O processo eclesiástico

 

Índice

1. Introdução
2. A primeira fase do processo (1910)
3. O problema da contabilidade
4. A segunda fase do processo (1911)
5. Os documentos do processo
 

 

     Monsenhor Paul-Félix Beurain de Beauséjour tornou-se Bispo de Carcassonne a 9 de Junho de 1902, em consequência da morte do Bispo Félix-Arsène Billard. Ao invés do seu antecessor, este Bispo recusou-se a fechar os olhos às extravagâncias de Saunière.
     Por esta altura, Saunière levava uma vida singular para um pároco de aldeia. Tendo terminado há muito o restauro da igreja, dedicava-se agora a supervisionar os acabamentos na Torre Magdala, na Villa Béthanie e nos jardins.
     Contudo, na sede episcopal em Carcassonne, Saunière era bem menos admirado. Rumores sobre os empreendimentos do padre chegavam com preocupante frequência aos ouvidos do novo Bispo. Para o Bispo ele era um padre intrigante, cuja vida lhe era completamente desconhecida, e que lhe inspirava a maior desconfiança.
     Em Janeiro de 1909, Monsenhor de Beauséjour exige-lhe explicações sobre alguns aspectos da sua vida, nomeadamente sobre os dois mais importantes: qual ou quais as origens do dinheiro que possuía, e qual a razão por trás das suas empreitadas. O Bispo já suspeitava da possibilidade de um tráfico de missas. Saunière recusa-se a fornecer-lhe qualquer tipo de explicação. Monsenhor de Beauséjour, sem disposição para ver o seu poder desautorizado por um padre de aldeia, ordena a sua transferência para outra paróquia, e isto porque ele pensava que todos os empreendimentos de Saunière tinham sido feitos em nome da Igreja, pertencendo assim à diocese.

Ordem de transferência de Saunière para Coustouge Carta do vigário-geral, anexa à ordem
Ordem de transferência
de Saunière para Coustouge
Carta do vigário-geral,
anexa à ordem

     Saunière recebe a 15 de Janeiro uma carta do Vigário-geral do Bispado de Carcassonne acompanhada de alguns documentos associados, através da qual é informado da sua transferência para Coustouge, posto que deverá ocupar a 1 de Fevereiro de 1909. Saunière, após leitura cuidadosa, entra num período de indecisão e procura o conselho dos padres seus amigos em relação à decisão a tomar. O padre Barthélémy Rouanet, de Bagès-les-Flots, escreve-lhe a 22 de Janeiro:

     "Pedes-me uma solução para a situação que o Bispo te criou. Convém obedecer? Ou convém resistir? Eis os dois termos, não há outras alternativas a estas duas questões. Ou a obediência ou a resistência.
     Dizes-me que o Bispo mantém firmemente a sua decisão e que ele se recusa a considerar as tuas razões, portanto ele não cederá. Então, digo-te: ou te podes alhear dele ou não. Se tens receitas suficientes para te reformares, reforma-te. Se não tens que chegue, tens que te resignar e obedecer...
     Uma ideia surge-me ainda, eu penso que se tu obedecesses farias bem, ao fim de algum tempo, um ano por exemplo, tu dirias a Monsenhor que tinhas obedecido, que tinhas dado provas de bom padre e poderias então reformar-te. Tu colocaste-me na penosa situação de te dizer isto quando me perguntaste o que eu faria no teu lugar.
     Tenta tocar no coração do teu Bispo, mas eu penso que é inútil, há necessariamente alguém por trás dele e a coisa deve ter sido maturamente deliberada. Então a minha última palavra é esta: sê padre." 1

     Esta sugestão do seu amigo deve ter-lhe desagradado. Claramente, a decisão de abandonar a sua aldeia, de deixar para trás os seus empreendimentos recém-terminados estava fora de questão. Então, resolvida a dúvida, Saunière manda a 28 de Janeiro de 1909 uma carta ao Bispo de Carcassonne, comunicando-lhe a sua demissão:

     "Monsenhor,
     Eu li a sua carta com o maior dos respeitos e tomei conhecimento das intenções que me destinou. Mas, se a nossa religião ordena-nos a considerar acima de tudo os nossos interesses espirituais, se esses estão seguramente lá em cima, ela não nos ordena por outro lado a negligenciar os nossos interesses materiais, que estão cá em baixo... E os meus estão em Rennes, e em mais nenhum lugar.
     Declaro-vos, Monsenhor, com toda a firmeza de um filho respeitoso: não, Monsenhor, nunca partirei..." 2

     O Bispo, face a esta situação, impõe a Saunière o abandono definitivo da paróquia de Rennes-le-Château. Contudo, tal exigência não é aceite: Saunière habita um presbitério alugado em seu nome à Câmara de Rennes, e pago com o seu dinheiro, e todos os seus empreendimentos, com excepção do restauro da igreja, estão em nome da sua fiel governanta Marie Dénarnaud. Assim, não há nenhum impedimento para que, depois de se demitir, Saunière continue em Rennes supervisionando o seu projecto como um simples leigo. Saunière entrega definitivamente a Monsenhor de Beauséjour a sua demissão a 28 de Janeiro, numa situação de clara recusa da imposição episcopal:

     "Monsenhor,
     Face à decisão mantida por vossa grandeza em relação à minha partida de Rennes, só me resta um partido a tomar sugerido aliás por vossa grandeza quando vós dissesteis aos representantes da comuna falando a meu respeito: «que ele se reforme!». Portanto, queira aceitar a minha demissão e não me contar mais a partir do primeiro de Fevereiro no número de padres da sua diocese que exercem o santo ministério." 3

     Saunière deixava claro que não iria nunca sair da sua aldeia. A reforma antecipada era um mal menor face à alternativa de sair de Rennes, e ele não estava sozinho nesta tomada de posição. A população da aldeia revela um profundo descontentamento com a transferência do seu padre. Ao fim de quase vinte e cinco anos à frente da paróquia, Saunière já fazia parte da vida dos habitantes de Rennes-le-Château, e estes não se conformam com a decisão episcopal. O próprio presidente da câmara de Rennes-le-Château mostra-se revoltado, como se pode ler numa carta por ele mandada ao Bispo de Carcassonne:

     "Rennes-le-Château, 6 de Fevereiro de 1909
     Do Presidente da Câmara de Rennes-le-Château para o senhor Bispo de Carcassonne.
     Em resposta à sua carta de 31 de Janeiro último, eu tenho a honra de vos informar que lastimo a decisão tomada a respeito do senhor padre Saunière. Não tendo atendido aos pedidos que o Conselho Municipal de Rennes-le-Château fez junto de vossa excelência, achamos que vós e o vosso Conselho agiram de má fé. Nós não ficámos satisfeitos; antes pelo contrário! Antes pelo contrário, porque vós haveis tirado ao sr. Saunière os seus poderes. Quanto à atitude da população face ao senhor padre de Espéraza e face ao sucessor do sr. Saunière, esta irá ser simples: a igreja deserta e as cerimónias religiosas substituídas por cerimónias civis. Vós vereis, senhor Bispo, que não vos valerá de nada aplicar-nos a cólera da Igreja. Quanto ao presbitério, este encontra-se alugado por cinco anos, a partir do dia 1 de Janeiro de 1907, ao padre Saunière. Mas devo-vos informar que após a expiração do arrendamento, e mesmo agora, se ele ficar livre com a saída do arrendatário actual, o Conselho Municipal recusar-se-á a efectuar novo arrendamento com qualquer sucessor para aqui destacado por vós.
     Peço-vos, senhor Bispo, que atenda à minha consideração. Rennes-le-Château, 6 de Fevereiro de 1909,
     O Presidente da Câmara" 4

     O inconformismo do presidente da câmara é evidente. A sua carta revela um desprezo pela atitude do Bispo, que o Conselho Municipal considera "de má fé". Note-se que ele garante na carta que a população irá manter-se fiel ao padre Saunière, mesmo que isso implique a realização de cerimónias religiosas à revelia da Igreja. Ele assegura também o arrendamento do presbitério a Saunière, recusando-se terminantemente a alugá-lo ao sucessor que o Bispo destacar para a aldeia. De facto, pela lei da separação entre a Igreja e o Estado, promulgada em 1905, o presidente da câmara tinha esse direito. Podia até interditar o acesso à igreja de Sta. Maria Madalena. Contudo, esta atitude de chantagem não poderá ter influenciado o Bispo de Carcassonne. Monsenhor de Beauséjour não era pessoa para, com o elevado posto que ocupava na Igreja, se vergar à chantagem de um simples presidente da câmara de um lugarejo com 300 habitantes. Esta carta do presidente até poderia ir contra a vontade de Saunière, que via assim a sua situação piorada.
     Um detalhe importante pode ser encontrado na frase "porque vós haveis tirado ao sr. Saunière os seus poderes". Esta frase revela que o presidente da câmara, e muito provavelmente o resto dos habitantes de Rennes, não sabia que o padre pedira a sua demissão a 28 de Janeiro e que desde 1 de Fevereiro que já não podia legalmente exercer o seu ministério. Saunière, sempre prudente, deve ter mantido um sigilo constante acerca das suas disputas com o Bispo. Assim, o que de facto se passou, ou seja, a ordem episcopal de transferência para Coustouges ter sido evitada pelo pedido de demissão de Saunière, deverá ter passado despercebido a todos, caindo a população na interpretação errada de que Saunière fora destituído dos seus poderes pelo Bispo.
     Toda esta situação não deixa, contudo, de incomodar Monsenhor de Beauséjour. Rennes-le-Château em peso opõe-se à saída do padre da sua paróquia. Entretanto, Saunière subtrai-se à autoridade episcopal: continua a morar em Rennes, porque é ele que paga o aluguer do presbitério, e as suas propriedades estão registadas em nome de Marie Dénarnaud (facto que o Bispo ainda desconhece). As suspeitas do Bispo sobre o tráfico de missas a que se dedicava Saunière continuam por resolver. Com efeito todas as dúvidas do Bispo mantêm-se, e o padre permanece incólume, desafiando a sua autoridade de superior pelo facto de desobedecer à ordem de transferência. Não tendo mais nenhuma forma de atacar Saunière, monsenhor de Beauséjour começa a delinear os contornos de um futuro processo eclesiástico.
     Convocado por várias vezes para comparecer no episcopado de Carcassonne, Saunière esquiva-se sempre, alegando problemas de saúde. Entretanto, procura o conselho de alguns padres amigos. Eis a resposta do padre Gazel, da paróquia de Floure:

     "É preciso então saber do que é que te acusam. Os vigários-gerais (primeiro, N.T.), Monsenhor depois ter-te-ão dito porque te chamariam perante eles. O que é preciso fazer? Devem ter formulado acusações! É preciso responder-lhes? Deves defender-te? SIM.
     Não te podes deixar enrolar sem falares. Tu não és um ladrão, um vigarista. É preciso que tu digas que não roubaste nada, não vigarizaste ninguém; seguro na tua consciência, tu não deves suportar (o que não mereces, N.T.). Diz, repete sempre que se fizeste despesas, o roubo e a vigarice não têm nada a ver com elas; que tu não tens nada de que te censurar: que as tuas despesas, se bem que lhes pareçam exageradas, não ultrapassaram mais do que o dinheiro que tu tinhas em nome (a teu cargo, N.T.) para as cobrir.
     E então, caro amigo, conselho de amigo, redige um depoimento bastante minucioso e digo-te o seguinte, depois de teres reflectido bastante, se bem que estejas no teu direito de não te apresentares, eu penso que tu farias bem em te apresentares, assim mostrar-lhes-ias que tu não temes a luz, que tu não te esquivas, que tu não foges, que tu não temes nenhuma revelação. Então, aconselho-te que te apresentes com o teu depoimento... Se tu não te apresentas, atacar-te-ão (ou castigar-te-ão, N.T.) e responderão: ele era culpado, porque não se apresentou, nem se defendeu.
     Defende-te, defende-te sempre! Não te refugies na abstenção, acreditariam então na tua culpa. Tens uma ocasião para te desculpares, aproveita-a!"

     Outra carta, do padre Barthélémy Rouanet, de Bagès-les-Flots:

Texto original:

     "Et maintenant, en qualité d'ami, laisse moi te dire que tu feras bien de ne pas te présenter. Pourquoi? En voici les raisons:
     1) Les choses qu'on veut te reprocher ne sont pas du ressort du tribunal ecclésiastique, attendu qu'aucune action civile ne t'est intentée pour escroquerie ou vol.
     2) Si quelqu'un t'a donné de l'argent sous le secret naturel, tu es obligé de le garder, et rien ne peut te délier de ce secret, que la personne qui te l'a donné et même dans ce cas, tu dois voir si la révélation que l'on t'autoriserait à faire ne porterait pas un préjudice moral et dans ce cas, tu devrais même te taire.
     3) Tu ne dois pas montrer tes comptes, tu as dépensé un argent qui n'est ni volé ni estorqué, tu l'as dépensé comme tu l'as jugé à propos, nul n'a rien à y voir.
     Ce que tu pourrais faire serait un mémoire d'après les indications que je te donne et de leur envoyer. Ecris le avec le plus grand calme, avec beaucoup de dignité et de respect. Et puis advienne que pourra."

Tradução:

     "E agora, na qualidade de amigo, deixa-me dizer-te que tu farias bem em não te apresentar. Porquê? Eis as razões:
     1) As coisas de que te querem arguir não são da competência do tribunal eclesiástico, atendendo a que não te foi instaurada nenhuma acção civil por burla ou roubo.
     2) Se alguém te deu dinheiro sob o sigilo normal, tu és obrigado a guardá-lo, e nada te pode desligar desse sigilo, a não ser a pessoa que to deu (o dinheiro, N.T.) e mesmo neste caso, tu deves ver se a revelação que te autorizam a fazer não acarreta um prejuízo moral e neste caso, tu devias ficar calado.
     3) Tu não deves mostrar as tuas contas, tu gastaste um dinheiro que não é nem roubado nem extorquido, tu gastaste-o como julgaste propositado, ninguém tem nada a ver com isso.
     O que tu poderias fazer era um depoimento segundo as indicações que eu te dou e enviá-lo a eles. Escreve-o com a maior calma, com muita dignidade e respeito. E depois haja o que houver."

     Numa altura em que era pressionado pelo episcopado, estas cartas de amigos devem ter agravado ainda mais o seu dilema. Os conselhos que lhe eram dados eram contraditórios, e Saunière sabia bem qual a razão que o impedia de levar a sério as palavras dos amigos: eles não estavam a par de tudo. As cartas apresentadas atestam bem a ignorância dos seus colegas em relação à indústria de intenções de missas montada por Saunière. Talvez só os mais próximos, Marie Dénarnaud, Elie Bot, Henri Boudet, e poucos mais, estivessem ao corrente de tudo. A própria população deveria desconhecer por completo o negócio do seu padre, pois este deveria dar a ideia de que os seus recursos financeiros provinham totalmente de dons e de economias pessoais.
     Finalmente, a 31 de Março, Saunière encontra-se com monsenhor de Beauséjour. Durante este encontro, o Bispo avisou o padre de que ele não iria tolerar que este aceitasse honorários de missas à revelia da diocese. Tratava-se de uma séria e clara proibição. Saunière promete dar-lhe contas de toda e qualquer intenção de missa que ele receba doravante.

     O padre Marty, capelão dos órfãos em Coustaussa, é nomeado para Rennes-le-Château a 2 de Julho de 1909 e dois dias depois chega a Rennes. Não tendo onde se instalar, e de forma a evitar a hostilidade da população, instala-se ali perto, na povoação vizinha de Cadéronne. Nos dias seguintes a população de Rennes assiste às missas de Saunière na Villa Béthanie, desprezando assim a autoridade do Bispo e a chegada do novo pároco. Este incrível acto de solidariedade dá uma ideia bem clara da consideração e reconhecimento que a a população tinha pelo seu padre.

     Existem rumores não comprovados de que o padre teria tomado medidas cautelares face a estes acontecimentos. Como o Bispo cumpre com o prometido, Saunière ter-se-ia apercebido do perigo da sua situação e decidido regularizá-la: com a ajuda do padre Le Vieux e recorrendo aos serviços de um notário de Chalabre, prepara a minuta de dois acordos, datados com três meses de avanço, com Marie Dénarnaud, nos quais declara que lhe vende toda a sua mobília por 4.000 francos, e todas as suas propriedades, entrando em conta com todos os edifícios (a Torre Magdala e a Villa Béthanie), pela quantia de 12.000 francos. Há sem dúvida uma grande diferença entre estes números e os apresentados ao Bispo. Os montantes quase parecem simbólicos. Há também uma dúvida legítima: onde foi a governanta buscar estas quantias. Ou Saunière conseguiu a cooperação do padre Le Vieux e do notário, efectuando a minuta e selo sem que Marie tivesse que pagar a quantia, ou então o padre Le Vieux e o notário agiram de boa fé, e dentro da lei. Neste último caso, Marie terá que ter pago de forma legal as quantias acima mencionadas. Ela teria certamente obtido essa soma de Saunière e assim o dinheiro voltaria à proveniência. Contudo, este episódio do notário não está confirmado.

     O pior estava ainda por acontecer... Saunière recebe uma carta do vigário-geral de Carcassonne a 18 de Dezembro de 1909, onde este se revela indignado:

Texto original:

     "Evêché de Carcassonne, le 18 Décembre 1909

     Monsieur l'abbé Saunière,
     La supérieure de l'Hôpital St Joseph, rue Pierre-Larousse n. 7 à Paris, a écrit à Monseigneur, pour lui demander, si elle pouvait vous envoyer des honoraires de Messe, en toute sûreté de conscience. Vous devinez la réponse qui lui a été faite :
     «Gardez-vous bien de continuer à faire de pareils envois; parce que nous n'avons aucune confiance de la manière dont ce Prêtre acquitte les intentions de Messes, qu'il se procure partout où il peut.»
     Monseigneur constate avec peine, que vous continuez à demander des honoraires de Messes en dehors du Diocèse. Et cependant vous aviez promis et protesté que désormais vous n'en demanderiez jamais plus qu'à lui seul, personnellement. Voilà comment vous tenez votre promesse.
     Sa Grandeur se demande, si sa conscience ne lui fait pas un devoir de prendre des mesures efficaces pour faire cesser, une manière d'agir si déplorable. Je vous offre mes sincères salutations,

     H. Rodière"

Tradução:

     "Episcopado de Carcassonne, 18 de Dezembro de 1909

     Senhor padre Saunière,
     A superiora do Hospital St. Joseph, rua Pierre-Larousse nº7, em Paris, escreveu a Monsenhor, para perguntar se ela vos poderia enviar honorários de missa, de consciência tranquila. Vós podeis adivinhar a resposta que Monsenhor lhe deu:
     «Tenha bastante cuidado doravante com envios dessa natureza, porque nós não temos nenhuma confiança na maneira como este padre trata as intenções de missa, pois ele tenta obtê-las em todo o lado.»
     Monsenhor constata assim com pena, que vós continuais a pedir honorários de missas à revelia da Diocese. E mesmo depois da vossa promessa de que doravante todas as intenções passariam pessoalmente pelo senhor Bispo. Eis como vós cumpris a vossa promessa.
     Sua Grandeza interroga-se, se a sua consciência não o impelirá a tomar as medidas eficazes de modo a fazer cessar esta vossa maneira de agir tão deplorável. Ofereço-vos as minhas sinceras saudações,

     H. Rodière"

     A presente carta prova que Saunière ainda estava a procurar receber intenções de missa mesmo depois da proibição formal do Bispo. O vigário-geral revela que Monsenhor de Beauséjour recebeu uma carta onde a superiora de um hospital parisiense lhe perguntava se poderia pagar a Saunière os honorários referentes a intenções. Surpreendido por esta situação, o Bispo revela-se com pouca paciência para a insolência de Saunière, que pelos vistos mantinha esta actividade, mesmo após a sua promessa de parar. Pode-se admitir que esta situação escandalosa ajudou na decisão do Bispo de mover um processo contra Saunière. Quatro dias depois, chega outra carta do vigário-geral de Carcassonne:

Texto original:

     "Evêché de Carcassonne
     Carcassonne, le 22 Décembre 1909

     Monsieur l'abbé Saunière,
     Vous affirmez, que depuis la promesse que vous avez faite à Mgr vous n'avez plus demandé des honoraires de Messes à la Supérieure de l'Hôpital St Joseph, à Paris. Or voici ce qu'elle nous écrit, à la date de 28 octobre dernier... «Pendant qu'il était encore à Rennes-le-Château, comme Curé, Mr l'abbé Saunière s'était adressé à moi, sans me connaître (il avait eu mon adresse par quelqu'un), pour me demander si je pourrais lui procurer quelques honoraires de Messes... Il m'a écrit dernièrement, qu'il était maintenant Prêtre en retraite, restant dans son ancienne Paroisse, et qu'il pourrait toujours acquitter les Messes, qu'on lui enverrait. Comme je n'ai pas l'avantage de le connaître, je vous serai reconnaissante de me dire, si on peut en conscience, lui envoyer des honoraires de Messes.»
     Voilà, deux affirmations, évidemment contradictoires.
     Monseigneur vous sera reconnaissant, si vous voulez bien lui dire, qu'elle est celle, qui est conforme à la vérité.
     Recevez Monsieur l'abbé Saunière, mes sincères salutations.

     H. Rodiére, v.g."

Tradução:

     "Episcopado de Carcassonne
     Carcassonne, 22 de Dezembro de 1909

     Senhor padre Saunière,
     Vós afirmastes que desde a promessa feita a Monsenhor, vós não haveis efectuado pedidos de honorários de missas à superiora do Hospital St. Joseph, de Paris. Ora eis o que a mesma nos escreveu, no último dia 28 de Outubro... «Enquanto ainda era padre em Rennes-le-Château, o senhor padre Saunière escreveu-me, sem me conhecer (ele obteve o meu endereço através de alguém), para me perguntar se eu lhe poderia arranjar alguns honorários de missas... Ele escreveu-me recentemente, informando-me que estava de momento como padre reformado, ainda na sua paróquia antiga, e que ele poderia sempre receber pedidos de missas, se eu lhos pudesse enviar. Como eu não o conheço, agradecia-vos que me dissessem se eu posso ou não enviar-lhe de consciência, os honorários de missas.»
     Eis duas afirmações, evidentemente contraditórias.
     Monsenhor agradecer-vos-á, se vós puderdes dizer-lhe, qual destas afirmações corresponde à verdade.
     H. Rodiére, v.g."

     Face a esta situação, Saunière negou a carta para a superiora do hospital, admitindo apenas que todas as intenções de missa que lhe mandaram foram recebidas de boa fé. Porém, em Maio do ano seguinte, o Bispo comunica a Saunière que recebeu outra carta de pedido de encaminhamento de honorários. Saunière recebe um novo aviso, desta vez num tom de fatalidade:

Texto original:

     "Evêché de Carcassonne
     Carcassonne, le 12 mai 1910

     Monsieur l'abbé,
     Voici le texte de la réponse, que Mgr me charge de donner à Mme Gabrielle Camus, faubourg des Vosges à Mirecourt, qui demande si on peut vous envoyer des honoraires de Messes en toute confiance:
     «Gardez-vous bien d'envoyer des honoraires de Messes à Mr l'abbé Saunière, ancien curé de Rennes-le-Château, et retiré dans cette Paroisse, parce que Mgr l'Évêque n'a aucune confiance en la manière, dont ce Prêtre acquitte ses obligations, sur ce point».
     Sa Grandeur voit avec peine, que vous ne tenez pas la promesse formelle, que vous lui avez faite, de ne vous adresser qu'à elle, quand vous seriez dépourvu d'honoraires.
     Recevez, Monsieur l'abbé Saunière, mes sincères salutations.

     H. Rodière"

Tradução:

     "Episcopado de Carcassonne
     Carcassonne, 12 de Maio de 1910

     Senhor padre,
     Eis o texto da resposta, que Monsenhor me encarregou de enviar a Madame Gabrielle Camus, do subúrbio dos Vosges em Mirecourt, que pergunta se vos podemos encaminhar honorários de missas à confiança:
     «Evite enviar honorários de missas ao senhor padre Saunière, antigo cura de Rennes-le-Château, e retirado nesta paróquia, porque Monsenhor o Bispo não tem nenhuma confiança no modo como este padre cumpre as suas obrigações neste aspecto.»
     Sua grandeza vê com pena, que vós não cumpris a promessa formal que lhe foi feita, de apenas recorrerdes a ela quando estivésseis privado de honorários.
     Receba, senhor padre Saunière, as minhas sinceras saudações.

     H. Rodière"

     O Bispo mostra-se assim definitivamente desiludido com Saunière. Porém, há que ter alguma precaução em relação à autenticidade destas duas cartas. É um pouco estranho que exactamente na altura em que o Bispo procura razões para incriminar Saunière surjam dois pedidos vindos de pessoas que pretendem claramente fazer passar os seus donativos pelo episcopado. Se estes benfeitores foram abordados pessoalmente por Saunière, este decerto seria bem específico, mencionando que os honorários deveriam ser-lhe dirigidos. Parece demasiado conveniente o aparecimento destes pedidos de encaminhamento exactamente nesta altura. Há muito que o Bispo procurava razões para conseguir controlar Saunière, e um processo eclesiástico seria a única via possível.
     Contudo, a explicação mais segura é a de que as cartas seriam verídicas, e ao invés de provarem que Saunière estava a querer provocar o episcopado, demonstram que o padre já não controlava o seu comércio de missas, que como sabemos, manter-se-ia até à sua morte. O volume de pedidos era tão grande, que Saunière talvez não pudesse evitar que alguns benfeitores mandassem excepcionalmente as suas intenções através do Bispo, uma vez que Saunière certamente faria notar nos seus pedidos que ele próprio era o destinatário. Nos pedidos, ele frisava que os pagamentos de honorários por vale postal deveriam ser endereçados à sua pessoa, para serem levantados num lugar por ele predestinado, que frequentemente era a gare de Couiza.
     Monsenhor de Beauséjour estava claramente farto. Se as cartas eram ou não falsas, o Bispo ia mover um processo contra Saunière tendo como principal acusação o facto, que já sabemos ser verdadeiro, do padre se dedicar a um comércio ilegal de missas.

 

 

A primeira fase do processo (1910)

 

     Durante a descrição deste processo, que será feita cronologicamente, será possível aceder por meio de atalhos aos documentos relevantes. Devido à sua dimensão, estes documentos estão no fim desta página. Sempre que forem referenciados, existirá um atalho para o texto e para a sua tradução. No fim da consulta, será possível regressar ao ponto do texto onde ocorreu a referência.

     Monsenhor de Beauséjour pede a 27 de Maio de 1910 ao promotor do Ofício que intime Bérenger Saunière a comparecer perante o tribunal eclesiástico, para este o proibir formalmente de receber intenções de missa de forma independente da diocese. O promotor escreve ao vigário-geral, pedindo-lhe que cite Saunière.

[Carta do promotor do Ofício ao vigário-geral]

     A 7 de Julho, ocorre a citação pelo vigário-geral de Carcassonne, no seguimento do pedido do promotor do Ofício. Ele deve comparecer em tribunal a 16 de Julho, devendo revelar até ao dia 12 o nome do seu advogado.

[Citação de Saunière declarada pelo vigário-geral]

     Saunière mantém-se silencioso até ao dia 15, véspera do julgamento, ignorando, portanto, a data limite para a apresentação do seu advogado. Neste dia, o Bispo de Carcassonne recebe uma carta sua:

[Carta de Saunière para o Bispo]

     Esta carta fala por ela própria. Saunière recusa-se claramente a comparecer no tribunal, alegando problemas de saúde e dificuldade em arranjar advogado. No Sábado, dia 16 de Julho, o tribunal reúne-se, mas como Saunière não comparece é redigida um a nova citação, desta vez peremptória, para o dia 23 de Julho:

[Convocação peremptória]

     No dia 20, o tribunal ainda não conhece o nome do advogado de Saunière. O padre escolhe inicialmente para advogado o padre Molinier, deão de Azille, mudando logo depois a sua escolha para o professor Mis, advogado em Limoux. Quando escolhe de vez o seu advogado, Saunière estava a apenas três dias do julgamento e precisava de tempo para organizar a sua defesa. O padre pede ao tribunal uma semana de adiamento mas não obtém resposta. Uma carta é ainda enviada ao Bispo a 22 de Julho, mas as circunstâncias não se revelam favoráveis porque o Bispo estava fora de Carcassonne, encontrava-se em Vesoul.
     O julgamento tem mesmo lugar no dia 23. Saunière não se apresenta nem se faz apresentar e é julgado como contumaz. Dois dias mais tarde, a 25, Saunière recebe correio do Ofício, dizendo-lhe que as cartas que mandou antes do julgamento foram parar ao episcopado e não estando o Bispo presente, as cartas não foram remetidas ao Ofício.

[Julgamento contra Saunière]

     Com esta condenação, Saunière vê a sua posição seriamente comprometida. Escreve ao Bispo pedindo a revisão do seu processo alegando a falta de tempo para preparar a sua defesa que resultou na sua ausência na sessão de 23 de Julho. Saunière pede ao Bispo a "restitutio causa in integris", ou seja, a anulação por parte do Bispo do processo anterior e a marcação de um novo julgamento. O Bispo acede aos seus pedidos a 31 de Julho e um novo julgamento é marcado para 23 de Agosto. O tribunal do Ofício reconhece o professor Mis como seu advogado de defesa.

[Marcação de um novo julgamento para 23 de Agosto]

     Saunière efectua um novo pedido de adiamento ao Bispo e, devido às férias judiciais, o julgamento é adiado para 15 de Outubro. Desta vez, Saunière escolhe para advogado o Doutor Huguet, de Agen. A escolha foi sem dúvida bem feita: Huguet é um antigo professor da universidade de Paris e é doutor em Teologia e Direito Canónico. Saunière está sob a acusação de comércio de missas, despesas exageradas e injustificadas e desobediência formal ao Monsenhor o Bispo de Carcassonne.
     No dia 15 de Outubro, o tribunal reúne-se às duas horas da tarde. Saunière não está presente mas faz-se representar pelo seu advogado, o Doutor Huguet, com o qual ele tinha preparado um depoimento escrito para ser lido na sessão. Inicialmente o escrivão leu as várias partes do dossier, e de seguida o promotor leu a acusação contra o padre que incidia nos três seguintes aspectos: 1) o tráfico de missas; 2) a desobediência ao Bispo; 3) as despesas exageradas e injustificadas. O advogado tentou rebater as três acusações alegando que não houve tráfico de missas no sentido exacto do termo, que o seu cliente nunca desobedeceu ao Bispo e que as despesas efectuadas foram todas financiadas por dons de particulares tendo em vista a realização de obras piedosas. A intervenção do advogado não parece ter produzido efeitos positivos, pois fica decidido que um novo julgamento será efectuado mais tarde, mas a sentença referente às três acusações será lida dentro de poucos dias.

[Citação para a leitura da sentença a 5 de Novembro]

     A leitura da sentença tem lugar no sábado, 5 de Novembro de 1910, às 10 horas da manhã. O tribunal do Ofício reúne-se e Saunière apresenta-se perante o tribunal acompanhado do Doutor Huguet, seu procurador e advogado. Depois de ter perguntado a este último e ao promotor se eles não tinham nada a adicionar às suas conclusões, o provisor leu a sentença deliberada pelo tribunal.
     Pela desobediência, Saunière é condenado a "escolher uma casa de retiro sacerdotal ou um mosteiro para lá passar dez dias em exercícios espirituais", pena para ser efectuada dentro de dois meses. Quanto às intenções de missa recebidas ilegalmente, o tribunal não tinha razões para estar "suficientemente e juridicamente convencido do comércio de honorários de missas", mas condena a negligência de Saunière por este não manter um registo das missas. É interessante notar que, como se pode comprovar no capítulo relativo ao comércio de missas, Saunière mentiu ao tribunal cometendo o crime de ocultação de provas, uma vez que ele possuía um caderno de intenções de missas. Pela forma detalhada como podiam evidenciar os seus actos ilegais, este caderno e demais contabilidade comprometedora deveriam continuar longe da vista das autoridades eclesiásticas.
     Pela queixa de despesas desregradas e injustificadas, Saunière fica obrigado a comunicar sem falta as suas contas ao Bispo no prazo de um mês e colocar-se à disposição do seu prelado diocesano para dele receber instruções relativas ao imóveis construídos em Rennes-le-Château.

[Leitura da sentença]

     As circunstâncias deste primeiro julgamento e da sentença que o concluiu são ainda muito estranhas. Alguns factos parecem, contudo, destacar-se de forma a dar uma ideia coerente da realidade. O facto mais importante consiste na impossibilidade do tribunal provar o tráfico de missas. Só por si, este facto leva a ponderar seriamente a possibilidade de terem ocorrido denúncias. Saunière viria a queixar-se frequentemente de ser alvo da inveja e da malvadez de alguns colegas seus. O Bispo, cioso de colocar sob a sua alçada um património não negligenciável, terá atendido a algumas queixas de padres da região para formular a sua ideia de processo. Já não há dúvidas de que Saunière se dedicava ao tráfico de missas, o que lhe permitia manter um activo suficiente para fazer face às suas despesas, mas importa realçar a desfaçatez da atitude do Bispo. Ao impor a Saunière que este revele a proveniência dos seus dons, e consequentemente o nome dos seus benfeitores, o Bispo estava a obrigá-lo a violar o segredo de padre. Assim, para preservar a sua honra, Saunière ficava sem forma de poder provar que o seu activo era composto por uma parte substancial de dons de particulares.
     No fundo, o tribunal sabia que não tinha poderes para compeli-lo a revelar os nomes e os montantes dos dons de particulares, mas pelo menos iria tentar forçar o padre a justificar por meio de facturas o bom uso dos bens que lhe foram confiados, usando o forte argumento de que qualquer padre é obrigado a prestar contas ao seu Bispo de todo o tipo de dons recebidos e das despesas com eles efectuadas. E é neste ponto que Saunière se iria ver em maus lençóis, uma vez que entregar a totalidade das sua facturas ao episcopado seria revelar aos seus superiores que praticamente tudo fora comprado em nome de Marie Dénarnaud e que legalmente, a Igreja não tinha nenhuns poderes sobre o património recém-construído em Rennes-le-Château.
     Outro facto a reter é o da degradação do estado de saúde do padre. A sua falta de comparência em algumas das sessões de tribunal deve-se à doença cardíaca que começava nesta altura a afligi-lo. É preciso notar que a situação não apresentava um padre a esquivar-se ardilosamente à justa perseguição episcopal, mas sim um homem ambicioso e empreendedor que, mesmo tendo recorrido a formas pouco correctas para obter o financiamento necessário, não era mal intencionado, preocupava-se com os seus semelhantes, e estava agora a ser vítima de uma série de traições anónimas e ataques inesperados. O padre afirmava com amargura ter sido alvo da traição de vários anónimos, alguns deles padres, bem como de uma série de episódios desagradáveis, partidas e reveses tanto da administração civil como das autoridades eclesiásticas:

Texto original:

     "Tout est déterminé sur quelques lettres anonymes, sur des rapports plus ou moins bien fondés, oeuvre de quelques laiques et surtout de confrères envieux et jaloux, car l'ennemi du prêtre c'est le prêtre.
     (...)
     Je ne pourrai jamais assez vous dire tout ce qu'il m'a fallu supporter et souffrir de peines de tracasseries et d'épreuves de toutes sortes de la part de l'administration civile du conseil de fabrique de la paroisse, de l'autorité ecclésiastique et de ma famille. Et pourtant je n'avais demandé et ne demandais un sou à personne. Seul je m'étais chargé de tout payer, et avec la grâce de Dieu j'avais réussi."

Tradução:

     "Tudo foi determinado em função de algumas cartas anónimas, sobre depoimentos mal ou bem fundamentados, obra de alguns leigos e sobretudo de confrades invejosos e ciumentos, porque o inimigo do padre é o padre.
     (...)
     Nunca poderia dizer tudo o que me foi necessário suportar e sofrer de penas e de partidas e de provas de todos os tipos da parte da administração civil do conselho da confraria da paróquia, da autoridade eclesiástica e da minha família. E contudo eu nunca pedi e não pedia um tostão a ninguém. Somente eu estava encarregado de pagar tudo, e com a graça de Deus tinha conseguido."

     Importa sublinhar que Saunière atribui incorrectamente o seu sucesso à graça divina, quando ele devia afirmar que fora graças aos doadores e respectivas ofertas generosas que ele conseguira levar avante os seus empreendimentos.
     Agora que tinha concluído o seu projecto, Saunière começava a sentir tudo a fugir-lhe das mãos. Tendo reparado na facilidade com que o Bispo de Carcassonne conseguia levar avante as suas acusações e estando na iminência de ter que prestar contas das suas despesas e talvez até devolver os fundos desviados, o padre poderá ter perdido todo o ímpeto que fora determinante ao longo da sua vida.

 

 

O problema da contabilidade

 

     Tendo ocorrido o processo verbal de notificação da sentença a 17 de Novembro, Saunière tinha até 28 de Novembro para pedir recurso (dez dias depois), e tinha como prazo máximo para apresentação de contas o dia 17 de Dezembro de 1910 (um mês depois). Ora sucede que o padre vai falhar a estes dois prazos. Ele envia uma carta com o pedido de recurso a 30 de Novembro, ou seja, dois dias depois do prazo. Adicionalmente, ele não entrega a sua contabilidade a 17 de Dezembro. Ao invés, decide neste dia endereçar uma carta à Santa Congregação do Concílio, em Roma, para pedir recurso da sentença. Porquê?
     Por detrás destas atitudes condenáveis, que só provocariam o azedar das relações entre o padre e os seus superiores, estava a teimosia do seu advogado, o Doutor Huguet. Insistindo numa táctica arriscada, o advogado aconselhava Saunière a não fazer caso das insistências vindas de Carcassonne enquanto ele se deslocaria a Roma para pedir recurso da sentença de 5 de Novembro junto da Sagrada Congregação do Concílio. Importa realçar aqui que, ao contrário do que foi frequentemente dito, o papa Pio X nada teve a ver com este caso. Existindo uma série de congregações em Roma, o Doutor Huguet iria pedir recurso junto de uma delas, que era presidida por um Cardeal-Prefeito e não pelo papa.
     Devido a esta táctica, e às atitudes que Saunière adoptou em função dela, o episcopado emitiu uma série de quatro avisos:

Primeira monitória - 30/12/1910
O Ofício declara que o pedido de recurso apresentado por Saunière não tem efeito por vir dois dias depois do prazo, tendo a sentença de 5 de Novembro ficado definitiva e executória a 28 de Novembro. Saunière deve apresentar-se ao Bispo de Carcassonne a 9 de Janeiro de 1911, às 2 horas da tarde, para apresentar as suas contas com facturas justificativas e receber as instruções do seu prelado sob pena de ser sujeito a uma sanção disciplinar.
Segunda monitória - 5/1/1911
O Ofício afirma como inviável o novo pedido de recurso apresentado por Saunière a 3 de Janeiro por ter expirado o prazo para tal. A carta informa também que foi prolongado o prazo de apresentação de contas por mais quinze dias para que o padre possa reunir a documentação necessária. Um dia antes do fim deste prazo, a 19 de Janeiro, Saunière envia para o episcopado uma carta com um novo pedido de recurso.
Terceira monitória - 18/2/1911
O Ofício emite um sério aviso ao padre: ele deve deixar de pedir recursos, sobretudo ao Concílio, visto que o último dia para tal foi o dia 27 de Novembro de 1910, ele deve acatar a sentença de 5 de Novembro de 1910 pela qual ele foi efectivamente condenado, e deve apresentar a 2 de Março as suas contas, e a 20 de Março o certificado de que efectuou o retiro de exercícios espirituais ao qual fora condenado. Adicionalmente, o padre é avisado de que o pedido de recurso a Roma é escusado, uma vez que a sua carta de demissão impede a reintegração, seja por que razão for.
Quarta monitória - 28/2/1911
Em virtude de um novo protesto escrito enviado por Saunière a 24 de Fevereiro, o Ofício reitera a totalidade do conteúdo da terceira monitória.

     O Ofício julga que Saunière e o seu advogado pretendem obter de Roma a anulação do julgamento de 5 de Novembro de 1910 e a reintegração do padre na paróquia de Rennes-le-Château. Contudo, tal não é a vontade do arguido nem do seu defensor, pelo menos em relação à segunda intenção. Eles sabem bem que o pedido demissionário que foi apresentado a 28 de Janeiro e tornado efectivo a 1 de Fevereiro de 1910 não deixa margem para manobra. Saunière nunca mais poderá voltar a ser padre em Rennes. O que ele e o seu advogado desejam é evitar a todo o custo a apresentação da contabilidade, ou pelo menos atrasá-la, e se possível obter de Roma a anulação do julgamento. Saunière sabe bem que a sua posição é muito fraca e que se não conseguir a anulação, mais tarde ou mais cedo será apanhado pelas autoridades eclesiásticas visto que ele não pode justificar as suas contas sem revelar a situação grave que constitui a posse legal por parte de Marie Dénarnaud de todos os empreendimentos em Rennes-le-Château.
     A 6 de Março, o padre envia uma carta na qual se justifica por não ter cumprido o prazo de apresentação de contas (2 de Março) alegando problemas de saúde e anexando um certificado dos mesmos, escrito pelo Dr. Roche. Três dias depois, a 9 de Março, o Bispo escreve a Saunière impondo-lhe como prazo máximo e definitivo o dia 16 do presente mês para que ele se submeta às exigências que lhe são feitas e apresente de vez a sua contabilidade. No mesmo dia 9, o provisor Gustave Cantegril admite, graças à apresentação do certificado médico, o adiamento do retiro por mais dois meses a partir do dia 15, ou seja, Saunière deve cumprir o retiro até 15 de Maio de 1911.
     A 13 de Março, Saunière envia para o Bispo, Monsenhor de Beauséjour, uma carta como resposta à imposição da entrega da contabilidade. Saunière anexa à carta uma série de documentos: a lista de receitas que ele elaborou e que nunca iria satisfazer a comissão de inquérito por ser demasiado sucinta e não comprovada, um documento da conservatória do registo predial, e um maço de 61 facturas. O Bispo encaminharia estes documentos para o vigário-geral Saglio, que dirigia a comissão de inquérito.
     Os primeiros problemas surgem para a comissão com a análise da lista de receitas. A comissão acha que quase todas as fontes de receitas estão apresentadas de forma incompleta e duvidosa, e que Saunière não apresenta provas que sustentem as suas afirmações a este respeito. Após efectuada a análise possível, a comissão endereça a Saunière, em data desconhecida, uma carta onde enuncia as dúvidas que deseja ver esclarecidas. A 25 de Março de 1911, Saunière responde com uma carta na qual ele se limita a dar apenas mais alguns detalhes em relação ao que escrevera anteriormente. Pela leitura da carta, torna-se evidente que o padre está a procurar esquivar-se a todas as questões. A comissão não fica indiferente a esta atitude e responde a 4 de Abril, através de Charpentier, um dos elementos da comissão. Na carta protesta-se pela falta de rigor e de detalhe. A comissão incide sobretudo nas receitas da caixa de esmolas, que lhes parecem demasiado elevadas, e por conseguinte, suspeitas; procura igualmente obter dados acerca do preço dos terrenos e das despesas de terraplanagem e trabalhos brutos; e tenta obter de Saunière uma lista dos benfeitores e respectivas doações. A situação irregular da contabilidade de Saunière já não podia ser ocultada. O estratagema da inflação das receitas da caixa de esmolas apenas lhe permitiu ganhar tempo.
     Apesar da situação ser delicada (Saunière entregou à comissão 61 facturas que justificam 36.000 francos, quando ele próprio admitiu o montante total de 193.000 francos de despesas), o padre não cede à pressão e continua a esquivar-se. Numa carta datada de 8 de Abril, Saunière apresenta as suas justificações: o número insuficiente de facturas, segundo ele, deve-se ao facto da maioria se ter extraviado, visto que elas caducavam ao final de dois anos e não havia interesse em mantê-las, e sobretudo porque ele era um padre, e não um empresário. Saunière insiste sempre no facto de que o seu cargo não o obriga a manter uma contabilidade estrita e completa.

     Nesta carta o padre alude ainda a um episódio insólito, decorrido meses atrás. Este episódio complicou gravemente a sua situação: a 11 de Dezembro de 1910, no suplemento número 3 de um periódico regional, o Les veillés des Chaumières, surgiu um anúncio com o nome de "Bérenger Saunière" no qual se publicitavam missas a 1 franco e se pediam donativos variados. A reacção episcopal a este anúncio foi, como não podia deixar de o ser, muito forte. O episcopado mandou publicar no La Semaine Religieuse o seguinte anúncio:

Texto original:

     "L'autorité diocésaine de Carcassonne croit devoir avertir les fidèles du diocèse et, en tant qu'il est en son pouvoir ceux d'autres diocèses:
     1) Que l'abbé Saunière n'est nullement autorisé à demander, hors du diocèse ou à recevoir de diocèses étrangers, des honoraires de messes.
     2) qu'il n'a reçu aucune mission ou autorisation pour entreprendre ou conduire une oeuvre quelconque ayant le culte pour objet."

Tradução:

     "A autoridade diocesana de Carcassonne julga dever avisar os fiéis da diocese e, enquanto o pode fazer os de outras dioceses:
     1) Que o padre Saunière não está de forma alguma autorizado a pedir, à revelia da diocese ou a receber de outras dioceses, honorários de missas.
     2) que ele não recebeu nenhuma missão ou autorização para efectuar ou conduzir qualquer obra tendo o culto por objecto."

     Esta reacção do episcopado foi, muito provavelmente, precipitada e injusta. Não parece razoável que, considerando a situação delicada em que ele se encontrava, Saunière tivesse o desplante de publicar tal anúncio. Sendo assim, a publicação do dito anúncio constitui uma evidência da má fé que alguns devotavam a Saunière. O anúncio era um claro acto de delação, talvez originado por questões obscuras ou mais simplesmente por pura inveja. Ciente ou não da autenticidade do anúncio, o episcopado não esperou para aproveitar a situação como podia. Vendo o seu nome na lama, Saunière reagiria com mágoa (carta de 8 de Abril):

Texto original:

     "Une note à laquelle j'étais totalement étranger parut dans «Les Veillés des Chaumières»: sans prendre la moindre information vous m'avez traité en coupable et vous fites paraître dans la Semaine Religieuse un entrefilet qui fut pour moi une sorte de dégradation. Cet avis a fait le tour de la Presse, il m'a, pour ainsi dire, cloué au pilori.
     Si je n'avais pas été prêtre avant tout j'aurai demandé au Droit Civil une reparation que j'aurais certainement obtenue. J'ai préféré me taire et souffrir aimant mieux attendre de Rome - où l'on est juste et humain - une réparation qui j'en ai la confiance me sera accordée."

Tradução:

     "Uma nota que me era totalmente estranha surgiu no «Les Veillées des Chaumières»: sem procurar obter a menor informação vós haveis-me tratado como culpado e fizesteis aparecer no «Semaine Religieuse» uma notícia breve que foi para mim uma espécie de degradação. Este anúncio percorreu toda a Imprensa e, por assim dizer, pregou-me no pelourinho.
     Se eu não tivesse sido padre antes de mais nada eu teria pedido ao Direito Civil uma reparação que teria certamente obtido. Preferi guardar silêncio e sofrer preferindo esperar de Roma - onde se é justo e humano - uma reparação que eu tenho a confiança de que me será concedida."

     A 19 de Abril, a comissão envia uma nova carta a Saunière. Nesta carta, faz-se notar ao padre que não é ao vigário-geral Gustave Cantegril que ele deve endereçar as cartas explicativas, mas sim à comissão instituída por monsenhor de Beauséjour. Doravante, Saunière continuaria a insistir de forma teimosa em endereçar as cartas a Gustave Cantegril, facto cuja razão se desconhece. Nesta carta há um detalhe importante: a comissão pede a Saunière que saia do mosteiro de Prouille para se dirigir a Carcassonne com o propósito de esclarecer pessoalmente as dúvidas da comissão. Ao frisar no pedido que o padre saia de Prouille, torna-se evidente que Saunière já estava neste dia 19 de Abril a cumprir a sua pena de retiro. Ao que parece, Saunière saiu do mosteiro a 5 de Maio de 1911, e sendo assim ele teria cumprido um retiro de maior duração do que os dez dias impostos.
     Do mosteiro, Saunière escreve a 27 de Abril uma carta ao vigário-geral na qual ele diz que não se pode apresentar pessoalmente perante a comissão, visto que a sua saúde não lhe permite que se exponha a circunstâncias emocionalmente violentas. Saunière propõe-se a esclarecer por escrito toda e qualquer dúvida que surja à comissão.
     Os elementos da comissão revelam-se irritados pelas evasivas do padre, e respondem-lhe com uma carta na qual tentam mais uma vez convencê-lo a apresentar-se pessoalmente em Carcassonne, fazendo porém notar que evitariam todas as circunstâncias penosas. Sugere-se ainda ao padre que, conhecendo bem os seus fornecedores e operários, tente obter deles duplicados das facturas referentes aos serviços prestados. A carta termina com uma frase claramente chantagista, onde a comissão dá a entender que o resultado do relatório que está a efectuar para o Bispo poderá depender da colaboração de Saunière ou da falta dela.
     Saunière responde com uma carta datada de 14 de Maio, na qual ele usa de novo os seus problemas de saúde como desculpa para evitar as entrevistas orais. O padre menciona as consequências nefastas para a sua saúde de uma discussão que teve com Cantegril a 25 de Novembro de 1910, que implicaram para ele várias semanas de convalescença. Deste modo, Saunière recusa-se a comparecer para uma entrevista oral por achar que tal atitude seria irresponsável da sua parte.
     O cónego Charpentier, um dos membros da comissão, escreve a Saunière a 27 de Maio para lhe comunicar que as questões da carta do dia 9 não foram respondidas. A comissão deseja que padre se remeta a esta carta e que responda de forma clara ao que lhe é perguntado. De novo, Saunière é ameaçado pelo final menos feliz que pode ter o relatório da comissão caso ele não coopere.
     A resposta não tarda: Saunière envia uma nova carta a 2 de Junho, na qual explica que não possui as facturas que a comissão pretende, porque as destruiu por julgá-las inúteis, e afirma que lhe seria muito desagradável ter que recorrer aos fornecedores e aos operários para obter de novo as facturas, porque isso levantaria suspeitas. O padre continua a achar que a comissão o está a tratar como o gestor de uma empresa falida. Saunière sugere à comissão que esta exponha categoricamente em cláusulas numeradas as questões que deseja ver esclarecidas, e avisa que vai proceder à elaboração de um relatório dos dois julgamentos a que foi sujeito para que este seja remetido à Congregação, em Roma.
     O presidente da comissão, o cónego Saglio, responde-lhe a 14 de Junho, numa carta onde não reage minimamente aos argumentos do padre, limitando-se a afirmar que a comissão deseja perceber qual a natureza do grosso das despesas efectuadas, visto que apenas uma pequena parte pode ser justificada com facturas. Visto que com esta carta a comissão ainda não apresenta as questões de forma categórica, pode-se prever o teor da resposta de Saunière: a 20 de Junho, o padre escreve uma carta onde ele se remete claramente às três questões colocadas pela carta da comissão de 9 de Maio, mas sem adicionar nada de novo.
     A 7 de Julho, a comissão, desejosa de encerrar o inquérito, dirige a Saunière nova carta, mas desta vez com quatro questões explícitas: 1) quanto custaram os terrenos; 2) quanto custou o restauro da igreja e o calvário; 3) quanto custaram a Villa Béthanie, a Torre Magdala, a varanda e os dois jardins; 4) quanto foi gasto em arranjos interiores e mobiliário. A comissão explicita que se contenta com aproximações, visto que o padre afirma constantemente que não pode detalhar a sua contabilidade. Na sequência deste pedido, Saunière terá achado que já era tempo de dizer alguma coisa para contentar a comissão. Surge então uma das mais famosas cartas de Saunière: a de 14 de Julho. Nesta carta, estão representados todos os itens dos quais a comissão deseja obter o montante gasto. O total é um número já bem conhecido: 193.000 francos. Saunière apresentara o mesmo número durante o processo. Número bem longe dos 36.000 que as facturas apresentadas justificam.

     Minimamente satisfeita por ter obtido de Saunière, depois de tantos esforços, uma estimativa para as despesas, a comissão decide encerrar o seu trabalho entregando ao Bispo depois do Verão, a 4 de Outubro, um relatório final. Este relatório, gélido e contundente, decidiria a sorte de Saunière. A comissão menciona a escassez de detalhe e a falta de provas, tanto nas receitas como nas despesas, frisa o ar suspeito do montante de receitas da família Dénarnaud declarado por Saunière, e sublinha o facto deste nunca se ter dignado a comparecer perante a comissão para uma entrevista.
     O golpe final é desferido no fim do relatório. A comissão informa o Bispo de que se apercebeu de um facto grave: no maço de 61 facturas que Saunière entregou, uma delas estava em nome de Marie Dénarnaud. De facto, estavam duas: a N58, de Joseph Fabre, e a N45, do ferreiro Charles Dénarnaud, mas a comissão apenas mencionaria a primeira no relatório. Adicionalmente, a comissão foi informada pelo próprio Saunière de que os terrenos foram comprados em nome da "família hospitalizada". O padre esquivara-se a fornecer a informação mais importante: em que nome estavam os terrenos; mas a comissão já não podia ser enganada. Se os terrenos não estavam em nome do padre Saunière, se foram comprados pelos Dénarnaud, se havia despesas com o património efectuadas em nome de Marie, o que a comissão verificou com as duas facturas, então a intenção do Bispo em recuperar para a diocese o património de Rennes ficava seriamente comprometida.
     Segundo a comissão, baseando-se nas afirmações de Saunière, todas as despesas feitas beneficiam o proprietário dos terrenos, que tudo apontava ser Marie Dénarnaud. Apenas ficariam de fora as despesas na igreja e no calvário (27.000 francos) e as despesas com o mobiliário (15.000 francos). Face a esta situação, o Bispo deve ter ficado furioso. Saunière dera-se ao desplante de construir sobre terrenos de terceiros, procurara, como padre, obter fundos para construir nos ditos terrenos, e efectuara mesmo parte das compras e despesas em nome do proprietário dos terrenos. A situação legal era claramente a de desvio de fundos e mau uso dos bens a ele confiados.

     Monsenhor de Beauséjour provocara e arrastara um primeiro processo e estava prestes a iniciar um novo, sempre sem ter percebido qual fora a intenção inicial de Saunière. O padre, de facto, escondera uma grande parte das facturas da comissão, do mesmo modo que escondera os cadernos de missas do tribunal, durante o primeiro processo. Como homem meticuloso que era, ele mantinha uma contabilidade muito rigorosa. Era evidente que ele não iria deitar fora a maioria dos seus documentos contabilísticos. Assim, só mandara um maço de 61 facturas, pois eram as que ele sabia estarem em seu nome. Resta por explicar como mesmo assim ele deixou passar duas facturas em nome de Marie que acabariam por deitar tudo a perder. Seja como for, a maioria das facturas das suas despesas estaria certamente em nome de Marie Dénarnaud, o que prova que a conclusão da comissão é inteiramente verdadeira.
     Saunière pretendia efectuar a construção do seu domínio sem sobressaltos, sem o perigo da lei da separação entre a Igreja e o Estado poder interferir nos seus objectivos. A única forma de pôr a salvo o património seria precisamente evitar que ele pertencesse legalmente à Igreja. Deste modo, Saunière cometeu duas ilegalidades: não só em relação ao comércio de intenções de missas que ele não tinha capacidade para celebrar, mas também e sobretudo por ter procurado obter donativos, usando para tal o seu posto de padre, que depois seriam usados em obras que legalmente pertenciam a terceiros. Como se viu num capítulo anterior, Saunière deixara claro no seu testamento, bem como no de Marie (cuja primeira versão foi efectuada certamente sob a supervisão do padre), que todo o património após a morte dos dois reverteria para o Bispo de Carcassonne. E isto prova que ele nunca agiu de má fé. É o essencial a reter da sua atitude e do seu modo de vida.

 

 

A segunda fase do processo (1911)

 

     Na sequência da entrega do relatório final da comissão, o promotor do Ofício escreve ao vigário-geral a 13 de Outubro, pedindo-lhe que cite Saunière de novo perante o tribunal.

[Carta do promotor do Ofício ao vigário-geral]
[Citação de Saunière declarada pelo vigário-geral]

     A 30 de Outubro, Saunière é citado pelo vigário-geral a comparecer no dia 21 de Novembro às dez da manhã perante os juízes do Ofício. O padre deve dar a conhecer o nome do seu advogado até 9 de Novembro com uma ressalva: este não pode ser o Doutor Huguet visto que este já defendeu a causa anteriormente. Esta é, pelo menos, a razão fornecida pelo Ofício. Claramente, o tribunal não quer aceitar o Doutor Huguet devido às posições que ele tomou e às suas diligências em Roma. Saunière encontra-se verdadeiramente encurralado. Os esforços do Doutor Huguet em Roma não produziram resultados, e eis que um novo processo é instaurado pelo Ofício de Carcassonne! Uma vez mais, os maus conselhos do seu defensor prevalecem sobre o seu bom senso: Huguet aconselha o padre a não comparecer.
     O Doutor Huguet julga ter a solução para todos os problemas: não obedecer senão a Roma. Muito possivelmente, ele estaria ferido no seu orgulho por ter sido recusado pelo tribunal como defensor de Saunière. Eis o que ele diz a Saunière numa carta que envia de Roma, em data desconhecida mas possivelmente entre 30 de Outubro e 4 de Novembro, onde tenta responder ao dilema do padre em escolher um novo advogado:

Texto original:

     "Le fil que je leur ai donné à retordre ne les met pas en liesse, ils savent qu'il vous serait difficile de vous pourvoir et de trouver quelqu'un qui portât, comme moi, la cause à Rome, résultat qui les horripile. Conclusion pratique: vous n'aurez à choisir personne, nous ne reconnaissons que Rome et nous ne discuterons que là. Mais quelle que soit la besogne qu'ils nous mettent sur les bras, soit au concile, soit à la Rote, nous irons jusqu'au bout et nous verrons à qui restera la victoire..."

Tradução:

     "Os dissabores que eu lhes causei não os deixam particularmente felizes, eles sabem que você terá dificuldades em se precaver e em encontrar alguém que leve, como eu, a causa a Roma, resultado que os horripila. Conclusão prática: você não precisa de escolher ninguém, nós não reconhecemos senão Roma e não discutiremos senão lá. Mas qualquer que seja o trabalho que eles nos metam nos braços, seja no concílio, seja na Rota, nós iremos até ao fim e veremos quem ficará com a vitória..."

     A 4 de Novembro, Saunière redige uma carta, cujo texto infelizmente não está disponível, na qual ele ataca a citação de modo a evitar a comparência em tribunal. O vigário-geral Cantegril não aceita o protesto e reitera a decisão de 30 de Outubro: tudo se mantém na data e na hora estipuladas.

[Confirmação da carta de 30 de Outubro]

     A 21 de Novembro, o tribunal reúne-se sem a presença de Saunière. Visto que ele não se apresenta nem se faz apresentar, o tribunal redige uma convocação peremptória. Se o padre não se apresentar no dia 5 de Dezembro perante o tribunal, o julgamento será efectuado à revelia, sendo o arguido considerado contumaz. Saunière tem até 27 de Novembro para apresentar ao tribunal o nome do seu advogado.

[Citação peremptória]

     Saunière, nesta fase crítica, limita-se a seguir os conselhos desastrosos do seu advogado, cujo excesso de confiança seria muito prejudicial para a situação. O padre envia ao tribunal uma carta, a 27 de Novembro, na qual ele afirma que não pode comparecer no dia e na hora marcada. Devido ao facto de esta carta não estar disponível não é possível conhecer as razões apresentadas ao tribunal. Contudo, mandando esta carta, Saunière está já a preparar-se para faltar ao julgamento. O vigário-geral emite nova citação que confirma a anterior na totalidade.

[Confirmação da citação peremptória]

     A 5 de Dezembro de 1911, Saunière não se apresenta no Tribunal do Ofício, em Carcassonne. Para o Tribunal, trata-se da situação mais simples de julgar: Saunière é contumaz. Assim, o padre é julgado à revelia, e a sentença que daí decorre não permite apelo.

[Julgamento final (à revelia)]

     A síntese do julgamento encontra-se no grupo das dez principais queixas, que foram retiradas da tradução do texto, e que se encontram aqui listadas:

Primeira queixa
"(...) o padre Bérenger Saunière fez-se sem mandato, angariador junto dos fiéis em favor de obras pias, como resulta do processo de 5 de Novembro de 1910"
Segunda queixa
"(...) o produto destas angariações tinha um destino particular que o padre Bérenger Saunière não estava livre de alterar a seu bel-prazer"
Terceira queixa
"(...) ele devia destiná-los segundo as suas palavras ao embelezamento da igreja e à construção de uma casa de retiro para dos padres idosos e doentes"
Quarta queixa
(...) é de notoriedade pública que, se o padre Bérenger Saunière destinou certos fundos à igreja, ele nunca chegou a executar a obra pela qual ele principalmente angariou"
Quinta queixa
"(...) o prelado diocesano não pôde tomar conhecimento de todas as iniciativas do padre Bérenger Saunière senão durante o processo que lhe foi dirigido em 1910 por comércio de honorários de missas e pelo qual a sentença definitiva de 5 de Novembro de 1910 o condenava a um retiro de dez dias"
Sexta queixa
"(...) no mesmo dia o provisor, espantado pelas revelações do padre Bérenger Saunière que pretende ter angariado e gasto perto de 200.000 francos, emite uma sentença interlocutória obrigando o padre Bérenger Saunière a apresentar as suas contas a Monsenhor o Bispo, administrador de todas as obras pias da sua diocese, contas que ele deveria ter apresentado desde há muito tempo espontaneamente e anualmente"
Sétima queixa
"(...) o padre Bérenger Saunière teve a pretensão de apresentar contas e que a comissão nomeada por Monsenhor o Bispo para as receber pôde constatar: 1) que não se vê que os perto de 200.000 francos que ele tinha reunido tenham sido gastos visto que ele não justifica senão perto de 36.000 francos de despesas (...)"
Oitava queixa
"Atendendo às palavras do padre Bérenger Saunière e ao processo verbal da comissão resulta que as construções que representariam as somas gastas não são sequer propriedade sua visto que elas foram edificadas sobre um terreno que ele afirmou não lhe pertencer"
Nona queixa
"Atendendo que deste modo ele comprometeu para sempre o destino das somas que ele tinha solicitado e recebido"
Décima queixa
"Atendendo que de tudo o que precede resulta que o padre Bérenger Saunière é culpado de delapidação e desvio de fundos dos quais ele era o depositário"

     A sentença final, sem apelo devido à ausência do arguido, continha alguns detalhes que evidenciam falta de rigor da parte do tribunal:

Texto original:

     "Condamnons le prêtre Bérenger Saunière à une suspense a divinis d'une durée de trois mois à partir du jour de la notification de la présente sentence, laquelle suspense d'ailleurs continuera jusqu'à ce qu'il ait opéré entre les mains de qui de droit et selon les formes canoniques la restitution des biens par lui détournés.
     Cette sentence étant portée par contumace est sans appel."

Tradução:

     "Condenamos o padre Bérenger Saunière a uma suspensão «a divinis» com a duração de três meses a partir do dia da notificação da presente sentença, suspensão que ademais continuará até que ele tenha efectuado nas mãos de quem de direito e segundo as formas canónicas a restituição dos bens por ele desviados.
     Sendo esta sentença decretada por contumácia não admite recurso."

     Como poderia Saunière devolver quaisquer bens, se legalmente estes já não lhe pertenciam? Como podia ele devolver os bens que pertenciam a Marie Dénarnaud? E, tendo os fundos sido oferecidos ao padre por doadores anónimos, que só ele conheceria, como poderia o tribunal tomar conhecimento da forma como esses mesmos bens foram ofertados? Os bens foram entregues a "Bérenger Saunière, padre de Rennes-le-Château" ou ao "sr. Bérenger Saunière, de Rennes-le-Château"? Como pode ser constatado através da análise do tráfico de missas, Saunière recebeu ofertas destas duas maneiras. Assim, legalmente, o sujeito a que se refere a frase "nas mãos de quem de direito" fica por determinar com exactidão, apesar de ser claro que o Ofício se quer referir a Monsenhor de Beauséjour. A sentença deixa transparecer um certo abuso de poder por parte do Bispo, e uma clara falta de rigor jurídico.
     Terminada esta segunda fase do processo, os pedidos de recurso do Doutor Huguet e as suas tentativas de reparação por parte de Roma seguir-se-iam durante alguns anos. Assim, o final da vida de Saunière, que será apresentado no capítulo seguinte, foi preenchido por uma série de amarguras infindáveis resultantes deste processo, bem como por uma clara instabilidade financeira.

 

 

Os documentos do processo

 

Data Descrição
Regressar ao texto 27-5-1910      Carta do promotor do ofício ao vigário-geral de Carcassonne, a pedir-lhe que cite Saunière perante o tribunal.

Original
Tradução

Regressar ao texto 7-7-1910      Citação de Saunière declarada pelo vigário-geral.

Original
Tradução

Regressar ao texto 15-7-1910      Carta de Saunière para o Bispo, na qual ele se recusa a comparecer em tribunal.

Original
Tradução

Convocação peremptória do tribunal (16-7-1910)

Regressar ao texto

16-7-1910      Citação peremptória mandada a Saunière devido à sua ausência no dia do julgamento, 16 de Julho de 1910. É-lhe imposta uma segunda comparência a 23 de Julho do mesmo ano.

Original
Tradução

Regressar ao texto 23-7-1910      Julgamento contra Saunière, na situação de faltoso (contumaz). Saunière não comparece a esta sessão de tribunal, que já era a segunda data de julgamento que lhe fora marcada.

Original
Tradução

Regressar ao texto 3-8-1910      Nova citação para Saunière, marcada para o dia 23 de Agosto. O tribunal atende ao pedido de "restitutio causa in integris" feito por Saunière, que anula a sentença anterior, e aceita o professor Mis, de Limoux, como advogado de defesa.

Original
Tradução

Regressar ao texto 29-10-1910      Citação de Saunière para ouvir a leitura da sentença, que será feita no dia 5 de Novembro.

Original
Tradução

Regressar ao texto 5-11-1910      Leitura da sentença. Saunière comparece acompanhado do seu advogado, o Doutor Huguet. Sobre a queixa relativa ao tráfico de missas o tribunal estabelece que não há provas de culpabilidade, apesar de ser condenável a negligência de Saunière em relação à falta de um registo dos pedidos de missas. Pela queixa de desobediência ao Bispo, ele é declarado culpado e obrigado a cumprir uma pena de retiro de dez dias. Pelas despesas exageradas e não justificadas ele é compelido a apresentar uma contabilidade justificativa e a colocar ao dispor do seu prelado diocesano todos os imóveis por ele construídos.

Original
Tradução

Regressar ao texto 17-11-1910      Processo verbal de notificação da sentença. O padre Bonnades, de Couiza, deslocou-se a Rennes-le-Château, a mando do provisor Cantegril, para entregar a Saunière o texto da sentença contra ele pronunciada.

Original
Tradução

Regressar ao texto 30-12-1910      Carta da primeira monitória.
     O pedido de recurso apresentado por Saunière a 30 de Novembro foi efectuado dois dias depois do prazo, tendo a sentença ficado definitiva e executória a 28 de Novembro. Saunière deve apresentar-se ao Bispo de Carcassonne a 9 de Janeiro de 1911, às 2 horas da tarde, para apresentar as suas contas com facturas justificativas e receber as instruções do seu prelado sob pena de ser sujeito a uma sanção disciplinar.

Original
Tradução

Regressar ao texto 5-1-1911      Carta da segunda monitória.
     Nesta carta, o episcopado afirma como inviável o pedido de recurso apresentado por Saunière por ter expirado o prazo para tal. A carta informa também que foi prolongado o prazo de apresentação de contas por mais quinze dias para que o padre possa reunir a informação necessária. Um dia antes do fim deste prazo, a 19 de Janeiro, Saunière envia para o episcopado uma carta com um novo pedido de recurso.

Original
Tradução

Regressar ao texto 18-2-1911      Carta da terceira monitória.
     Esta monitória consiste num sério aviso ao padre: ele deve deixar de pedir recursos, sobretudo ao Concílio, visto que o último dia para tal foi o dia 27 de Novembro de 1910, ele deve acatar a sentença de 5 de Novembro de 1910 pela qual ele foi efectivamente condenado, e deve apresentar a 2 de Março as suas contas, e a 20 de Março o certificado de que efectuou o retiro de exercícios espirituais ao qual fora condenado. Adicionalmente, o padre é avisado de que o pedido de recurso a Roma é escusado, uma vez que a sua carta de demissão impede a reintegração, seja por que razão for.

Original
Tradução

Regressar ao texto 28-2-1911      Carta da quarta monitória.
     Em virtude de um novo protesto escrito enviado por Saunière a 24 de Fevereiro, o Ofício reitera a totalidade do conteúdo da terceira monitória.

Original
Tradução

Regressar ao texto 9-3-1911      Ordem episcopal para que Saunière entregue sem falta os requeridos documentos comprovativos da sua contabilidade. Saunière terá que o fazer até ao dia 16 de Março, ou será destituído dos seus poderes eclesiásticos até que cumpra a ordem estipulada.

Original
Tradução

Regressar ao texto 9-3-1911      O provisor Gustave Cantegril adia o retiro obrigatório por mais dois meses a partir do dia 15, ou seja, até 15 de Maio de 1911, atendendo à carta mandada por Saunière no dia 6, na qual referia o seu estado de saúde precário e anexava um certificado do Dr. Roche.

Original
Tradução

Carta de Saunière ao Bispo (13-3-1911) Regressar ao texto 13-3-1911      Saunière escreve uma carta a Monsenhor de Beauséjour, acompanhada de um dossier de 61 facturas justificativas. Saunière afirma estar a entregar a totalidade das facturas que lhe restam, prometendo ainda, se a saúde lho permitir, efectuar os dez dias de retiro antes da Páscoa no Grande Seminário de Carcassonne.

Original
Tradução

Regressar ao texto (sem data)      Activo da situação financeira, escrito pela mão de Saunière. Este documento, enviado anexo à carta de 13 de Março de 1911, é o mesmo que foi apresentado pelo Doutor Huguet durante o primeiro processo.

Original
Tradução

Regressar ao texto (sem data)      Carta da Comissão Saglio, sem data, mas certamente posterior à carta do dia 13 de Março e anterior à do dia 25 do mesmo mês. A presente carta contém uma lista de questões que a Comissão deseja ver respondidas por Saunière, referentes às facturas que o padre apresentou a Monsenhor de Beauséjour.

Original
Tradução

Primeira carta de Saunière à Comissão de Inquérito (25-3-1911) Regressar ao texto 25-3-1911      Primeira carta enviada por Saunière ao vigário-geral (o provisor da diocese, Gustave Cantegril), onde o padre tenta responder às questões levantadas relativas à sua contabilidade.

Original
Tradução

Regressar ao texto 4-4-1911      Carta do cónego Charpentier, escrivão do Ofício e membro da Comissão de Inquérito, enviada a Saunière com aviso de recepção. Na carta, o cónego critica o facto das justificações do padre serem demasiado incompletas e injustificadas.

Original
Tradução

Segunda carta de Saunière à Comissão de Inquérito (8-4-1911) Regressar ao texto 8-4-1911      Segunda carta de explicações, enviada ao vigário-geral. Nesta carta, Saunière queixa-se da forma desumana como o Ofício de Carcassonne conduz o processo, e afirma que as indicações que têm chegado de Roma mostram que lá é-se mais humano e compreensivo. O padre queixa-se ainda de um artigo publicado no periódico Semaine Religieuse, no qual o episcopado avisa os fiéis de que ele já não está autorizado a receber intenções de missas ou donativos. Este artigo associava-o claramente ao anúncio forjado publicado a 11 de Dezembro de 1910 no "Les Veillés des Chaumières" com o seu nome.

Original
Tradução

Regressar ao texto 19-4-1911      Carta do Ofício avisando Saunière de que, tendo sido instituída uma Comissão de Inquérito, é a esta que Saunière deve dirigir a correspondência relativa às explicações pedidas, e não ao vigário-geral Cantegril. Esta carta parece ter sido enviada para o mosteiro de Prouilles, o que pode evidenciar que Saunière já se encontrava neste dia a efectuar o retiro que lhe fora imposto.

Original
Tradução

Terceira carta de Saunière à Comissão de Inquérito (27-4-1911) Regressar ao texto 27-4-1911      Carta enviada ao vigário-geral, escrita no Mosteiro de Prouilles durante a sua pena de dez dias de retiro. Nesta carta, o padre afirma que não está em condições de se submeter a futuros inquéritos junto do vigário-geral, advogando razões de saúde. Assim, para evitar o perigo de ataques cardíacos, Saunière afirma que doravante responderá às questões da comissão de inquérito por escrito ao invés de se deslocar pessoalmente a Carcassonne.

Original
Tradução

Regressar ao texto 9-5-1911      Carta do cónego Saglio a Saunière (enviada com aviso de recepção). O cónego tenta mostrar a Saunière que não é possível apresentar 200.000 francos de despesas, e justificar apenas 36.000. Saglio sugere que o padre tente obter, junto dos seus fornecedores, cópias das facturas relativas às suas despesas. A carta termina com uma clara chantagem a Saunière por parte de Saglio.

Original
Tradução

Quarta carta de Saunière à Comissão de Inquérito (14-5-1911) Regressar ao texto 14-5-1911      Carta enviada por Saunière ao vigário-geral. Nesta carta, Saunière esforça-se por justificar a sua decisão de não se apresentar pessoalmente perante a Comissão de Inquérito, alegando as consequências nefastas para a sua saúde geradas por uma discussão que ocorreu entre ambos algum tempo atrás.

Original
Tradução

Rascunho da carta enviada pelo cónego Charpentier a Saunière (27-5-1911) Regressar ao texto 27-5-1911      Carta enviada pelo cónego Charpentier a Saunière (com aviso de recepção), na qual ele diz que o padre não respondeu às questões colocadas pela carta que lhe foi dirigia a 9 de Maio. Chapentier exige a Saunière uma resposta clara para cada uma das questões.

Original
Tradução

Quinta carta de Saunière à Comissão de Inquérito (2-6-1911) Regressar ao texto 2-6-1911      Terceira carta de explicações às dúvidas da Comissão de Inquérito, enviada ao vigário-geral. Saunière insiste na impossibilidade de detalhar ainda mais a sua contabilidade, e afirma que, duvidando da forma como foram efectuados os julgamentos de 23 de Julho e de 5 de Novembro de 1910, irá redigir um documento no qual explicará todos os detalhes do processo, e fará apresentar o dito documento pelo seu advogado durante a sua sessão de recurso junto da Congregação, em Roma.

Original
Tradução

Regressar ao texto 14-6-1911      Carta do cónego Saglio, enviada com aviso de recepção. Saglio manifesta-se insatisfeito porque as razões colocadas ainda não se encontram devidamente esclarecidas. O cónego pede a Saunière mais detalhes e justificações.

Original
Tradução

Sexta carta de Saunière à Comissão de Inquérito (20-6-1911) Regressar ao texto 20-6-1911      Quarta carta de explicações às dúvidas da Comissão de Inquérito, enviada ao vigário-geral. Nesta carta, Saunière insiste na validade das suas justificações e informa o vigário-geral de que enviou ao Vaticano, não só um depoimento seu, mas também todas as cartas que recebeu do episcopado. Apesar de mostrar deferência para com a autoridade do Bispo, Saunière não esconde que espera um parecer favorável da Congregação.

Original
Tradução

Regressar ao texto 7-7-1911      Carta de Saglio a Saunière, enviada com aviso de recepção. Mais uma vez, o cónego urge a Saunière que este responda mais claramente a uma série de questões. Saglio pressiona o padre, dizendo-lhe que precisa das respostas a fim de poder encerrar o relatório.

Original
Tradução

Sétima carta de Saunière à Comissão de Inquérito (14-7-1911) Regressar ao texto 14-7-1911      Quinta carta de explicações às dúvidas da Comissão de Inquérito. Contém uma lista com o valor aproximado das despesas para cada fase dos empreendimentos (ver a página sobre a contabilidade). Mais uma vez, Saunière prefere dirigir a carta ao vigário-geral Cantegril.

Original
Tradução

Regressar ao texto 4-10-1911      Relatório final entregue pela Comissão de Inquérito ao Bispo. A Comissão conclui que Saunière nunca forneceu os detalhes necessários a uma correcta investigação da sua contabilidade. Mais ainda, a Comissão informa o Bispo de que os terrenos, bem como as edificações neles efectuadas, pertencem legalmente a Marie Dénarnaud.

Original
Tradução

Regressar ao texto 13-10-1911      Na sequência da entrega do relatório final da Comissão, o promotor do Ofício pede ao vigário-geral que cite Saunière perante o tribunal.

Original
Tradução

Regressar ao texto 30-10-1911      Citação do provisor do Ofício, o cónego Gustave Cantegril. Saunière fica obrigado a comparecer perante o tribunal a 21 de Novembro de 1911, devendo apresentar o seu advogado até 9 de Novembro, na condição de não ser o Doutor Huguet por este já ter desempenhado essa função no primeiro processo.

Original
Tradução

Regressar ao texto 9-11-1911      Confirmação da citação e da data do julgamento, em resposta a um protesto escrito enviado por Saunière (documento indisponível).

Original
Tradução

Regressar ao texto 21-11-1911      Como Saunière não se apresenta na sessão de tribunal marcada para o dia 21 de Novembro, o vigário-geral emite esta citação peremptória, que força Saunière a se apresentar ao tribunal do Ofício a 5 de Dezembro, devendo anunciar o seu advogado até 27 de Novembro. Se o padre não se apresentar no dia estipulado, será declarado contumaz e julgado como tal.

Original
Tradução

Regressar ao texto 29-11-1911      Saunière tenta esquivar-se à citação peremptória alegando, através de uma carta enviada ao bispado a 27 de Novembro (documento indisponível), que não pode comparecer no dia 5 de Dezembro perante o tribunal. O vigário-geral emite assim uma nova citação peremptória, na qual confirma todos os pontos da anterior.

Original
Tradução

Última página do texto do julgamento (5-12-1911) Regressar ao texto 5-12-1911      Saunière não se apresenta perante o tribunal a 5 de Dezembro, e é por isso considerado contumaz e julgado como tal, o que implica que a sentença pronunciada não permite pedido de recurso. Considerados todos os factos e documentos anteriores, o tribunal condena Saunière a uma suspensão a divinis com a duração mínima de três meses, suspensão essa que será mantida após os três meses até que Saunière restitua às entidades eclesiásticas os bens por ele desviados.

Original
Tradução

 

1 "Tu me demandes une solution à la situation que l'évêque t'a fait. Faut-il obéir? Ou faut-il résister? Voici les deux termes, il n'y a pas d'autres issues à ces deux questions. Ou l'obéissance ou la résistance.
Tu me dis que l'évêque maintient fermement sa décision et qu'il ne veut rien admettre de tes raisons donc il ne cédera pas. Alors je te dis ou tu peux te passer de lui, ou tu ne le peux pas. Si tu as assez de revenus pour te retirer prends ta retraite. Si tu n'en as pas assez, il faut te résigner et obéir...
Une idée me vient encore, je crois que si tu obéissais tu ferais bien, au bout de quelque temps, un an par exemple, tu dirais à Monseigneur que tu as obéi, que tu as fait preuve de bon prêtre et tu pourrais alors prendre ta retraite. Tu m'as mis dans la pénible situation de te dire cela en me demandant ce que je ferais à ta place.
Essaies de toucher le coeur de ton évêque, mais je crois que c'est inutile, il y a nécessairement quelqu'un derrière lui et la chose a dû être mûrement délibérée. Alors mon dernier mot est celui ci: soit prêtre." – Bedu, op. cit., p. 154.
2 Saunière recusa-se a sair de Rennes-le-Château, em carta aqui transcrita na íntegra:
"Monseigneur,
J'ai lu votre lettre avec le plus extrême respect et j'ai pris connaissance des intentions dont vous voulez bien me faire part. Mais, si notre religion nous commande de considérer avant tout nos intérêts spirituels, si ceux-ci sont assurément là-haut, elle ne nous ordonne pas pour autant de négliger nos intérêts matériels, qui sont ici bas... Et les miens sont à Rennes et non ailleurs.
Je vous le déclare, Monseigneur, avec toute la fermeté d'un fils respectueux: non, Monseigneur, je ne m'en irais jamais..." – Bedu, op. cit., p. 158.
3 Carta de demissão escrita por Saunière, aqui transcrita na íntegra:
"Monseigneur,
En présence de la décision maintenue de votre grandeur au sujet de mon départ de Rennes, il me reste un parti à prendre suggéré d'ailleurs par votre grandeur elle même alors que vous avez dit aux représentants de la commune en parlant de moi: «qu'il prenne sa retraite!». C'est pourquoi vous voudrez bien agréer ma démission et de ne plus me compter à partir du 1er février au nombre des prêtres de votre diocèse qui exercent le saint ministère." – Bedu, op. cit., p. 159.
4 De tal forma esta carta é surpreendente, que a transcrevo aqui na íntegra:
"Rennes-le-Château, le 6 février 1909
Le Maire de Rennes-le-Château à Monsieur l'Évêque à Carcassonne.
Monsieur,
En réponse à votre lettre du 31 janvier dernier, j'ai l'honneur de vous faire savoir que je regrette le maintien de la décision prise à l'égard de M. l'abbé Saunière. En ne donnant pas à la démarche que le Conseil municipal de Rennes-le-Château a faite auprès de vous, les suites que nous vous demandions vous et votre Conseil avez été mal inspirés. Nous n'obtenons pas satisfaction ; tant pis ! Tant pis aussi que vous ayez retiré à M. Saunière ses pouvoirs. Quant à l'attitude de la population vis à vis de M. le curé d'Espéraza et du successeur de M. Saunière, elle sera tout à fait simple : l'Eglise désertée et les cérémonies religieuses remplacées par les cérémonies civiles. Vous voyez, Monsieur l'Évêque, que vous n'aurez pas à vous armer contre nous des foudres de l'Eglise. Quant au presbytère, il est loué pour une durée de cinq ans, à partir du 1er janvier 1907 à l'abbé Saunière. Mais je dois vous faire connaître qu'après l'expiration du bail et même actuellement, s'il devenait libre par suite du départ du locataire actuel, le Conseil municipal se refuse formellement à passer un nouveau bail avec le desservant que vous nous enverrez. Je vous prie, Monsieur l'Évêque, d'agréer l'assurance de ma considération très distinguée. Rennes-le-Château, le 6 février 1909, Le Maire" – Corbu, Captier, op. cit., p. 173.
5 "Il faut donc savoir de quoi on t'accuse. Les vicaires généraux, Monseigneur ensuite ont dû te dire pourquoi on t'appelait devant eux. Que faut-il faire? On a dû formuler des accusations! Faut-il y répondre? Dois-tu te défendre? OUI.
Il ne faut pas te laisser rouler sans parler. Tu n'es pas un voleur, un escroc. Il faudrait que tu dises que tu n'as rien volé, rien escroqué; fort de ta conscience, tu ne dois pas résister. Dis, répètes toujours que si tu as fait des dépenses, le vol ni l'escroquerie n'ont rien à y voir; que tu n'as rien à te reprocher: que tes dépenses, bien que leur paraissant exagérées, n'ont dépassé l'argent que tu avais en nom pour les couvrir.
Et bien, cher ami, conseil d'ami, rédige un mémoire très circonstancié et je te dis ceci, après avoir bien réfléchi, bien que tu sois dans ton droit de ne pas te présenter, je crois que tu ferais bien de te présenter, ainsi tu leur montrerais que tu ne crains pas la lumière, que tu ne te dérobes pas, que tu ne fuis pas, que tu ne crains aucune révélation. Donc, je te conseile de te présenter avec ton mémoire... Si tu ne te présentes, on te frapperait et on répondrait: il était donc coupable, puisqu'il ne s'est pas présenté, ni défendu.
Défends-toi, défends-toi toujours! Ne te réfugie pas dans l'abstention, on croirait alors à ta culpabilité. Tu as une occasion de te disculper, saisis là!" – Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, pp. 200-201.
6 Ibidem, pp. 201-202.
7 Por ser tão elucidativa, transcrevo esta carta na íntegra:
"Evêché de Carcassonne, le 18 Décembre 1909
Monsieur l'abbé Saunière,
La supérieure de l'Hôpital St Joseph, rue Pierre-Larousse n. 7 à Paris, a écrit à Monseigneur, pour lui demander, si elle pouvait vous envoyer des honoraires de Messe, en toute sûreté de conscience. Vous devinez la réponse qui lui a été faite:
«Gardez-vous bien de continuer à faire de pareils envois; parce que nous n'avons aucune confiance de la manière dont ce Prêtre acquitte les intentions de Messes, qu'il se procure partout où il peut.»
Monseigneur constate avec peine, que vous continuez à demander des honoraires de Messes en dehors du Diocèse. Et cependant vous aviez promis et protesté que désormais vous n'en demanderiez jamais plus qu'à lui seul, personnellement. Voilà comment vous tenez votre promesse.
Sa Grandeur se demande, si sa conscience ne lui fait pas un devoir de prendre des mesures efficaces pour faire cesser, une manière d'agir si déplorable. Je vous offre mes sincères salutations, H. Rodière"
8 "Evêché de Carcassonne, Carcassonne, le 22 Décembre 1909
Monsieur l'abbé Saunière,
Vous affirmez, que depuis la promesse que vous avez faite à Mgr vous n'avez plus demandé des honoraires de Messes à la Supérieure de l'Hôpital St Joseph, à Paris. Or voici ce qu'elle nous écrit, à la date de 28 octobre dernier... «Pendant qu'il était encore à Rennes-le-Château, comme Curé, Mr l'abbé Saunière s'était adressé à moi, sans me connaître (il avait eu mon adresse par quelqu'un), pour me demander si je pourrais lui procurer quelques honoraires de Messes... Il m'a écrit dernièrement, qu'il était maintenant Prêtre en retraite, restant dans son ancienne Paroisse, et qu'il pourrait toujours acquitter les Messes, qu'on lui enverrait. Comme je n'ai pas l'avantage de le connaître, je vous serai reconnaissante de me dire, si on peut en conscience, lui envoyer des honoraires de Messes.»
Voilà, deux affirmations, évidemment contradictoires.
Monseigneur vous sera reconnaissant, si vous voulez bien lui dire, qu'elle est celle, qui est conforme à la vérité. Recevez Monsieur l'abbé Saunière, mes sincères salutations. H. Rodiére, v.g."
9 "Evêché de Carcassonne, Carcassonne, le 12 mai 1910
Monsieur l'abbé,
Voici le texte de la réponse, que Mgr me charge de donner à Mme Gabrielle Camus, faubourg des Vosges à Mirecourt, qui demande si on peut vous envoyer des honoraires de Messes en toute confiance:
«Gardez-vous bien d'envoyer des honoraires de Messes à Mr l'abbé Saunière, ancien curé de Rennes-le-Château, et retiré dans cette Paroisse, parce que Mgr l'Évêque n'a aucune confiance en la manière, dont ce Prêtre acquitte ses obligations, sur ce point».
Sa Grandeur voit avec peine, que vous ne tenez pas la promesse formelle, que vous lui avez faite, de ne vous adresser qu'à elle, quand vous seriez dépourvu d'honoraires.
Recevez, Monsieur l'abbé Saunière, mes sincères salutations. H. Rodière"
10 A informação sobre o processo foi retirada das reproduções fac-simile e das transcrições em Rivière, op. cit., pp. 186-249.
11 Do manuscrito “Ma défense”, de seis páginas, cfr. Corbu, Captier, op. cit., pp. 201-203.
12 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, pp. 223-224.
13 Reprodução fac-simile em Rivière, op. cit., pp. 218-219.
14 Bedu, op. cit., p. 184.
15 Rivière, op. cit., p. 247.


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