Os primeiros trabalhos de recuperação

 

Índice

1. Introdução
2. As obras no altar-mor
3. O arranjo dos vitrais
4. 1891
5. O presbitério
6. As alterações no cemitério
7. O incêndio de 1895
8. Novos trabalhos na igreja
9. Os últimos trabalhos na igreja
10. Hipótese conclusiva
 

 

     Ao chegar a Rennes-le-Château em 1885, Saunière depara-se com uma igreja completamente arruinada, de construção carolíngia (séc. VIII-IX), construída sobre o que se consideram ser ruínas visigóticas datadas do século VI. A igreja aparece recenseada no inventário dos Cavaleiros de S. João de Jerusalém em 1185.
     Muitos anos antes da chegada de Saunière, foram efectuadas reparações no campanário, mais concretamente em 1817 e em 1827. Mais tarde, um antecessor de Saunière, o padre Antoine Croc, apelou ao município para uma intervenção na igreja, e a 6 de Março de 1845 o arquitecto Larra de Limoux, a convite do presidente da câmara de Rennes, examinou a igreja. Concluiu que o edifício não estava em perigo de derrocada, mas que se impunham obras no tecto da igreja, que estava em muito mau estado. Também aconselhou o restauro do campanário, que segundo ele era muito importante para o sustento de toda a estrutura.
     A 21 de Outubro de 1853, o arquitecto Guirard Cals, inspector camarário em Carcassonne, publica um parecer sobre o estado da igreja, sugerindo que não se faça o restauro.

[Relatório do arquitecto Guirard Cals]
[Tradução do relatório]

     Neste parecer, o arquitecto alega que os trabalhos de restauro seriam demasiado caros face ao custo de uma igreja nova. Conclui no seu estudo que a igreja, apesar de severamente danificada, não constitui perigo para a segurança dos habitantes da aldeia, e que por isso, vale a pena aguardar a disponibilidade dos fundos camarários para a edificação de uma nova igreja. Este parecer não alterou em quase nada a situação da igreja. Somente o campanário foi submetido a alguns retoques pouco depois da entrega do relatório. Mais tarde, a 16 de Março de 1879, o presidente da câmara, Tisseyre, aprovaria um orçamento de reparações que se elevava a 2.797 francos para a recuperação da igreja, e 3.345 francos para a construção de uma sacristia. Estas reparações nunca foram efectuadas. Compare-se o custo estimado para a construção de um novo edifício, 4.500 francos, com os custos de restauro referidos no orçamento.
     Deste modo, os anos passariam sem intervenções. Em 1880 apenas foi reparado um sino, e sujeitou-se a comuna ao pagamento de 100 francos numa tentativa de melhorar um pouco o estado de degradação da igreja. Em 1883, o bispo de Carcassonne, ciente da escassez de fundos da aldeia, decide apelar à assembleia departamental, especificando que era necessário um montante de 947 francos. O bispo apenas pedia ao departamento a quantia de 697 francos, pois os restantes 250 seriam impostos à comuna de Rennes. Para justificar o pedido, o bispo alegou o estado deplorável da igreja. Naquela altura, o interior já praticamente não recebia luz natural porque os vidros, que tinham sido destruídos por uma tempestade, tinham sido substituídos por entaipados de madeira. Um relatório do Conselho Municipal atesta bem a situação:

Texto original:

     "Le service religieux est impossible dans l'église à cause du danger imminent de l'écroulement de la voûte du sanctuaire, de l'état de vétusté du maître-autel de l'état déplorable où se trouvent l'autel et les deux fenêtres de la nef, dont les chassis ont étés brisés et emportés par un ouragan, l'église est plongée dans l'obscurité, car on a dû fermer par des planches les ouvertures des fenêtres qu'une tempête a privé de leurs verrières."

Tradução:

     "O serviço religioso é impossível dentro da igreja, devido ao perigo de derrocada iminente da abóbada do santuário, do estado vetusto do altar-mor, e do estado deplorável em que se encontram o altar e as duas janelas da nave, cujos caixilhos foram despedaçados e levados por uma tempestade, a igreja está mergulhada na penumbra, uma vez que se teve que fechar com pranchas (de madeira, N.T.) as aberturas das janelas que uma tempestade privou dos seus vitrais."

     Legalmente, o problema do restauro da igreja era delicado: todas as igrejas e presbitérios estatais pertenciam às comunas (decretos-lei do 18º do Germinal, ano X, do 2º do Pluvioso, ano XIII e de 3 de Novembro de 1836). Assim, o direito para a execução de trabalhos de restauro numa igreja ou presbitério com fundos comunitários pertence somente à Câmara Municipal. Só o presidente da câmara poderá adjudicar este tipo de obras, que serão sempre financiadas pelo município. O problema que se põe é então o seguinte: em Rennes, a câmara não tem os fundos necessários ao restauro da igreja, e face ao comentário do arquitecto Cals, em 1853, a câmara toma a decisão de não efectuar quaisquer obras na igreja de Sta. Maria Madalena, ficando a aguardar a chegada dos fundos necessários, ou em última hipótese a degradação da igreja para lá do suportável! Por outro lado, a câmara não tinha a obrigação de intervir no restauro se fosse comprovado não haver perigo para a segurança pública, e se o culto se pudesse exercer sem impedimentos de maior. E teria ainda menos obrigação de proceder a obras secundárias, como o aumento ou redecoração interna da igreja.
     A situação permaneceu assim até ao dia em que Saunière chegou à aldeia. Foi para ele fácil arranjar razões de sobra para efectuar as obras de restauro, alegando, por exemplo, a impraticabilidade do culto devido à degradação da igreja. Nos arquivos departamentais existe uma prova de que Saunière avançou em 1886 com dinheiro próprio para a reconstrução da igreja. O montante era de 518 francos. Não parece razoável que as economias de Saunière, chegado a Rennes em Julho de 1885, tivessem já ascendido a este montante. Ao que parece, apenas duas proveniências para este dinheiro são plausíveis: uma doação particular (a hipótese da doação provir da condessa de Chambord não é de rejeitar), ou a utilização dos recursos deixados pelo padre anterior, o padre Pons. Este sacerdote dedicava-se por vezes à actividade de curandeiro dos seus paroquianos, e de acordo com um testemunho, teria curado uma senhora que sofria de uma doença supostamente incurável. Agradecida, ela teria feito uma doação de 600 francos destinada ao restauro da igreja. Tendo morrido em 1878, o padre Pons não chegou a aplicar estes fundos, que teriam sido herdados intactos por Saunière.
     Como base documental para a apresentação cronológica dos trabalhos de reconstrução da igreja, existe ainda hoje o conjunto de 61 facturas que Saunière entregou ao vigário-geral de Carcassonne, aquando das primeiras investigações judiciárias à sua contabilidade, a 13 de Março de 1911, como resposta à Comissão de Inquérito liderada por Saglio. Com estas facturas, seguia uma carta da qual se apresenta aqui um breve excerto:

Texto original:

     "Toutes les factures n'y figurent pas, pour la bonne raison que je les ai égarées. Comme je savais que la prescription couvrait la plupart des dépenses après deux ans, je n'ai attaché aucune importance à la conservation de ces pièces."

Tradução:

     "Nem todas as facturas são apresentadas, pela boa razão de que as perdi. Como eu sabia que a prescrição chegaria para a maioria das despesas ao fim de dois anos, não dei nenhuma importância à conservação destas facturas."

     Esta justificação de Saunière parece bem imprópria para um homem cuidadoso e responsável como ele. Seja como for, as facturas foram entregues à Comissão, tendo Saunière manifestado o seu desejo de reavê-las. Contudo, uma vez entregues, Saunière nunca mais as recuperou.
     Estas 61 facturas, pertencentes ao período 1886-1898 permitem estabelecer uma cronologia bem precisa dos trabalhos que foram realizados. Destas 61 facturas, 13 correspondem a trabalhos de decoração no interior da igreja. As facturas cobrem todo o tipo de despesas efectuadas pelo padre excepto as correspondentes aos trabalhos toscos, ao nível de estruturas e fundações, que foram executados por pedreiros empregados como jornaleiros sob a direcção de Elie Bot. Este homem, Elie Bot, foi durante anos o mestre-de-obras de Saunière, contratando os trabalhadores, adquirindo a matéria-prima básica e coordenando as obras. Elie Bot trabalhou durante muitos anos para Saunière, mas sem contabilidade, e por isso não existe nenhuma factura sua. Somente os cadernos de apontamentos de Saunière nos permitem obter um registo deste tipo de despesas.
     Quando Saunière decide iniciar as obras, atende à urgência da recuperação do altar, dos vitrais e do púlpito. No que diz respeito aos vitrais, muitos estavam já completamente destruídos e substituídos por tabuado para evitar a entrada da chuva. Segue-se então a análise do primeiro período de trabalhos, de 1886 a 1891.

 

 

As obras no altar-mor

 

     O antigo altar-mor da igreja de Rennes era composto por uma pedra simples, sem decorações, encaixada na parede e apoiada em dois pilares. Um dos pilares encontrava-se esculpido e o outro em estado bruto. Como este segundo pilar nunca foi encontrado, e como a pedra do altar era de dimensões reduzidas, alguns autores têm apresentado a hipótese de só ter existido um pilar, que apoiaria centralmente a laje do altar-mor. Em todo o caso, pelo menos um pilar esculpido é real, e foi utilizado mais tarde por Saunière no altar à Virgem de Lourdes que ele mandou construir no exterior da igreja. Mandou gravar nele a inscrição "Mission 1891", como recordação da visita do missionário Ferrafiat à aldeia nesse ano. Hoje em dia, o pilar que está debaixo da estátua da Virgem é uma reprodução do pilar original. O verdadeiro está no museu de Rennes-le-Château, que pertence à Associação Terre de Rhedae. Este museu está localizado ao lado da igreja.

Pilar esculpido (fotografia antiga) Pilar esculpido. Museu de Rennes-le-Château
Pilar esculpido
(fotografia antiga)
Pilar esculpido
Museu de Rennes-le-Château

     Sobre o velho altar encontrava-se um conjunto decorativo em mármore. Tanto este como a velha pedra do altar foram guardados por Saunière e aplicados na construção da sua capela privada na Villa Béthanie, onde ainda estão hoje. Na fotografia da direita, é interessante reparar na imagem de Sta. Maria Madalena acompanhada da caveira, dispostos de forma idêntica à do painel no altar-mor da igreja.

Altar privativo de Saunière na Villa Béthanie Outra fotografia, onde se vê uma figura de Maria Madalena
O altar privativo de Saunière
na Villa Béthanie
Outra fotografia, onde se vê
uma figura de Maria Madalena

     Um novo altar em terracota é encomendado à casa Monna, em Toulouse. A factura desta compra existe hoje em dia e comprova que, a 27 de Julho de 1887, um total de 700 francos foi pago por uma benfeitora, Mme. Marie Cavailhé, de Coursan. A benfeitora queria pagar um voto que fez pela cura da doença que a afligiu durante o período em que viveu em Rennes. Assim, a primeira intervenção de Saunière é a instalação deste novo altar, o que ocorre em Julho de 1887.
    É também por ordem de Saunière que se instala o painel em baixo-relevo de Sta. Maria Madalena na base do altar. Devido à falta de factura, é impossível situar temporalmente a compra do painel, bem como saber o seu custo. Outrora existia uma inscrição na base do painel:

Jésu. medèla. vulnérum * Spes. una. poenitentium Per. magdalenae. lacrymas * Peccata. nostra. diluas.

     Uma tradução aproximada será "Jesus cura as feridas * A esperança unida ao arrependimento Pelas lágrimas de Madalena * Os nossos pecados sejam diluídos".

Vista actual do altar-mor da igreja Painel de Sta. Maria Madalena
Vista actual do altar-mor da igreja Painel de Sta. Maria Madalena

     Curiosamente, esta inscrição é exactamente igual à que se encontra no fim do segundo texto, que Gérard de Sède e o Priorado de Sião afirmam ter sido descoberto por Saunière. O autor deste texto em código, que tudo indica ser Phillipe de Chérisey, tentou deliberadamente relacioná-lo com esta inscrição, de forma a reforçar a credibilidade dos falsos pergaminhos.

     Saunière dedicou-se, na altura da instalação do novo altar, às limpezas e arranjos essenciais ao funcionamento do culto, tendo efectuado algumas escavações de sondagem à estrutura e aos alicerces.
     Diz-se que foi nesta altura que o padre descobriu uma cavidade tumular, que segundo os relatos tradicionais se encontrava frente ao altar, coberta por uma laje de pedra. Esta laje está hoje no museu da Associação Terre de Rhedae, e é conhecido pelo nome de "Dalle des Chevaliers", ou seja, "Laje dos Cavaleiros", devido à gravura em baixo-relevo que reveste o lado interior da laje. Dentro da cavidade, Saunière encontrou algumas jóias e ossadas. Diz-se que também terá achado um pote cheio de moedas de ouro. Este relato é hoje vulgarmente aceite como verídico porque, além de confirmado por vários relatos de aldeões contemporâneos dos acontecimentos, existem ainda diversas moedas e jóias antigas que estiveram na posse de amigos e familiares do padre Saunière que diziam tê-las recebido da sua mão. A imagem da direita consiste num desenho da laje da autoria do pintor J. Ourtal que foi publicado no Bulletin de la Société d'Études Scientifiques de l'Aude, em 1926.

A Laje dos Cavaleiros. Museu de Rennes-le-Château Desenho da laje, autoria do pintor Ourtal (1926)
A Laje dos Cavaleiros
Museu de Rennes-le-Château
Desenho da laje (1926)
Autoria do pintor J. Ourtal

     Não convém exagerar a importância desta descoberta. Achar pequenos tesouros em igrejas tão antigas como a de Rennes-le-Château (que já não sofria intervenções estruturais há muito tempo) é algo perfeitamente normal. À falta de mais informações sobre o número e a proveniência do achado pecuniário de Saunière, convém não tirar conclusões precipitadas. Com certeza não terá sido este o "fabuloso tesouro" de Rennes. Além disso, após a descoberta da sepultura, Saunière não adopta nenhum comportamento perdulário. As obras na igreja continuarão a ritmo lento, com muitos materiais a serem pagos a prestações. Esta descoberta destaca-se por ser o único achado público e incontestável de um tesouro material na igreja de Rennes-le-Château.
     Lembra-se agora que Saunière regressou à aldeia, após cumprida a sua suspensão temporária, a 1 de Julho de 1886. Entre esta data e o mês de Julho de 1887, Saunière dedica-se a pequenos arranjos e limpezas, bem como às escavações cujos resultados foram agora descritos. Sabe-se que algures no ano de 1886, Saunière oferece um cálice ao padre Grassaud, de Amélie-les-Bains (Pirinéus Orientais). A proveniência deste cálice é desconhecida, mas cronologicamente faz sentido que se tratasse de uma outra descoberta arqueológica na igreja, porque desde 1 Julho de 1886 até ao fim desse ano Saunière estava dedicado a este tipo de actividades. Contudo, não é seguro afirmar que este cálice constitui uma descoberta arqueológica importante, uma vez que aparenta ser relativamente recente (está datado, com pouca certeza, como sendo do séc. XIX).

Cálice oferecido por  Saunière ao padre Grassaud
Cálice oferecido por
Saunière ao padre Grassaud

     O cálice traz a seguinte inscrição:

ECCE PANIS ANGELORUM FACTUS CIBUS VIATORUM

     Traduzido à letra ficará "Eis o pão dos anjos feito alimento do viajante". O cálice comporta três imagens, de Maria, de S. José, e de outra personagem não identificada, talvez um bispo. Espigas de trigo entrelaçam as imagens. A base do cálice traz ainda os símbolos dos evangelistas, o Leão de S. Marcos, o Boi de S. Lucas, a Águia de S. João e o Homem de S. Mateus. Na base existe ainda um medalhão com Jesus, S. José, e uma imagem, provavelmente de uma santa. Incrustadas na base do cálice estão três figuras, cada uma com o seu escudo. Os escudos têm cada um, sobre fundo azul, o símbolo de uma virtude teologal: a Cruz para a Fé; a Âncora para a Esperança; e o Coração para a Caridade.

     Em relação à descoberta dos pergaminhos... Nem uma só prova! As versões deste episódio não comprovado são várias e contraditórias: numa primeira versão diz-se que o padre descobriu os pergaminhos enrolados e guardados em vários tubos de madeira, e que estes tubos se encontravam no interior do pilar esculpido que era oco. Esta versão é claramente falsa, uma vez que o pilar esculpido é maciço! Numa outra versão dos acontecimentos, durante a remoção do altar velho surgiu uma cavidade (no chão ou na parede), que continha os ditos tubos. Ainda segundo outra versão, os tubos encontravam-se na sepultura sob a Laje dos Cavaleiros. Todas estas versões não se encontram apoiadas de forma alguma, nem em factos, nem em relatos. Pela falta de provas concretas, apenas o cruzamento dos relatos que chegaram aos nossos dias com a cronologia estabelecida permitirá construir hipóteses sólidas e próximas da verdade.
     Existem testemunhos da descoberta de um ou vários documentos num compartimento secreto num balaústre de madeira. Este balaústre ainda existe (encontra-se no museu de Rennes-le-Château), e encontrava-se debaixo do púlpito velho a suportá-lo. A fotografia que a seguir se apresenta evidencia bem a existência de um compartimento acessível pelo deslizar de uma peça de madeira.

Balaústre com compartimento secreto
Balaústre com compartimento secreto

     São dois os testemunhos desta descoberta: o primeiro provém de uma idosa da aldeia, Mme. Léontine Marre, e o segundo do neto mais velho do sineiro (contemporâneo do padre). O segundo testemunho é mais extenso e detalhado, enquanto que o primeiro poderá não ser tão exacto. Os testemunhos foram transcritos da obra de Claire Corbu e Antoine Captier, "L'héritage de l'abbé Saunière", págs. 74 e 75.

Testemunho 1 (texto original):

     "Le carillonneur de Rennes, un vieil homme très dévôt, s'agenouillait toujours devant l'autel pour y dire une prière avant d'aller sonner l'Angélus du soir. Ce jour lá, les ouvriers avaient démoli l'autel et étaient partis en laissant tout un amas de déblais provenant de leurs travaux. Machinalement, tout en marmottant sa prière, le carilloneur dégagea un vieux morceau de bois, semblable à un bout de chevron, qui émergeait du tas de déblais. Lorsqu'il le tira à lui, le morceau de bois s'ouvrit en deux. En fait il s'agissait d'une sorte de boîte toute vermoulue d'où s'échappèrent de petits ossements et un bout de papier roulé. Il s'empressa de porter sa trouvaille à monsieur le curé qui, l'ayant éxaminé, lui dit: ce n'est rien, ce sont des reliques."

Testemunho 1 (tradução):

     "O sineiro de Rennes, um velho homem muito devoto, ajoelhava-se sempre em frente ao altar para rezar uma oração antes de ir tocar o Angelus da noite. Naquele dia, os operários tinham demolido o altar e tinham-se ido embora deixando (na igreja, N.T.) um montão de entulho proveniente dos seus trabalhos. Maquinalmente, enquanto murmurava uma reza, o sineiro pegou num velho pedaço de madeira, parecido com a ponta de um barrote, que emergia do monte de entulho. Quando o puxou para si, o pedaço de madeira abriu-se em dois. Com efeito, tratava-se de uma espécie de caixa toda carcomida (pelo caruncho, N.T.) da qual saíram pequenas ossadas e um bocado de papel enrolado. Ele apressou-se a levar o seu achado ao senhor padre que o tendo examinado lhe disse: não é nada, são relíquias."

Testemunho 2 (texto original):

     "Un soir, alors qu'il descendait l'escalier du clocher, mon grand-père aperçut un reflet brillant provenant du chapiteau d'un vieux balustre que les maçons avaient mis dans un recoin car il devait les gêner dans leurs travaux. Intrigué il s'en approcha et découvrit que le reflet provenait d'une fiole coincée au fond d'une profonde entaille du chapiteau. Le vieux balustre avait dû être déplacé sans trop de ménagement et le morceau de bois qui devait normalement s'imbriquer dans l'entaille s'en était détaché en partie, laissant apparaître la fiole. Mon grand-père la dégagea et constata qu'il y avait à l'intérieur un bout de parchemin roulé. Il porta le tout à monsieur le curé et il n'en entendit plus jamais parler. Il disait que c'était grâce à ça que le curé avait trouvé un trésor."

Testemunho 2 (tradução):

     "Uma noite, quando descia as escadas do campanário, o meu avô notou num reflexo brilhante proveniente do capitel de um velho balaústre que os pedreiros tinham colocado a um canto porque deveria incomodá-los nos seus trabalhos. Intrigado, ele aproximara-se e descobrira que o reflexo provinha de uma garrafa escondida no fundo de uma profunda fenda do capitel. O velho balaústre deveria ter sido deslocado com pouco cuidado e o pedaço de madeira que deveria normalmente encaixar-se na fenda estava parcialmente para fora, deixando aparecer a garrafa. O meu avô retirou-a e constatou que ela tinha no seu interior um rolo de pergaminho. Ele levou tudo ao senhor padre e nunca mais ouviu falar (do assunto, N.T.). Ele dizia que fora graças a isso que o padre tinha encontrado um tesouro."

     Como se pode constatar, estes dois relatos devem certamente referir-se ao balaústre acima apresentado. A informação essencial a reter destes testemunhos é a seguinte: 1) a descoberta ocorreu durante os trabalhos de substituição do altar (um dos testemunhos chega a precisar que a descoberta ocorreu no próprio dia da remoção do altar velho); 2) a descoberta consistiu essencialmente numa garrafa que continha um (ou talvez mais) pergaminho enrolado; 3) o padre Saunière foi imediatamente posto ao corrente da descoberta. Adicionalmente, o segundo relato refere que foi graças ao documento contido na garrafa que o padre descobriu "um tesouro". Seria esse o tesouro encontrado no túmulo sob a Laje dos Cavaleiros? Tudo aponta nesse sentido.
     Uma informação importante, ainda por referir, vem complicar o cenário, mas poderá lançar luz sobre alguns detalhes mais obscuros. Foi descoberto, nos documentos de Saunière, um velho registo que cobre o período entre os anos 1694 e 1726, que menciona a morte e a sepultura de alguns notáveis da aldeia no interior da igreja. O registo esteve na posse de todos os padres de Rennes, apesar de só ter sido usado durante o período supracitado. Por esta razão, quase todas as entradas do registo estão assinadas pelo padre da altura, o padre Vernat.
     A primeira entrada do registo, datado de 6 de Maio de 1694, está assinada por um padre de nome J. Béranger. Mais à frente encontram-se, numa entrada relativa a um baptismo, as assinaturas de Joseph e Anne d'Hautpoul. É o irmão destes, François (1689-1753), marquês de Blanchefort, barão de Rennes, que casa em 1732 com Marie de Négri-d'Ables. François seria o último senhor de Rennes, pois não teve descendência masculina. Depois da morte do marido, Marie d'Hautpoul viveria em Rennes até morrer, em 1781, e ser sepultada pelo seu confessor, Antoine Bigou, no cemitério local.
     Encontra-se também assinalada a visita do bispo e conde de Alet, Charles Nicolas Taffoureau, à aldeia de Rennes, que ocorreu a 14 de Maio de 1700. O Jubileu do Ano Santo de 1703, proclamado por Clemente XI, também foi assinalado no registo, bem como uma série de factos relevantes: a morte do bispo de Alet a 8 de Outubro de 1708, com cinquenta e dois anos de idade; a morte do bispo de Alet, Jacques Maboul, a 1 de Maio de 1723, entre outros. Contudo, para o assunto que nos interessa, os registos mais importantes são os seguintes (transcritos da página 271 do livro de Claire Corbu e Antoine Captier):

Texto original:

     "L'an mil sept cents cinq le trentième jour de mars est décédée, dans le château de ce lieu, dame Anne Delsol, agée d'environ septante cinq ans, veuve de messire Marc Antoine Dupuy, sieur de Pauligne, ancien trésorier de France de la généralité de Montpellier (...) elle a été inhumée le trente et un du dit mois, dans l'église de ce lieu, au tombeau des Seigneurs qui est auprès du Balustre (...)"

Tradução:

     "No ano mil setecentos e cinco no trigésimo dia de Março morreu, no castelo deste lugar, D. Anne Delsol, com a idade aproximada de setenta e cinco anos, viúva de M. Marc Antoine Dupuy, senhor de Pauligne, antigo tesoureiro de França da generalidade de Montpellier (...) ela foi inumada a trinta e um do dito mês, na igreja deste lugar, no jazigo dos Senhores que se encontra perto do Balaústre (...)"

     Anne Delsol era parente dos Hautpoul, ou seja, não era descendente directa da família dos senhores de Rennes. Contudo, foi inumada no jazigo senhorial, que a dar crédito ao registo, encontra-se em parte incerta no interior da igreja. A existência de tal jazigo não é de admirar; porém, é apenas com o registo de 1694-1726 que se tem uma evidência da sua presença, e mais, da sua localização: perto do balaústre, que só poderá ser o atrás mencionado. É pertinente fazer notar que se é muito provável que o "jazigo dos Senhores" foi utilizado durante muitos anos (possivelmente séculos) em Rennes, não só para enterrar os senhores do lugar, mas também os seus parentes, então a dimensão deste jazigo deverá ser considerável.
     Até hoje, o jazigo mencionado no registo nunca foi encontrado. Aluimentos de terra têm impedido as escavações arqueológicas na igreja e no cemitério, e a oposição da população a este tipo de iniciativas tem sido forte, o que impede que se encontre definitivamente a entrada. As últimas empreitadas de monta levadas a cabo nestes terrenos foram efectuadas por Saunière, e como se sabe, ignora-se os resultados que elas produziram. A actividade de grupos independentes de investigadores durante os anos sessenta também não produziu descobertas significativas, muito provavelmente porque se tratavam de "caçadores de tesouros", ou seja, de grupos de amadores com poucos meios e conhecimentos técnicos.
     Contudo, a 21 de Setembro de 1891, Saunière anota no seu diário a descoberta de um jazigo. Seria este o "jazigo dos Senhores"? Não é possível sabê-lo com certeza, mas tudo aponta para este facto. A igreja de Rennes é bastante pequena, e a população comum nunca seria inumada no seu interior. Se a igreja possui um jazigo, é lógico que este seja o único, e corresponda ao "jazigo dos Senhores". A descoberta de Saunière será explorada mais adiante. Para já, veja-se outra evidência de uma inumação neste jazigo, ocorrida em 1724, como o atesta a seguinte escritura igualmente presente no registo de 1694-1726.

Texto original:

     "L'an mil sept cents vingt et quatre et le vingt et quatre d'octobre est décédé, dans le lieu de Rennes, diocèse d'Alet, noble Messire Henry du Vernet, lieutenant-colonel de cavalerie du régiment de Ruftège, ayant reçu le sacrement (...) a esté enterré dans l'église de ce lieu, au tombeau des Seigneurs (...)"

Tradução:

     "No ano mil setecentos e vinte e quatro e a vinte e quatro de Outubro morreu, no lugar de Rennes, diocese de Alet, o nobre M. Henry de Vernet, tenente-coronel de cavalaria do regimento de Ruftège, tendo recebido o sacramento (...) foi enterrado na igreja deste lugar, no jazigo dos Senhores (...)"

     Como se pode constatar, o registo contém indícios concretos da existência de um jazigo no interior da igreja, cuja localização deveria ser desconhecida no tempo de Saunière, visto que no registo está anotada a última inumação a 1724. Então, como e quando foram efectuadas as descobertas do padre de Rennes?
     O que permitirá estabelecer uma ordem correcta para todas estas descobertas arqueológicas é a análise cronológica. É um facto concreto que entre 1886 e 1887 Saunière remove o altar velho. Durante os trabalhos de remoção, o sineiro depara-se com uma garrafa escondida no balaústre que continha um ou mais pergaminhos enrolados, entregando de imediato o achado ao padre. Adicionalmente, sabe-se que em 1886 Saunière oferece ao padre Grassaud de Amélie-les-Bains um cálice de proveniência desconhecida. Hipótese: o cálice, bem como talvez mais alguns objectos de culto e jóias, podem ter sido encontrados durante os trabalhos de substituição do altar, quando uma cavidade tumular teria sido posta a descoberto sob a dita Laje dos Cavaleiros, muito possivelmente na sequência da descoberta da garrafa com o pergaminho e talvez com a ajuda deste.
     Se de facto foi o "jazigo dos Senhores" mencionado no registo aquilo que Saunière encontrou a 21 de Setembro de 1891, então quatro anos separam a descoberta do tesouro da descoberta do jazigo. Um período em que o padre deverá ter andado ocupado à procura da entrada do dito jazigo, que hoje em dia se desconhece por completo. Esta é, até agora, a mais lógica cadeia de acontecimentos. Em relação aos famosos pergaminhos publicados por Gérard de Sède e publicitados pelo Priorado de Sião, tudo indica tratarem-se de uma falsificação...

 

 

O arranjo dos vitrais

 

Vitral da rosácea com Sta. Maria Madalena
Vitral da rosácea com Sta. Maria Madalena

     É em 1887 que Saunière decide arranjar os vitrais da igreja. Não se pode falar em restauro, porque já quase nada restava dos velhos vitrais. A chuva entrava frequentemente na igreja através dos buracos dos antigos vitrais, e algumas tábuas de madeira tinham sido colocadas para remediar o problema. A Saunière não resta mais nenhuma hipótese senão comprar vitrais novos. Recorre então à casa Henri Feur em Bordéus, que lhe coloca os vitrais na igreja em Setembro de 1887. O total da factura, 1350 francos, seria pago em várias prestações. A factura dos vitrais pertence felizmente ao grupo de facturas que ainda existem hoje. Datada de 26 de Dezembro de 1905, nela pode-se ler que Saunière efectuou o pagamento em quatro prestações: 30 de Setembro de 1887, 12 de Abril de 1897, 26 de Abril de 1899 e 7 de Janeiro de 1900. Note-se bem o tempo que Saunière demorou para pagar estes vitrais: de 1887 a 1900 são quase 13 anos. Uma atitude pouco lógica para alguém que teria descoberto um tesouro e que estaria supostamente milionário.
     A factura contém ainda a lista dos vitrais executados e montados: um vitral de Sta. Maria Madalena (lembrando o episódio do vaso de bálsamo) colocado na rosácea atrás do altar, quatro vitrais em mosaico e um com uma Missão dos Apóstolos para colocar na nave da igreja, dois vitrais: "Marta e Maria" e "A ressurreição de Lázaro", e ainda um vitral para a sacristia: "Cristo na Cruz". Podemos deduzir da escolha destes vitrais que a intenção de Saunière era a fazer jus à consagração da igreja a Sta. Maria Madalena. Esta personagem servir-lhe-á ainda de inspiração para as construções que ele virá a efectuar mais tarde na aldeia.
     Após a instalação dos novos vitrais, segue-se um período durante o qual não foram efectuadas intervenções importantes na igreja. Será também entre 1887 e 1891 que o padre manda restaurar o telhado do presbitério. De 1888 a 1890 Saunière acumulará o cargo de padre de Rennes com o de padre em Antugnac, uma aldeia a cinco quilómetros de distância, que o padre percorria a pé, chegando por vezes extenuado, segundo os relatos contemporâneos. Sobre este serviço religioso, Saunière escreveu um caderno de sermões intitulado "Mon Enseignement à Antugnac".

 

 

1891

 

     1891 é um ano fulcral na vida de Saunière. Repare-se que é neste ano que renasce o culto da Notre-Dame de Bon-Secours, em Puivert, muito perto de Rennes-le-Château. Para esta região de França, o ano de 1891 é um ano que assiste ao reforçar da devoção à Virgem Maria.
     Possivelmente entusiasmado com o culto da Virgem de Lourdes e com o fenómeno de Puivert, terá notado as esplêndidas condições que tinha a sua aldeia para a criação de um local de peregrinação. À semelhança de Lourdes, terá aproveitado o facto de Rennes-les-Bains ser uma estância termal, para fazer beneficiar os visitantes da região das vantagens da "saúde espiritual", tratada com uma peregrinação ao topo da montanha, a Rennes-le-Château. Os peregrinos poderiam, à semelhança de Lourdes, vir à região beneficiar das águas termais em Rennes-les-Bains, e aproveitar para fazer uma cura de fé em Rennes-le-Château. Assim, decidiu-se a fazer da aldeia um local de veneração da Virgem de Lourdes e de Sta. Maria Madalena. Esta parece ser a melhor explicação para o rumo da vida de Saunière.
     A primeira decisão de Saunière que se pode inserir neste contexto é tomada em Fevereiro de 1891. Trata-se do pedido de autorização que ele faz ao Câmara Municipal de Rennes para a construção de um calvário num terreno camarário localizado a sul da igreja. A 15 de Fevereiro o Conselho Municipal acede ao pedido, visto que a maioria da população estava de acordo com o projecto, deliberando o seguinte:

Texto original:

     "1) la place quoique clôturée aux frais et charge du curé ne lui confère aucun droit, ni à lui, ni à ses successeurs, ni à la fabrique, et reste propriété communale; que qui que ce soit aura le droit de pénétrér dans l'enclos soit pour visiter les monuments qui y seront élévés, soit pour se rendre au cimitière;
     2) toutes les portes qui fermeront les différentes entrées de cette place seront pourvues de clés dont une sera déposée entre les mains du maire ou de son délégué;
     3) cette place, une fois clôturée, restera ouverte les dimanches et les jours fériés ainsi que les jours de fête, soit communale et même nationale, du lever au coucher du soleil (...)."

Tradução:

     "1) o local, mesmo que murado a despesas e encargos do padre, não lhe confere direito algum, nem a ele, nem aos seus sucessores, nem à fábrica (confraria de uma igreja, N.T.), e permanece propriedade municipal; quem quer que seja terá o direito de entrar no perímetro para visitar os monumentos que aí serão construídos, ou para entrar no cemitério;
     2) todas as portas que fecharão as diferentes entradas deste local serão providas de chaves das quais uma será entregue nas mãos do presidente da câmara ou do seu delegado;
     3) este local, uma vez murado, permanecerá aberto aos Domingos e dias feriados bem como nos dias de festa, municipal ou nacional, do nascer ao pôr- do-sol (...)."

Saunière no dia da consagração do restauro da sua igreja
Saunière no dia da consagração
do restauro da sua igreja

     A 21 de Junho de 1891 acontece algo de importante em Rennes-le-Château. Por ocasião da comunhão de vinte e quatro crianças da paróquia, Saunière organiza uma procissão na qual participa, a seu convite, um missionário, o padre Ferrafiat. No decorrer da procissão uma estátua da Virgem de Lourdes é transportada até ao altar preparado por Saunière junto à igreja. A estátua é colocada sobre o já referido pilar do antigo altar-mor. No pilar, Saunière mandara gravar a seguinte frase: "Mission 1891". A sua intenção era a de, simplesmente, assinalar a passagem do missionário diocesano pela aldeia. No conjunto do altar à Virgem de Lourdes sobressaía ainda uma inscrição: "Pénitence! Pénitence!". Seria uma referência à mensagem de Lourdes ("Baisez la terre en pénitence pour les pécheurs")? Seria uma referência à aparição da Virgem em La Salette, Grenoble, onde a temática era também a da penitência? Ou melhor ainda, seria uma referência às duas? Tudo indica que sim...

Postal de Saunière junto à Virgem de Lourdes Estátua da Virgem de Lourdes actualmente
Postal de Saunière junto
à Virgem de Lourdes
Estátua da Virgem de
Lourdes actualmente

     Poucos meses depois, um acontecimento importante iria marcar a história da região: foi preparada uma peregrinação ao recém-restaurado santuário de Notre-Dame de Bon-Secours, em Puivert, que se veio a realizar no dia 20 de Setembro. A peregrinação foi um sucesso e a participação da população foi entusiástica. Não se sabe se Saunière esteve presente na peregrinação, mas certamente que o acontecimento não lhe passou despercebido. O ano de 1891 foi louvado por muitos católicos como o ano do retorno às antigas peregrinações. Para Saunière, este ano poderá ter sido um marco decisivo na sua vida. A partir deste ano, a pacífica tarefa de restauro da antiga igreja evoluiu para a execução de um grande empreendimento que iria modificar a aldeia para sempre, tanto a nível arquitectónico como a nível humano.
     No seu diário escreveu por esta altura a seguinte frase: "L'anné 1891 portée dans l'étérnité avec le fruit dont on parle ci-dessous", ou seja "O ano 1891 levado até à eternidade com o fruto abaixo mencionado". Por baixo da frase estava colada uma gravura com os três reis magos oferecendo a Jesus ouro, incenso e mirra. Sem dúvida, um ano espiritualmente marcante para o padre. No fim do Verão, ocorre um facto estranho que certamente reforça o carácter fulcral deste ano na vida de Saunière...

     A 21 de Setembro, aquando da colocação do novo pavimento em xadrez na nave da igreja, dá-se a descoberta de um jazigo. Sem razão aparente, as obras são interrompidas durante três semanas. Quando são retomadas a 14 de Outubro, já os operários são outros. Este episódio poderá ter tido uma importância dramática na vida do padre. No seu diário, ele anota a descoberta de 21 de Setembro: "21 - Lettre de Granes - découverte d'un tombeau, le soir pluie". Tradução: "21 - Carta de Granes - descoberta de um jazigo, à noite chove". Repare-se no uso da palavra "jazigo": tratava-se de um conjunto de sepulturas e não de uma sepultura isolada aquilo que Saunière descobriu. Ao que parece, a descoberta foi presenciada apenas pelos operários, mas estes terão sido imediatamente mandados embora, não chegando a conhecer o conteúdo do jazigo. Até hoje nunca se achou o jazigo, porque Saunière deverá ter aproveitado as obras na igreja para esconder bem a sua descoberta. Nos últimos quarenta anos o chão da igreja foi levantado várias vezes mas nada foi encontrado.
     Estaria a entrada para este jazigo tapada pela Laje dos Cavaleiros? Em princípio, não. Como foi atrás referido, visto que faz sentido afirmar que a descoberta da laje coincidiu com os trabalhos de substituição do altar, quatro anos deverão necessariamente separar estas duas descobertas. Assim, o mais lógico será pensar que a entrada para o jazigo estava separada do túmulo coberto pela Laje dos Cavaleiros, até porque Saunière terá vasculhado o melhor que pôde a área posta a descoberto. Adicionalmente, se a laje ocultasse a entrada do "jazigo dos Senhores", não faria sentido que Saunière não o mencionasse logo em 1886-87. E no registo de 1694-1726 lê-se claramente que o "jazigo dos Senhores" se encontra perto do balaústre, na parede norte da igreja, enquanto que a Laje dos Cavaleiros foi encontrada na nave central. A tese mais sólida, até ao momento, é esta: durante as obras de remodelação, nas quais Saunière procurava fazer cumprir na sua igreja as normas do Concílio de Trento para a disposição dos elementos arquitectónicos, ele terá descoberto o antigo jazigo dos senhores de Rennes. Pelos elementos ao nosso dispor, a entrada para este jazigo estará sob a escadaria do novo púlpito. Esta tese é sustentada pelo arquitecto Paul Saussez, que elaborou recentemente um estudo tridimensional sobre a igreja de Rennes. Estudos feitos recentemente com recurso ao GPR (ground penetrating radar) revelam uma estrutura oca sob a igreja, que poderá perfeitamente ser uma cripta, o tal "jazigo dos Senhores".
     Poucos dias depois, a 28 de Setembro, o padre Saunière faria uma viagem a Carcassonne e a Luc-sur-Aude, acontecimento que anotou no seu diário. No dia seguinte, escreveu no seu diário: "Vu curé de Névian chez Gélis. Chez Carrière : vu Cros et Secret." ("Vi o padre de Névian em casa de Gélis. Em casa de Carrière: vi o Cros e Secret."). Tem-se dito que a palavra "Secret." significa "segredo", segredo esse que Saunière teria visto em casa do padre Carrière. A explicação mais simples consiste em ler a palavra como "secretário". Cros era o vigário-geral da diocese, e naquele dia, Saunière vira-o juntamente com o seu secretário em casa do padre Carrière. Saunière usa mais vezes nas suas anotações a abreviatura "secret." para designar "secretário". Teria o padre revelado a alguém a sua descoberta nestes encontros do dia 29?
     Quase um mês depois, Saunière efectua uns trabalhos no cemitério, de acordo com o anotado no seu diário: "23 octobre - nettoyage du cimetière", e "29 octobre - nettoyage du cimetière". O padre apelida-os de "limpeza do cemitério".

     Ainda neste ano, Saunière decide instalar na igreja um novo púlpito, que ele encomenda à casa Giscard, em Toulouse. Encomenda também, juntamente com o púlpito, o baixo-relevo triangular que encima o pórtico da entrada.

Púlpito Pórtico à entrada da igreja
Púlpito Pórtico à entrada da igreja

     Tanto o púlpito como o baixo-relevo figuram na mesma factura, emitida no dia 20 de Outubro desse ano. O total, 915 francos. Saunière completa ainda os trabalhos de restauro no pórtico mandando gravar no fecho de arco as armas do bispo de Carcassonne, Monsenhor Félix-Arsène Billard, acompanhadas das armas papais (Leão XIII).
     Durante seis anos, Saunière não faz nenhuma intervenção significativa na igreja, à excepção do confessionário, que é instalado em 1893. Existe a factura desta aquisição, datada de 17 de Dezembro de 1893 e referente a um montante de 700 francos, da casa de Mathieu Mestre, de Limoux.

 

 

O presbitério

 

     A partir de 1892, Saunière vai dedicar especial atenção ao presbitério, onde ele vive com a família Dénarnaud, pelo menos desde 1889, a crer num documento episcopal referente à visita de Monsenhor Billard à aldeia nesse ano. Composta por quatro elementos, a mãe, o pai, um filho e uma filha, esta família originária da aldeia vizinha de Espéraza muda-se para Rennes em data incerta, entre 1886 e 1889, a convite de Saunière. Enquanto o pai e o filho trabalham de dia numa fábrica de chapéus na sua aldeia natal, a mãe e a filha dedicam-se à paróquia. A filha, Marie Dénarnaud vai ser a governanta e a confidente de Saunière até à morte deste. Os ordenados do pai e do filho constituirão receita para Saunière, de modo a compensarem o alojamento e alimentação que este lhes fornece. Uns anos mais tarde, Saunière apresentará como receitas, à comissão de inquérito, os ordenados dos quatro elementos da família Dénarnaud, justificando dois deles como provenientes do trabalho na fábrica de chapéus em Espéraza (ordenados do pai e do filho) e dois deles como provenientes do trabalho na paróquia (ordenados fictícios de Marie e da sua mãe).
     Restam poucas facturas que permitam uma análise detalhada das obras empreendidas no presbitério. Facturas isoladas fornecem alguns dados: um gasto de 70,70 francos em papel de parede na casa de Georges Castex, em Limoux; uma outra factura da mesma casa, datada de 25 de Maio de 1897, referente a algum mobiliário que foi entregue a 6 de Junho de 1896; e ainda um registo de alguns artigos entregues a 6 de Fevereiro de 1897, pela casa Charles Dénarnaud, de Alet.

     É também algures entre 1892 e 1895 que Saunière continua o melhoramento do jardim no terreno cedido pela Câmara Municipal, efectuando simultaneamente alguns arranjos no cemitério. Após a construção do calvário, será erigida no jardim uma gruta, feita de pequenas pedras, à semelhança da gruta de Lourdes, onde a Virgem Maria teria aparecido à vidente Bernardette Soubirous.

 

 

As alterações no cemitério

 

     Nos primeiros meses de 1895, Saunière dedica-se a tarefas estranhas no cemitério, mudando a posição de algumas cruzes, trocando sepulturas de sítio e destruindo algumas mais velhas. A população revolta-se com os actos do padre, e o Conselho Municipal decide apresentar uma queixa junto do Governador Civil do Aude. Pouco tempo depois nova queixa é apresentada, após deliberação do Conselho, como prova a seguinte carta, datada de 12 de Março:

Texto original:

     "Monsieur le Préfet,
     Nous avons l'honneur de vous prévenir qu'à l'accord du conseil municipal de Rennes-le-Château, à la réunion qui a eu lieu Dimanche 10 mars à 1 heure de l'après-midi dans la salle de la Mairie:
     Nous électeurs, protestons, qu'à leur décision, le dit travail, que l'on donne droit au curé de continuer, n'est d'aucune utilité et que nous joignons pour appui à la première plainte notre désir d'être libres et maîtres de soigner chacun les tombes de nos devanciers qui y reposent et que M. le curé n'ait pas le droit qu'après que nos ayons fait des embellissements ou placer des croix ou des couronnes, que tout soit remué, levé ou changé dans un coin.
     Signé,
               Sarda, Gavignaud, Delmas, Vidal, etc."

Tradução:

     "Senhor Governador Civil,
     Temos a honra de vos prevenir que segundo o acordo do conselho municipal de Rennes-le-Château, na reunião que decorreu no Domingo, 10 de Março à 1 hora da tarde na sala da Câmara Municipal:
     Nós, os eleitores, protestamos, que por sua decisão, o dito trabalho, que se continua a permitir ao padre continuar, não tem nenhuma utilidade e nós juntamos como reforço à primeira queixa o nosso desejo de sermos livres e senhores de tratar cada um de nós das sepulturas dos nossos antepassados que lá repousam, e que o senhor padre não tem o direito de, após feitos os nossos arranjos ou colocadas as cruzes ou coroas, remexer, levantar ou mudar tudo num instante (de ânimo leve, como se nada fosse - N.T.).
     Assinado,
               Sarda, Gavignaud, Delmas, Vidal, etc."

     Uma nova queixa foi apresentada no dia 14 de Março. Ambos estes documentos fazem parte dos Arquivos Departamentais do Aude, série O:

Texto original:

     "Monsieur le préfet,
     Nous ne sommes pas du tout contents que le cimitière se travaille surtout dans les conditions qu'il a été jusqu'ici; s'il y a des croix, elles sont enlevées, des pierres sur les tombes aussi, et en même temps ce dit travail ne consiste ni pour réparations ni rien."

Tradução:

     "Senhor Governador Civil,
     Não estamos nada contentes que se trabalhe no cemitério sobretudo nas condições até agora verificadas; se há cruzes, elas são arrancadas, as pedras sobre os túmulos também, enquanto que o dito trabalho não consiste (não serve, N.T.) nem para reparações nem (para) nada."

     A explicação mais simples para o que Saunière estava a fazer poderá ser a seguinte: o cemitério estava já quase sem espaço e era óbvia a necessidade de expansão. Com uma área tão pequena como a do cemitério de Rennes, Saunière terá tido frequentemente a necessidade de alterar a arrumação de algumas cruzes e lápides e de transformar algumas sepulturas mais velhas em ossadas comuns. Obviamente que isto iria enfurecer a população, mas Saunière desculpou-se afirmando em relação a este assunto que tinha tomado as medidas adequadas, e sobretudo, necessárias. Claro que a explicação mais interessante passa pela procura de um tesouro, ou pelo saque de sepulturas antigas. Por enquanto, nada aponta para que se escolha esta explicação em detrimento da mais simples.
     De entre as alterações efectuadas, destaca-se pela sua importância a deslocação das sepulturas da família Hautpoul, que se encontravam em frente à parede do campanário. A dada altura, os Hautpoul deixaram de ser inumados no "jazigo dos Senhores" para passarem a ser enterrados no exterior. Teria o jazigo ficado lotado? Por esta ou por outra razão, o padre Antoine Bigou toma nota do óbito da última marquesa de Hautpoul-Blanchefort, antes de a enterrar no cemitério, no exterior da igreja:

Certidão de óbito de Marie de Nègri-d'Ables, última marquesa de Blanchefort.
Certidão de óbito de Marie de Nègri-d'Ables,
última marquesa de Blanchefort

Texto original:

     "L'an mil sept cent quatre vingt un et le dix neuvième jour de janvier a été ensevelie par nous curé de cette paroisse soussigné noble marie de negre dables dame de Blanchefort seuigneuresse de la presente parroisse decedée le dix septième jour du dit mois agée de soixante sept ans ou environ après avoir reçu les sacrements de pénitence et d'eucharistie la ceremonie de sa sepulture a été faite en presence de (...) en foy de ce. Bigou curé."

Tradução:

     "No ano mil setecentos e oitenta e um e ao décimo nono dia de Janeiro foi enterrada, por nós, padre desta paróquia abaixo-assinado, nobre Marie de Nègre Dables, senhora da presente paróquia falecida no décimo sétimo dia do dito mês, com sessenta e sete anos ou aproximadamente, depois de ter recebido os sacramentos da penitência e da eucaristia a cerimónia da sua sepultura foi feita na presença de (...) confirmando isto. Bigou padre."

     Ao contrário do que se tem dito, não foi por ser mulher que a Marquesa de Blanchefort foi enterrada no exterior. Veja-se o exemplo de Anne Delsol, que foi inumada no "jazigo dos Senhores" em 1705, sendo apenas parente da família dos senhores de Rennes. À parte da hipótese de ter sido atingida a lotação do jazigo no interior da igreja, podemos ainda considerar outras hipóteses: a Marquesa poderia ter alguma razão para desejar ser colocada no exterior, ou o próprio padre Bigou poderia ter tido as suas razões muito fortes para a sepultar no exterior. Parece, contudo, bem claro que terá sido este padre que levou consigo o segredo da localização do jazigo, aquando da sua fuga para a Catalunha. Não esqueçamos que em 1736, Jean Bigou, tio de Antoine, ocupa o cargo de padre de Rennes-le-Château. Em 1774, é o sobrinho que toma o seu lugar. Conclusão: Antoine Bigou devia certamente conhecer o jazigo.

Campanário da igreja e parte do cemitério
Campanário da igreja e parte do cemitério

     Regressemos às actividades de Saunière no cemitério...
     Em termos legais, de acordo com um decreto de 1857, não podiam ser realizados trabalhos de remodelação num cemitério quando este se encontrava a uma distância até 35 a 40 metros de habitações. Contudo, estava aberta uma excepção na lei para os casos em que a comuna não possuísse os meios monetários necessários para efectuar uma completa exumação de todo o cemitério para uma área maior. Nestes casos, os trabalhos de remodelação estavam autorizados se e só se estivesse garantida uma melhoria nas condições sanitárias do local.

Vista do cemitério Entrada do cemitério
Vista do cemitério Entrada do cemitério

     Ciente destes factos, Saunière efectuará uma ampliação do cemitério, acompanhada dos arranjos necessários para dar ao local a referida melhoria. Do seu próprio bolso, o padre já tinha comprado uma porta nova para o cemitério à casa Charles Dénarnaud, que fora colocada no seu lugar em Julho de 1894. Financia também a reconstrução dos muros do cemitério, e em Maio de 1895, é colocado todo o gradeamento nos jardins e todas as portas e caixilharias de ferro. O custo total destes arranjos em ferro é de 937 francos, e seria pago em prestações de 200 francos por ano, tendo tido lugar o primeiro pagamento a 6 de Julho de 1896.

 

 

O incêndio de 1895

 

     Saunière mandara construir à entrada do cemitério uma pequena estrutura para cobrir uma cisterna, que a população chamava de "biblioteca". Talvez inquirido sobre a função do edifício, Saunière terá alegado tratar-se de uma pequena biblioteca. Foi avistado frequentemente a fazer de noite o percurso entre a sua casa e a tal "biblioteca", às vezes transportando cestos. Começou então a correr o boato de que o padre se dedicava a escavações clandestinas naquele local. Porém, até à data, a estrutura e a cisterna passaram relativamente despercebidas.
     Esta estrutura viria a ganhar maior relevo aquando do incêndio de 1895. No dia 14 de Julho de 1895 (dia da festa nacional da tomada da Bastilha), deflagra um incêndio num celeiro perto da igreja que depressa assume proporções assustadoras, ajudado pelo facto do celeiro estar cheio de feno. Saunière não se encontra na aldeia. Os bombeiros são chamados para resolver a situação e são informados da existência de uma cisterna somente acessível de dentro da "biblioteca" do padre. Como se trata de uma emergência os bombeiros forçam a entrada porque a única chave estava com Saunière, situação claramente fora do acordo estabelecido entre o padre e a Câmara Municipal a 15 de Fevereiro de 1891. O incêndio é extinto e o pior é evitado, mas quando Saunière regressa, no dia seguinte, decide apresentar queixa contra os bombeiros por invasão de domicílio. Todos estranham esta atitude do padre, e a Câmara Municipal decide mesmo tomar uma medida: a 20 de Julho, uma deliberação municipal considera Saunière responsável por perigar a população, não permitindo o fácil acesso à cisterna, e obriga-o a mudar a sua "biblioteca" para mais longe. A medida é acatada pelo padre pouco tempo depois.

 

 

Novos trabalhos na igreja

 

     Após as agitações de 1895, a vida de Saunière tornou-se mais calma. Mas não por muito tempo... Em 1897, Saunière retomou os trabalhos na igreja, de modo a ter tudo preparado para a visita do bispo de Carcassonne, Monsenhor Félix-Arsène Billard, que ocorreu a 6 de Junho. Havia claramente uma empatia entre o padre de Rennes e o bispo, e obviamente o primeiro desejava evidenciar da melhor forma possível o trabalho que estava a efectuar. Até 1897, a igreja sofrera apenas as alterações mais importantes e os arranjos essenciais. Faltava ainda a decoração e o mobiliário, áreas onde Saunière desejaria há muito dar largas à sua criatividade. A visita do bispo poderá ter catalizado esta última vaga de remodelações, mas possivelmente só neste ano de 1897 é que o padre teria reunido as condições monetárias para retomar os trabalhos na dimensão que ele pretendia.

     Todos os trabalhos da decoração base da igreja, dourados, pinturas e estuques serão executados por sete operários da casa Castex, de Limoux. Como comprovação da execução e dos gastos destes trabalhos, há uma factura, datada de 25 de Maio desse ano, assinalando uma quantia de 906 francos, que Saunière pagou em mais que uma vez. Importa também salientar a aquisição de seis caixas de esmolas para o interior da igreja. O pagamento destas caixas está certificado numa factura da casa de Charles Dénarnaud, que faz também referência à compra e colocação do gradeamento das fontes baptismais. A factura indica que as caixas de esmolas foram instaladas a 8 de Fevereiro de 1897 e que o gradeamento foi montado a 31 de Maio desse ano, bem a tempo da visita do bispo. Contudo, a quantia total de 147 francos só será paga a 8 de Agosto de 1903, facto comprovado pela factura.
     Outras aquisições contemporâneas estão referenciadas na factura da casa Faraco de Carcassonne, datada de 21 de Maio: pela quantia de 317 francos, Saunière adquiriu dois cálices dourados, uma custódia e um enfeite para o altar.

     A maior intervenção na igreja durante este ano e antes da visita do bispo a 6 de Junho foi executada com uma maior supervisão de Saunière. Trata-se da instalação de um conjunto de elementos decorativos de dimensão razoável, tudo a cargo da casa Giscard, de Toulouse. Uma análise mais detalhada destes elementos está feita na página dedicada à apresentação da igreja. A factura deste empreendimento, num total de 2920 francos e datada de 30 de Junho, descreve com detalhe as aquisições: uma pia baptismal, o conjunto da pia de água benta (uma estátua de um diabo, a pia propriamente dita e um conjunto de quatro estátuas de anjos dispostos em cruz), uma série de estátuas (S. José, Sta. Maria Madalena, Sta. Germaine, Sto. Antão o Eremita, Sto. António de Pádua (o Sto. António de Lisboa), S. Roque, a Virgem Mãe, e ainda algumas estátuas mais pequenas), uma via-sacra (analisada na página respectiva) e por último, o elemento mais importante, um enorme baixo-relevo chamado de "Monte da Beatitude" com a inscrição "Venez a Moi vous tous qui souffrez et qui êtes accablés et Je vous soulagerai": "Vinde a Mim vós que sofreis e que sois oprimidos e Eu vos confortarei".

 

 

Os últimos trabalhos na igreja

 

     Saunière irá ainda adquirir alguns artigos à casa Dénarnaud, nem todos destinados à igreja. A 6 de Fevereiro de 1897, adquire a porta do aviário, cinco grades para as janelas do presbitério, alguns objectos para uso doméstico, entre outras coisas. Esta mesma casa Dénarnaud fornece, a 10 de Março, caixilharias para algumas das janelas da igreja, e a 11 de Abril e 18 de Maio, algumas ferragens para serem aplicadas na igreja.
     Durante o fim do ano de 1897, Saunière irá completar a sacristia com a aquisição de mobiliário e alguns armários de parede à casa de Mathieu Mestre, em Limoux, bem como a compra de outros objectos para a sacristia. O total da factura, 1050 francos, pagos a 31 de Outubro de 1897. A 6 de Dezembro, o marceneiro Oscar Vila, de Couiza, fabrica os tampos para as fontes baptismais. O custo total, 60 francos, é pago no próprio dia. A 31 do mesmo mês, Saunière encomenda algumas peças de altar e paramentos à casa Daban, em Carcassonne. A soma de 359 francos será paga mais de um ano depois, a 30 de Fevereiro de 1899.
     Saunière recebera alguns conselhos de restauro de um arquitecto de Limoux, de nome Tiburce Caminade. Ele iria mais tarde contratá-lo para a segunda fase das suas intervenções em Rennes. Como agradecimento pelos conselhos, o padre recompensa-o em Maio de 1898 com uma estátua em madeira, de custo bastante razoável, 245 francos, adquirida à casa J. Idrac de Toulouse.

     Como despesas finais, nesse mesmo ano de 1898, a 31 de Julho, é emitida uma nota de pagamento de 60 francos da Société des Chaux et Ciments d'Albi (indústria de cal e cimento). Saunière tem até 30 de Setembro para concretizar o pagamento, e o cheque será mandado dentro deste prazo. Mais tarde nesse ano, a 31 de Dezembro, Mathieu Mestre instala à entrada da igreja uma nova caixa de esmolas bastante cara, toda em carvalho velho, que custou ao padre a quantia de 400 francos. Durante algum tempo não ocorreram mais despesas na igreja. O último gasto registado que Saunière efectuou na igreja advém da compra de um candeeiro em rosário, comprado por 170 francos na casa Faraco de Carcassonne (factura de 29 de Abril de 1901).

 

 

Hipótese conclusiva

 

     Para concluir este capítulo, não será demasiado arriscado propor uma hipótese acerca das descobertas na igreja durante estes primeiros trabalhos que permita ao leitor dispor de uma ideia clara e fiável relativa a este assunto. Eis então a ordem que se sugere para estes acontecimentos, que terão sido constituídos por três descobertas.
     A primeira descoberta teria sido feita aquando da remoção do altar velho, ou no próprio dia, ou nos dias que se seguiram. O sineiro, pouco antes de tocar o Angelus da noite nos carrilhões, depara-se com o brilho de uma garrafa no interior de um balaústre de madeira que sustentava o velho púlpito e que fora removido pelos trabalhadores para facilitar os trabalhos. Pouco tempo depois (talvez logo no dia seguinte), os trabalhadores encontram uma laje de pedra em frente ao altar, com dimensões próximas deste. Esta seria a segunda descoberta. Guiados pelas instruções do padre (que poderia estar a seguir indicações contidas no pergaminho guardado na garrafa) ou simplesmente levados pelo acaso, os trabalhadores encontram efectivamente uma laje, que ao ser levantada apresenta um baixo-relevo no seu lado inferior. Uma cavidade sob a laje contendo os despojos de uma sepultura teria sido posta à luz do dia, e nela estariam talvez alguns objectos de culto, possivelmente o cálice oferecido ao padre Grassaud. A sepultura conteria ainda algumas jóias e um pote com moedas de ouro. Sabe-se que foram achadas jóias e algumas moedas, porque elas foram surgindo nas mãos dos habitantes da aldeia, certamente devido a ofertas do padre. Qual a razão de ser deste depósito? A explicação mais simples é a de que num período de crise, um padre antecessor de Saunière teria tido a necessidade de esconder o que de mais valioso tinha para evitar a pilhagem. Para além desta hipótese resta ainda a explicação simples de que o tesouro encontrado teria sido enterrado com o morto que foi encontrado no local.
     Explorando a hipótese de um padre ter recorrido a tal esconderijo no passado, e recuando no tempo, a crise mais recente fora a da Revolução Francesa (que estalou em 1792). O padre da altura, Antoine Bigou, que exercia desde a morte do seu predecessor e tio, Jean Bigou (que morreu em 1774), queria certamente proteger as suas modestas posses dos anos turbulentos que já se faziam anunciar. Em 1789 ele possuía, juntamente com a sua irmã Gabrielle, sete campos cultivados, um prado, uma vinha, uma pequena mata, um jardim e uma casa na aldeia, num total de doze propriedades, das quais seis eram de Gabrielle mas que estavam sob a administração do padre. Assim, beneficiando dos rendimentos das suas propriedades, e acumulando estas posses com o legado do seu tio, teria com certeza algo a proteger. Com a aplicação da Constituição Civil ao clero, foram impostas uma série de restrições aos eclesiásticos, bem como a obrigação de prestar um juramento à Constituição. Bigou recusou-se a prestar o juramento e por isso perdeu o seu cargo. Nestes tempos, vários padres da região fugiram para Espanha. O bispo a quem Bigou devia obediência era Monsenhor Chanterac, bispo de Alet, que já fugira para o outro lado da fronteira, para Sabadell, na Catalunha.
     Não é possível datar com precisão a partida de Bigou para Espanha, mas pode-se fazer uma estimativa razoável: na primeira quinzena de Outubro, e isto porque uma lei que obriga à expulsão dos padres abjurados (que não prestassem o juramento à Constituição) saiu a 20 de Setembro de 1792. Bigou terá sido expulso pouco depois. Adicionalmente, todas as referências feitas em registo pelos Hautpoul de Rennes, que o mencionam sempre nas suas actas, cessam a partir de 1792. Sabe-se que Bigou morreu numa aldeia próxima de Sabadell, em 1794.
     Assim, e assumindo que o padre teria levado o que pudesse com ele, certamente não poderia transportar todas as suas posses. Uma forma de proteger aquilo que não pudesse transportar seria esconder estes bens no interior da igreja. Muito certamente foi isto o que Saunière encontrou sob a Laje dos Cavaleiros encontrada em frente ao altar. E assim se vê que não poderia tratar-se de um tesouro considerável. Seja como for, nada elimina a possibilidade do pote com moedas, dos objectos de culto (incluindo o cálice ofertado ao padre Grassaud), e de algumas das jóias terem sido encontradas numa outra cavidade posta a descoberto noutra altura.
     Em relação ao "jazigo dos Senhores", estando Saunière na posse do velho registo de 1694-1726, ele não poderia saber com precisão a localização do jazigo, uma vez que neste documento apenas é dito que ele está localizado perto do balaústre que sustenta o púlpito. Por puro acidente, ou guiado pelos pergaminhos que estavam na garrafa, encontra mesmo um jazigo a 21 de Setembro de 1891, a terceira descoberta de relevo no interior da igreja. A hipótese de uma descoberta acidental não pode ser descurada, uma vez que nesse dia estava a ser colocado o pavimento em xadrez na igreja. Muito possivelmente, foi o levantar do velho pavimento que trouxe à luz do dia o jazigo ou a entrada para o jazigo.
     Saunière mandou parar de imediato das obras, que só foram retomadas a 14 de Outubro. Nos dias que se seguiram, Saunière viajou a Carcassonne e a Luc-sur-Aude (28 de Setembro) e encontrou-se com padres amigos (29 de Setembro). Ter-lhes-ia comunicado a sua descoberta? Não se sabe, mas se lhes contou alguma coisa, o segredo foi guardado, uma vez que o conteúdo deste achado nunca veio a público. Saunière deve ter feito silêncio absoluto, ou exigido silêncio absoluto em relação a este assunto. Logo após esta descoberta o padre vira a sua atenção para o cemitério. Recorde-se que ainda estamos longe das obras neste local, que seriam do conhecimento de todos e que só seriam começadas em 1895. Possivelmente foi nesta altura que ele removeu o túmulo de Marie de Blanchefort, rasurando a pedra tumular e desprezando-a, deixando-a anos a fio caída num canto e partida em duas. Ele anota no seu caderno "limpeza do cemitério" a 23 e a 29 de Outubro. Estaria ele à procura de uma cripta?
     Um cenário provável: depois de ter descoberto a entrada para o jazigo perto do balaústre, ele teria obviamente curiosidade em investigá-lo com cuidado. Não será de menosprezar a dimensão de um possível "jazigo dos Senhores" na igreja de Rennes. Poderia tratar-se de uma cripta de tamanho bem razoável, como parecem atestar os testes recentes com o GPR. E se a cripta estivesse parcialmente sob o cemitério? Ou se ela só pudesse ser acedida pelo exterior, sob alguma das sepulturas, sob talvez a sepultura de Marie de Blanchefort? Neste caso, seria compreensível que o padre tentasse entrar na cripta por fora, até porque estaria longe dos olhares indiscretos da população. Uma operação de limpeza no cemitério passaria mais despercebida.
     Tudo o que foi dito ainda está, infelizmente, demasiado no campo das hipóteses, mas perfaz um esquema de factos bastante convincente e coerente e que se coaduna com relatos orais fiáveis. A possível descoberta do "jazigo dos Senhores", cujo conteúdo e localização permanecem ainda desconhecidos, poderá ter sido responsável pela mudança na vida de Saunière e pelo início da sua segunda fase de trabalhos na qual construiria o seu domínio.

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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