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História do Priorado de Sião

 

Índice

1. Introdução
2. O regresso a Paris
3. Turismo cultural pelo Languedoc…
4. O caso Lionel Burrus
5. Le Serpent Rouge
6. Os Dossiers Secrets
7. Os pergaminhos codificados
8. O primeiro pergaminho
9. O segundo pergaminho
10. A ampliação do mito
11. Propaganda anglo-saxónica
12. Os últimos anos de Plantard
13. O canto do cisne
 

 

     Depois desta incursão pelo período áureo da caça ao tesouro em Rennes-le-Château, regressamos à biografia de Pierre Plantard, no ponto onde a tínhamos deixado: a mudança de Paris para Annemasse, na Alta Sabóia.
     Casado em data incerta com Anne-Léa Hisler (?-1970), Pierre Plantard ter-se-á mudado antes de Maio de 1951, altura em que teria nascido a sua primeira filha. Não é fácil obter dados sobre a sua vida pessoal. Do relatório de polícia de 4 de Maio de 1954:

     “Antes do seu casamento, ele morava com a sua mãe desde 1942, no número 10 da rue Lebouteux (17ème). Esta, que não ouve falar dele desde Maio de 1951, afirma que ele se encontra actualmente na região de Annemasse (Alta Sabóia)1.

     Plantard trabalhava como desenhador industrial nos estabelecimentos Chanovin2, e morava no Edifício B, Sous-Cassan, 74100 Annemasse, Alta Sabóia3. O casamento com Anne-Léa duraria pouco, com o divórcio consumado em 1956, segundo afirmou o próprio Plantard numa carta4.

 

Primeira página da carta de pedido de constituição do Priorado de Sião (1956) Segunda página
Primeira página do pedido de constituição
do Priorado de Sião (1956)4a
Segunda página

 

     Neste mesmo ano, Plantard cria o Priorado de Sião. A associação foi declarada legalmente5 a 20 de Julho de 1956 com o objectivo de “estudo e entre-ajuda dos membros”6. O pedido de autorização de constituição foi efectuado a 7 de Maio de 1956, na Sub-Prefeitura de Polícia de Saint-Julien-en-Genevois7 (Alta Sabóia), mediante uma carta assinada pelos quatro fundadores: Pierre Plantard, André Bonhomme8, Jean Deleaval e Armand Defago. A sede social estava estabelecida na casa de Plantard, em Sous-Cassan. O objecto da sociedade, conforme consta no Journal Officiel, era:

     "a constituição de uma ordem católica, destinada a restituir numa forma moderna, conservando o seu carácter tradicionalista, o antigo cavaleiro, que foi, pela sua acção, a promotora de um ideal altamente moralizante e o elemento de um melhoramento constante das regras de vida da personalidade humana."9

     Vemos que Plantard não deixara nada ao acaso: pelas suas palavras, ele estava apenas a reconstituir uma “ordem católica” antiga, que fora “a promotora de um ideal altamente moralizante”.
     A sociedade usava como sub-título a designação C.I.R.C.U.I.T.10, acróstico de "Cavalaria de Instituição e Regra Católica e de União Independente Tradicionalista". Circuit era também o nome da revista do Priorado de Sião, editada em Annemasse, cujo primeiro número data de 27 de Maio de 1956, e que viria a ter onze números na primeira série. Neste primeiro número a revista apresenta-se como “Boletim de informação e defesa dos direitos e da liberdade dos lares”. Plantard e os seus sócios, com esta publicação, apresentam-se como os paladinos da reivindicação de qualidade nas habitações sociais nas regiões da Sabóia, da Alta Sabóia, do Loire, e de Seine-et-Oise. Vejamos um excerto de um artigo na primeira página do primeiro número:

     “O escândalo das «Cidades de Urgência»11 começa a eclodir; assinalamos que 168 famílias protestam junto do presidente da Câmara de Mantes, em Seine-et-Oise, porque as habitações construidas no ano passado, e que lhes foram atribuidas em Abril, começam a ruir.”12

     Após um interregno de dois anos, em Julho de 1959, Plantard faz renascer a revista Circuit, mas desta vez com o sub-título Publication périodique culturelle de la Fédération des forces françaises. Esta segunda série da Circuit teria apenas nove números, e a sede da revista muda para o número 116 da Rue Pierre Jouhet, em Aulnay-sur-Bois (Seine-et-Oise). A tónica da revista regressa a um estilo próximo da Vaincre: o nacionalismo francês. No segundo número, datado de Agosto de 1959, encontramos a seguinte nota, relativa à recepção de uma suposta carta do General De Gaulle:

     “Ficámos sensibilizados pelas numerosas cartas de simpatia que nos foram enviadas de França e do Estrangeiro. Tocou-nos particularmente o testemunho do senhor Presidente da República, o qual numa carta de 27 de Junho de 1959, quis agradecer ao senhor Plantard pela sua acção.”13

     No nono número (Abril-Maio de 1960), podemos encontrar um anúncio de Plantard, sob o pseudónimo de Chyren14, publicitando serviços de cartomância e vidência15. A morada do anúncio é exactamente a mesma da sede da Circuit.
     Apesar de Plantard afirmar que se divorciara de Anne-Léa Hisler em 1956, podemos constatar, a partir do oitavo número da Circuit (Março de 1960), que ela colabora ao seu lado na redacção da revista.

 

 

O regresso a Paris

 

     Em 1961, de regresso à capital16, Plantard inicia a fase de depósitos na Biblioteca Nacional de Paris. O vasto leque de documentos depositados por Plantard ao longo de vários anos ganharia fama e ficaria para a posteridade com o nome de um deles, os Dossiers Secrets, ou “Dossiês Secretos” (depositado em 1967). Durante vários anos, tanto Plantard como os seus colaboradores irão recorrer a este método económico de publicidade para as suas mistificações. Importa sublinhar que o facto destes documentos terem sido depositados nesta biblioteca não implica, de forma alguma, um aval da instituição relativamente ao conteúdo dos ditos.
     A 10 de Agosto de 1961, Plantard deposita Tableaux comparatifs des charges sociales dans les pays du «Marché Commun», ou seja, “Quadros comparativos dos encargos sociais nos países do «Mercado Comum»”. O opúsculo de vinte e quatro páginas vem assinado Pierre 'Plantard', e traz em rodapé a referência C.I.R.C.U.I.T., a revista oficial do Priorado17.
     Apenas para as enquadrar na cronologia do Priorado, repetimos aqui duas datas fundamentais: a publicação em 1962 dos livros de Gérard de Sède, Les Templiers sont parmi nous, e de Robert Charroux, Trésors du monde.
     A 18 de Janeiro de 1964, Plantard deposita Généalogie des rois mérovingiens18, um documento datado de 1956, e atribuido a um suposto genealogista “Henri Lobineau”. Neste documento, uma das peças-chave da mistificação do Priorado, podemos encontrar onze árvores genealógicas, cuja função é a de solidificar as teses do Priorado de Sião sobre os merovíngios e sobre a perpetuação da sua linhagem através dos “Condes de Razès”. Segundo esta documentação, descendentes dos merovíngios teriam sido escondidos durante séculos em Rennes-le-Château19. A árvore mais importante, porque é a mais fantasiosa, diz respeito à descendência de Dagoberto II, considerada inexistente pela maioria dos historiadores. Neste documento do Priorado, a linhagem merovíngia surge continuada pelo casamento de Dagoberto II com uma fantasiosa “Giselle de Razès”, e cuja descendência se teria ligado de modo assaz complexo às famílias Plantard e Saint-Clair. Relembro que Pierre Plantard assinou durante muitos anos com o nome “Plantard de Saint-Clair”. Ao longo das árvores genealógicas podemos também encontrar as primeiras referências a Godofredo de Bulhão, o líder da Primeira Cruzada (1099), que surge aqui como o “fundador da Ordem de Sião”.
     Um engenhoso jogo de palavras da autoria de Pierre Plantard!
     Godofredo fundou, de facto, uma Abadia de Nossa Senhora de Monte Sião. Mas esta Abadia não tem nada que a relacione com a mistificação do Priorado, como se pode deduzir pelo estudo do historiador francês do século XIX, E.-G. Rey20.
     No final destas árvores genealógicas encontramos um texto, de título L'Énigme de Rhedae, assinado “Henri Lobineau, genealogista, Março de 1954”. Este texto é a primeira referência explícita à lenda dos “misteriosos pergaminhos” descobertos pelo padre Saunière. Neste texto, fala-se do “jovem Padre Hoffet”, que teria ajudado Saunière na tradução dos referidos pergaminhos, que “revelariam o segredo de Rhedae”, e fala-se também pela primeira vez na “morte misteriosa” de Saunière.
     É a partir deste ano que Plantard começa a apresentar-se como descendente merovíngio. Plantard ambicionava desde novo desempenhar um papel “messiânico”, vestindo a pele do Grande Monarca, do “rei perdido”. Estas árvores dinásticas fantasiosas davam-lhe o suporte que ele precisava para levar avante a mistificação. Afinal, quantos leitores seriam capazes de detectar os erros genealógicos nestas árvores? E quantos se dariam ao trabalho de as verificar?
     Em 1965, Anne-Léa Hisler deveria morar com Pierre Plantard em Paris, porque surge depositado a 25 de Fevereiro de 1965 na Biblioteca Nacional de Paris um documento da sua autoria, intitulado Rois et Gouvernants de la France: Les Dynasties depuis l'origine21, que traz a morada de Plantard na capital: a Avenue Victor Hugo. Esta obra é um plágio da obra de Louis Saurel, Les rois et les gouvernements de la France, des origins à nos jours, publicada no primeiro número da revista Les Cahiers de l'Histoire, em 1960. A única parte não plagiada da obra de Anne-Léa Hisler é a parte relativa aos fantasiosos antepassados merovíngios do seu ex-marido.
     A 26 de Agosto de 1965, é depositado um texto sob o pseudónimo de Madeleine Blancassall, Les descendants mérovingiens ou l'énigme du Razès wisigoth22, um longo texto de vinte páginas repleto das fantasias essenciais do Priorado, entre elas a dos famosos pergaminhos:

     “A 17 de Janeiro de 1781, Marie de Negri d'Ables, marquesa d'Hautpoul-Blanchefort, no seu leito de morte, confia o seu «segredo» entregando um pergaminho ao seu confessor, o padre Antoine Bigou, cura de Rennes-le-Château desde 1774.
     Seguindo as indicações da sua penitente, o padre visita as ruínas da antiga igreja de São Pedro, situada no lado sul da aldeia. Ao pé de uma parede meridional da sacristia, uma laje giratória revela uma «passagem» e nesta passagem encontram-se um pequeno cofre, dois rolos de madeira lacrados a cera. O padre apressa-se a subir esta escadaria secreta que está repleta de ossadas. No interior dos rolos, ele descobre quatro pergaminhos onde estão escritas litanias a Nossa Senhora e duas passagens dos Evangelhos, uma de São Lucas (capítulo VI) e outra de São João (capítulo XII). Certas anomalias das letras representam uma «mensagem codificada». Feita a tradução com a ajuda do pergaminho legado pela marquesa defunta, o padre Bigou decide que não ocorrerá mais a transmissão de mão em mão nem de boca a orelha. Atendendo à situação política cada vez mais incerta, ele decide deixar uma mensagem pública que gravará na pedra e cujo complemento de descodificação será escondido como o fora no passado. Empreende então a redacção da inscrição «funerária» da marquesa.
     Eis o ano de 1790. Oito anos de trabalho culminaram em treze linhas de um texto com duplo sentido. O texto escondido é um anagrama do texto aparente que contém nele mesmo a forma de ser descodificado. Uma laje funerária é gravada e colocada no cemitério. É a mensagem.
     Devido ao seu estado de ruína, a antiga igreja de São Pedro ameaça ser totalmente destruída. Deste modo, o padre Bigou decide colocar os pergaminhos na igreja de Santa Maria Madalena. Para o fazer, ele esvazia o pilar direito do altar visigótico que servirá de receptáculo aos rolos de madeira. Ele vira ao contrário, de face para o solo, a pedra tumular que se encontrava em frente ao altar. Desde modo, o segredo confiado pela última marquesa d'Hautpoul-Blanchefort encontrava-se repartido por uma inscrição funerária e por pergaminhos escondidos. (…)”

     É também neste documento que encontramos a tradução do pergaminho codificado mais complexo, que revela a frase “Bergere…”.
     Referi atrás que também se encontra neste documento de Madeleine Blancassall a referência ao falso livro Lazare, veni foras! atribuido a Boudet, bem como a menção à obra La Vraie langue celtique, de Boudet, que estaria codificada de forma a guardar o segredo. Outro trecho curioso é o que dá conta de uma fantasiosa visita do Priorado de Sião a Saunière:

     “Em 1891, o padre Saunière recebe dois estranhos visitantes que se declaram delegados de uma misteriosa sociedade: o Priorado de Sião. Eles revelam-lhe a existência de um «segredo» na sua paróquia e a extraordinária lenda de um «tesouro», assinalando-lhe a curiosa inscrição que subsiste no cemitério. Sendo bom padre, o pobre cura não deixa de avisar o seu bispo, Monsenhor Billard, que não tarda a honrá-lo com a sua visita. Sua Grandeza deixa deslizar na conversa uma palavra sobre a vida exemplar e de extrema generosidade do padre Boudet, e depois diz algumas palavras sobre uma tradução do «pergaminho na igreja de Santa Madalena». Por fim, ao partir, Monsenhor empresta ao padre Saunière o livro do cura de Rennes-les-Bains, «La Vraie langue celtique».”

     Trata-se da mais pura fantasia!
     Apercebemo-nos deste modo da enorme importância destes primeiros documentos depositados na Biblioteca Nacional de Paris, que permitem compreender as várias fases de montagem da mistificação moderna de Rennes.
     Mas o texto de Blancassall é um verdadeiro poço sem fundo de material desinformativo. Encontramos referências ao padre Hoffet, que teria passado «toda a sua vida a tentar estabelecer uma legítima descendência de Dagoberto II, o santo, (…) até aos dias de hoje”. É espantoso ler neste documento que teria sido o próprio Hoffet a “visitar Gisors, dando ao jardineiro Roger Lhomoy indicações a respeito dos famosos 30 cofres depositados numa capela Santa Catarina”!
     Blancassall diz que, “seguindo os conselhos do padre Hoffet, o cura de Rennes teria visitado o Museu do Louvre para ali contemplar as obras de Poussin e de Teniers”, porque segundo estes mistificadores, Saunière ficara intrigado com a frase resultante da descodificação do segundo pergaminho, uma frase que mencionava Poussin, Teniers e uma “pastora”.
     O documento de Blancassall divaga longamente sobre a “fortuna” do padre Saunière, cuja origem misteriosa estaria relacionada com a omnipresente “sombra do Priorado de Sião” sobre a cabeça do padre. Regressam os exagerados relatos da “vida faustosa” de Saunière, obtidos via Noël Corbu, onde se diz que o padre coleccionaria “animais raros, macacos, papagaios, etc., canários alimentados a bolacha, (…) consumo de bebidas alcoólicas diversas, entre as quais: uma tonelada mensal de rum (…)”. E o que dizer da “teoria” de Blancassall relativamente aos últimos anos de Saunière, que está em total contradição com a história real?

     “No fim de 1916, uma grande decisão é tomada pelo padre de Rennes: ele quer pregar uma «nova religião» e «empreender uma cruzada na região». Ele despede o representante da Ordem de Sião que lhe prestara uma visita. Ele pretende não receber outras ordens senão as de João XXIII23, o último descendente merovíngio. Ele começa a reunir 8 000 000 francos em notas de banco. O pânico reina no Bispado de Carcassonne enquanto os prelados do Vaticano se comovem com esta situação. O Priorado de Sião recebe friamente este sucedido e os meios políticos julgam em plena guerra esta manobra indesejável.
     O padre Saunière não tem em conta estes acontecimentos, e a 5 de Janeiro, ele encomenda:
     - a construção de uma estrada através da montanha em direcção a Couiza para nela poder guiar o automóvel que comprara para si;
     - o fornecimento de água a todos os habitantes da comuna, que seria alimentada por uma piscina para os «baptismos da sua religião»;
     - a construção de uma capela inovadora na aldeia, e de uma torre de mais de 50 metros de altura de onde planeava falar aos seus fiéis.”

     Estes últimos detalhes relativos à ficção dos projectos não concretizados pelo padre, foram retirados, sem alteração, do relato da fita magnética de Noël Corbu. Para terminar, outra lenda famosa: a do saco dos milhões em notas que teriam sido queimadas por Marie Dénarnaud logo após o final da Segunda Guerra Mundial:

     “Vinte e oito anos de espera com milhões num saco de viagem… para terminarem na catástrofe de 1945. Eis o drama: a fim de caçar as fortunas suspeitas construidas durante a Ocupação, o governo Bidault tinha decretado a troca das notas de banco. Marie recusou-se a trocá-las, e então queimou no seu jardim perto de 8 000 000 francos em notas.”

 

 

Turismo cultural pelo Languedoc…

 

     Mas como tinha Plantard encontrado todo este valiosíssimo património lendário? O relato de Madeleine Blancassall evidencia uma mestria clara na verdadeira história do padre Saunière, que é engenhosamente misturada com falsidades e fantasias. Mas como conhecera Plantard a história atribulada do padre Saunière?
     É René Descadeillas, historiador de Carcassonne, quem nos dá valiosas pistas. Segundo este historiador, tão cedo como em 1965, já o sócio de Plantard, o jornalista Gérard de Sède, andava pelo sul de França em “trabalho de campo”:

     "Em 1965, apareceu na região uma personagem que não estávamos acostumados a encontrar. Era um jornalista, o senhor de Sède. Ele vinha de Paris. Era conhecido por ter, dois anos mais cedo, publicado na editora Julliard um livro, «Les Templiers Sont Parmi Nous», onde ele se tinha esforçado por demonstrar que os Templários, prevendo a interdição da sua ordem, teriam escondido os seus imensos bens no castelo de Gisors, no Vexin. Numa tarde de Março de 1966, ele chegou a Carcassonne depois de uma paragem em Villarzel-du-Razès onde lhe teriam negado, dizia ele, o acesso à biblioteca do falecido padre Courtauly.
     De que vinha ele à procura?
     Segundo ele, o padre Courtauly, falecido em 1964, possuía obras raras, nomeadamente uma obra de Stüblein, «Pierres gravées du Languedoc»24, indispensável a quem quer que tentasse penetrar no mistério de Rennes. Uma olhada na «Bibliographie de l'Aude», do padre Sabarthès: a obra em questão não figurava nem sob a assinatura de Stüblein, nem sob qualquer outra. Que livro seria este?
     O senhor de Sède possuía também fotocópias de dois documentos estranhos pela sua disposição e pela sua grafia: eram reproduções dos «pergaminhos» descobertos pelo padre Saunière aquando da demolição do altar-mor da sua igreja. Onde teria ele obtido os originais? Outro segredo. Aparentemente, o autor desta série de disparates tinha tentado imitar uma escrita da Idade Média. Mas a contrafacção era tão grosseira e tão inapropriada que um estudante de primeiro ano não a teria aceite sem exame. Foram submetidos à perspicácia do arquivista departamental cuja opinião foi prontamente sabida.
     O senhor de Sède procurava ainda duas publicações recentes:
     MÉTRAUX Maurice, «Les Blanquefort et les origines vikings, dites normandes, de la Guyenne sous la Féodalité», Bordéus, Imp. Samie, 21, Rue Teulère, 1964, brochura de 24 páginas com gravuras,
     e
     LOBINEAU Henry, «Généalogie des rois mérovingiens et origine des diverses familles françaises et étrangères de souche mérovingienne, d'après l'abbé Pichon, le docteur Hervé et les parchemins de l'abbé Saunière, de Rennes-le-Château (Aude)», in-fólio de 45 páginas, ilustrações a cores, esgotado, multigrafado, Genève, edição do autor, 22, Place du Mollard.”

     Descadeillas, após algumas indagações, conseguiu obter uma informação valiosa sobre estas obras: tanto a de Métraux como a de Lobineau figuravam no Catálogo Geral da Biblioteca Francesa26. Já sabemos como é que o pseudo-Lobineau figurava neste catálogo: graças ao depósito legal da obra por Pierre Plantard a 18 de Janeiro de 1964! Não satisfeito, Descadeillas pediu mais informações sobre a obra de Lobineau à Biblioteca Universitária de Genebra, bem com à Biblioteca Municipal da cidade: nem um sinal de uma obra com este título por Lobineau. As razões são óbvias…
     A obra de Métraux, por outro lado, era bem real, mas era sobre a cidade Suíça de Blanquefort, e não tinha nada a ver com Rennes-le-Château.
     E o que dizer da obra de de Stüblein, Pierres gravées du Languedoc, que teria pertencido a um tal padre Courtauly, falecido em 1964?
     Vejamos o que diz Descadeillas:

     “Faltava o «Pierres gravées du Languedoc», por Stüblein, do qual os papéis Lobineau nos davam um aperitivo. A obra permaneceu impossível de encontrar. Não voltámos a pensar no assunto e possivelmente nos teríamos esquecido dela se, no início de Setembro de 1966, o padre de Rennes-les-Bains não tivesse recebido de Paris, em sobrescrito lacrado, de um «termalista desconhecido», uma pequena brochura contendo fotocópias de gravuras parecidas às que figuravam no Lobineau com, à guisa de prefácio, algumas palavras do padre Courtauly27. Este declarava em resumo «com o objectivo de ser útil aos pesquisadores» ter extraido da obra de Stüblein as gravuras que diziam respeito a Rennes-le-Château e a Rennes-les-Bains. A estranheza desta brochura, a sua total falta de autenticidade, os propósitos atribuídos ao padre defunto e incapaz de protestar, reforçaram ainda mais a suspeição que tínhamos sobre esta literatura. (…)
     As «Pierres gravées du Languedoc» são então um mito e, não hesitamos em afirmá-lo, a pequena brochura de extractos fotocopiados imputada ao padre Courtauly que nunca se interessou por arqueologia, é uma falsificação. Como são falsas as reproduções que ela contém: pedras ou lajes contendo sinais cabalísticos, a cabeça esculpida do presbitério de Rennes-les-Bains travestida em Dagoberto, os quadrados mágicos ou ditos mágicos e «tutti quanti».
     Mas porquê utilizar o nome do padre Courtauly? Porquê escolher este padre de preferência a outro qualquer? Porquê misturá-lo nestas efabulações, neste esoterismo primário? Prestar-se-ia a uma exploração ultrajosa dos seus feitos e gestos? Nada que se pareça: o padre Courtauly permaneceu toda a sua vida o bom e modesto padre de aldeia que ele sempre quis ser, não tendo outra preocupação senão as suas «ovelhas» e as suas homilias dominicais.”28

     As interrogações de Descadeillas são pertinentes. De onde surgira o interesse de Plantard pelo padre Joseph Courtauly (1890-1964)? O historiador de Carcassonne levanta, finalmente, a ponta do véu, ao falar sobre as “expedições culturais” de Plantard ao Languedoc, altura em que este teria conhecido o padre Courtauly nas termas de Rennes-les-Bains:

     “Como teria este bom e velho padre acabado por ter o seu nome associado a estas efabulações aberrantes? Por que surpreendente concurso de circunstâncias? Ainda nos perguntaríamos se não tivéssemos sabido que nos seus últimos anos de vida, quando estava a banhos em Rennes-les-Bains, ele encontrava frequentemente uma curiosa personagem que começava a ser costume ver por estas paragens desde o final dos anos cinquenta. Ele morava em Paris. Não tinha ligações à região nem relações conhecidas. Era um indivíduo difícil de definir, apagado, secreto, cauteloso, não desprovido de uma eloquência que aqueles que o interpelaram diziam ser imbatível. Ele não seguia um tratamento médico regular. Assim questionava-se sobre as razões das suas aparições repetidas, porque ele vinha mesmo no Inverno. Igualmente, conjecturava-se sobre o interesse que despertavam nele as curiosidades naturais ou arqueológicas, porque não se tratava de um intelectual. Ele intrigava as gentes pela estranheza das suas atitudes: ele ia, calcorreando a região, inquirindo sobre a origem das propriedades, deitando de preferência o olho a matagais ou terras abandonadas que não interessavam a ninguém. Que queria ele fazer? Desbravar estas terras desoladas e nelas lançar a charrua? Vocação bem tardia: ele já não era novo. (…)
     As suas idas e vindas, as questões que ele colocava a uns e a outros não podiam ficar sem eco. Tinham-no por um maníaco e alguns possivelmente riam mesmo dele sem suspeitarem de que o homem usava todos os estratagemas para constituir um dossiê onde os acontecimentos banais, os pequenos factos, tomavam proporções inesperadas, onde reflexões sem interesse, apreciações precipitadamente feitas, palavras no ar adquiriam tanto mais relevo quanto ele as colocava na boca de pessoas respeitáveis e estimadas pela sua sabedoria, mas talvez enfraquecidas pela idade. Ele não temia em atribuir-lhes declarações que gravava num gravador de cassetes, onde é possível, como se sabe, a quem quer que seja debitar uma história qualquer. Assim atribuiu ele ao padre Courtauly propósitos extravagantes que não concordam nem com a vida nem com o carácter deste padre. Neste ponto, aqueles que conheceram e privaram com o padre são formais.
     Posto isto, damo-nos conta, pelo próprio jogo das concordâncias, que a mesma personagem era o autor dos papéis Lobineau. Provavelmente estaremos perante um paranóico porque ele próprio inscreveu o seu nome em bom lugar na pretensa descendência do rei Dagoberto II."29

     Descadeillas não refere o nome de Plantard, e a razão é simples: escrevendo em 1968, precisamente no auge da mistificação do Priorado, o historiador não desejara meter-se em problemas citando o nome de Plantard, mas é evidente que é deste que se trata.
     A 13 de Maio de 1966, é depositado na Biblioteca Nacional de Paris um texto atribuído a Antoine l'Ermite, Un Trésor Mérovingien à Rennes-le-Château30. O nome do autor, mais uma vez um pseudónimo, inspira-se na figura do eremita Santo Antão. A intenção é a de sugerir o quadro A Tentação de Santo Antão, do pintor Teniers, devido à frase descodificada do segundo pergaminho, que falava em “Teniers” e em “tentation”. Pierre Jarnac provou de forma muito clara31 que este texto de Antoine l'Ermite é o plágio de um capítulo do Trésors du monde32, de Robert Charroux.
     A 20 de Junho do mesmo ano, é depositado o forjado Pierres gravées du Languedoc, atribuido a Eugène Stüblein33. O frontispício deste documento de oito páginas traz a menção “Limoux, 1884”, e um pequeno texto explicativo atribuido de forma enganadora ao padre Courtauly:

     “O livro de Eugène Stüblein, edição de Limoux 1884, tendo-se tornado muito raro, e sendo eu talvez um dos raros proprietários a tê-lo na sua biblioteca, devo satisfazer os numerosos pedidos de pesquisadores que me pedem que faça reproduzir as pranchas deste livro, dos números XVI a XXIII sobre as localidades de Rennes-les-Bains, Rennes-le-Château e Alet. Abril de 1962, Padre Joseph Courtauly, Villarzel-du-Razès, Aude.”34

     A função principal deste documento, que contém reproduções de autênticos vestígios arqueológicos da região, é a de inserir neste conjunto, que até é credível, uma pseudo-reprodução, porque não passa de uma falsificação, da suposta pedra tumular horizontal da Marquesa de Hautpoul-Blanchefort35.

 

A suposta pedra tumular horizontal
A suposta pedra tumular horizontal

 

     Esta reprodução é importante para a mitologia do Priorado porque traz, entre outras pistas, a frase latina “ET IN ARCADIA EGO” em maiúsculas gregas, associada à questão do quadro de Poussin, Os Pastores da Arcádia. Outro detalhe curioso é o da figura de uma “aranha”, que se for invertida na vertical revela ser exactamente igual à figura de um polvo que surge na obra de Paul Lecour, L'Ère du Verseau36.
     É este o modus operandi de Plantard e dos seus colaboradores: o desenho falsificado, que não se encontra em mais lado nenhum senão nestes documentos depositados na Biblioteca Nacional de Paris, surge misturado no meio de referências arqueológicas reais. Neste caso, surge no meio de reproduções retiradas do trabalho do médico Paul Courrent (1861-1952)37, que estudara um manuscrito arqueológico datado de 1709 da autoria do padre Delmas, de Rennes-les-Bains.

 

 

O caso Lionel Burrus

 

     As mistificações do Priorado também fazem falar os mortos…
     Um dos casos mais caricatos, e com todos os ingredientes de um romance policial, é o de Lionel Burrus. A polémica é composta apenas por duas peças documentais: uma reprodução da sexta página de um suposto jornal, o Semaine Catholique Genevoise, datado de 22 de Outubro de 1966, que contém o artigo Faisons le point… atribuido a um certo Lionel Burrus; e uma carta de resposta a este artigo, intitulada Réponse à Monsieur Lionel Burrus, supostamente escrita em Levallois-Perret a 5 de Novembro do mesmo ano por um tal “S. Roux”.
     Trata-se de um estratagema do Priorado para simular uma polémica inexistente, através de dois textos falsos que dão a entender uma guerra intelectual entre duas facções católicas que teria como razão de ser os segredos de Rennes-le-Château.
     O Priorado não poupou esforços para publicitar mais esta criação. A reprodução do artigo de Burrus foi depositada na Biblioteca Nacional de Paris a 29 de Outubro de 1966, ou seja, sete dias após a data atribuida ao artigo. Por sua vez, a carta de resposta de S. Roux foi depositada a 25 de Novembro, ou seja, vinte dias após a data atribuida à carta. Ao menos neste ponto a cronologia é coerente. Contudo, o jovem suíço Lionel Burrus, filho de uma importante família de Genebra e na altura com apenas vinte anos, morrera em Setembro desse ano num desastre de automóvel38, e é com dificuldade que o imaginamos como autor de um artigo datado de 22 de Outubro.
     Para além do depósito destes documentos na Biblioteca Nacional de Paris, os seus autores também se preocuparam em enviá-los ao historiador René Descadeillas, e a um padre da região, cujo nome Descadeillas omite39. Estes dois textos também seriam publicados na obra de 1973 do autor suíço Mathieu Paoli, Les dessous d'une ambition politique40. Vejamos agora extratos dos dois textos, começando pelo artigo atribuído a Burrus:

     “É preciso lapidar um homem morto! Isto parece bem pouco conforme aos ensinamentos da nossa Religião, e contudo foi o que sucedeu com Henri Lobineau, de seu verdadeiro nome Léo R. Schidlof, falecido em Viena (Áustria) com 80 anos de idade, a 17 de Outubro passado.
     Um boletim católico romano datado de 20 de Outubro aproveita-se do falecimento de Lobineau para empreender uma acusação contra o homem e os seus escritos. Roma acusa-o de ter sido um «pró-soviético, um notórico franco-maçon, preparando em França uma monarquia popular»… só mesmo sendo um padre italiano se poderia escrever este tipo de oração fúnebre!
     Em 1956, Henri Lobineau escrevia um estudo notável de perto de cinquenta páginas, em texto alemão, sobre a genealogia dos Reis Merovíngios e o caso Rennes-le-Château em França, do qual uma dúzia de páginas se encontram na Biblioteca Nacional de França (…). Foi então indispensável aguardar DEZ ANOS e a morte de Lobineau para que Roma se dignasse a vir sujar a memória de um homem íntegro. Nós os membros da Juventude Cristã Suíça não estamos de acordo com este procedimento [que parece] de outras épocas.
     O Vaticano possui há muito tempo um dossiê secreto sobre a questão, mas não ousou atacar Lobineau enquanto ele era vivo, assim como o Conde de Paris que mergulha a sua mão no saco do tio Sam. Contudo, em França a propaganda merovíngia progride lentamente (…). O clero francês agita-se (por exemplo, o padre J. Courtauly de Villarzel-du-Razès) e nem sempre no sentido de Roma!
     Então - o boletim romano declara - «… os descendentes merovíngios estiveram sempre na base de todas as heresias, desde o arianismo, passando pelos cátaros e pelos templários até à franco-maçonaria. Com o nascimento do protestantismo, Mazarin em Julho de 1659 fez destruir o seu [dos descendentes merovíngios] castelo de Barberie que datava do século XII (Nièvre, França). Esta casa não tem gerado através dos séculos senão agitadores secretos contra a Igreja…».
     Como pôde Lobineau estar ao corrente dos pergaminhos secretos dos merovíngios? Pelo seu amigo, o padre Hoffet (…)! É falso pretender agora, como o faz o boletim romano, que o padre Hoffet tivesse recebido em 1892 com 19 anos de idade a missão de traduzir os pergaminhos do padre Bérenger Saunière de Rennes-le-Château. Temos sob os nossos olhos o conteúdo do texto alemão, eis a tradução exacta: «… o meu amigo Hoffet efectuava em 1892 os seus estudos em Paris, e encontrou num jantar em casa de Ané o padre Saunière que fora enviado por Monsenhor Billard de Carcassonne (Aude-França) ao padre Bieil, director de Saint Sulpice e Monsenhor Ané era o seu sobrinho…». Assim, Henri Lobineau nunca escreveu que Saunière tinha vindo traduzir os seus pergaminhos junto do padre Hoffet, que ainda não tinha sido ordenado sacerdote!
     Para aqueles que conheceram Henri Lobineau, que foi um grande viajante e um grande pesquisador, um homem bom e leal, resta nos nossos corações o símbolo do mestre perfeito que se respeita e se venera.
     Lionel Burrus.”

     Com os detalhes relativos aos pergaminhos codificados, Plantard tentara deste modo responder às críticas de quem afirmava que Emile Hoffet não tinha, em 1892, idade para ser um erudito criptólogo e paleólogo, conforme vinha dito no texto L'Énigme de Rhedae, assinado “Henri Lobineau – généalogiste – Março de 1954”, parte integrante do opúsculo Généalogie des rois mérovingiens, atribuido a Lobineau e depositado por Plantard a 18 de Janeiro de 1964.
     O texto atribuído a Burrus está, por isso, em total contradição com o texto L'Énigme de Rhedae, onde se diz claramente que Saunière recorrera ao “jovem sábio linguista” para obter ajuda na tradução dos ditos pergaminhos.
     Mas a tese principal do texto atribuído a Burrus é a de que a descendência merovíngia até aos dias de hoje é bem real, e tem constituído o refúgio de todos os “agitadores secretos contra a igreja”. Fala-se pela primeira vez do castelo Barberie associado ao Priorado de Sião, um tema que seria uns anos mais tarde da predilecção do trio Baigent, Leigh e Lincoln41. Por fim, neste artigo vilipendia-se o nome do padre Courtauly, transformado em detentor do segredo e agitador de sentido oposto ao Vaticano.
     Mas se este artigo de Burrus já era fortemente desinformativo, com o propósito de solidificar as teses pró-merovíngias, lançando no ar a suspeita de uma guerra de bastidores entre o Vaticano e uma corrente herética com séculos de existência, a carta de resposta ao artigo atribuída a S. Roux não é menos desinformativa.
     Antes pelo contrário, apesar de se parecer com uma crítica, a carta de Roux completa o artigo atribuído a Burrus, e faz com ele um conjunto coerente. Isto porque, como se pode ver, o texto de Roux critica o artigo de Burrus em detalhes, e não no fundamental. É esta a jogada inteligente de Pierre Plantard:

     “O caso Rennes-le-Château – Resposta ao senhor Lionel Burrus, por S. Roux
     Lemos com antenção no Semaine Catholique Genevoise de 22 de Outubro de 1966, na página 6 desta publicação, uma quarentena de linhas do senhor Lionel Burrus sobre a morte do senhor Léo R. Schidlof, mais conhecido pelo nome de Henri Lobineau.
     O senhor Lionel Burrus é um jovem de 20 anos, que não mede sempre as consequências dos seus actos. É, podemos dizer, um jovem mimado de uma familia genebrina abastada para quem os seus caprichos são ordens. A Semaine Catholique Genevoise é editada à custa do senhor Burrus seu pai. A sua tiragem está limitada a 250 exemplares distribuidos gratuiramente aos jovens desmiolados do cantão de Genève. Contudo, o senhor Lionel Burrus merece uma resposta de um católico francês. (…)”

     É surpreendente, porque esta carta pretende reforçar a credibilidade da existência da revista Semaine Catholique Genevoise e a autenticidade do artigo de Burrus. Uma hipótese a levar muito a sério é a de que esta “página 6” saiu da máquina de escrever de Pierre Plantard, bem como o artigo atribuído ao “católico francês” S. Roux!
     Ao que parece, a revista Semaine Catholique Genevoise nunca existiu…
     Outro objectivo desta carta: a identificação de Henri Lobineau com um certo Léo R. Schidlof. Mas o verdadeiro Schidlof é mais uma de muitas pessoas arrastadas, depois de mortas, para o mundo fantasioso do Priorado de Sião.
     Austro-húngaro de nascença, Léo Schidlof42 foi um reputado perito em Arte. Publicou em 1911, em Viena e Leipzig, uma obra notável sobre miniaturas43. Esta obra seria aumentada e melhorada ao longo de várias décadas, culminando com a publicação em 1965 de mil exemplares numerados de uma obra bilingue em dois volumes ilustrados, La Miniature en Europe aux XVIe, XVIIe, XVIIIe et XIXe siècles. Schidlof morreria pouco depois. Como diz Descadeillas, Schidlof teria ficado “aterrado se ele pudesse saber que pouco tempo após a sua morte, o iriam travestir em Henri Lobineau, agente secreto helvético, alto dignitário de um sem número de ordens e de organizações imaginárias, e que lhe atribuiriam acções e propósitos que desafiam o senso comum”44.
     Sobre Lobineau/Schidlof, diz S. Roux:

     “(…) este mestre perfeito era um dignitário da Grande Loja Alpina na Suíça, e não escondia os seus sentimentos de amizade pelos Estados do Este, o que não o tinha impedido de ser um óptimo agente secreto helvético bem como um homem íntegro e bom.”

     O texto de Roux contém ainda pistas falsas para reforçar a mitologia. Roux volta a falar no fantasioso Pierres gravées du Languedoc e afirma que o padre Courtauly teria oferecido reproduções da genealogia merovíngia escondida a várias pessoas, a saber: ao proprietário do castelo de Rennes (na altura, o senhor Marius Fatin); à londrina International League of Antiquarian Booksellers, de quem falarei adiante; a Antoine l'Ermite, e que essas genealogias “não tinham nada de secreto”, pois tinham sido retiradas das “actas do notário Captier”, outra mistificação que figura na parte final do texto de Antoine l'Ermite, Un Trésor Mérovingien à Rennes-le-Château.
     Segundo Roux, a controvérsia com Roma não estaria centrada na obra de Lobineau, mas sim na questão da “entrega pelo padre Saunière ao padre Hoffet, em 1892, dos pergaminhos de Branca de Castela”. Depois, este mesmo Roux tece uma série de considerações sobre a dinastia merovíngia, dizendo que a Igreja Católica conhecia bem a linhagem de Razès, para culminar nesta frase explosiva:

     “Mas convenhamos que os seus descendentes sempre foram, desde Dagoberto II, agitadores secretos contra o poder real em França e contra a Igreja. Bem como foram os sustentadores de todas as heresias. O regresso de um descendente merovíngio ao poder seria para a França a proclamação de um estado popular aliado à União Soviética, com o triunfo da Franco-Maçonaria. Seria o desaparecimento da liberdade religiosa: ora aí está algo que o senhor Lionel Burrus, da Juventude Católica não tinha ainda pensado!”

     No final do texto de Roux surgem de forma clara as intenções monárquicas do próprio Plantard e a forma como este concebia a função monárquica ideal:

     “É exacto que Lobineau preparasse na Áustria um futuro acordo Franco-Russo? Isto, senhor Lionel Burrus, não podemos negar, assim como o senhor não pode negar que a monarquia merovíngia era um estado popular. O rei «fainéant» não passava de um Presidente «real» da República, e o poder encontrava-se nas mãos dos conselheiros-ministros.”

     A carta de Roux termina com uma menção pouco honrosa ao historiador René Descadeillas, e com um aproveitamento desonesto de uma frase do seu livro Rennes et ses derniers seigneurs (1964).

 

 

Le Serpent Rouge

 

     A 17 de Março de 196745 é depositado um dos mais populares textos da mistificação do Priorado: o Le Serpent Rouge46, com o sub-título Notes sur Saint Germain des Prés et Saint Sulpice de Paris. Esta obra, um poema com doze estrofes, uma para cada signo do zodíaco, está carregada do simbolismo preferido de Plantard. Encontramos alusões abundantes à igreja parisiense de Saint-Sulpice, que como vimos acarreta uma forte carga simbólica devido ao Meridiano de Paris, também apelidado de roseline. O título “serpent rouge” é, entre outras coisas, uma metáfora da “linha rosa”, que de norte a sul divide o país em duas partes. Este poema está datado de 17 de Janeiro de 1967! Cá temos de novo esta data “fétiche”. O poema é atribuído a três habitantes de Pontoise, Pierre Feugère, Louis Saint-Maxent e Gaston de Koker.
     Este poema é mais um exemplo perfeito do modus operandi de Plantard e dos seus amigos. Usando possivelmente a secção de necrologia de um jornal local, os nossos mistificadores encontram os nomes de três pessoas que se tinham suicidado com menos de um dia de intervalo47. Tinham o perfil ideal para autores do Le Serpent Rouge!
     Este poema, que transpira linguagem alquímica e iniciática (se bem que algo rudimentar) por todos os poros, foi escrito para ser lido como um “manual de instruções” em código. E para ser visto como uma obra “perigosa”, porque poderosa. Neste sentido, quem investigasse os nomes dos autores, descobriria que tinham morrido em torno das mesmas 24 horas. A associação de ideias é poderosa: os autores teriam sido assasinados devido ao segredo que publicaram no poema!
     Na primeira parte deste poema são inúmeras as alusões à igreja de Santa Maria Madalena em Rennes-le-Château: desde o pavimento em mosaico preto e branco, ao uso explícito dos nomes “Madeleine” e “Asmodée”, à inscrição “Par ce signe tu le vaincras” presente no conjunto estatuário com a pia baptismal, ao baixo-relevo do Monte da Beatitude que traz a inscrição “Venez à moi…”, à Via-Sacra da igreja de Rennes, e à referência insistente a uma “raínha do Castelo”, uma alegoria às aldeias gémeas de Rennes-les-Bains (cujo nome popular é “Bains de la Reine”), e Rennes-le-Château.
     A segunda parte do poema contém referências evidentes a Saint-Sulpice de Paris: Eugène Delacroix (1798-1863), que pintou telas para esta igreja, bem com o pintor Emile Signol (1804-1892), são citados no poema. As referências mais evidentes a Saint-Sulpice estão nos nomes citados de Jean-Jacques Olier (1608-1657), padre oficiante na paróquia parisiense de Saint-Sulpice e fundador do Seminário do mesmo nome (1642), e de São Vicente de Paula (1580-1660), cuja marcante obra pelos pobres em Paris inspirara o padre Olier.
     Concluindo, o poema Le Serpent Rouge é um puzzle para baralhar ainda mais as cabeças baralhadas dos curiosos recém-chegados. Quem já conheça todo o material simbólico usado pelo Priorado de Sião sabe bem que está perante uma peça de síntese, com uma função clara: ligar Rennes-le-Château a Saint-Sulpice.

 

 

Os Dossiers Secrets

 

     A 27 de Abril de 1967 foi depositado na Biblioteca Nacional um caderno intitulado Dossiers Secrets d'Henri Lobineau48, atribuído a Phillipe Toscan du Plantier. Foi a partir deste documento, ou melhor, deste molhe de documentos, que se generalizou a expressão “Dossiês Secretos” para a totalidade dos documentos depositados pelos membros do Priorado de Sião ao longo dos anos sessenta e setenta.
     Os Dossiers Secrets são uma amálgama. Ali encontramos um pouco de tudo, artigos de jornal, árvores genealógicas, cartas particulares, entre tantas outras coisas.
     Logo no início, encontramos esta dedicatória:

     “Ao Senhor Conde de Rhedae, Duque de Razès, o legítimo descendente de Clóvis I, Rei dos Francos, Sereníssimo rebento ardente49 do «Rei e Santo» Dagoberto II, o seu humilde servo apresenta esta recolha que forma o «Dossiê Secreto» de Henri Lobineau.
     Phillipe Toscan du Plantier”

     De seguida, surge um longo artigo da autoria de um tal Edmond Albe, que repete o material anterior, mas com alguma desinformação nova. Surge de novo Léo Schidlof associado abusivamente a Lobineau, fala-se de novo no artigo de Lionel Burrus e na resposta de S. Roux. Como dado novo, segundo este texto, Roux seria um pseudónimo do cismático padre Georges de Nantes:

     “O caso foi retomado por Lionel Burrus, no Semaine Catholique Genevoise de 22 de Outubro de 1966, e depois colocado em questão a 5 de Novembro de 1966 por um opúsculo «O caso Rennes-le-Château», impresso em Levallois-Perret pelo padre Georges de Nantes, sob o pseudónimo: S. Roux. Este último padre, caído em desgraça junto dos seus superiores recusou retractar-se, foi excomungado e difundiu cartas [dirigidas] «aos meus amigos» onde ataca a política do Soberano Pontífice e dos Bispos, e que resultou num aviso do Conselho Permanente do Bispado datado de Março de 1967 (2 de Março).”

     Tenhamos presente a tese central do Priorado de Sião: a dinastia merovíngia oculta tem sido a fonte de todas as heresias e de todos os combates contra a Igreja Católica. Neste sentido, Plantard usara todas as falsas pistas de que se lembrara. A associação do padre Georges de Nantes ao Priorado é uma das mais insólitas…
     Georges de Nantes50 nasceu em 1924, no vale de Isère. Foi ordenado sacerdote em 1945, e fundou em 1963, em Saint-Parrea-les-Vaudes (Aube), a Comunidade dos Pequenos Irmãos do Sagrado Coração de Jesus. Desde cedo, Georges de Nantes, com o objectivo de defender a integridade da fé tradicional da Igreja Católica, misturou religião com política, usando um discurso violento de obediência cega e de reforma social obstinada. No rescaldo do Concílio Vaticano II, Georges de Nantes dirige graves ataques ao Papa, que ele quer ver deposto por «heresia, cisma e escândalo», e ao Arcebispo de Paris, Monsenhor Aaron Lustiger.
     Foi suspenso pelo Bispo de Troyes a 25 de Agosto de 1966 e foi desqualificado por Roma em 1969. Em 1970, ele funda a Liga da Contra-Reforma Católica, que se torna em 1984 na Comunhão Falangista, ou “A Falange”. Os pedidos de recurso do padre Georges de Nantes junto das instâncias judiciais eclesiásticas nunca tiveram sucesso. Actualmente, o movimento de Georges de Nantes está em declínio.
     O uso do nome do padre Georges de Nantes por Pierre Plantard serve, então, um propósito claro: sustentar a tese de que o Priorado está por detrás de todas as acções contra a liderança da Igreja Católica, e que controla todas as forças de pendor cismático ou herético que provenham da própria Igreja.
     Na continuação do artigo de Edmond Albe, vemos o mesmo relato de sempre: as descobertas do padre Saunière, a viagem a Paris, o encontro com Hoffet, e por diante. Surge, no entanto, algo de novo relativamente ao destino dos pergaminhos codificados: eles teriam sido roubados do espólio de Hoffet e de modo misterioso teriam passado em 1948 para as mãos da International League of Antiquarian Booksellers, uma sociedade londrina, terminando nos arquivos secretos da Ordem de Malta!
     No fim do artigo, surge mais uma história de espionagem:

     “O caso Rennes-le-Château toca todo o Languedoc, e trata-se mesmo de uma guerra entre Serviços Secretos, um caso entre outros, [é] o desaparecimento da pasta de cabedal de Léo Schidlof, transportada por um certo Fakhar ul Islam. Esta pasta continha as actas bem com os dossiês secretos de Rennes entre 1600 e 1800, e deveria ter sido entregue a 17 de Fevereiro de 1967 a um Agente delegado por Genebra na Alemanha Ocidental, mas Fakhar foi expulso e encontrava-se em Orly a… 16 de Fevereiro, em Paris ele aguardava ordens, ele encontrara a 19 um certo Herbert Régis, engenheiro, a 20 de Fevereiro era encontrado o corpo de Fakhar ul Islam sobre um carril perto de Melun. Caíra do rápido Paris-Genebra, e da mala nem sinal…”

     De facto, o jornal Paris-Jour de Terça-feira, 21 de Fevereiro de 196751 dá conta de uma morte misteriosa relatada no artigo Mystère dans le rapide Paris-Genève: le contre-espionnage enquête sur la mort d'un voyageur sans bagages aux multiples identités. Segundo o artigo, o jovem paquistanês de vinte anos Fakhar-Ul-Islam fora encontrado morto sobre um carril na estação de Melun, e tudo levava a crer que ele caíra com a composição em andamento. O facto de ter um passaporte densamente preenchido, sinal de que passava a vida a viajar, e o interesse da D. S. T. (Direction de la Surveillance du Territoire, a contra-espionagem francesa) por este acidente levaram a que se teorizasse que o rapaz fosse um espião, e que tivesse eventualmente sido assassinado, sendo atirado para fora do comboio em andamento.
     O Priorado não iria perder esta história, sugerindo logo uma explicação: o jovem espião de naturalidade paquistanesa transportava a mala de Léo Schidlof, aliás, Henri Lobineau, que conteria as “Actas Captier”, com toda a informação confidencial sobre a dinastia merovíngia oculta! Fantasia, é certo, mas uma fantasia poderosa e engenhosa que fez confusão a muitos… O trabalho de desinformação de Plantard e dos seus colaboradores tinha uma certa qualidade e complexidade.
     Outro documento que faz parte dos Dossiers Secrets d'Henri Lobineau, é a seguinte carta da International League of Antiquarian Booksellers, enviada no dia 2 de Julho de 1966 ao senhor Marius Fatin, proprietário do castelo de Rennes52. Nesta carta, fala-se na importância deste castelo e dos pergaminhos que teriam o selo de Branca de Castela:

     “Caro Senhor,
     Após a nossa visita da semana passada ao seu castelo de RENNES, e antes de sairmos de França, nós temos o grande prazer de o informar que o seu castelo é, com efeito, historicamente o mais importante de França, pois constituiu lugar de refúgio em 681 ao Príncipe SIGIBERT IV, filho do Rei DAGOBERTO II, mais tarde canonizado São DAGOBERTO, bem como de seus descendentes, os Condes de Rhedae e Duque de Razès;
     Factos comprovados por dois pergaminhos com o selo da Rainha BRANCA de CASTELA (tendo ela própria nunca estado em Razès) com o testamento de FRANÇOIS-PIERRE d'HAUTPOUL registado a 23 de Novembro de 1644 por CAPTIER, Notário em Espéraza (Aude), peças compradas em 1948 pela nossa Liga com uma parte da Biblioteca do Sr. Padre E. H. Hoffet, 7, Rue Blanche em PARIS, que possuía estas peças do Sr. Padre SAUNIÈRE, antigo cura de RENNES-le-CHATEAU.
     A pedra sepulcral de SIGIBERT IV, figura no livro de Stüblein, edição de Limoux em 1884, ela encontrava-se na Igreja de Sta. Madalena de RENNES-le-CHATEAU, ela está hoje em dia no museu lapidar de CARCASSONNE.
     O seu Castelo é, portanto, duplamente histórico!
     Receba Caro Senhor, os nossos sinceros cumprimentos."

     Marius Fatin ficou tão estupefacto com o teor desta carta como ficaria qualquer pessoa que conhecesse o passado de Rennes. Estamos perante mais uma impostura. Mas esta teve honras de publicação no jornal La Dépêche du Midi, a 30 de Maio de 1967, onde num artigo se pode ler a letras garrafais que o castelo de Rennes é “Historiquement le plus important de France”53.
     Mas é, no mínimo, curioso que nos Dossiers Secrets estes "condes de Rhedae" e "duques de Razès" descendam de alguém com cognome "Plantard" (de "plant + ard", ou "rebento ardente"), o que serve perfeitamente a Pierre Plantard. Mas nenhum historiador menciona este cognome do filho de Dagoberto II. A própria questão da existência de Segisberto IV é tratada com muita precaução pelos historiadores, devido à falta de informação fidedigna. Apesar de algumas fontes referirem um filho masculino de Dagoberto II, que se chamaria Segisberto, as que o fazem afirmam que terá morrido alguns anos antes ou após a morte do pai. Segisberto e a sua mãe Gisela de Razès apenas existem em Rennes/Rhedae nas fantasias dos Dossiers Secrets.
     A carta apresenta ainda um cabeçalho forjado da International League e duas assinaturas ilegíveis. O documento só pode ser uma farsa…
     Em 1972, Pierre Jarnac contactou Martin G. Hamlyn, o presidente da Antiquarian Booksellers' Association, a secção britânica da International League. Este esclareceu a situação54: o papel timbrado usado na carta forjada só fora usado uma vez pela associação em 1948. Em 1966, data que figura na carta forjada, o papel timbrado era outro bem diferente. O senhor Hamlyn afirmou não reconhecer as assinaturas na carta, e que não poderiam corresponder aos representantes da associação em 1966. Mais ainda, o senhor Hamlyn recomendou a Jarnac que se dirigisse directamente ao presidente da International League, o senhor De Nobele.
     Foi o que fez Pierre Jarnac. A resposta foi curta e clara: após uma pesquisa aos arquivos e depois de falar com pessoas que estavam na organização há muitos anos, De Nobele afirmou que “ninguém fora capaz de reconhecer uma só das assinaturas”. Para além disso, o presidente disse que “a questão que se coloca é a de saber qual seria o interesse em fabricar uma falsificação deste tipo, uma vez que se trata definitivamente de uma falsificação”55.
     Os Dossiers Secrets contêm ainda a já mencionada lista fraudulenta de Grão-Mestres do Priorado de Sião, que já vimos ser baseada numa mistificação maçónica do século XVIII. Mas listas como esta também foram usadas mais recentemente. As listas dos imperators da A. M. O. R. C. (Ancient Mystical Order of the Rose-Croix), fundada nom ano de 1915 nos E. U. A. por Harvey Spencer Lewis (1883-1939)56, são extremamente semelhantes à lista apresentada pelo Priorado de Sião. Qualquer sociedade secreta ou semi-secreta que se preze deve apresentar uma folha ancestral impecável. O Priorado de Sião não podia ser uma excepção!
     Para terminar, os Dossiers Secrets trazem a reprodução de uma folha dactilografada intitulada Le Hiéron du Val d'Or, com a data de 24 de Junho de 1926, a data de fundação da Société d'Études Atlantéenes, de Paul Lecour. Esta reprodução cumpre uma função simples: redireccionar o leitor para o universo esotérico cristão em torno da vida e obra de Paul Lecour. O movimento de Paray-le-Monial, como vimos, teve problemas com a hierarquia católica devido à deriva esotérica do Barão de Sarachaga. Para as teses do Priorado, tal facto é usado para a seguinte extrapolação: o Hiéron seria também um órgão do Priorado de Sião, conduzindo uma “guerra esotérica“ contra Roma.

 

 

Os pergaminhos codificados

 

     O ano de 1967 é também um ano de viragem na história da mistificação de Rennes. É um marco na mitologia do Priorado. Neste ano, o assunto ganharia ampla publicidade em França graças à publicação pela Juillard do livro de Gérard de Sède, L'Or de Rennes, com sub-título La vie insolite de l'abbé Saunière. Nesta obra surgem pela primeira vez reproduções dos dois pergaminhos codificados. Segundo Paul Smith, esta obra fora inicialmente um manuscrito do próprio Plantard, que tendo sido recusado várias vezes por diversos editores, teria sido entregue a Gérard de Sède para servir de base a um livro que se revestisse do estilo do jornalista e se enquadrasse bem no seu currículo literário. Tanto Plantard (mentor do texto) como Phillipe de Chérisey (autor dos falsos pergaminhos codificados) deveriam receber uma parte dos lucros da venda do livro de Gérard de Sède.
     Contudo, uma mal resolvida questão de percentagens terminou em desavença: Chérisey acusava Gérard de Sède de ter usado os seus pergaminhos sem autorização. Uma carta datada de 8 de Outubro desse ano, enviada a Chérisey pelo seu advogado, o Dr. Boccon-Gibod, dá conta desta situação:

     “Caro Senhor,
     Recebi a sua carta e de imediato escrevi à Casa Juillard, bem como ao senhor de Sède, para protestar contra a utilização sem autorização, de dois pergaminhos por vós fabricados e que me foram entregues para estudo, na obra «L'Or de Rennes».”57

     Não poucas vezes, Phillipe de Chérisey assumiu a autoria dos pergaminhos. Como por exemplo numa entrevista que figura na obra de Jean-Luc Chaumeil, Le Trésor du Triangle d'Or (1979). Hoje em dia, os investigadores deste assunto ocupam-se, sobretudo, na determinação exacta da fonte que serviu de inspiração a Phillipe de Chérisey. Não sendo possível efectuar aqui a uma exposição completa sobre estes pergaminhos58, o que se segue é apenas uma breve síntese.

 

 

O primeiro pergaminho

 

 

O primeiro pergaminho
O primeiro pergaminho

 

     No primeiro pergaminho, o mais curto, as linhas terminam de modo aleatório tendo sido cortadas algumas palavras ao meio só para mudar de linha e algumas letras estão ligeiramente levantadas em relação às restantes letras da mesma frase. O texto que serve de base ao documento pertence a um episódio bastante importante do Novo Testamento, porque vem citado quase sem alterações em três evangelhos diferentes. Surge em Marcos 2, 23-28, em Lucas 6, 1-4, e em Mateus 12, 1-8, e diz respeito à observância judaica do Sábado. A versão que serviu de base ao texto codificado é a de Lucas 6, 1-4:

     "6:1 Num dia de sábado, passando Jesus através das searas, os Seus discípulos puseram-se a arrancar e a comer espigas desfazendo-as com as mãos. 6:2 Alguns fariseus disseram: «Porque fazeis o que não é permitido fazer ao sábado?». 6:3 Jesus respondeu: «Não lestes o que fez David quando teve fome, ele e os seus companheiros? 6:4 Como entrou na casa de Deus, e tomando os pães da proposição, deles comeu e deu aos seus companheiros, esses pães que só aos sacerdotes era permitido comer?»"

     É fácil ver no primeiro texto as letras levantadas. Estas formam a seguinte frase coerente em francês:

A DAGOBERT II ROI ET A SION EST CE TRESOR ET IL EST LA MORT

     A frase pode ser traduzida facilmente para "A Dagoberto II Rei e a Sião pertencem este tesouro e ele está lá morto"59. As pistas são de uma simplicidade quase infantil: fala-se no rei merovíngio Dagoberto II, fala-se em Sião como alusão evidente ao Priorado, refere-se um tesouro e um corpo sepultado, que deverá ser o de Dagoberto II, sepultado em Stenay, um dos vértices do “triângulo de ouro” como referimos atrás.
     Durante muito tempo, a investigação sobre este primeiro texto esteve num impasse, sem que se conhecesse publicamente a fonte usada por Chérisey na sua composição. Hoje sabe-se que ele se baseou no Codex Bezae60, um texto bilingue (grego e latim) doado em 1581 pelo Bispo Teodoro Beza à Universidade de Cambridge.
     Visto que ambos os pergaminhos possuem uma base textual claramente latina, retirada do Novo Testamento, a primeira tentativa seria confrontar este primeiro texto com uma versão da Vulgata, no evangelho de S. Lucas, capítulo 6, versículos 1 a 4. Seguindo a versão electrónica de Michael Tweedale61 (Londres, 2004), encontra-se:

     “6:1 Factum est autem in sabbato secundo, primo, cum transiret per sata, vellebant discipuli ejus spicas, et manducabant confricantes manibus. 6:2 Quidam autem pharisæorum, dicebant illis : Quid facitis quod non licet in sabbatis ? 6:3 Et respondens Jesus ad eos, dixit : Nec hoc legistis quod fecit David, cum esurisset ipse, et qui cum illo erant ? 6:4 quomodo intravit in domum Dei, et panes propositionis sumpsit, et manducavit, et dedit his qui cum ipso erant : quos non licet manducare nisi tantum sacerdotibus?”

     Comparemos agora este texto com o do primeiro pergaminho:

     "ET FACTUM EST EUM IN SABBATO SECUNDO PRIMO ABIRE PER SCCETES DISGIPULI AUTEM ILLIRIS COEPERUNT VELLERE SPICAS ET FRICANTES MANIBUS + MANDUCABANT QUIDAM AUTEM DE FARISAEIS DTCEBANT EI ECCE QUIA FACIUNT DISCIPULI TUI SABBATIS + QUOD NON LICET RESPONDENS AUTEM INS SEIXTT AD EOS NUMQUAM HOC LECISTIS QUOD FECIT DAUTD QUANDO ESURUT IPSE ET QUI CUM EO ERAI + INTRO IBIT IN DUMUM DEI ET PANES PROPOSITIONIS REDIS MANDUCAVIT ET DEDIT ET QUI BLES CUM ERANT UXUO QUIBUS NON LICEBAT MANDUCARE SI NON SOLIS SACERDOTIBUS"

     Como se pode constatar, o texto latino de base do primeiro pergaminho é muito diferente do da Vulgata. Mas sigamos a sugestão de Wieland Willker62, e vejamos a transcrição deste trecho, conforme vem no Codex Bezae:

     "ET FACTUM EST EUM IN SABBATO SECUNDO PRIMO ABIRE PER SEGETES DISCIPULI AUTEM ILLIUS COEPERUNT VELLERE SPICAS ET FRICANTES MANIBUS MANDUCABANT QUIDAM AUTEM DE FARISAEIS DICEBANT EI ECCE QUID FACIUNT DISCIPULI TUI SABBATIS QUOD NON LICET RESOPONDENS AUTEM IHS DIXIT AD EOS NUMQUAM HOC LEGISTIS QUOD FECIT DAUID QUANDO ESURIIT IPSE ET QUI CUM EO ERAT INTRO IBIT IN DOMUM DEI ET PANES PROPOSITIONIS MANDUCAVIT ET DEDIT ET QUI CUM ERANT QUIBUS NON LICEBAT MANDUCARE SI NON SOLIS SACERDOTIBUS"

     As semelhanças são inegáveis! Contudo, o texto do primeiro pergaminho possui alguns erros de latim. Mas os erros encontrados no texto63 reforçam ainda mais a certeza de que o seu autor se baseou no Codex Bezae.
     O que tem isto de tão extraordinário?
     É que se trata de mais uma impostura brilhantemente conduzida pelo Priorado! Porque eles não poderiam ter escolhido melhor fonte do que o Codex Bezae, um texto que desafia os peritos há séculos, e que não reúne consenso no que toca à datação e às fontes usadas. Se se procura um bom exemplo de um texto neotestamentário difícil de datar e de compreender, então uma óptima escolha é o Codex Bezae! O que serve maravilhosamente os propósitos mistificadores do Priorado: Chérisey não queria que os seus pergaminhos fossem facilmente datáveis.

 

 

O segundo pergaminho

 

 

O segundo pergaminho
O segundo pergaminho

 

     A descodificação do segundo texto é tarefa muito complexa, pois o texto base contém várias letras aparentemente aleatórias. Mais uma vez, o texto base em latim foi extraído da Bíblia e corresponde à chegada de Jesus a Betânia, seis dias antes da Páscoa. Eis o texto bíblico que serviu de base a este texto e que se encontra em João 12, 1-11:

     "Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde estava Lázaro, o que falecera e a quem Jesus ressuscitara dos mortos. Ofereceram-lhe uma ceia, Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-os com os cabelos; e a casa encheu-se com o cheiro do perfume. Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, aquele que o havia de entregar, disse: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?» Disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa, tirava o que nela se metia. Respondeu Jesus: «Deixai-a, ela tinha-o guardado para o dia da minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco; mas a mim, nem sempre me tereis». Soube então um grande número de judeus que ele estava ali, e ali foram, não só por causa dele, mas também, para ver Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. Os príncipes dos sacerdotes tinham deliberado matar também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, afastavam-se e acreditavam em Jesus."

     A versão descodificada do segundo texto, à qual se chega por passos complexos e rebuscados de anagramas e processos de criptografia64, é:

BERGERE PAS DE TENTATION QUE POUSSIN TENIERS GARDENT LA CLEF PAX DCLXXXI
PAR LA CROIX ET CE CHEVAL DE DIEU J'ACHEVE CE DAEMON DE GARDIEN A MIDI POMMES BLEUES

     Em português ficará: "pastora sem tentação que poussin teniers guardam a chave paz DCLXXXI (681) pela cruz e este cavalo de deus eu completo [ou destruo] este demónio de guardião ao meio-dia maçãs azuis". É difícil extrair sentido de uma frase como esta. Certamente que o autor do código quis que este contivesse palavras comprometedoras, como "demónio", "cruz", "deus", "chave", etc., bem como referências aos dois pintores Poussin e Teniers.
     O “demónio guardião” é uma alusão à estátua do Diabo na igreja de Rennes, que os mistificadores apelidam indevidamente de Asmodeu, esse sim um demónio mitológico guardião de tesouros. “Pommes bleues”, as “maçãs azuis” são, como já foi dito, as bolas azuis que surgem projectadas na parede durante os primeiros dias de Janeiro pelo efeito da luz solar que atravessa um vitral na igreja de Rennes.
     A descodificação do pergaminho está correcta porque o autor do código participou na sua publicação e na publicação do método de decifração: foi a dupla Plantard e Chérisey que forneceu os falsos pergaminhos a Gérard de Sède, bem como os passos para a sua decifração! No fim do segundo pergaminho encontramos uma frase, a mesma que esteve outrora inscrita no baixo-relevo do altar da igreja de Sta. Maria Madalena:

Jésu. medèla. vulnérum * Spes. una. poenitentium Per. magdalenae. lacrymas * Peccata. nostra. diluas.

     Uma tradução aproximada é:

Jesus. cura. as feridas * A esperança. unida. ao arrependimento Pelas. lágrimas. (de) madalena * Os nossos. pecados. sejam diluídos

     Estes pergaminhos codificados servem os propósitos de Plantard e Chérisey e o mito moderno de Rennes. É possível prová-lo, e é possível demonstrar cabalmente que os pergaminhos são documentos modernos e forjados65.

 

 

A ampliação do mito

 

     A 30 de Outubro desse mesmo ano atribulado de 1967, surge mais um documento na Biblioteca Nacional de Paris, desta vez um texto ameno, Au Pays de la Reine Blanche, atribuído a Nicolas Beaucéan, outro pseudónimo. Lá encontramos algumas especulações sobre o passado de Rennes, misturadas com referências à obra de Boudet e do historiador Descadeillas, alguns trocadilhos arqueológicos e toponímicos, e uma nova tentativa para tentar fazer passar a lenda do tesouro/segredo de Saunière. Também surge uma curiosa menção ao Meridiano de Paris:

     “Sobre o mapa cartográfico, Rennes-les-Bains encontra-se precisamente sobre a linha do Meridiano Zero, que liga Saint-Sulpice de Paris a Saint-Vincent de Carcassone.”

     E por fim, um parágrafo dedicado aos “três rochedos que guardam a entrada do coração do Razès”, Rocko Nègro, Roc Pointu, e Blanchefort. Curiosamente, foi entre Blanchefort e Roco Nègro que Pierre Plantard comprou, neste ano de 1967, três lotes de terra, registados no plano municipal sob os números 633, 634 e 63566. Plantard compraria mais cinco lotes neste local em 1972.
     Durante dois anos, o grupo do Priorado decidira deixar o arquivo da Biblioteca Nacional em paz. Em 1969, eles regressariam com mais um depósito, a 7 de Novembro, desta vez pelas mãos da mulher de Plantard, Anne-Léa Hisler, de uma obra chamada Trésor au Pays de la Reine Blanche: Histoire et Légende de Rennes-les-Bains et de Rennes-le-Château, Aude. Tratava-se de uma colagem e ampliação do texto Au Pays de la Reine Blanche depositado sob o nome de Nicolas Beaucéan dois anos antes.
     No mesmo ano surgia na Biblioteca Nacional outro documento de Anne-Léa, Les Mérovingiens, que era uma versão ampliada do capítulo do seu Rois et Gouvernants de la France, depositado quatro anos antes. Seria a última produção de Anne-Léa Hisler, uma vez que ela morreria em 1970.
     A 28 de Junho de 1971 é depositada uma obra de 134 páginas de Phillipe de Chérisey, desta vez sem pseudónimos, intitulada Circuit, escrita em Liège em 196867. A obra é densa, repleta de simbolismo astronómico e astrológico, e está dividida em 22 capítulos, sendo que a cada um é dado o nome de um arcano do Tarot.
     A obra contém também o guião de uma peça de teatro de Phillipe de Chérisey, chamada L'Alibi d'O, na qual as personagens Charlot e Madeleine vivem episódios densamente recheados da tradicional mitologia: os pergaminhos codificados, as pedras tumulares, a igreja de Santa Maria Madalena em Rennes, Saint-Sulpice em Paris, entre outros.
     Em 1972, Pierre Plantard casa-se com Anne-Marie Cavaille, mãe do seu filho Thomas.
     O jornalista Jean-Luc Chaumeil, que escrevia para a revista Pégase, entrevista por duas vezes Phillipe de Chérisey: no número 5, em Outubro de 1973, onde este menciona pela primeira vez o documento Pierre et Papier da sua autoria, e que conteria a descrição do processo de criação dos falsos pergaminhos; e no número 6 em Novembro de 1973. O interesse jornalístico de Chaumeil por este assunto iria culminar num artigo na revista Le Charivari (número 18 – Outubro/Dezembro de 1973), onde sob o título Les Archives du Prieuré de Sion surgiram pela primeira vez publicamente os estatutos do Priorado de Sião na sua primeira versão, redigidos em Annemasse.
     Ainda neste ano de 1973, graças à publicidade da revista Le Charivari, o antigo sócio de Plantard, André Bonhomme, co-fundador do Priorado de Sião em Annemasse (mas que deixara de colaborar com Plantard após o regresso deste a Paris), resigna oficialmente da sua participação na sociedade através de uma carta enviada à Sub-Prefeitura de Polícia de Saint-Julien-en-Genevois68. O antigo colaborador ficara estarrecido com a “carreira” que o seu sócio seguira durante os anos sessenta, e assim que soube do que tinha acontecido, quis logo desmarcar-se definitivamente do Priorado de Sião.
     A 6 de Dezembro de 1975, Phillipe de Chérisey deposita L'Or de Rennes pour un Napoléon69. O ciclo de depósitos na Biblioteca Nacional de Paris seria encerrado por Chérisey com mais dois textos: Le Cercle d'Ulysse70 (1977) sob o pseudónimo de Jean Delaude, e L'Enigme de Rennes71 (1978).
     Com estes textos, o Priorado tentava reagir às incoerências que começavam a ser detectadas pela primeira geração de investigadores. Deste modo, os mitos eram alterados por Plantard e Chérisey para tentar solucionar os equívocos e incongruências entretanto detectados. A história de Hoffet, por exemplo, surge melhor contada nesta fase, porque na sua versão original era anacrónica. A história original tinha o grande defeito de que o jovem Hoffet ainda não era padre, e estava em Saint-Gerlach, e não em Paris. E por isso não poderia nunca ser o erudito linguísta, tradutor de velhos pergaminhos. Em Le Cercle d'Ulysse, encontramos este erro corrigido:

     “Em casa de Letouzey, ele [Saunière] encontra o noviço Emile Hoffet, de passagem com um aluno de Saint-Gerlach. O padre Saunière é convidado para casa de Claude Debussy, onde conhece Charles Plantard com o qual ele manterá correspondência continuada. Ele encontra também Emma Calvé, esta última visitara-o em Rennes em Agosto de 1892 aquando de uma viagem a Espanha.”

     Para além das fantasias do costume, com Debussy e Calvé, temos uma novidade neste texto: a presença do “avô” de Pierre Plantard. É neste texto que surge pela primeira vez esse mito. Mais adiante, encontramos:

     “Em Agosto de 1938, o neto de Charles Plantard passou uma semana em casa de Marie Dénarnaud, a antiga governanta do padre Saunière. Ela deu-lhe «toda a correspondência do seu patrão; bem como outros arquivos», relata Noël Corbu (..).”

     O texto de Jean Delaude fala, também, numa visita de João de Habsburgo a Saunière, a mando da Condessa de Chambord, ocorrida supostamente em Novembro de 188572.
     Em Novembro de 1978, “Pierre Plantard de Saint-Clair” prefaciava a terceira edição do livro de Henri Boudet73, La Vraie langue celtique. Um prefácio altamente fantasioso: encontramos afirmações gratuitas desprovidas de qualquer prova documental. Que o padre de Rennes-les-Bains teria sido o mentor de Saunière, que teria sido Boudet a financiar as obras de restauro da igreja de Santa Maria Madalena, e mais, que Boudet financiara a própria vida de Saunière através de pagamentos efectuados a Marie Dénarnaud. Plantard também afirma que o benemérito Boudet teria doado ao Bispo Billard uma soma de sete milhões de francos para o restauro do mosteiro de Prouille! Que dizer deste trecho romântico, retirado do prefácio de Plantard?

     “O meu avô Charles, legítimo sucessor dos condes de Rhedae, aceitando o convite que lhe tinha sido feito pelo padre Bérenger Saunière, padre de Rennes-le-Château (Aude), visitou-o a 6 de Junho de 1892. Entre as pessoas presentes encontravam-se o padre Henri Boudet e o senhor Elie Bot. Nas suas notas, o meu antepassado retrata deste modo a sua passagem:
     «… um macaco, chamado Méla, presente de uma grande cantora, brincando com cachorro chamado Pomponet animavam o almoço. O padre Boudet, cura de Rennes-les-Bains, paróquia limítrofe, parecia-me um homem tão desejoso de se apagar como o padre Saunière o era de se acender. Enquanto o padre Saunière, rapagão moreno de olhos negros, com perto de 1,80 m, aparecia, o padre Boudet, com os seus 1,70 m, a sua magreza e os seus olhos azuis lavanda, desaparecia. (…) Enquanto que um dissertava sobre os méritos comparados do vinho de Corbières e os vinhos de Malvoisie, o outro argumentava que os seus intestinos frágeis só lhe permitiam beber água…»
     Uma tal erudição emanava contudo do humilde padre que o seu confrade parecia ter convidado por caridade cristã o meu avô Charles a passar a noite no presbitério de Rennes-les-Bains.”

     Este longo prefácio contém ainda um estudo pretensamente esotérico sobre a vida e obra de Boudet, repleto de falsidades misturadas habilmente com verdades, como é tradição em todas as produções do Priorado de Sião.

 

 

Propaganda anglo-saxónica

 

     Na noite de 27 de Novembro de 1979, o canal britânico BBC colocava no ar um documentário de Henry Lincoln, The Shadow of the Templars, integrado no programa Chronicle. Pierre Plantard era entrevistado neste documentário. Para compreendermos melhor como nasceu esta colaboração entre franceses e britânicos, sigamos a entrevista dada por Jean-Luc Chaumeil74, testemunha destes acontecimentos, ao site do francês Jean-Patrick Pourtal75:

     “JPP: Apercebemo-nos de que a história de Rennes-le-Château sofreu um «vazio» e que nos anos 75-80 uma nova vaga chegou e surgiram três novos autores sobre este tema que são os autores ingleses de «O Sangue de Cristo e o Santo Graal». Eles relançaram completamente o assunto e creio que actuamente todo o mundo trabalha sobre estas bases, que não são, talvez, de todo as boas. O que pensa disto?
     JLC: Só posso pensar mal (…). (…) para os franceses, no final dos anos 80, o essencial sobre a história de Rennes já tinha sido dito, como aliás sobre as histórias de Gisors e de Stenay. Um belo dia recebi a visita de três ingleses: Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh. Conhecemo-nos por intermédio de uma inglesa chamada Jania McGallivrey (…). O que eles queriam era contactar Plantard. Eles estudavam a preparação de uma nova manipulação no âmbito do público anglo-saxónico e americano. (…) Encontrámo-nos de uma forma totalmente épica. Éramos vários: (…) Pierre Plantard, (…) um dos meus leitores que se chamava Gino Sandri e ainda os redactores da editora Belfond, Jean-Pierre Delo e Jean-Dominique Devaux. Do lado inglês: a documentalista Jania McGallivrey, Henry Lincoln que na altura trabalhava para a BBC, Richard Leigh o romancista americano, e o australiano Michael Baigent que era também um documentalista. Também lá estava Roy Davies, o produtor de filmes (…). Plantard achava que era preciso uma abordagem extremamente lenta e progressiva para saber exactamente o que eles queriam. Encontrámo-nos numa sala de projecção privada nos Campos Elísios. Foi qualquer coisa de fabuloso, pessoalmente nunca tinha visto tal coisa! Quando o grupo francês chegou, do qual eu fazia parte, sentimo-nos como na Máfia (…).
     JPP: Foi verdadeiramente um filme de Hitchcock!
     JLC: Sucedeu algo de memorável: Richard Leigh, que tinha um brasão com o medalhão dos Habsburgo, chegou perto de Plantard e disse-lhe «bonjour Magesté», escorregou num degrau e caiu no chão. A atmosfera estava um pouco tensa, e alguns olharam à volta para ver se uma bomba não estava prestes a rebentar (risos). Li o livro deles porque sou citado 153 vezes. No primeiro livro, sou alguém bem gentil, mas no segundo, depois de os ter criticado em várias rádios e nos meus artigos, passei a ser mau. E no último livro de Lincoln, o último que ele fez, sou ainda mais vilão! Acusam-me de ter tido ciúmes por não ter participado na emissão onde Plantard fora entrevistado! E contudo, fui eu que emprestei a galeria da minha mãe para o plano de filmagens com Plantard. (…)
     JPP: Apercebemo-nos que Pierre Plantard, através dos diversos elementos e através do que foi trazido pelos ingleses, pôde também abrir uma outra pista. Como podemos pensar que há uma diferença entre a pista latina europeia e a pista mais anglo-saxónica ao nível do casamento de Jesus com Maria Madalena.
     JLC: Os ingleses, contrariamente ao que se crê, não inventaram nada neste assunto. A única inteligência que tiveram foi a de dizer que Jesus se tinha casado com Maria Madalena e que Maria Madalena teria tido filhos e que os filhos seriam merovíngios! E que, no que dizia respeito aos descendentes dos merovíngios, eles tinham um à frente dos seus olhos: Pierre Plantard. Isto colava com o espírito anglo-saxónico e americano. Enquanto que os franceses são desde há muito tempo, 90% da população, ateus e que se estão um bocado nas tintas para esta história de Jesus.
     JPP: Pressente-se uma noção de negócio nos países anglo-saxónicos, que ainda não tinham sido tocados pela problemática de Rennes-le-Château?
     JLC: É provável que Henry Lincoln se tenha deixado manipular pelo produtor, e que este mesmo se tenha deixado manipular por outras pessoas. Se o primeiro pressentiu um «best-seller» ao nível financeiro, os outros teriam outras ambições. Um mês antes da publicação de “O Sangue de Cristo e o Santo Graal”, (…) todos os autocarros de Londres tinham cartazes com mais de um metro colados nas suas portas sobre os quais se podia ler: «A verdadeira história de Jesus». Por isso, via-se que existia manipulação. Quem manipulava? Quem pagou estes cartazes? Não foi Henry Lincoln! Não foi Richard Leigh! Nesta altura, eles não andavam de Ferrari! Foi alguém que não eles.
     JPP: Estávamos perante uma verdadeira operação de marketing?
     JLC: Uma operação de marketing! Uma operação de propaganda religiosa!
     JPP: Podemos pressentir movimentos religiosos, ocultos?
     JLC: Nunca vi um livro francês com cartazes sobre autocarros parisienses um mês antes da publicação. Um editor não faria este tipo de publicidade!
     JPP: É, com efeito, algo a reflectir!”76

     Como vemos, uma entrevista cheia de informação importante. Destaco o seguinte: a diferença entre o “mito francês”, um mito do Grande Monarca com Plantard a pretender a coroa de França; e o novo “mito anglo-saxónico”, com Jesus casado com Maria Madalena e os seus filhos a entroncarem nos merovíngios. É muito raro que um leitor recém-chegado a este tema se dê conta da enorme diferença entre os dois mitos. Plantard interessou-se pelas ideias do trio porque achou que iria poder ampliar ainda mais o seu mito original do Priorado de Sião, mas a ideia de Jesus casar com Madalena e originar a dinastia merovíngia é uma ideia divulgada sobretudo pelos autores de língua inglesa.
     Contudo, há nesta ideia uma pequena “inspiração” francesa. Robert Ambelain publicara em 1970 na Robert Laffont, Paris, a obra Jésus, ou le mortel secrèt des Templiers, onde surge a teoria de que Jesus se teria casado com Salomé. O toque de génio do trio esteve na troca de Salomé por Maria Madalena, que permitia muito mais amplas extrapolações relacionadas com Rennes-le-Château, que tinha uma igreja dedicada a Maria Madalena, e com as lendas do folcore regional occitano que falam na chegada de Maria Madalena ao sul de França após a morte de Jesus77.
     Plantard aproveitaria bem a “ajuda” de Lincoln… Em 1981, um artigo na imprensa francesa intitulado Convent du Prieuré de Sion, dava conta do seguinte evento:

     “Verdadeira sociedade secreta de 121 dignitários, o Priorado de Sião fundado por Godofredo de Bulhão em Jerusalém em 1099, contou entre os seus Grão-Mestres Leonardo da Vinci, Victor Hugo, Jean Cocteau, e vem agora de reunir o seu convento em Blois, a 17 de Janeiro de 1981 (o precedente datava de 5 de Junho de 1956, em Paris). No presente convento de Blois, Pierre Plantard de Saint-Clair foi eleito Grão-Mestre da Ordem por 83 votos em 92 votantes, à 3ª volta do escrutínio.
     A escolha deste Grão-Mestre marca uma etapa decisiva na evolução das concepções e dos espíritos no mundo, porque os 121 dignitários do Priorado de Sião são todos eminências pardas da alta finança e das sociedades internacionais políticas ou filosóficas, e Pierre Plantard é o descendente directo dos reis merovíngios por Dagoberto II, e a sua ascendência está legalmente provada pelos pergaminhos da Rainha Branca de Castela descobertos pelo padre Saunière na sua igreja de Rennes-le-Château (Aude) em 1891.
     Estes documentos, vendidos pela sobrinha deste padre em 1955 ao Capitão Ronald Stansmore e a Sir Thomas Frazer foram depositados num cofre do Lloyds Bank Europe Limited de Londres.
     Henry Lincoln apresentou-os no segundo canal de televisão da BBC a 27 de Novembro de 1979, no filme «A Sombra dos Templários» (Priorado de Sião), perante vinte milhões de espectadores. Este convento de Blois de 17 de Janeiro é, pois, fortemente simbólico.”78

     Como vemos, uma verdadeira síntese da mitologia do Priorado de Sião, mas agora exposta de forma a aproveitar o “empurrão” do documentário de Lincoln na BBC.

 

 

Os últimos anos de Plantard

 

     A 16 de Dezembro de 1983, surgia uma “circular” de Pierre Plantard aos membros do Priorado de Sião79. O documento estava repleto de carimbos, de anotações e avisos de “Confidencialidade”, e nela, Plantard, como Grão-Mestre, avisava os membros do Priorado da suspensão temporária do “artigo XXII”, sendo que a partir dessa data, e por período indeterminado, os membros do Priorado deveriam guardar o mais estrito silêncio relativamente à sua filiação na ordem. Plantard, com algum engenho, terminava com uma recomendação especial para os “nossos irmãos americanos, durante o próximo período eleitoral”. A ideia desta “circular” era simples: dar, mais uma vez, a ideia de que o Priorado de Sião era importante e influente, e que, sentindo-se ameaçado, entrava numa fase de estrito sigilo.
     Noutra “circular” datada de 11 de Julho de 198480, Pierre Plantard demite-se do cargo de Grão-Mestre. Mais um expediente desinformativo, porque Plantard se queixa de ter sofrido nos últimos três anos de todo o tipo de “manobras” por parte dos “nossos Irmãos Ingleses e Americanos”, afirmando que deseja conservar a sua independência e assegurar a paz da sua família. Plantard dá outro “motivo” para a sua demissão: “todas estas publicações, artigos de imprensa, livros e documentos multigrafados depositados na Biblioteca Nacional, que me colocam em causa, reproduzindo textos do Priorado de Sião e usando o meu nome de forma fraudulenta”.
     Ao que parece, o livro do trio Lincoln, Baigent e Leigh, com todas as suas polémicas, tinha contribuido para o azedar das relações entre Plantard e Chérisey. Phillipe de Chérisey, numa carta enviada a Plantard a 17 de Janeiro de 198581, manifestava a sua pena pela zanga e recordava os “bons velhos tempos”. É difícil saber se esta carta reflecte um verdadeiro azedar de relações, ou se se tratava de mais uma manobra desinformativa.
     A partir de 1968, Chérisey morava na Bélgica, em Liège, fazendo frequentes deslocações a Paris, onde tinha um apartamento. A 17 de Julho de 1985, morria Phillipe de Chérisey. As suas exéquias decorreram na igreja de Sainte Trinité, em Paris. Está sepultado num jazigo familiar em Roeux (Pas-de-Calais)82.

 

 

O canto do cisne

 

     A revista Vaincre regressou em 1989, através de três publicações datadas de Abril, Junho e Setembro desse ano, integradas no número IX dos Cahiers de Rennes-le-Château. A mitologia fora totalmente remodelada83: os Dossiers Secrets eram uma invenção de Phillipe Toscan du Plantier, o depositante, que não passava de um jovem alucinado consumidor de LSD. Os livros do trio britânico foram criticados por serem “obras de ficção”. Repetia-se que os pergaminhos publicados por Gérard de Sède nos anos sessenta não passavam de criações de Phillipe de Chérisey, e que existiam verdadeiros pergaminhos, mas estavam inacessíveis. A nova mitologia girava em torno do local de Roko Négro, um rochedo nas imediações do castelo de Blanchefort, do qual falara Henri Boudet na sua obra La Vraie langue celtique. Segundo este novo mito, o rochedo era um local dotado de uma “imensa energia” e seria esse o poderoso segredo de Rennes-le-Château.
     A fundação do Priorado de Sião fora totalmente revista: em vez de ter sido criado por Godofredo de Bulhão, tinha sido apenas “inspirado” nesta figura. Não datava de 1099, mas sim de 17 de Janeiro de 1681, tendo sido criado em Rennes-le-Château por Jean-Timoleon Negri d'Ables, com a participação posterior de Blaise d'Hautpoul, a partir de 1694, e do padre André-Hercule de Fleury a partir de 1743.
     Ao longo desta nova Vaincre podia-se ler Plantard a afirmar categoricamente que não era o descendente directo dos merovíngios, e muito menos o de Jesus, que tudo não passara de invenções de pessoas interessadas no lucro literário e cinematográfico. Contudo, Plantard continuava a afirmar-se descendente da linha de Segisberto IV, mas não directo. Segundo ele, o descendente directo era Otto de Habsburgo.
     Plantard atrevera-se também a reclamar a co-autoria do livro de René Descadeillas, Rennes et ses derniers seigneurs, visto que o seu verdadeiro autor já estava morto e não podia reclamar. Mas Plantard fora longe demais com outra afirmação...
     Numa outra “circular interna” datada de 8 de Março de 1989, parte integrante desta nova Vaincre, Plantard afirmara que a 6 de Fevereiro desse ano, Roger-Patrice Pelat abdicara do cargo de Grão-Mestre do Priorado de Sião. Phillipe de Chérisey ocupara o cargo na sequência da saída de Plantard em 1984, até à sua morte em 1985, altura em que Roger-Patrice Pelat assumira o cargo. Após a morte de Pelat a 7 de Março de 1989, Plantard fora de novo eleito Grão-Mestre a 9 de Março, num “convento” que decorrera em Avinhão. Onde está a gravidade desta “circular interna”? Porque era grave referir Roger-Patrice Pelat como grão-mestre demissionário?
     Em Setembro de 1993, na sequência da investigação judicial sobre os escândalos de corrupção financeira no caso Roger-Patrice Pelat84, Plantard tivera a ideia de sugerir ao juiz e aos investigadores a sua “peritagem” pelo facto de ser Grão-Mestre do Priorado de Sião, uma vez que Roger-Patrice Pelat também fora Grão-Mestre da mesma organização. Intrigado, o juiz ordenou uma busca à casa de Plantard, onde foram descobertos milhares de documentos sobre o caso Rennes-le-Château e sobre a construção do mito do Priorado de Sião. O juiz interrogou Pierre Plantard durante 48 horas, tendo conseguido que ele prestasse juramento em como tinha inventado tudo. O caso foi divulgado na imprensa francesa. Plantard foi avisado a não se intrometer mais com a Justiça Francesa, e a parar com as suas actividades de mitómano e vigarista. Esta ordem judicial marcou o fim do Priorado de Sião original… Entre 1993 e 2000, Plantard viveria discretamente entre Barcelona, Perpignan e Paris. Às onze horas e dez minutos da manhã do dia 3 de Fevereiro de 2000, morria Pierre Plantard.
     Contudo, o projecto continuaria pela iniciativa do seu antigo pupilo Gino Sandri, que pretende ser o actual “Secretário” do Priorado de Sião85.

 

1 Police report on Pierre Plantard dated 4 may 1954, no site de Paul Smith.
2 Jarnac, op. cit., p. 544.
3 Pierre Plantard and the Priory of Sion Chronology, no site de Paul Smith.
4 Segundo uma carta particular de Plantard a Pierre Jarnac (Michel Vallet), na obra deste último, Les Archives du Trésor de Rennes-le-Château, p. 305.
4a Fonte: Paul Smith (http://www.priory-of-sion.com).
5 Nos trâmites da lei francesa de 1901, que regula as associações civis.
6 O texto do Journal Officiel, número 167, é o seguinte: "25 juin 1956. Déclaration à la sous-préfecture de Saint-Julien-en-Genevois. Prieuré de Sion. But: études et entr'aide des membres. Siège social: Sous-Cassan, Annemasse (Haute-Savoie).", cfr. Jarnac, op. cit., p. 543.
7 Em 1973, o investigador Pierre Jarnac deslocou-se a este local e confirmou presencialmente a existência destes documentos na referida esquadra de polícia, cfr. Jarnac, op. cit., p. 543.
8 Que usava nessa altura o pseudónimo de “Stanis Bellas”.
9 "La constitution d'un ordre catholique, destiné à restituer sous une forme moderne, en lui conservant sont caractère traditionaliste, l'antique chevalier, qui fut, par son action, la promotrice d'un idéal hautement moralisateur et élément d'une amélioration constante des règles de vie de la personnalité humaine", cfr. Jarnac, op. cit., p. 543.
10 “Chevalerie d'Institution et Règle Catholique & d'Union Indépendante Traditionaliste”
11 Nome de um projecto de habitação social em Seine e Oise.
12 Cfr. reprodução fac-simile do primeiro número da Circuit, de 27 de Maio de 1956, disponível no site de Paul Smith.
13 Jarnac, op. cit., p. 544.
14 O anagrama de “Henryc”, usado nas profecias de Nostradamus para designar o “Grande Monarca”.
15 Jarnac, op. cit., p. 544.
16 Segundo Paul Smith, habitando no número 35 da Avenida Victor Hugo.
17 Ver a reprodução do documento no site de Paul Smith. Ver também Jarnac, op. cit., p. 546.
18 Título completo: Généalogie des rois mérovingiens, d'après l'abbé Pichon (1814), le docteur Hervé (1843), le généalogiste Hamberg en 1912 et copie des parchemins de l'abbé Saunière (février 1892), aussi le manuscrit de l'abbé Denyau (2e volume in-folio - 1629) et G. Dubreuil (1857 - Histoire de Gisors) – Genève, 1956, da autoria de Henri Lobineau (pseudónimo). Cota BNP: Fol LM3 4122.
19 O nome antigo da aldeia era Rhedae, que a partir de Carlos Magno passou a fazer parte do então constituído Condado de Razès.
20 E.-G. Rey, Chartres de l'Abbaye du Mont-SionMémoires de la Société nationale des antiquaires de France, série 5, vol. 8, Paris, 1887. Paul Smith tem, no seu site, uma transcrição deste importante artigo. Ver também Pierre Jarnac, op. cit., pp. 567-575. Diz Jarnac que a Abadia de Nossa Senhora de Monte Sião, fundada em Jerusalém por Godofredo de Bulhão em 1099, tinha a sua residência de S. Leonardo na cidade de S. João de Acre. Em 1149, aquando do regresso da Cruzada, o rei Luís VII trouxe consigo alguns monges da Abadia de Monte Sião, que se fixaram no priorado de Saint-Samson de Orleães, propriedade da casa de Jerusalém. Esta doação foi confirmada pelo Papa Adriano em 1158. Contudo, na Terra Santa, a Abadia subsistiria por pouco mais de um século, porque uma acta de 1281 dá conta da existência de apenas dois religiosos de coro, que passariam a apenas um, em 1289. Adão, falecido no início de 1291, foi o último abade da Abadia de Nossa Senhora de Monte Sião em S. Leonardo de Acre. Neste ano, os Muçulmanos tomaram Acre aos Cruzados, o que deixou os religiosos de Monte Sião numa situação frágil. Os últimos monges que restava na Abadia mudaram-se para a Sicília, a convite do conde Roger e da sua mulher, a princesa Adelásia, ficando a residir em Saint-Esprit, perto de Catalanizetta. Na história desta pequena abadia, nada existe que a relacione com Maria Madalena ou com os Templários, conforme tem sido sugerido pela recente literatura sensacionalista.
21 120 páginas, depositado na Cota BNP: 4º L37 96. Segundo Plantard, esta obra teria tido uma primeira tiragem de 22 páginas em Fevereiro de 1958, da Éditions Poirier-Murat, 45, Rue du Rocher, Paris. De notar que Plantard já havia referido esta morada no final dos Estatutos da Alpha Galates, quando mencionou a tipografia Poirier Murat como o local onde estes teriam sido impressos.
22 No final do texto podemos ler “Genève, 1965. Traduzido do alemão por Walter Celse-Nazaire”. Neste documento encontramos também: uma reprodução da “Laje dos Cavaleiros” posta à luz por Saunière e que segundo este documento seria a pedra tumular de “Segisberto IV, de Segisberto V e de Bera III, colocada em 771”, uma reprodução correcta da pedra tumular vertical da Marquesa de Hautpoul, Marie de Blanchefort, juntamente com o desenho fantasioso da sua suposta pedra tumular horizontal, bem como cinco tábuas genealógicas atribuidas a Henri Lobineau e datadas de 1956. Cota BNP: 16º LK7 50224.
23 Uma referência ao 23º grão-mestre do Priorado de Sião, uma vez que de acordo com a fantasiosa lista de Grão-Mestres divulgada nos Dossiers Secrets, estes tomariam sempre o nome de João ou de Joana.
24 Stüblein surge ligado ao mistério de Rennes por lhe ser atribuída a autoria de um livro intitulado Pierres gravées du Languedoc, que teria sido impresso em Limoux em 1884. Este livro conteria desenhos de várias pedras e monumentos do Languedoc, nomeadamente os que dizem respeito a este assunto: as duas lápides da Marquesa de Blanchefort e o desenho da “Laje dos Cavaleiros”. Em relação aos desenhos das lápides tumulares da Marquesa de Blanchefort, remetemos a leitura para o capítulo sobre Nicolas Poussin, mencionando apenas que um dos desenhos é da autoria de Elie Tisseyre e o outro é baseado numa reconstituição feita por Ernest Cros, o que iliba automaticamente Eugène Stüblein. Quanto à “Laje dos Cavaleiros”, é sabido que a descoberta desta pedra se deu durante os primeiros trabalhos de recuperação levados a cabo pelo padre Saunière. Ora, tendo Saunière chegado a Rennes-le-Château em 1885, não teria descoberto esta laje antes deste ano. Assim, um livro de Eugène Stüblein, ou de quem quer que fosse, publicado em 1884, não poderia conter uma cópia desta pedra. Além disso, o desenho existente nas cópias depositadas na Biblioteca Nacional é idêntico ao do pintor J. Ourtal que foi publicado no Bulletin de la Société d'Études Scientifiques de l'Aude, em 1926, com a excepção de que a assinatura de Stüblein foi forjada. É sabido que ele assinava sempre "Stüblein (des Corbières)". Dados obtidos de Jarnac, op. cit., pp. 331-359.
25 Descadeillas, op. cit., pp. 67-68.
26 Ano de 1964, secção Histoire, p. 508, cfr. Descadeillas, op. cit., p. 68.
27 Nascido em Villarzel-du-Razès a 31 de Maio de 1890, Joseph Courtauly fez os seus estudos em Saint Stanislas, em Carcassonne. Entrou no Grande Seminário após o final da Primeira Guerra Mundial, e foi ordenado padre a 26 de Junho de 1921. Depois de ter exercido durante dois anos no Pequeno Seminário de Castelnaudary como professor, tornou-se cura de Orsans. Oficiou em Villar-St-Anselme (1933), em Montmaur (1940), em Soupex (1945), e em Ladern (1957). Reformado, por razões de saúde, retirou-se para a sua aldeia natal a 24 de Agosto de 1961, e morreu a 11 de Novembro de 1964, com a idade de 71 anos. Fonte: “Arquivos Diocesanos”, cfr. Descadeillas, op. cit., pp. 75-76.
28 Descadeillas, op. cit., p. 69.
29 Descadeillas, op. cit., p. 76.
30 A última página traz o desenho forjado para a lápide horizontal da Marquesa de Hautpoul-Blanchefort, juntamente com um texto a referir à obra Pierres gravées du Languedoc, e que termina com a menção “Janvier 1961 - Publication de l'Alpina, chez Vié à Anvers”. Nove páginas. A referência “Alpina” pretende remeter para uma loja maçónica suiça com o mesmo nome. Inclui também uma reprodução da Laje dos Cavaleiros, um mapa das antigas regiões do Aude (do séc. VII ao séc. IX), e ainda as famosas “Actas Captier”, uma resenha de dados genealógicos falsos relativos à linhagem merovíngia de Dagoberto II, supostamente ocultada em Rennes. Um dado importante que alimenta a mistificação: segundo este documento, teria sido o padre Joseph Courtauly a doar as “Actas Captier” à loja suiça Alpina. Cota BNP: 8º LJ9 9537.
31 Jarnac, op. cit., pp. 333-335.
32 Fayard, 1962.
33 O desenho existente nas cópias depositadas na Biblioteca Nacional é idêntico ao do pintor J. Ourtal que foi publicado no Bulletin de la Société d'Études Scientifiques de l'Aude, em 1926, com a excepção de que a assinatura de Stüblein foi forjada. É sabido que ele assinava sempre "Stüblein (des Corbières)". A assinatura, presente num exemplar de um livro seu existente na Biblioteca de Carcassonne, vem acompanhada de um aviso: todos os exemplares que não possuam a assinatura do autor devem ser considerados como contrafacção. Como os desenhos depositados na Biblioteca Nacional têm uma assinatura diferente, pode-se concluir que estes não foram efectuados por Eugène Stüblein, e que o livro Pierres gravées du Languedoc muito provavelmente nunca existiu fora da imaginação de Plantard.
O que torna tão simples atribuir um livro forjado a este autor é o facto de as suas obras não estarem devidamente catalogadas. À parte dos seus cadernos sobre meteorologia e nos anúncios em periódicos, Stüblein terá escrito três obras de relativa importância, nenhuma delas sobre temas arqueológicos:
1. Description d'une voyage aux établissements thermaux de l'arrondissement de Limoux, de 1877, impresso em Limoux, na casa C. Boute, Rue des Augustins, 13, de 31 páginas.
2. But de promenades et objects curieux qui existent dans les environs de Rennes-les-Bains, de 1884, impresso em Toulouse, na casa Douladoure. 3. Rennes-les-Bains, Description, impresso em local desconhecido, de 1886.
As três obras enumeradas estão descritas no livro do cónego Sabarthès, Bibliographie de l'Aude (Imprimière F. Caillard, Rue Corneille, 2, Narbonne, 1914), porém, estranhamente, as últimas duas não se encontram em nenhuma biblioteca pública. Nem na Biblioteca Nacional, nem na Biblioteca de Carcassonne, nem nos Arquivos Departamentais do Aude, e nem sequer na Biblioteca de Toulouse, onde pelo menos o segundo livro deveria legalmente existir, em virtude do seu depósito legal naquela cidade. O primeiro livro, esse pelo menos existe nas bibliotecas referidas. Assim, como se pode ver, é relativamente fácil depositar cópias forjadas na Biblioteca Nacional, e atribuir-lhes um autor cuja obra, como sucede no caso de Stüblein, não se encontra devidamente referenciada. Seja como for, deve ser dado crédito às referências feitas às três obras de Stüblein no livro do cónego Sabarthès, uma vez que este foi padre em Sigean, terra natal de Stüblein. Dados obtidos em Jarnac, op. cit., pp. 331-359.
34 Cota BNP: 8º LJ6 849.
35 Esta falsificação da pedra tumular horizontal está estudada com mais detalhe no meu site, em http://bmotta.planetaclix.pt.
36 Paul Smith foi o primeiro a detectar este plágio. Para Lecour, o polvo era um símbolo da “tradição primordial”, a tradição atlante.
37 Este trabalho encontra-se depositado nos Arquivos departamentais do Aude, no ano de 1933, cfr. Jarnac, op. cit., capítulo “Notes sur le manuscrit de l'abbé Delmas”, pp. 405-439.
38 Descadeillas, op. cit., p. 81.
39 Descadeillas, op. cit., pp. 80-81.
40 O título completo é: Les dessous d'une ambition politique: Nouvelles révélations sur le trésor du Razès et de Gisors, Nyon, Suiça, Publications G. V. Service, 1973. Mathieu Paoli é o pseudónimo de Ludwig Scheswig, um dos primeiros autores a escrever sobre Rennes-le-Château. Uma personagem enigmática, Paoli forneceu a Jean-Luc Chaumeil fotografias do tesouro romeno de Petrossa, alegando que se tratavam de fotografias do tesouro de Rennes. Em meados dos anos setenta, Paoli desapareceu misteriosamente, e segundo Jean-Luc Chaumeil, ele teria sido fuzilado em Israel, pela Mossad, devido a actividades de espionagem como agente duplo, servindo simultaneamente os serviços secretos israelitas e egípcios.
41 Baigent, Leigh, Licoln, op. cit., pp. 253-257.
42 Informações biográficas retiradas de Descadeillas, op. cit., p. 81.
43 Leo Schidlof, Die Bildnisminiatur in Franckreich in XVII, XVIII und XIX Jahrhundert, Viena, Leipzig, 1911.
44 Descadeillas, op. cit., pp. 81-82.
45 Esta é a data dada por Paul Smith no seu site. Segundo Jarnac, op. cit., p. 302, a data do depósito legal é de 15 de Fevereiro de 1967.
46 Cota BNP: 4º LK7 50490.
47 O investigador Franck Marie, na sua obra Rennes-le-Château, étude critique (Baigneux, Julho de 1978), apresenta como provas indiscutíveis as certidões de óbito das três personagens. Louis Saint-Maxent morrera a 6 de Março de 1967, às 7h; Gaston de Koker a 6 de Março de 1967, às 9h; e finalmente Pierre Feugère a 7 de Março de 1967, às 6h20.
48 Cota BNP: 4º Lm1 249. A morada de Phillipe Toscan du Plantier, que figura na capa, não existe: “17, Quai de Montebello, Paris (Vème)”.
49 “Rebento ardente” é “rejeton ardent” em francês, uma expressão muito próxima de “plant + ard”, o nome de família de Pierre Plantard, o fundador do Priorado de Sião.
50 Informação sobre Georges de Nantes retirada do artigo Contre-Réforme Catholique, no site do Centre de Consultation sur les Nouvelles Religions, http://www.religion.qc.ca, artigo este que por sua vez se baseia na obra do padre Jean Vernette e de Claire Moncelon, Dictionnaire des Groupes Religieux Aujourd'hui, segunda edição revista e corrigida, Janeiro de 1996, Presses Universitaires de France.
51 O texto do artigo pode ser lido em Descadeillas, op. cit., pp. 97-98.
52 Marius Fatin recebeu, de facto, esta carta! No livro de Jean-Luc Chaumeil, Le trésor du triangle d'or (Éd. Lefeuvre, 1979), surge uma fotografia do próprio Fatin com a carta na mão (ver Jarnac, op. cit., pp. 22-26). O que não significa que tal carta provenha da International League… Outro dado importante é este: como Marius Fatin morreu no final de 1966, a carta tem que datar, o mais tardar, do ano de 1966.
53 Jarnac, op. cit., p. 22.
54 Jarnac, op. cit., p. 25.
55 Jarnac, op. cit., p. 26.
56 Lewis fez parte da Ordo Templi Orientis, de Aleister Crowley.
57 Letter from Phillipe de Chérisey's sollicitor, no site de Paul Smith.
58 Ver http://bmotta.planetaclix.pt
59 Ou alternativamente "A Dagoberto II Rei e a Sião pertencem este tesouro e ele é a morte".
60 Também conhecido pelo nome de Codex Cantabrigiensis, graças à Universidade de Cambridge, onde o manuscrito se encontra actualmente. Para saber mais sobre este códice, consultar o site na Internet da New Advent Catholic Encyclopedia, em http://www.newadvent.org, no artigo “Codex Bezae”, letra “C”.
61 http://vulsearch.sourceforge.net/html/index.html
62 Codex Bezae and the Da Vinci Code, em http://www-user.uni-bremmen.de/~wie/Rennes
63 Ver http://bmotta.planetaclix.pt
64 Ibidem.
65 Ibidem.
66 Cfr. site de Paul Smith.
67 Paul Smith contém no seu site um extenso trabalho sobre esta publicação, intitulado Phillipe de Chérisey's Circuit Re-considered.
68 Ver site de Paul Smith, onde existe uma reprodução dessa carta. Jarnac também fornece esta reprodução na sua obra Les Archives du trésor de Rennes-le-Château, p. 566.
69 Liège, 6 de Dezembro de 1975, impresso pelo autor no nº 37 da Rue Saint-Lazaire, Paris, IXème, 8 páginas.
70 Depositado a 4 de Agosto de 1977. Éditions Dyroles, Av. des États-Unis, Toulouse, 15 de Julho de 1977, 6 páginas. Ilustrado com a prancha número 19 dos Dossiers Secrets de Henri Lobineau.
71 Depositado a 6 de Junho e 1 de Setembro de 1978. 21 páginas.
72 Trata-se do misterioso “monsieur Guillaume”, que é referido nos relatos dos habitantes da aldeia. Seria um visitante que vinha tratar de negócios com Saunière, e que usava esse pseudónimo para passar incógnito. Poderá tratar-se, de facto de um membro da família imperial austríaca, João Nepomuceno Salvador de Habsburgo, que abdicara em Fevereiro de 1889 dos seus privilégios imperiais, na sequência da morte em Janeiro do seu primo Rodolfo no pavilhão de caça de Mayerling. João Nepomuceno Salvador de Habsburgo queria passar a ser chamado pelo nome simples de Jean Orth, e abandonaria a Áustria a 16 de Outubro de 1889. Pierre Jarnac estuda a fundo esta hipótese na sua obra Histoire du trésor de Rennes-le-Château, pp. 350-362. Jarnac data a visita do ex-arquiduque a Rennes entre Novembro de 1889 e Fevereiro de 1890, baseado num relatório de polícia originado por uma denúncia feita por um inimigo de Saunière, o Dr. Espezel, da aldeia de Espéraza. Os negócios poderiam estar relacionados com o tráfico de objectos arqueológicos. Abandonando a Europa em Março de 1890, o ex-arquiduque austríaco viajaria para a América do Sul com a intenção de percorrer os mares como navegador solitário. Considerado morto em Julho de 1890, por falta de notícias, num naufrágio ao largo do Cabo Horn, Jean Orth teria morrido apenas no Inverno de 1910 com pneumonia, numa cabana nas margens do Estreito de Magalhães, segundo o testemunho de um explorador francês, o conde de Liniers. No meio literário francês, é também curioso notar que no romance de Gaston Leroux, La Reine du Sabbat (1909), baseado na temática da realeza perdida no contexto da morte de Rodolfo em Mayerling, surge como protagonista uma personagem chamada Jacques Ork (Iannaccone, op. cit., p. 141). Sinal evidente de que a história de Jean Orth era conhecida neste meio literário, que, como vimos atrás, incluía o escritor Maurice Leblanc.
73 Editor Pierre Belfond, colecção Les classiques de l'occultisme, Novembro de 1978, 53 – IV – 310 páginas. Cfr. Jarnac, op. cit., p. 187.
74 Jean-Luc Chaumeil recebeu das mãos de Phillipe de Chérisey o original do documento Pierre et Papier, onde se encontra descrita a forma como este último concebeu os pergaminhos. Chaumeil planeia divulgar pela primeira vez este documento, volvidos vinte e cinco anos da morte de Chérisey, na sua nova obra a editar em França ainda em 2005.
75 Ver http://www.rennes-le-chateau.org
76 Tradução por especial autorização do entrevistador e do entrevistado.
77 Ver, a este respeito, o esplêndido artigo de Massimo Introvinge, The Da Vinci Code FAQ, no site do CESNUR, em http://www.cesnur.org
78 Ver reprodução fac-simile em Jarnac, op. cit., p. 551.
79 Ver o site de Paul Smith.
80 Ver transcrição em Jarnac, op. cit., p. 553.
81 Reprodução em Jarnac, op. cit., p. 554.
82 Jarnac, op. cit., pp. 524-525.
83 Esta informação foi retirada do site de Paul Smith.
84 Ver os detalhes no site de Paul Smith.
85 Ver a entrevista de Gino Sandri a Jean-Patrick Pourtal no seu site http://www.rennes-le-chateau.org

 


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