o seu peso em ouro…”4

     As dificuldades financeiras de Marie Dénarnaud eram cada vez maiores. O Crédit Foncier de France exigia-lhe os pagamentos do empréstimo contraído contra hipoteca em 1913 pelo padre Saunière. Os serviços fiscais também a pressionavam para que ela regularizasse a sua situação. Os montantes em jogo eram esmagadores.
     Marie recorria aos seus amigos, sobretudo ao padre Grassaud, que lhe emprestaria dinheiro sem qualquer expectativa de o recuperar. Mas nenhum destes seus amigos era muito abastado, e os empréstimos esporádicos não resolviam a sua miséria. Foram décadas difíceis, suportadas penosamente por Marie, até ao final da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, aos setenta e sete anos de idade, quando já não esperava nada da vida, Marie Dénarnaud ainda iria ter uma surpresa. Chamava-se Noël Corbu…

 

 

A família Corbu

 

     Natural de Paris, Noël Corbu nascera a 27 de Abril de 1912. O seu pai chamava-se Henri Corbu. Noël tinha em grande estima o seu irmão mais velho, Pierre-Charles, que fora aviador numa altura em que tal profissão exigia uma enorme coragem. Pierre-Charles obteve o seu brevet a 5 de Agosto de 1920. Teve uma curta mas digna carreira, tendo servido durante os anos vinte como piloto civil nas carreiras Paris-Amsterdão e Paris-Berlim. A sua vida terminaria tragicamente a 10 de Dezembro de 1927. Um artigo no jornal L'Aérophile conta o que sucedeu:

     “A 10 de Dezembro, de manhã, Corbu procedia, em Bourget, aos testes de um monoplano de transporte, equipado com um motor de 500 cv. Estava acompanhado do mecânico Lacoste. (…) Após dois «loopings» sucessivos, o aparelho entrou em queda livre a pique e despenhou-se no solo. O desafortunado mecânico Lacoste, que fazia o seu primeiro voo, foi projectado para fora da fuselagem depois de perfurar o revestimento; Corbu ficou esmagado sob os destroços…”5

     Pierre-Charles deixara uma viúva e dois filhos órfãos. Esta tragédia marcou profundamente o seu irmão mais novo, Noël.
     O feitio de Noël Corbu era peculiar: dedicava-se a vários projectos, mas não se prendia a nenhum. Homem de negócios com pouca sorte, Noël foi gastando a pouco e pouco os recursos que herdara em projectos de pouco sucesso.
     Por volta de 1933 ou 1934, o destino levara-o a Perpignan, onde Corbu conheceu a sua futura mulher, Henriette Coll, que ali nascera a 16 de Julho de 1902. Henriette era uma comerciante modesta, que vendia ovos e produtos lácteos de produção caseira. Noël e Henriette casaram-se a 21 de Janeiro de 1935, e ficaram a morar em casa desta, no número 16 da rua J. Tastu, em Perpignan. Noël montou uma fábrica de produtos alimentaires, que entre 1939 e 1940 produziria massas alimentícias comercializadas com a marca “Claire”, o nome da sua primeira filha. Noël e Henriette já tinham, nessa altura, um filho. Em 1943, Noël Corbu publicou um romance policial, o único livro que escreveria na sua vida, Le Mort cambrioleur.
     Com a libertação do Languedoc-Rossilhão em Agosto de 1944, a família Corbu mudou-se de Perpignan para Bugarach, uma aldeia nos Corbiéres, onde habitavam numa casa alugada ao padre local. Henriette refaria nesta aldeia o seu negócio de sempre. Foi o professor da aldeia de Bugarach, que em tempos tinha sido professor em Rennes e arrendara um quarto em casa de Marie Dénarnaud, que numa conversa com Corbu, lhe sugeriu um passeio turístico a Rennes-le-Château, para ir conhecer a velha Marie, que procurava há muito um comprador para as suas propriedades6
     Num dia ameno de Outono, em 1945, a família Corbu fazia-se à estrada para ir conhecer a aldeia do célebre padre Saunière. Nessa tarde, conheceriam pela primeira vez Marie Dénarnaud. A vida da família Corbu mudaria completamente, bem como a de Marie. Nas palavras do próprio Noël:

     “A meio do dia, chegámos ao terreno plano ao fundo da rua, perto da torre. Notámos, estupefactos, que ela parecia nova. À nossa frente, um gradeamento fechado, um jardim e uma espécie de parque repleto de árvores e arbustos. Dando meia volta, víamos a paisagem agreste montanhosa dos Corbières, que contemplávamos como num miradouro. Pegámos na nossa mesa desdobrável e nas nossas cadeiras, agrupámos os ingredientes do nosso piquenique e sentámo-nos ao sol. Mas faltáva-nos uma coisa: água. Não a tínhamos levado, contando que a encontraríamos no local quando chegássemos. Procurámos uma fonte, uma nascente: nem um sinal de água. E se empurrássemos o portão do gradeamento? Se calhar, lá dentro existiria alguma. Peguei numa garrafa vazia, abri o portão, e desci uns degraus. À minha direita, um imóvel, uma porta, perto de um altar preparado como se alguém fosse rezar a missa. Onde estava eu?"7

     Bati à porta. Uma velha senhora apareceu. Ela adivinhou imediatamente o que eu queria: encheu-me a garrafa, e a conversa começou. Ela acompanhou-me até ao local do piquenique, falou com a minha mulher e regressou a sua casa para almoçar. Uma hora depois, ela regressou e convidou-nos a visitar a sua casa. Seguimo-la e até ao anoitecer, ela contou-nos a sua história e mostrou-nos, em detalhe, o que o «pobre do senhor padre» lhe tinha deixado. Quando partimos, ao cair da noite, ela fez-nos prometer que regressaríamos. E nós regressámos.”

     A família Corbu regressou muitas vezes para visitar a velha Marie. A pouco e pouco, a confiança foi-se instalando e Marie afeiçoou-se à família Corbu. O sentimento era recíproco. Ao fim de uns meses, os Corbu mudaram-se definitivamente para casa de Marie Dénarnaud. Marie vendia a casa em regime de renda vitalícia: a família Corbu ficava com a totalidade dos bens de Marie, mas teria que a manter a seu cargo até ao fim da vida. A 22 de Julho de 1946, Marie Dénarnaud institui Noël Corbu e Henriette Corbu como seus herdeiros universais:

     “Este é o meu testamento feito e datado pela minha mão.
     Deserdo toda a minha família, e faço, por este testamento, do senhor Noël Corbu e da senhora Corbu, nascida Henriette Coll, os meus herdeiros universais. Feito em Rennes-le-Château, a 22 de Julho de 1946.
     Marie Dénarnaud”8

     Os Corbu tinham vendido os seus negócios em Bugarach e estavam instalados em Rennes-le-Château. Mas o espírito inquieto de Noël ainda o levaria a um projecto em Marrocos, onde contava montar uma refinaria de açúcar. O dinheiro começava a escassear e este projecto também não estava a correr da melhor forma. A pouco e pouco, Noël começava a conformar-se à ideia de que tinha que procurar subsistência em Rennes-le-Château.
     Marie Dénarnaud estava habituada a morar sozinha e continuaria no presbitério, enquanto que a família Corbu ocupava a Villa Béthanie. Claire Corbu diz que ela era uma excelente cozinheira e que passava grande parte do seu dia na cozinha, em torno do seu fogão a lenha9. Marie tinha a sua pequena criação de coelhos, de galinhas e de patos. Ao fim do dia, Marie vinha ter com os Corbu para conversar longamente, sobretudo com Noël. Este mostrava-se curioso sobre a vida do padre Saunière, e fazia-lhe muitas perguntas às quais Marie se esquivava airosamente. Mas sempre que falava no seu antigo patrão, Marie fazia as mais surpreendentes afirmações. Uma senhora da aldeia, de seu nome J. Vidal, grande amiga de Marie Dénarnaud, recorda ouvi-la dizer:

     “Com aquilo que o senhor padre deixou, podia-se alimentar toda a Rennes durante cem anos e ainda sobraria!”10

     Era uma frase espantosa, visto que Marie vivia na miséria! Confrontada com esta incongruência, a quem lhe perguntava porque é que ela não usava o suposto dinheiro do padre para viver melhor, ela respondia: “A aquo ni tusti pas!”, o que em patois local quer dizer algo como “Nisso eu não toco!”.
     Se alguém conheceu o padre Saunière a fundo, foi Marie Dénarnaud. Não é inverosímil supor que o padre, enquanto era vivo, tivesse arracando de Marie uma promessa de nunca contar o seu segredo, que seria com grande probabilidade, a fonte das suas receitas: os dons de particulares que misteriosamente deveriam permanecer anónimos, e o tráfico de intenções de missa. Por um lado, Marie queria limpar o nome do seu antigo patrão, afastando as nuvens de suspeita que tinham recaído sobre o padre aquando do processo eclesiástico, e por isso Marie preferia espalhar, a pouco e pouco, a lenda do tesouro. Por outro lado, Marie sentia-se obrigada a nunca quebrar esse sigilo, que porventura dizia também respeito aos achados arqueológicos aquando das obras na igreja e no cemitério.
     A devoção de Marie à pessoa de Saunière era enorme. Todos os dias ela visitava a sua campa, no cemitério. E ficava muito desgostosa quando, por culpa do clima, não podia fazer a sua visita diária. Certa vez, nevara tanto que existiam setenta centímetros de neve. Fechada em casa, Marie desabafaria numa carta a um amigo: “… não vou ao cemitério há seis dias, é uma grande privação para mim, não duvide…”11. Mas, estranhamente, estas visitas ocorriam muitas vezes à noite. Uma vez, ela comentou com Claire Corbu uma dessas visitas:

     “- Esta noite fui seguida por dois fogos-fátuos no cemitério…
     - E não teve medo? – perguntava-lhe eu invariavelmente.
     - Oh! Já estou habituada – respondia-me ela.
     - Mas o que é que fez quando a perseguiram?
     - Caminhei lentamente, e eles seguiram-me… quando eu parava, eles paravam também, e quando fechei a porta do cemitério, eles desapareceram, como sempre.”12

     Este dever da visita ao cemitério era vivido com intensidade. Certa noite, enquanto as pessoas da aldeia velavam alguém que tinha morrido, Marie Dénarnaud sobressaltou-se e perguntou as horas. Vendo que eram já duas da madrugada, saiu a correr para ir ao cemitério. Para ela, era algo que não podia falhar. Um compromisso inadiável!
     Na aldeia, enquanto Saunière fora vivo, Marie era vista com suspeição. Corriam rumores sobre ela, devido à sua idade muito jovem e ao facto de servir um padre. Algo que sucede frequentemente num meio fechado e pequeno como era a aldeia de Rennes. Numa atitude defensiva, Marie sempre se mostrara altiva e segura de si. Não se dava a grandes confianças na aldeia. Mas após a morte do padre, compreendendo o drama da governanta, a aldeia adoptara com ela uma atitude mais amável e preocupada. Convém mencionar que, aquando da morte de Saunière, os pais idosos de Marie Dénarnaud eram ainda vivos, e ela tinha que arranjar forma de os manter. Todas estas preocupações eram somavam-se às já referidas obrigações fiscais e bancárias, e às dívidas aos antigos fornecedores de Saunière e aos seus amigos.
     Por tudo isto, pelo que ela suportou, passadas várias décadas da morte de Saunière, já ninguém estranhava nem comentava as idas de Marie ao cemitério, nem os seus gestos rotineiros de devoção pelo antigo patrão. As pessoas na aldeia compreendiam-na…
     Marie tinha ainda outro problema… Os interesseiros.      Desde pouco depois da morte de Saunière, Marie recebia visitas inesperadas, que não se faziam anunciar, e que vinham por vezes passar umas temporadas com ela. Numa carta, encontramos:

     “… Que ela venha para tua casa, é a tua irmã, mas porquê trazer outros convivas? Será que fazes de hotel? E em relação ao padre de Belvis, o que é que lhe deu para que se quisesse instalar em tua casa com um ou dois padres? Definitivamente, esta gente imagina que tu tens um restaurante. Vêm sem razão, tranquilamente, sem motivo… Porquê?”13

     A hospitalidade de Marie era usada abusivamente. Que interesse teriam estas pessoas? Simplesmente aproveitar-se das condições da casa, e passar uns dias sem despesas e em conforto? Ou quereriam bisbilhotar os papéis do “misterioso” padre Saunière? Estaria Marie a começar a sofrer pelas lendas que lançara sobre um tesouro?
     É de suspeitar que se tratasse principalmente desta segunda hipótese. Marie apercebera-se do interesse dos curiosos pela papelada de Saunière. Por esta razão, ela foi vista a queimar maços de papel e de documentos no parque14.
     Esta história, passada de boca em boca, tornar-se ia nos anos sessenta numa lenda do Priorado de Sião, primeiro referida por Gérard de Sède: a de que Marie queimara maços de notas logo a seguir à Segunda Guerra Mundial. Ora este episódio, presenciado por mais que uma testemunha, teria ocorrido pouco depois da morte de Saunière, no final dos anos vinte, e não no fim da Guerra. Além disso, ninguém vira “notas”, mas sim maços de papel e pacotes de documentos.
     Com o passar dos anos, Marie tornara-se desconfiada... Muitos dos “simpáticos” visitantes iam-se embora com qualquer coisa escondida debaixo da roupa ou nos bolsos. Aos poucos, o interior das casas era pilhado sem que Marie o pudesse impedir. Claire Corbu e Antoine Captier dizem que “já não restava nem um só selo da sua colecção, que ele próprio [Saunière] avaliara em mais de 100.000 exemplares”15. Lembra Pierre Jarnac: “Nunca mais se soube o que aconteceu com a maravilhosa colecção de moedas antigas reunidas por Saunière”16.
     Ao entrar na Villa Béthanie e na torre Magdala pela primeira vez, a família Corbu ter-se-á espantado por encontrar os espaços muito pouco mobiliados. Para onde teria ido a maioria dos móveis? Infelizmente, foram levados por credores…
     Numa carta enviada por Marie a um credor, ela escreve, em claro desespero:

     “… Venha cá, que eu lhe dou tudo o que quiser… Tenho móveis, linhos, vinhos, licores, tenho tudo menos dinheiro, e ainda não vendi nada, mas a si não recusarei nada…”17

     A família Corbu assistiu aos últimos anos de Marie, que andava cada vez com mais dificuldade. No final da sua vida, ela desistira de morar no presbitério, e passara a viver com os Corbu na Villa Béthanie. Noël Corbu continuava a tentar obter dela o tal “segredo”, saber o que escondia a velha Marie. Mas sem grande sucesso…
     Num dia de Janeiro de 1953, a sogra de Corbu bateu à porta do quarto de Marie para lhe trazer o pequeno-almoço. Ninguém respondeu. Aberta a porta, verificou-se que ela respirava lentamente e não se conseguia mexer. Chamou-se um médico, que disse que não havia nada a fazer. Poucos dias depois, a 29 de Janeiro, Marie perdeu a consciência. Na noite do dia seguinte, ela morria sem ter contado o tão ansiado “segredo” a Noël Corbu. Sepultaram-na junto ao seu antigo patrão, o padre Saunière, dentro do jazigo que este tinha construído no cemitério.

 

 

O Hôtel de la Tour

 

     Noël Corbu precisava de arranjar forma de subsistir e de sustentar a sua família. Romanticamente, ele depositara esperanças no “segredo” da velha Marie, esperando que esse segredo fosse constituído por um qualquer depósito de valores ao qual ele pudesse recorrer. Marie morrera sem dizer nada! Imaginamos a sua frustração. Contudo, Noël não desanimou, e cedo começou a procurar por todo o lado qualquer pista, qualquer indício que lhe permitisse descobrir o “segredo”.
     Foi então que formou na sua mente a ideia, o projecto, de transformar a Villa Béthanie num hotel com restaurante, chamado “Hôtel de la Tour”. O local era bonito, agradável, e havia condições para o fazer. Mas como fidelizar os clientes? Como fazê-los voltar todos os anos, e trazer novos clientes?
     Para Corbu, só havia uma forma de o conseguir: aproveitar a história de Saunière.
     Nos últimos meses de 1953, o hotel estava pronto para abrir as suas portas.
     Corbu tivera tempo para folhear e percorrer a papelada de Saunière. Ele já conhecia muitos detalhes da sua vida, as alturas boas, as más, mas do “segredo” nem sinal. Contudo, tinha material mais que suficiente para constituir um “romance”: a lenda do padre Saunière. Noël Corbu gravara numa fita magnética a sua própria versão, cheia de encantos e de pequenas fantasias, da agitada aventura do padre de Rennes, transformado neste relato no “padre dos milhões”.
     Era na sala de jantar que os clientes, enquanto comiam, escutavam esta fita magnética através dos altifalantes ali colocados para esse efeito. E que detalhes curiosos figuravam nesta fita… Os lendários projectos de Saunière, nunca executados: a construção de uma estrada Rennes-Couiza para ser estreada pelo automóvel novo do padre; o fornecimento de água a todos os habitantes de aldeia; a construção de uma capela nova no cemitério; a construção de uma torre com cinquenta metros de altura, com livros ao longo das escadas. Segundo Noël Corbu, a 5 de Janeiro de 1917, Saunière teria aprovado todos estes empreendimentos, que, diz ele, “ascendiam a oito milhões-ouro, ou seja, mais de dois milhares de francos em moeda corrente”18.
     Depois, na mesma fita, Noël esboça uma teoria: o segredo de Saunière seria a descoberta do tesouro dos Capetos, um tesouro que ali teria sido escondido no século XIII. Com o rei S. Luís na Cruzada, a sua mãe, a rainha Branca de Castela, ficara como regente em Paris. Segundo Corbu, a regente achara que a cidade de Paris se tinha tornado num local inseguro para guardar o tesouro real, sobretudo com as agitações por causa da “Revolta dos Pastores” liderada pelo maître Phillipe da Hungria. Ela teria, então, transportado o tesouro para Rennes. As peripécias históricas, com a morte da rainha Branca de Castela, e a de S. Luís em Túnis, teriam feito com que o tesouro caísse no esquecimento. Por essa razão, alguns anos mais tarde, já no século XIV, o rei Filipe IV, o Belo, teria recorrido à cunhagem de moeda falsa, porque o tesouro real desaparecera. Avaliando este tesouro em milhões de francos, a fita magnética de Corbu congelara a versão moderna do mito de Rennes. Daqui, o estafeta Pierre Plantard iria pegar no testemunho e continuar o mito.

 

 

A imprensa regional acorda

 

     A 12 de Janeiro de 1956, surgia um artigo no Midi-Libre, com o título O fabuloso tesouro dos Visigodos foi descoberto pelo padre de Rennes-le-Château?19. Este artigo era o segundo de uma série chamada Les trésors cachés de l'Aude. Neste artigo, insinuava-se que Saunière enriquecera à custa da descoberta do tesouro dos Visigodos.
     No mesmo dia, surgia a publicação de uma entrevista de Noël Corbu a Albert Salamon, jornalista do La Dépèche du Midi. O título era A fabulosa descoberta do padre dos biliões de Rennes-le-Château: com um golpe de picareta no pilar do altar-mor, o padre Saunière traz à luz do dia o tesouro de Branca de Castela20.
     No mesmo dia, dois artigos sobre o mesmo mistério, mas com duas explicações totalmente diferentes! Salamon uma origem para o tesouro (Branca de Castela) e um local para a descoberta (o velho altar-mor da igreja). Salamon tinha entrevistado Noël Corbu para obter material para este seu artigo, por isso, a sua versão é a de Corbu, com alguns toques sensacionalistas.
     A 13 de Janeiro, Salamon publica a segunda parte: A fabulosa descoberta do padre dos biliões de Rennes-le-Château: um habitante de Carcassonne contemporâneo do padre afirma: «Vi numa divisão do castelo caixas repletas de lingotes»21.
     Surgem pela primeira vez por escrito, porque já figuravam na fita magnética, as "lendas" sobre os projectos de Saunière, nomeadamente a construção de uma torre de cinquenta metros de altura, o fornecimento de água a todas as casas da aldeia e a reconstrução da estrada Rennes-Couiza.
     A 14 de Janeiro, o jornalista publica a terceira parte: A fabulosa descoberta do padre dos biliões de Rennes-le-Château: o senhor Noël Corbu conhece o esconderijo do tesouro do padre Saunière que se eleva a 50 biliões?22.
     Nesta terceira parte, Salamon fornece as respostas a algumas das questões que colocou a Corbu. Este último contou ao jornalista como se dava com Marie Dénarnaud, falou-lhe do segredo que esta guardava, das promessas por ela feitas de que Corbu se tornaria imensamente rico quando ela morresse. Mas Marie morrera sem revelar o seu segredo, e Corbu tinha que se contentar com a lenda e com o seu Hôtel de la Tour...

 

 

Os caçadores de tesouros

 

     A pouco e pouco, começam a surgir em Rennes-le-Château os primeiros visitantes. Vêm primeiro os curiosos, e só mais tarde os “investigadores”. Corbu pusera em marcha uma poderosa atracção turística que nunca mais iria parar.
     Aos jornalistas e aos poucos privilegiados, Noël Corbu deixava consultar os arquivos do padre Saunière23. Todos queriam aproveitar a estadia na aldeia para bater à porta do velho castelo de Rennes, propriedade de Henri Fatin, cujo pai Marius comprara o monumento por volta de 1946-4724. Henri Fatin alimentava o interesse dos curiosos: muitos se recordam das suas visitas guiadas, durante as quais, com recurso aos mapas da região, ele mostrava aos turistas que os principais pontos do Razès, montes, aldeias, castelos, se correspondiam no mapa da mesma forma que certas constelações se correspondiam no firmamento25.
     É certo que Corbu procurara uma forma de rentabilizar o seu negócio, porque ele precisava de clientes, mas por outro lado ele tinha uma verdadeira paixão pela caça ao tesouro. Para lá das fantasias que inventara para romancear a história de Saunière, ele procurou o tesouro, firme na crença de que ele existia.
     Nos primeiros meses de 1956, Corbu obteve as autorizações necessárias, tanto da autoridade civil como da autoridade eclesiástica, porque tencionava escavar na igreja e no cemitério. Corbu podia também contar com a ajuda de vários entusiastas, entre os quais um reputado radiestesista de Carcassonne, o senhor D'Esperonnat, que de bom grado fechara o seu consultório na cidade para se juntar à equipa. O grupo de Noël Corbu contava com cinco pessoas. Todos tinham assinado um documento pelo qual se comprometiam a reservar ao proprietário a exacta metade do que fosse encontrado26.
     Um dos membros da equipa era o senhor Fagès, que conhecera bastante bem o padre Saunière. Em 1909, Fagès escrevera um artigo sobre uma visita que fizera a Rennes, para o Bulletin de la Société d'études scientifiques de l'Aude. Ele lembrava-se de “ter visto o padre Saunière levantar o pavimento da nave e descobrir, na ala central, em frente ao púlpito, a entrada subterrânea de uma cripta”27. A equipa tinha tudo o que precisava, até a localização exacta da cripta!
     Por isso, começaram pela igreja de Santa Maria Madalena. Mas, levantado o pavimento, não se encontrou nada: apenas terra mole, que escavada até um metro de profundidade, revelou uma camada de cal, com ossadas à mistura. Por detrás do altar, encontraram um crâneo humano com uma incisão no topo. Imediatamente sugeriram que se poderia tratar de uma incisão ritual, com um objectivo mágico28.
     Sem perder tempo, passaram ao cemitério, onde gastaram cinco dias sem mais uma vez acharem nada. Daqui, passaram ao presbitério, onde o resultado foi idêntico. A 31 de Março de 1956, um Sábado, faziam prospecções no parque e na vizinhança da Torre Magdala. Ao cair da noite, o radiestesista tropeçara em qualquer coisa, e com uma intuição repentina gritou para o grupo: “aqui, aqui há qualquer coisa, é aqui que é preciso escavar”29.
     O entusiasmo crescia. O grupo conseguira rapidamente escavar num quadrado com quatro metros de lado porque a terra estava macia, e parecia ter sido inserida propositadamente naquele local. Ao chegar ao metro e meio de profundidade, surgiu um crâneo e umas ossadas. Enfim, nada de mais natural no sub-solo de uma aldeia tão antiga como Rennes. Foi o que eles pensaram, e por isso continuaram a escavar… Tinham descoberto algo de verdadeiramente macabro, mas porque a noite caía e já se via mal, os trabalhadores demoraram a dar-se conta do facto. A certa altura, repararam que os cães de Noël Corbu andavam entusiasmados em torno do crâneo e das ossadas. Olhando com atenção, notaram que agarrados aos ossos ainda subsistiam pedaços de carne e de cabelo. O horror instalou-se. Não tiveram mais sangue-frio e as actividades ficaram por ali. No dia seguinte, 1 de Abril, logo pela manhã, Corbu telefonou à polícia para dar conta do achado…
     Feitas as primeiras indagações pela polícia, alertou-se a esquadra principal em Carcassonne. Foi instaurado um inquérito30. No início da tarde selou-se o parque. Uma equipa de cinco pessoas escavou no local para apurar na totalidade o que se tinha posto a descoberto. Montaram-se tábuas de madeira para permitir a separação e organização das ossadas e dos restos mortais. Identificaram restos de vestuário que pareciam de tipo militar. Em duas horas, foram recompostos três esqueletos de homem, com idades estimadas pelos peritos entre os 25 e os 35 anos. Tudo indicava que não teriam morrido de doença, mas não havia provas de terem sido assassinados. Após alguns inquéritos, chegou-se à conclusão, pela datação aproximada dos restos mortais, que poderiam ter pertencido a uma guarnição de soldados da resistência espanhola, que estivera em Rennes entre o final de 1944 e o início de 1945.
     Tratava-se de um grupo pequeno de homens, e na aldeia ainda muitos se recordavam dos seus nomes, mas o período de permanência foi tão curto, e a rotação dos homens era tão frequente, que não era possível adivinhar de quem seriam aqueles cadáveres. Os restos mortais foram inumados no cemitério e o caso foi esquecido.
     Mas a equipa do tesouro não desmoralizou e rapidamente regressou aos trabalhos. Chamou-se um técnico de perfuração e fez-se um buraco para sondar o sub-solo. Ao fim de três metros surgia um estrato de rocha maçiça. Usou-se a dinamite e o buraco prosseguiu. Ao fim de vinte metros, sem que nada mudasse na consistência do solo, desistiu-se deste buraco. A equipa passou ao sopé da falésia, no lado noroeste da aldeia, onde existia, dizia-se, a entrada para um subterrâneo, que se encontrava murada. Mas ao final de algum tempo de escavações também essa pista se revelava falsa. Os trabalhos foram interrompidos por esta altura, em Junho.
     A 3 de Outubro, um novo artigo de Albert Salamon no jornal La Dépêche du Midi, Rennes-le-Château: «Terre de squelettes», dava conta da recente descoberta de mais um esqueleto, que o artigo dizia ser “da época ibérica".
     Existem duas versões desta descoberta. A versão de Salamon, proveniente de Corbu, dá conta da descoberta do esqueleto durante as obras de terraplanagem para as fundações de uma nova cozinha. O esqueleto encontrava-se junto a um vaso de aspecto muito antigo. Corbu, apoiando-se na opinião de René Nelli, então conservador do Museu de Carcassonne, "datou" o esqueleto como sendo de aproximadamente 700 a.C., e daí a referência do artigo a um "esqueleto da época ibérica". Contudo, muitos anos mais tarde, a sua filha Claire, juntamente com o marido Antoine Captier, no seu livro31, dariam uma versão diferente dos factos: segundo eles, a descoberta teria ocorrido durante as obras de instalação de água corrente nas casas da aldeia, quando os operários escavavam um fosso em frente à porta principal da Villa Béthanie. Claire Corbu diz que o esqueleto tinha sido datado do século VIII ou IX d.C..
     Por esta altura, as agitações provocadas por estas empreitadas faziam-se sentir na região. Em sessão plenária, em Novembro desse mesmo ano, a Société des arts et des sciences de Carcassonne decidiu montar uma equipa de investigação para tirar a limpo a tese do tesouro32. Os trabalhos desta equipa, composta por investigadores sérios e de reputação, foram iniciados na Primavera do ano seguinte, em Março de 1957. Durante todo o ano procurou-se o mais leve vestígio de tesouro. A conclusão foi negativa.

 

 

Robert Charroux

 

     Tudo mudaria com a chegada a Rennes-le-Château do pesquisador Robert Charroux, de seu verdadeiro nome Robert-Joseph Grugeau (1909-1978), que vinha acompanhado da sua mulher Yvette e de alguns colaboradores. Naquele tempo, Charroux não era ainda muito conhecido e apenas publicara artigos discretos em jornais. Só em 1962 surgiria a obra mais popular de Charroux, Trésors du Monde33, que faria dele um autor conhecido e lhe daria milhares de leitores em vários países do globo.
     Charroux trazia uma novidade tecnológica, um detector de metais!
     O engenho fez sucesso. Era visto como uma maravilha da técnica. Robert Charroux usou o seu detector para auscultar o pavimento da igreja, o cemitério, e praticamente todas as paredes antigas na aldeia. Foi um trabalho extenuante: Charroux percorreu quase todos os cantos de que se lembrou, e o resultado não foi animador. Encontrara uma velha armadura enferrujada, armas velhas, algumas peças pequenas de prata e de bronze que tinham sido emparedadas, um punhado de moedas antigas, e pouco mais…
     O investigador, bastante desanimado, suspeitava de Corbu e criticava-o:

     “Não encontrámos o que procurávamos. Despendemos muito suor. Tenho fotografias do Robert Arnaud a escavar à bruta, e a desaparecer por um buraco adentro. Hoje, suspeito que Corbu, um homem cheio de charme, nos tenha colocado numa pista falsa, ou pelo menos, numa pista anexa que, sem dúvida, não era a melhor… Ele conhecia melhor que ninguém a história de Saunière e do famoso tesouro. Ele dedicara a sua vida à descoberta deste último. Se ele tivesse querido verdadeiramente colaborar connosco, com os detectores de que dispunhamos, creio que poderiamos ter conseguido… (…)
     Corbu, teria que ter encontrado alguma coisa sozinho: uma parte, sem dúvida, e não a totalidade, do que Marie Dénarnaud, criada de Saunière, teria guardado em lugar seguro. Deveriam existir vários esconderijos. O padre era um homem matreiro. Ele não deve ter colocado tudo no mesmo pé-de-meia…”34

 

 

As peripécias de Cholet e família

 

     Neste mesmo ano de 1958, chegava de Paris uma personagem curiosa que se apresentava como engenheiro, o senhor Cholet. Ele surgira em Rennes com um ar independente de quem não tinha que dar satisfações a ninguém. Chegara munido das autorizações necessárias e preparava-se para escavar na igreja de Rennes.
     O curioso era que ele trazia consigo alguns pergaminhos que tinha descoberto no castelo de Montfort-Amaury (Yvelines), antigo feudo da família Montfort35. Segundo Cholet, estes pergaminhos continham uma descrição detalhada da igreja de Rennes36. Nunca ninguém viu tais pergaminhos, mas com ou sem eles, Cholet aterrou em Rennes nas primeiras semanas de 1959, juntamente com a sua mulher e genro, para dar início às pesquisas no interior da igreja.
     Apesar de vigiado pelo padre Rigaud, de Couiza, que fora destacado para supervisionar os trabalhos do “engenheiro”, o trio Cholet revirou a igreja toda: o pavimento foi levantado, juntamente com as peanhas dos santos e o altar-mor. Sondaram as paredes todas e vasculharam o campanário de alto a baixo. Por fim, reviraram a sacristia. Resultado: foram encontrados alguns esconderijos, mas estavam todos vazios.
     Tudo isto durou três meses, altura em que um acontecimento bizarro pôs fim às pesquisas do trio Cholet. Eles trabalhavam sempre à porta fechada dentro da igreja, e numa tarde de Abril, perto das cinco e meia, quando se preparavam para abandonar o local, Cholet tomou a dianteira e abriu a porta para o exterior. Deu um passo em direcção à soleira da porta mas assustou-se com uma sombra. Instintivamente, recuou um passo. À sua frente desfazia-se nesse instante um pesado tabuão, que caindo estrondosamente no chão, por pouco não o esmagou.
     A polícia foi chamada e chegou-se a uma conclusão sinistra: o tabuão fazia parte de um andaime que estava instalado numa casa em reparação. Alguém tinha retirado o tabuão do andaime, tinha colocado o dito sobre a porta da igreja, deixando-o suspenso por um fio de nylon preparado para se soltar com a abertura da porta. Um atentado, portanto!
     Arrepiado com o sucedido, o senhor Cholet abandonou as pesquisas em Rennes para nunca mais regressar. Consta que teria feito um repouso forçado de quatro meses para poder recuperar do susto.
     Mas muitos mais chegariam à aldeia à procura do tesouro. Dois deles são mencionados por Pierre Jarnac37 por terem ficado de tal forma fascinados pelo local que compraram casas na aldeia: o normando Roland Domerg e o parisiense Alain Chatillon.
     Nos anos que se seguiram, o negócio da restauração no Hôtel de la Tour começou a ir de mal para pior, e em 1964 Corbu teve que encontrar outra actividade para subsistir: construiu uma pequena manufactura de leques e abats-jour. Mas um incêndio reduziu tudo a cinzas, e se não fosse a cobertura do seguro, Corbu teria caído na ruína financeira. No ano seguinte, Corbu decidiu mudar o seu escritório para Fanjeaux, uma localidade entre Carcassonne e Mirepoix38, na mesma altura em que vendia, para espanto de muitos, os imóveis em Rennes-le-Château. O novo proprietário, Henri Bouthion, adaptou-se muito bem às lendas e aos mitos de Rennes, e os caçadores de tesouros continuaram as suas actividades sob a égide de Bouthion.
     Precisamente por esta altura, em torno de 1964 e 1965, dois visitantes, então meros desconhecidos, percorriam a região à procura de minúcias para a compilação de um “dossiê Rennes”: Pierre Plantard e Gérard de Sède. Das suas incursões turísticas pelo sul de França falarei no próximo capítulo.
     Quanto a Noël Corbu, a sua vida teria um desfecho trágico a 20 de Maio de 1968, quando no cruzamento de Prouilles, na estrada de Montpellier para Fanjeaux, chocou com um camião que não lhe dera prioridade…

 

1 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 230.
2 Ibidem, p. 232.
3 Ibidem, p. 234.
4 Ibidem, p. 235.
5 Artigo datado de 1 de Janeiro de 1928, cfr. Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 238.
6 Corbu, Captier, op. cit., pp. 1-2.
7 Ibidem, pp. 242-243.
8 Ibidem, pp. 243.
9 Corbu, Captier, p. 11.
10 Ibidem, p. 12.
11 Ibidem, p. 13.
12 Ibidem.
13 Ibidem, p. 15.
14 Ibidem.
15 Ibidem, p. 35.
16 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 232.
17 Corbu, Captier, p. 17.
18 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, pp. 246-247.
19 No original: “Le fabuleux trésor des Wisigoths a-t-il été découvert par le curé de Rennes-le-Château?”, cfr. Jarnac, Les archives du trésor de Rennes-le-Château, p. 3.
20 No original: “La fabuleuse découverte du curé aux milliards de Rennes-le-Château: d'un coup de pioche dans un pillier du maître-autel l'abbé Saunière met a jour le trésor de Blanche de Castille”, cfr. Jarnac, Les archives du trésor de Rennes-le-Château, p. 4.
21 No original: “La fabuleuse découverte du curé aux milliards de Rennes-le-Château: un Carcassonnais contemporain de l'abbé affirme: «J'ai vu dans une pièce du château des caisses remplies de lingots»”, cfr. Jarnac, Les archives du trésor de Rennes-le-Château, p. 5.
22 No original: "La fabuleuse découverte du curé aux milliards de Rennes-le-Château: M. Noël Corbu connait-il la cachette du trésor de l'abbé Saunière qui s'élève à 50 milliards?", cfr. Jarnac, Les archives du trésor de Rennes-le-Château, p. 5.
23 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 252.
24 O velho castelo de Rennes, um importante monumento medieval, foi comprado por Marius Fatin aos irmãos Dalbies, de Couiza, que estavam na posse do mesmo desde 1867. Anteriormente, o castelo pertencera ao casal Avignon-Captier, que o comprara num leilão, a 2 de Setembro de 1816, à última sobrevivente da família Hautpoul-Blanchefort, de seu nome Elisabeth. Cfr. Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, pp. 252-253.
25 Lincoln iria inspirar-se nestas teorias para as suas obras The Holy Place e Key to the Sacred Pattern.
26 Como assinala Descadeillas, a precaução era inútil, pois a lei prescrevia precisamente o mesmo. Cfr, Descadeillas, op. cit., p. 55.
27 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 253.
28 Este crâneo ficou na posse do Dr. Malacan, um dos membros da equipa. Cfr. Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 255.
29 Descadeillas, op. cit., p. 56.
30 Era composta pelo juiz de instrução Castres, pelo capitão de polícia Conte, e pelo médico forense Monié. Cfr. Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 256.
31 L'Héritage de l'Abbé Saunière, p. 50.
32 Descadeillas, op. cit., pp. 57-58.
33 O título completo era Trésors du mode, enterrés, engloutis, emmurés, Fayard, 1962. Esta obra dedica aproximadamente doze páginas ao mistério de Rennes-le-Château, e contém o relato mais aproximado da lenda de Saunière, conforme composta por Noël Corbu. Seria reeditada em 1972.
34 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, pp. 257-258.
35 O nome Montfort ficou tristemente célebre graças a Simon de Montfort, uma das personagens-chave na ofensiva sangrenta contra os Cátaros, no Languedoc, no século XIII.
36 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 258.
37 Ibidem, pp. 260-261.
38 Ibidem, p. 262.

 


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