A continuação do projecto

 

Índice

1. Introdução
2. Os terrenos
3. A Villa Béthanie
4. A Torre Magdala
 

 

     Importa esclarecer, antes de mais nada, e porque a expressão "continuação" no título pode ser mal interpretada, que os empreendimentos iniciados por Saunière após 1898 deverão sempre ser vistos à parte das obras por ele efectuadas antes desse ano. Convém separar claramente o primeiro período do segundo.
     Na primeira fase, Saunière efectuou restaurações e arranjos indispensáveis no património da paróquia. Os trabalhos por ele levados a cabo até 1898 parecem indicar da sua parte uma dedicação e um cuidado extremos. Até então, Saunière comportara-se como um sacerdote digno do cargo para o qual fora destacado: tivera o cuidado de revitalizar a paróquia, entregando aos fiéis a seu cargo uma igreja recém-restaurada, uma aldeia lavada na fé, com um ar moderno e piedoso. Construíra um calvário, restaurara o cemitério e o presbitério. Em suma, os seus paroquianos tinham razões para estarem satisfeitos. Além da sua eficiência e capacidade de trabalho, Saunière era ainda um homem afável e atencioso para com eles.
     Porém, a partir de então, Saunière partirá para outra atitude completamente diferente. Em 1898 tem lugar o início da construção do seu domínio. A palavra "domínio" não é exagerada. Os empreendimentos efectuados em Rennes a partir deste ano deixam de ter um cunho paroquial, de serviço à comunidade, para passarem a ser obras privadas. Contudo, Saunière saberá jogar muito bem durante este período pois nunca deixará de propagandear os seus trabalhos como úteis e piedosos. Ele apresenta o projecto como sendo destinado aos padres reformados da região. Pretende construir um local de retiro com todo o conforto e sossego essenciais a quem dedicou toda a vida ao sacerdócio.

     O projecto de Saunière não é modesto. Contudo, repare-se que esta imodéstia é relativa. Há que ter em conta a dimensão da aldeia de Rennes-le-Château e o estado de desenvolvimento da região no tempo de Saunière quando se analisar de forma tão qualitativa o projecto por ele levado a cabo. Claro que para um padre de uma aldeia pouco habitada e isolada o projecto era tudo menos modesto.
     Saunière viria a construir jardins, uma casa dotada de um conforto considerável (a Villa Béthanie) e uma torre (Torre Magdala) com uma vista privilegiada para as serras circundantes, torre essa que fechava um muro decorado com ameias. Dos jardins podia-se aceder ao topo do muro, e daqui observar nas aberturas das ameias a magnífica paisagem através de uma perspectiva única proporcionada pela elevação do local. No Verão ou nos dias solarengos de Inverno, os jardins, decorados com fontes, deveriam constituir um agradável local de passeio para os velhos padres asilados em Rennes-le-Château.
     Mais tarde, durante o processo eclesiástico, Saunière viria a admitir que a sua intenção inicial era a de construir uma casa para si, de forma a substituir o degradado presbitério e para se pôr a salvo das pretensões de despejo governamentais consequentes da lei da separação entre a Igreja e o Estado. Contudo, segundo as palavras do padre, a sua intenção ter-se-ia dirigido para fins mais filantrópicos ficando a casa destinada a albergar os padres velhos ou enfermos da paróquia. Esta sua intenção deve ser vista como honesta, como o comprova o texto seguinte. Em 1900, Saunière pede à Câmara a concessão perpétua de um terreno de seis metros quadrados no cemitério para aí sepultar os padres que manifestem tal desejo. A Câmara acede ao pedido a 30 de Abril:

Texto original:

     "Après examen attentif de cette pétition, ainsi que du plan du cimitière figurant l'emplacement du terrain à concéder M. le Maire propose au conseil municipal d'accorder au pétitionaire, qui a restauré et dépensé à ces édifices de quinze a vingt mille francs, la concession qu'il sollicite à titre de reconnaissance et de dédommagement de ses libéralités envers la commune, et cela avec d'autant plus de raison qu'il s'engage à prendre à sa charge le droit des pauvres et à verser par conséquent à la caisse municipale la somme de soixante francs représentant la part qui leur revient."

Tradução:

     "Após um exame atento a esta petição, bem como ao plano do cemitério no qual figura a localização do terreno a conceder, o Sr. Presidente (da Câmara de Rennes, N.T.) propõe ao conselho municipal que atenda ao peticionário, que restaurou e despendeu nestes edifícios entre quinze e vinte mil francos, a concessão que ele solicita a título de reconhecimento e de compensação pelas suas generosidades para com a comuna, e isto ainda com mais razão (visto) que ele se disponibiliza para tomar a seu cargo as despesas com os pobres e a fornecer consequentemente à caixa municipal a soma de sessenta francos representando a parte que lhes pertence."

     Devido à simpatia e dedicação de Saunière, quase ninguém na aldeia se colocava contra ele. Todos o admiravam e estimavam. Por lidarem com ele todos os dias, os seus paroquianos deviam sentir-se impressionados perante um tal homem, que não contente por ter efectuado o restauro completa da igreja, presbitério e cemitério, se dedica logo a seguir, e de forma tão intensa, à preparação de um local onde seriam acolhidos os velhos padres da região. Só quem não morasse em Rennes-le-Château e não gostasse de Saunière é que poderia criticar as suas obras, apelidando-as de dantescas.
     É evidente que Saunière não se socorreu só do seu bolso para conseguir fundos para manter o seu projecto em curso. Por esta altura, o padre procurava activamente subsídios em todo o lado. Acolhia donativos e sobretudo procurava recebê-los. Recorria também, como já vimos, a outros meios, uns mais lícitos (lotarias, visitas guiadas, postais) e outros menos (venda ilegal de missas).

 

 

Os terrenos

 

     Um pormenor bastante importante em relação a esta fase de projecto diz respeito à compra dos terrenos. Saunière, por motivos desconhecidos, resolve comprar os terrenos necessários para o seu projecto em nome da sua governanta Marie Dénarnaud. Esta atitude seria talvez uma forma de Saunière diferenciar legalmente este seu projecto da sua dependência do arcebispado. Provavelmente Saunière não queria que se vissem as suas obras como algo mandado efectuar ou patrocinado pelo arcebispado de Carcassonne. Poderia ser também esta a forma de Saunière agradecer à sua governanta pela sua dedicação e esforço, garantindo-lhe ao mesmo tempo algo que lhe pudesse assegurar sustento para a velhice. No entanto, esta sua atitude não deixa de ser estranha: normalmente uma obra desta dimensão só seria empreendida por um padre se houvesse autorização ou ordem explícitas do arcebispado. Ora Saunière decide fazer tudo à revelia deste último, e sem que o bispo de Carcassonne saiba sequer que os terrenos foram comprados em nome de Marie Dénarnaud.
     Os terrenos são adquiridos aos poucos, entre os anos de 1898 e 1905. Tratam-se de pequenos baldios localizados em redor da igreja e do presbitério, e que na altura da compra estavam ocupados por pequenos casebres que tiveram que ser demolidos. Na carta que apresenta ao arcebispado aquando do inquérito levantado às suas actividades, Saunière refere a compra de sete terrenos, em nome de Marie Dénarnaud. A informação mais importante está apresentada na seguinte tabela (os números de registo referem-se à conservatória de Limoux):

Nº de registo Data da compra Montante pago (francos)
576 22 de Outubro de 1898 200
581 27 de Abril de 1899 300
582 20 de Julho de 1899 200
583 16 de Agosto de 1899 110
593 5 de Junho de 1900 100
613 20 de Maio de 1902 600
648 4 de Abril de 1905 40
     
  Total 1.550

 

 

A Villa Béthanie

 

Saunière com Marie no jardim, em frente à recém-terminada Villa Béthanie
Saunière com Marie no jardim,
em frente à recém-terminada Villa Béthanie

     A casa de retiro para os padres velhos da diocese é, de longe, o empreendimento mais caro de Saunière. Ele não deixa nunca que a opinião pública ache razões para ver esta sua obra como particular. A função, casa de retiro, coaduna-se facilmente com a imagem que Saunière quer que se faça da Villa Béthanie: uma obra piedosa. No topo da fachada encontra-se uma estátua do Sagrado Coração, que acentua o carácter religioso da edificação, e que se ajusta muito bem à teoria sobre a "missão" de Saunière que foi apresentada nos dois capítulos anteriores.
     Saunière não chegou a morar na Villa Béthanie, e durante a sua vida ela foi usada principalmente para receber os convidados do padre nos seus deslocamentos a Rennes. A casa nunca serviu de lar de retiro para os padres idosos, mas Saunière não deve ser mal interpretado por esse facto. Sobre esta obra, o padre, já no seu período de reforma, escreveu:

Texto original:

     "J'avais édifié et meublé, depuis quelques annés à Rennes-le-Château, où je me trouve actuellement retiré, une maison un peu vaste et assez confortable que j'avais construite d'abord pour moi, désirant terminer mes jours dans mon ancienne paroisse, ensuite, pour remplacer le presbytère dont j'étais, comme tous les autres, menacé d'être dépossédé par le gouvernement, et enfin dans ma pensée, cette maison, une fois terminée, j'avais l'idée de l'offrir à Monseigneur l'Évêque de Carcassonne avec toutes ses dépendances pour une maison de retraite en faveur des prêtres âgés et infirmes, où rien n'aurait manqué à ces pauvres vieux."

Tradução:

     "Eu tinha construído e mobilado, há uns anos atrás em Rennes-le-Château, onde me encontro actualmente retirado, uma casa um pouco vasta e bastante confortável que eu fizera construir primeiro para mim, desejando terminar os meus dias na minha paróquia antiga, e em segundo, para substituir o presbitério onde eu estava, como todos os demais (padres, N.T.), ameaçado de ser despejado pelo governo, e por fim tinha em mente a ideia de oferecer esta casa, uma vez terminada, a Monsenhor o Bispo de Carcassonne com todos os seus anexos para uma casa de retiro para os padres idosos e enfermos, onde nada faltaria aos pobres velhos."

     Como se pode constatar, Saunière invoca uma razão bem válida para a construção desta casa: o seu receio em ser despejado do presbitério. Este receio não era infundado, visto que durante todo o ministério de Saunière as relações entre a Igreja e o Estado tinham sido bastante instáveis. Antes de mais nada, talvez antes mesmo de pensar numa casa de retiro para os padres idosos, Saunière estava a tentar proteger-se nos tempos conturbados em que viveu.

     Jacques Rivière apresenta no seu livro ("Le fabuleux trésor de Rennes-le-Château - Le Secret de l'Abbé Saunière", edições Belisane, Nice, Julho de 1983) uma lista detalhada das pessoas envolvidas nesta empreitada:

Cargo Nome Período
Proprietário Marie Dénarnaud Todo
Promotor Pe. Bérenger Saunière Todo
Arquitecto Tiburce Caminade, de Limoux 4/7/1901 a 24/12/1904
mestre-de-obras Elie Bot, de Luc-sur-Aude 1900 a 1910
Pedreiro (com equipa de serventes) " "
Estucador Tisseyre 1903 a 1905
Marceneiro Oscar Vila, de Couiza 1904 a 1906
" Idrac, de Toulouse 1906
Pintor Casteix, de Limoux 1905
" Laffon 1905
Ferreiro Charles Dénarnaud, de Alet 1903 a 1905
Colocação do papel de parede Duchesne, de Paris 1905
Ladrilhador Taillefer, de Trèbes 1901 a 1905
Fornecimento de materiais Société des Chaux et Ciments, de Albi 1901 a 1905
" Ciments Berthelot, de Grenoble 1904 a 1905

     De todos estes nomes, há dois que devem ser apresentados com mais detalhe: o arquitecto Tiburce Caminade e o empreiteiro Elie Bot.
     O primeiro, arquitecto de Limoux, teve um papel fundamental nas obras da Villa Béthanie, bem como na construção do resto do domínio. Caminade trocava frequentemente correspondência com Saunière a respeito de vários aspectos da empreitada: prazos, opiniões técnicas, pagamentos a fornecedores, entre outros. Saunière tinha elevada estima pelo arquitecto e pela sua dedicação ao projecto: lembro que há registo de pelo menos uma oferta feita pelo padre de uma estatueta em madeira no valor de 245 francos. Transcrevo agora uma carta mandada pelo arquitecto ao padre, que data de 29 de Setembro de 1903, e que menciona um pagamento a efectuar ao marceneiro Oscar Vila:

Texto original:

     "Limoux, le 29 septembre 1903

     Monsieur le Curé

     Monsieur Vila Oscar, notre menuisier, est venu me voir en matin pour me prier de lui faire payer le travail qu'il a fait pour votre compte jusqu'a ce jour à Rennes-le-Château.
     Il aurait besoin, dit-il, de deux cent cinquante francs pour retirer le mandat du bois qui lui a été fourni par la maison Idrac. Je ne vois pas d'inconvénient a ce que vous lui délivriez cette somme bien qu'elle soit un peut supérieure au travail livré.

     En somme il lui est dû à ce jour:

     1 caisse pour sable.....................................25.00
     2 cintres pour le maçon, ensemble.............25.00
     Parquet 104 m2 à 0.40..............................41.60
     6 paires contrevents chêne du nord un
        23.00.....................................................138.00
                                                                     ______
                                               Total..............229.60

     Recevez Monsieur le Curé mes bien respectueuses salutations

      T. Caminade"

Tradução:

     "Limoux, 29 de Setembro de 1903

     Senhor Padre

     O Sr. Oscar Vila, o nosso marceneiro, veio ter comigo hoje de manhã para me pedir que lhe pagassem o trabalho que ele efectuou para si até hoje em Rennes-le-Château.
     Ele precisava de duzentos e cinquenta francos para soldar a ordem de pagamento que lhe foi entregue pela casa Idrac. Eu não vejo inconveniente a que vós lhe entregueis este montante, se bem que ele seja um pouco superior relativamente ao trabalho executado.

     Totalizando, é-lhe devido até hoje:

     1 caixa para areia.....................................................................25.00
     2 arcos para o pedreiro, no conjunto.......................................25.00
     104 m2 de pavimento em tacos, a 0.40 (francos por m2)........41.60
     6 pares de guarda-ventos em carvalho do norte, cada
        23.00....................................................................................138.00
                                                                                                    ______
                                                                              Total..............229.60

     Receba, Sr. Padre, as minhas bem respeitosas saudações

      T. Caminade"

     Vejamos agora o registo dos ordenados pagos ao arquitecto. Este registo encontra-se, como a maior parte dos documentos aqui apresentados, nos arquivos diocesanos de Carcassonne:

Data Quantia (francos)
4 de Julho de 1901 200
13 de Setembro de 1901 200
2 de Janeiro de 1902 200
1 de Fevereiro de 1902 200
8 de Março de 1902 200
3 de Maio de 1902 200
21 de Junho de 1902 200
13 de Setembro de 1902 200
11 de Novembro de 1902 200
4 de Abril de 1903 200
14 de Agosto de 1903 200
28 de Novembro de1903 200
29 de Julho de 1904 200
24 de Dezembro de 1904 200
   
Total 2.800

     Outra personagem importante, tanto nesta fase de obras como ao longo da vida de Saunière, foi o empreiteiro Elie Bot. Sendo mestre-pedreiro, era a ele que competia a contratação de operários para este tipo de trabalhos. Elie Bot era um homem singular: possuía alguns terrenos em Luc-sur-Aude, onde vivia e onde possuía um pequeno café que explorava aos fins-de-semana. Dividia esta ocupação com o seu ofício de mestre-pedreiro. Era um homem multi-facetado, e chegou mesmo a ser presidente da junta de freguesia de Luc-sur-Aude.

Saunière com Elie Bot e dois aldeões na Rue Béthanie em 1903
Saunière com Elie Bot e dois
aldeões na Rue Béthanie em 1903

     Bot era da inteira confiança de Saunière. O padre não se esquivava a dar a conhecer ao seu empreiteiro detalhes da sua vida privada, e é razoável supor que este último estava ao corrente de muitas situações desconhecidas da população de Rennes. Saunière chegou mesmo a alojar o empreiteiro durante as obras. Bot é o autor de dois importantes cadernos de apontamentos que registam os trabalhos levados a cabo por ele e pela sua equipa de operários durante o período em que esteve ao serviço de Saunière. O primeiro caderno, de seis páginas, regista com precisão os materiais que vão chegando ao estaleiro, anotando dados como dimensões, material, destino, preço, entre outros. Neste caderno não há registo algum de datas. No segundo caderno, de sete folhas, Elie Bot regista os seus honorários e os dos seus trabalhadores entre os dias 3 de Junho de 1901 e 16 de Junho de 1902.
     Os trabalhos de pedraria resultaram numa despesa de 10.305,61 francos. Por estas despesas Elie Bot foi remunerado em 9.100 francos e posteriormente viria a receber os restantes 1.205,61. Graças aos registos de Bot podemos saber com algum detalhe como prosseguiram os trabalhos.

     A 3 de Junho de 1901, quatro trabalhadores colocam a cal que irá preparar o terreno para as fundações, que serão executadas entre 10 de Junho e 1 de Julho. No dia 2 chegam à gare algumas tábuas para a obra. De 9 a 18, desaterra-se a cisterna, e durante uma parte do mês de Agosto trabalha-se para desentulhar o cemitério. Dia 13 de Agosto chegam pedras à gare. A 24 prepara-se o terreno do futuro sepulcro de Saunière.
     Durante Setembro não há registos de trabalhos de pedraria. Os dois meses seguintes são ocupados com os trabalhos de colocação do soalho, e em Janeiro de 1902 inicia-se a colocação do forro do tecto. A 7 de Março é colocada a estátua do Sagrado Coração na fachada. O dia 23 de Abril é ocupado com a desobstrução do buraco da cisterna, e no dia seguinte os trabalhadores ocupam-se com acabamentos no pórtico. Os trabalhos de pedraria são terminados a 16 de Junho.
     Elie Bot regista nos seus cadernos todas estas datas, e também o pagamento dos ordenados aos trabalhadores a seu cargo. Ele regista um total de 80 dias a 2,75 francos a serem pagos aos serventes de pedreiro, o que dá um total de 220 francos. Depois contabiliza 16,75 dias a 3 francos por dia para os pedreiros, o que dá 50,25 francos. Regista ainda o seu próprio salário: 62 dias e meio a 4 francos por dia, que resulta em 250 francos. Assim, totalizando todas as despesas de salários chegamos ao valor de 520,25 francos. Elie Bot recebeu então a quantia de 10.555,61 (10.305,61 francos das despesas em materiais e transportes e 250 francos pelo seu salário) e os seus trabalhadores receberam no total 270,25 francos.

Saunière e operários na varanda do jardim Saunière e os seus gansos perto da estufa
Saunière e operários na varanda do jardim Saunière e os seus gansos perto da estufa

     À parte das empreitadas supervisionadas por Elie Bot, outros trabalhos eram realizados separadamente. O ferreiro Charles Dénarnaud, que já tinha servido Saunière na fase anterior, leva a cabo uma série de trabalhos na Villa Béthanie e nos terrenos circundantes. Uma factura (ou uma lista de dívidas) em nome de Marie Dénarnaud é passada pelo ferreiro e diz respeito aos trabalhos levados a cabo entre 3 e 26 de Janeiro de 1900. A quantia total, 1.822,60 francos, deve-se à instalação de uma série de ferragens e gradeamentos nos muros e acessos aos jardins que rodeiam a Torre Magdala e a Villa Béthanie. Também algumas peças de ferro da própria torre estão listadas nesta factura, como por exemplo o envidraçamento das janelas da torre, os corrimões das escadas em ferro e da varanda, a pequena escada que dá acesso ao ponto mais alto da torre, um anel em volta da porta, entre outras peças. Neste período, o ferreiro instala a porta do jardim lateral, entre a Torre e a Villa; instala o portão do jardim em frente da fachada principal da Villa; e a estrutura metálica (visível na fotografia abaixo apresentada) que servirá de latada.

     Finalizados os trabalhos de pedraria, começam os acabamentos. Charles Dénarnaud entrega a 15 de Março de 1902 dois tirantes trabalhados em flor de lis para a cumeeira da Villa. Este trabalho figura na factura datada de 12 de Junho de 1903 e que se refere a uma série de trabalhos entre os dias 11 de Janeiro de 1901 e 23 de Maio de 1903. O total desta factura é de 142,30 francos.
     A 8 de Julho de 1902, Marie Dénarnaud faz pagar, por intermédio do Arq. Caminade, a quantia de 412,50 francos a Joseph Fabre de Dourgne pela montagem do telhado. De Agosto a Novembro de 1903, o marceneiro Oscar Vila, nome já conhecido da fase inicial de trabalhos, coloca a escada interior, algumas portas, o tabuado do chão e os caixilhos das janelas. O marceneiro irá sempre usar madeira proveniente de Toulouse, dos Établissements Idrac.
     Os trabalhos do ferreiro Dénarnaud entre 21 de Setembro de 1903 e 10 de Maio de 1904 estão registados numa factura (de 161 francos, datada de 4 de Julho de 1904): a porta do aviário, dois martelos de partir pedra, uma peneira para a areia, entre outras coisas. Outra factura datada de 17 de Abril de 1905 diz respeito aos serviços prestados em 22 de Outubro de 1904 e no mês de Março de 1905: instalação do fogão da cozinha, dos contraventos da Villa e da chaminé da lareira. Em 1905, entre 5 de Junho e 30 de Agosto, o ferreiro entrega ainda alguns objectos e efectua alguns trabalhos, como comprovado por uma factura de 29 de Agosto (total de 259,30 francos): colocação de algumas persianas, instalação da casota do macaco (estrutura com 34 quilos de peso!), colocação do jacto de água do lago em frente à Villa, entre outros.
     A 6 de Janeiro de 1904 o estucador Tisseyre trabalha na sala de estar do presbitério. No dia seguinte, ocupa-se de um vitral da igreja. Em Julho de 1904 terminam-se as águas furtadas da Villa e em Dezembro Oscar Vila coloca as portas dos quartos e respectivas fechaduras. Entretanto, durante Agosto e Setembro, o estucador ocupa-se dos pavimentos da Villa. A 9 e 10 de Março de 1905, este irá colocar a pia de despejo na cozinha. Irá ainda realizar uma série de trabalhos até 23 de Dezembro.

A Villa Béthanie em 1904, vista dos jardins laterais A Villa Béthanie em 1905, vista da Rue Béthanie
A Villa Béthanie em 1904,
vista dos jardins laterais
A Villa Béthanie em 1905,
vista da Rue Béthanie

     Uma nota de pagamento de Georges Castex de Limoux, datada de 23 de Maio de 1905, regista ainda as despesas feitas na colocação das letras de ouro na fachada (da inscrição "Villa Béthanie") que ocorreu algures em 1903, e na colocação do vitral da fachada, que ocorreu em Maio de 1904. A colocação do vitral foi algo problemática pois este ficou danificado durante a primeira montagem. Teve que ser retirado, levado a Toulouse, e trazido de volta. Estes detalhes estão presentes na nota de 23 de Maio de 1905.
     O papel de parede é escolhido por catálogo, da casa parisiense Duchesne. A encomenda chega a 24 de Agosto de 1905, e o montante a pagar é de 403,45 francos, mais 11,25 francos que serão pagos mais tarde, a 6 de Dezembro, depois da chegada de uma segunda encomenda.

     Os trabalhos de pintura são executados pelo pintor Laffon, que escreveu uma lista detalhada dos trabalhos que levou a cabo no domínio de Saunière. Laffon trabalhou na Villa, na Torre e no pátio, num período que se deverá localizar depois do fim dos trabalhos ao nível das fundações. Como Laffon não deixou datas na sua lista de trabalhos, não é possível precisar temporalmente os serviços por ele prestados. Sabe-se, contudo, a soma: 941,19 francos.

     Como foi referido atrás, Saunière recorreu à Société des Chaux et Ciments d'Albi para a obtenção de cal e cimento. O padre efectuou o pagamento em 24 prestações, entre 31 de Julho de 1898 e 30 de Novembro de 1905. Se se pretende saber os gastos efectuados nestes materiais, devemos retirar o pagamento de 60 francos efectuado algures entre 31 de Julho e 30 de Setembro. Assim, pelos materiais empregues nas obras do domínio Saunière teve que pagar 1935,10 francos. Saunière recorreu também às Cimenteries Berthelot de Grenoble para obter este tipo de materiais, e efectuou o pagamento das suas dívidas com dois cheques: um de 5 de Julho de 1904 (109 francos) e outro de 31 de Dezembro de 1904 (191,80 francos). Os blocos de pedra usados nas obras eram provenientes da pedreira de Paul Taillefer, e Saunière pagou um total de 602,50 francos por estes materiais. Note-se que, de novo, a Comissão de Inquérito cometeu com estas facturas um erro crasso, porque uma despesa de 60 francos foi contabilizada três vezes em vez de uma só. O que sucedeu foi que o pedreiro Taillefer repetiu a listagem do mesmo serviço noutros dois documentos e a comissão nem deu pela repetição.

     Durante o processo eclesiástico de Saunière, esta comissão tinha como função verificar a contabilidade com os registos do padre e averiguar a veracidade dos valores por este apresentados. Ora sucede que a comissão aparenta não perceber nada do serviço para o qual foi destinada. Comete frequentemente erros matemáticos em operações triviais como somas e subtracções e parece desconhecer a diferença entre artigos tão diferentes como facturas, ordens de pagamento e notas informativas.

 

 

A Torre Magdala

 

A Torre Magdala com os exteriores terminados, em 1905
A Torre Magdala com os exteriores
terminados, em 1905

     Quando comparada com a Villa Béthanie, esta torre fica sempre em segundo lugar em termos de dimensão e custo. Saunière pretendia usá-la como escritório e biblioteca, que estando relativamente isolada da aldeia, seria um local sossegado e com uma vista invejável. Mas geograficamente a torre faz parte do plano de Saunière juntamente com a Villa Béthanie, que pretende representar Betânia, a aldeia onde Maria, irmã de Lázaro, ungiu os pés de Jesus antes deste entrar em Jerusalém. Se assumirmos que esta Maria de Betânia, a irmã de Lázaro, é a própria Maria Madalena, ou Maria de Magdala, então há uma ligação entre a torre, a Villa e a igreja. Deste modo, o percurso feito em Rennes-le-Château entre a Torre Magdala (que representa a aldeia de Magdala na Galileia) e a Villa Béthanie será o mesmo feito por Jesus, antes de entrar em Jerusalém. Um verdadeiro caminho santo, da Galileia à Judeia, que deveria ocupar um lugar de destaque no projecto de peregrinação de Saunière.

     A torre foi edificada sensivelmente ao mesmo tempo que a Villa, e foi executada pelos mesmos operários envolvidos na construção desta última. De facto, não deveria haver grande distinção entre os dois estaleiros, porque os jardins que separam as duas construções também estavam a ser construídos na mesma altura. Os trabalhos de pedreiro foram mais uma vez levados a cabo por Elie Bot e a sua equipa. A 27 de Agosto de 1906, o marceneiro Oscar Vila elabora uma lista das dívidas de Saunière respeitantes aos trabalhos prestados na torre: todos os trabalhos de marcenaria, nomeadamente as portas, escadas e soalhos (23 m2 colocados a 7 de Agosto). Oscar também menciona que no dia 5 de Junho foi à gare buscar as peças em madeira para a construção da biblioteca que iria mais tarde instalar na torre. Pela totalidade das obras de marcenaria, Oscar Vila cobra 478,90 francos. Saunière pagaria a 23 de Janeiro de 1907.

 


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