O passado de Rennes-le-Château

 

Índice

1. Introdução
2. Os tesouros
3. A questão dos merovíngios
4. Conclusão
 

 

     A aldeia de Rennes-le-Château está edificada no local onde se encontrava um antigo oppidum (em latim, o termo designa uma praça ou aldeia fortificada), provavelmente construído pelos Iberos ou pelos Celtas antes da ocupação romana. Esta fortaleza protegia uma cidade, que se pensa que foi destruída em finais do século XII, chamada Rhedae.
     A primeira menção feita acerca desta cidade deve-se a um bispo de Orleães, chamado Teodolfo, que se encontrava às ordens de Carlos Magno na Septimania, no ano 798. Teodolfo era um "hispanus", ou seja, era um Visigodo da Hispânia (nome da província romana na Península Ibérica), que havia fugido da ameaça muçulmana. Refugiou-se na Septimania, onde estudou desde muito novo, evidenciando-se e tornando-se um dos conselheiros de Carlos Magno.
     Um historiador local, Louis Fédié, inspirado nos escritos de Guillaume Besse de Carcassonne (1645), defendeu em 1877 a tese de que Rhedae remontava aos Visigodos. A sua presença pode ser evidenciada pela existência de restos de acampamentos de bárbaros Alanos, instalados na região pelo patrício romano Aétius de modo a impedir o acesso dos visigodos a Narbonne. Os visigodos foram bem sucedidos, varrendo toda a Europa desde Roma até ao oeste, e estabelecendo o seu domínio até para lá dos Pirinéus. Assim, o fundador de Rhedae poderá ter sido o rei Teodorico I de Toulouse, que viria a conquistar Carcassonne em 440.
     Rhedae será provavelmente a passagem ao latim de um termo Celta ou Godo, "rheda", que significa "carro", com o sentido de carro de guerra. Com efeito, este local foi base para um campo onde os bárbaros germânicos orientais guardariam as suas bigas e quadrigas, dispostas em círculos concêntricos, de acordo com os costumes das estepes. A cidade ocuparia uma área aproximada de quarenta hectares, onde foram encontrados restos de presença visigótica. Uma fotografia aérea tomada pelo Instituto Geográfico Nacional de França, em 1980 viria a revelar traços do que seria provavelmente um grande edifício de plano centrado e no estilo arquitectónico constantiniano, reforçando a ideia da possível existência de um mausoléu real da dinastia dos reis visigodos ditos "de Toulouse". Convém lembrar que a presença visigótica na região durante três séculos, de 440 a 720, vem reforçar esta tese sobre a origem de Rhedae. Esta dinastia visigótica, que reinou de 419 a 510, de forma hereditária, sobre um reino que se estendia de Orleães a Gibraltar, foi formada pelos seguintes monarcas:

Teodorico I
Filho de Alarico, o Grande, viria a morrer na célebre batalha dos Campos Catalúnicos, em Junho de 451. Foi aliado do patrício Aétius e juntos chegaram mesmo a vencer o famoso Átila, o Huno, também conhecido como o "flagelo de Deus".
Torismundo
Filho de Teodorico I, nasceu em 451, vindo a morrer com apenas dois anos, em 453.
Teodorico II
Também filho de Teodorico I (453-466).
Eurico, o Grande
Irmão dos demais, filho mais novo de Teodorico I (466-484).
Alarico II
Neto de Teodorico I, nasceu em 484 e viria a morrer em combate com o rei franco Clóvis.

     Após a derrota de Alarico II, os visigodos em fuga refugiaram-se na Septimania, protegidos pelo relevo acidentado dos Pirinéus. A cidade de Carcassonne, geograficamente acessível, sofreu o cerco dos francos liderados por Clóvis em 508. O tesouro real foi posto em segurança, fora do alcance dos invasores, na fortaleza de Rhedae, antes de ser confiada momentaneamente aos cuidados do rei ostrogodo Teodorico, o Grande.
     Após o assassinato do rei visigodo Amalarico em 531, que reinava em Narbonne, o assento da monarquia visigótica passou para a Península Ibérica, tendo-se contudo mantida a presença visigótica na Septimania até à invasão muçulmana da Península em 720. Com o reconhecimento, por parte do rei visigodo Recaredo, do dogma da Trindade no ano de 589, gerou-se uma onda de distúrbios na Septimania provocada pela oposição dos Arianos a esse dogma (grande parte dos arcebispados europeus nesta altura eram Arianos, seguindo a doutrina do bispo Ário, proclamada herética pela Igreja de Roma, doutrina essa que negava a divindade de Jesus). Com estes distúrbios, o rei Whitéric manda exilar os bispos de Carcassonne em Rhedae durante sete anos (de 603 a 610). Este episódio, relatado por Guillaume Besse, veio a ser confirmado pelo estudo da correspondência de um conde visigodo da Septimania, Bulgar de Bulgaran, mandada por este para a corte de Toledo em 610.
     Gullaume de Besse, em 1645, e o bispo Pierre de Marca (1595-1662) relatam que o arcebispo de Narbonne, fugindo à ofensiva árabe de 720, refugiou-se em Rhedae, tendo aí ficado, ele e os seus sucessores, durante todo o período de ocupação muçulmana, ou seja, durante 39 anos. Assim, há evidências de que Rhedae permaneceu cristã durante este período. A última referência feita a um monarca visigótico está contida nuns escritos espanhóis muito antigos, conhecidos pelo nome de "Crónica Moçárabe de 754". Aqui faz-se referência a um monarca de nome Ardo que teria reinado na Septimania entre 719 e 726, numa altura contemporânea com o refúgio do arcebispo de Narbonne em Rhedae. Sendo este arcebispo o último prelado espanhol poder-se-á assumir que Rhedae terá sido a última corte real visigótica. Após a reconquista carolíngia, esta cidade torna-se a sede do condado de Razès, criado por Carlos Magno em 790 e assim permanecerá por mais quinhentos anos. A cidade fica sob a alçada eclesiástica do arcebispado de Narbonne.
     Em 1130, o condado de Razès é ligado ao condado de Carcassonne, pertencente à família Trencavel. Quarenta anos depois, Afonso II de Aragão ataca o condado, e os Trencavel não conseguem defender nada a não ser a cidade de Rhedae. No início do século XIII, começa a guerra entre França e a Occitânia, sofrendo esta região sucessivos ataques, como os de Simon de Monfort. Este apodera-se de Rhedae e deixa-a sob o governo de Pierre de Voisins, em 1215. A cidade conhecerá alguma prosperidade sob o governo de Voisins até 1360-1361, altura em que a população é dizimada pela peste. Pouco tempo depois, Rhedae é devastada por bandos catalães.
     Rhedae é tomada de assalto pelo conde de Trastâmara em 1362 e completamente destruída. Doravante, o condado e a aldeia receberão o nome de Rennes-le-Château.

Fachada Este do castelo dos Hautpoul de Rennes
Fachada Este do castelo dos Hautpoul de Rennes

     Alguns anos mais tarde, Rennes passa para as mãos da família Hautpoul. Quando a ultima descendente dos Voisins se casa com o senhor de Marquefave, em 1400, esta família fica com a baronia de Rennes. Em 1422, Blanche de Marquefave casa-se com Pierre-Raymond d'Hautpoul, recebendo este como dote a baronia de Rennes-le-Château. É assim que os Hautpoul passam a senhores de Rennes, e assim permanecem até finais do século XVIII. O último Hautpoul será François d'Hautpoul-Rennes, marido de Marie de Négri-d'Ables (nome de solteira), que nunca chega a ter filhos varões. Marie d'Hautpoul, marquesa de Blanchefort, está bastante relacionada com o mistério de Rennes, como se verá mais adiante.

Torre quadrada do castelo de Rennes Torre redonda do castelo de Rennes
Torre quadrada do castelo dos Hautpoul de Rennes Torre redonda do castelo dos Hautpoul de Rennes

 

Os tesouros

 

     Existem lendas que dizem que o tesouro do Templo de Jerusalém pode estar escondido na região do Languedoc, no sul de França. Em 66 d.C., durante o reinado de Nero, a Palestina revoltou-se contra o poder de Roma, provocando graves distúrbios na Terra Santa. Com a morte de Nero no ano 68, e com o fim da dinastia dos Césares, seguiu-se um período curto, durante o qual reinaram três imperadores, que morreram todos de forma violenta. Galba reinou entre 68 e 69 d.C., seguido de Otão e de Vitélio, ambos no ano 69. A estabilidade foi recuperada com os imperadores que se seguiram, provenientes da família dos Flávios, uma família "obscura", segundo Suetónio. O primeiro dos Flávios foi Vespasiano (de nome Tito Flávio Vespasiano), que teve dois filhos que lhe sucederam como imperadores: Tito (Tito Vespasiano Augusto), e Domiciano (Tito Flávio Domiciano). Tito nasceu a 30 de Dezembro de 40. Sigamos um pouco o texto que Suetónio lhe dedicou, no seu Os Doze Césares:

     "IV. Serviu como tribuno militar na Germânia e na Bretanha, com tanta modéstia quanta distinção, como se depreende da quantidade de estátuas e de imagens que lhe erigiram nessas duas províncias e das inscrições que as cobrem. (...) Após a sua questura, foi colocado à frente de uma legião e apoderou-se de Tariqueia e de Gamala, as duas mais poderosas cidades fortificadas da Judeia. (...)
     V. Quando Galba ascendeu ao Império, Tito foi enviado para o felicitar e por toda a parte por onde passou prodigalizaram-lhe grandes provas de afecto, visto ser opinião geral que o imperador o chamava a Roma para adoptá-lo. Mas desde que percebeu que tudo se complicava de novo, voltou para trás, e foi consultar sobre o êxito da sua navegação, o oráculo da Vénus de Pafos, que lhe confirmou que viria a ser imperador. Viu-se dentro de pouco que o oráculo se realizava, pois o pai (que se tornou imperador em 69 d.C., nota minha) deixou-o na Judeia para acabar de a submeter. No último assalto a Jerusalém matou doze defensores da praça com doze flechas, e tomou a cidade no dia do aniversário de sua filha. A alegria e o entusiasmo dos seus soldados foram tamanhos que no acto de o felicitarem todos à uma lhe chamaram «imperador». Mais tarde, quando teve que deixar aquela província, tentaram retê-lo com toda a casta de súplicas e até ameaças, conjurando-o ou «a permanecer com eles ou a levá-los a todos». Estas demonstrações criaram a suspeita de que queria abandonar a causa do pai e criar um Império no Oriente, suspeita que ele próprio fortaleceu, apresentando-se com um diadema na cabeça durante a consagração do boi Ápis em Mênfis, quando por ali passava com destino a Alexandria. (...) Deu-se pressa, pois, de regressar à Itália (...). Ao ver o pai profundamente surpreendido com a sua chegada, disse-lhe como para desmentir as falsas notícias espalhadas a seu respeito: «Aqui estou, meu pai, aqui estou».
     VI. A partir de então compartilhou do poder supremo e foi como que um tutor do Império (...)." - Suetónio, "Os Doze Césares", Livro Oitavo, "Tito Vespasiano Augusto", cap. IV a VI.

     Em 70 d.C., Tito resolveu a questão dos judeus de forma definitiva arrasando Jerusalém e expulsando-os da cidade. O Templo foi saqueado e o seu conteúdo foi levado em grande pompa para Roma. Aquando da chegada do espólio do saque à Cidade Eterna, um enorme cortejo foi organizado de modo a receber um tão ilustre tesouro.

Arco do Triunfo de Tito, em Roma Arco do Triunfo de Tito, no seu estado actual
Arco do Triunfo de Tito, em Roma Arco do Triunfo de Tito, no seu estado actual

     O sucessor de Tito, o seu irmão Domiciano, mandou erguer um monumento à memória desta importante campanha, provavelmente logo a seguir à sua morte em 81 d.C.. Trata-se do Arco do Triunfo de Tito, que mede 15,4 metros de altura, 13,5 metros de largura e 4,75 metros de profundidade.

Pormenor da epígrafe no lado nascente Pormenor da epígrafe no lado poente
Pormenor da epígrafe no lado nascente Pormenor da epígrafe no lado poente

 

SENATVS
POPVLVSQVEROMANVS
DIVOTITODIVIVESPASIANIE
VESPASIANOAVGVSTO
INSIGNE RELIGIONIS ATQVE ARTIS MONVMENTVM
VETVSTATE FATISCENS
PIVS SEPTIMVS PONTIFEX MAX
NOVIS OPERIBVS PRISCVM EXEMPLAR IMITANTIBVS
FVLCIRI SERVARIQVE IVSSIT
ANNO SACRI PRINCIPATVS EIVS XXIIII
Epígrafe do lado nascente Epígrafe do lado poente

     A epígrafe do lado nascente remonta à construção do próprio arco, enquanto que a do lado poente foi mandada gravar pelo papa Pio VII, Gregorio Luigi Barnaba Chiaramonti (1740-1823), no vigésimo quarto ano do seu pontificado, ou seja, em 1823.

Painel sul - pormenor da passagem do cortejo, com a menorah, pela Porta Triumphalis Painel norte - pormenor da chegada de Tito, 'O imperador coroado pela Vitória'
Painel sul - pormenor da passagem do cortejo,
com a menorah, pela Porta Triumphalis
Painel norte - pormenor da chegada de Tito,
"O imperador coroado pela Vitória"

     Como se pode constatar pela observação do painel sul do Arco do Triunfo de Tito, o tesouro que entrou em Roma continha o grande Castiçal de Sete Braços (a menorah), relíquia tão sagrada para o Judaísmo. Não é provável que a Arca da Aliança estivesse no conteúdo do saque, porque se assim fosse não faria sentido que tão insigne objecto não fosse representado no arco. Adicionalmente, nenhum historiador da altura a refere como fazendo parte do saque. Pensa-se que o tesouro do Templo poderá ter ficado durante três séculos sob a protecção de Roma, mas, no ano 410, a Cidade Santa foi saqueada pelos bárbaros visigodos chefiados por Alarico, o Grande. Todas as riquezas da cidade foram capturadas e o tesouro do Templo nunca mais foi visto. O historiador Procópio relata na sua obra "História das Guerras", livro V, capítulo XII, o saque da cidade:

"(...) os tesouros de Salomão, rei dos Hebreus, maravilhas aos olhos, pois eram na sua maioria enfeitados com esmeraldas, tinham sido roubados de Jerusalém pelos Romanos."

     O tesouro do Templo de Jerusalém era composto por relíquias e jóias acumuladas no recinto durante séculos de culto judaico. Durante centenas de anos, famílias judaicas abastadas, fiéis devotos e peregrinos depositaram ali as suas dádivas, o que dará ao leitor moderno uma ideia da dimensão e da qualidade do tesouro.
     Existe ainda uma importante e antiga hipótese, que ainda hoje é levada a sério por alguns historiadores, e que afirma que os tesouros do Templo, saqueados de Roma pelo rei visigodo Alarico, se encontram nos subterrâneos da cidade de Carcassonne. Esta cidade fica a quarenta quilómetros de Rennes-le-Château.
     A história da região está impregnada de lendas e dramas, tendo sido palco, como já foi referido, de várias guerras sangrentas. Perto de Rennes-le-Château encontra-se o pico de Bézu, no topo do qual os Templários construíram uma fortaleza da qual no tempo de Saunière já só restavam ruínas. Noutro pico perto da aldeia, a dois quilómetros de distância, erguem-se as ruínas do castelo de Blanchefort, casa de Bertrand de Blanchefort, quarto grão-mestre da ordem dos Templários, que presidiu à ordem em meados do século XII, pouco tempo depois da sua fundação (a ordem dos Templários foi tornada oficial em 1128). O famoso tesouro dos Templários, ordem religiosa da qual Bertrand de Blanchefort foi grão-mestre, nunca foi encontrado.
     Também com a Cruzada contra os Cátaros surge a ideia de um possível tesouro cátaro escondido, ideia essa popularizada pelos romances do Cálice e por obras musicais como o Parsifal de Richard Wagner. As lendas de tesouros escondidos atraíram o interesse de Hitler, que durante a ocupação de França mandou vários contingentes de tropas para a região para efectuarem estranhas escavações. O polémico autor alemão Otto Rahn (1904-1939) não hesita em defender nas suas obras Kreuzzug gegen den Gral ("Cruzada contra o Graal", publicada na Alemanha na primavera de 1933) e Luzifers Hofgesind ("A Corte de Lúcifer"), a tese de que este se encontra no sul de França.

     Na mistificação do Priorado, surgem frequentes referências ao rei merovíngio Dagoberto II. Entre os séculos V e VIII, o reino franco foi governado pelos monarcas merovíngios, dos quais se destaca Clóvis, que com a sua conversão ao cristianismo reforçou a posição da Igreja de Roma na Europa Medieval. Dagoberto II foi um dos últimos monarcas merovíngios e no seu tempo Rhedae era, como já vimos, visigótica. O priorado afirma que Dagoberto II se teria casado com uma princesa visigoda, Giselle de Razès, mas este nome deverá ser invenção. Há lendas que afirmam que Dagoberto II teria guardado em Rhedae algum tesouro reservado para as suas ambições de unificação do reino franco. Como vemos, razões mais que suficientes para que analisemos os factos mais relevantes do período final da história desta importante dinastia.

 

A questão dos merovíngios

 

      A questão dos merovíngios é fundamental em toda esta história. Inúmeras histórias de tesouros, como vimos, enriquecem o passado histórico e lendário da região, mas nada é mais importante para a mitologia do Priorado de Sião do que a tese da sobrevivência da dinastia merovíngia, através de um filho do rei Dagoberto II, que o Priorado afirma chamar-se Segisberto IV "Plantard", que teria sido escondido em Rennes, e cuja descendência teria dado origem aos condes de Rhedae e aos duques de Razès. Pierre Plantard, fundador do Priorado, pretendia ser o descendente directo desta antiga e secreta linhagem, e portanto um justo pretendente à coroa de França!
     Mas perante um período histórico tão obscuro e mal documentado, como podemos separar a pouca informação histórica fidedigna da mistificação do Priorado? Mais uma vez, socorremo-nos do trabalho do historiador René Descadeillas, de Carcassonne, que empreendeu na sua obra fundamental Mythologie du Trésor de Rennes, a tarefa árdua de sintetizar as fontes e os factos considerados fidedignos. Vamos de seguida conhecer, através da síntese de Descadeillas, os pontos-chave da fase final da história da dinastia merovíngia, sobretudo porque se trata do período mais importante para a elaboração da mitologia do Priorado de Sião.

     A escolha do monarca Dagoberto II para a mistificação do Priorado foi hábil, segundo o historiador de Carcassonne (op. cit., pág. 77):

Texto original:

"Eh bien, Dagobert II n'a pas été choisi au hasard ; et ce choix est habile parce que l'existence de ce malheureux monarque reste tellement incertaine qu'on peut sans grand risque lui attribuer n'importe quoi."

Tradução:

"Pois bem, Dagoberto II não foi escolhido ao acaso; e esta escolha é hábil porque a existência deste infeliz monarca permanece de tal forma incerta que podemos sem grande risco atribuir-lhe o que quer que seja."

     Mas partamos do início da dinastia, que principia com Clóvis, o primeiro rei dos francos sálicos a ser baptizado, cerimónia que é conduzida pelo bispo S. Remígio em Reims. Com a morte de Clóvis, em 511, o reino franco é dividido entre os seus quatro filhos: Thierry herda Metz, Clodomiro fica com Orleães, Childeberto fica com Paris e Clotário com Soissons. Importa referir que, nesta altura, a Septimania (no sul da actual França, região meridional do Languedoc) era ainda plenamente visigótica, e seria mesmo a última parte da actual França a ser incorporada no reino franco. A Aquitânia, conquistada pelos Francos, ainda no tempo de Clóvis, em 506-507, estava ainda a ferro e fogo porque os visigodos não se deixavam expulsar facilmente. Por esta razão, a Aquitânia, aquando da morte de Clóvis, não foi dada a nenhum filho em particular, ficando propriedade dos quatro.
     Para termos uma ideia da extrema violência e rudez destes tempos, vejamos como estes monarcas se viam livres dos potenciais pretendentes: na batalha de Vienne, em 524, contra a Burgundia (futura Borgonha), Clodomiro é morto. Automaticamente, os seus irmãos Childeberto e Clotário assassinam os seus dois filhos rapazes, de 7 e 11 anos, para evitar futuros problemas de sucessões!
     Em 534, a Burgundia é definitivamente integrada no território franco. Mas restavam ainda a Provença (nas mãos dos ostrogodos desde 509) e a Septimania, que permanecia visigótica. No caso da Provença, uma mudança de táctica por parte dos ostrogodos permite resolver a questão da Provença sem sangue: em 537, o rei ostrogodo, mais interessado em concentrar os seus esforços na península itálica, e para obter a neutralidade dos francos, cede a estes a Provença sem ser necessária qualquer batalha. No caso da Septimania, a questão ainda estava longe de ser resolvida. Assim, da antiga Gália, apenas a Septimania escapava ainda ao controlo franco: Thierry, Childeberto e Clotário dividem de novo o reino em três partes: o reino da Austrásia (actual França ocidental, incluindo Metz), o reino da Nêustria (actual França ocidental, incluindo Paris) e o reino da Burgundia.

     A fonte documental mais importante, a partir do ano 642, é o Liber historiæ francorum, redigido no segundo quartel do século VIII por um cronista neustriano. É através desta obra que obtemos a maior quantidade de informação relativa à história dos merovíngios. Contudo, outras fontes históricas distintas de grande credibilidade trazem informação que coloca o relato do Liber historiæ francorum em contradição.
     Um dos episódios mais obscuros, e que se encontra precisamente na génese da história do monarca Dagoberto II e da fantasia do Priorado relativa à sua descendência via Segisberto IV, é o episódio do "golpe de estado" do Prefeito do Palácio austrasiano, Grimoaldo. Descadeillas faz menção a uma importante obra que traz luz nova a este episódio através de uma análise crítica das fontes documentais disponíveis: trata-se da obra Contribution à l'histoire du Regnum Francorum pendant le troisième quart du VIIe siècle (656-680), de Louis Dupraz, um erudito do cantão suiço de Friburgo. A obra surge em 1948, pela mão da Société d'Histoire do cantão de Friburgo. Como apêndice à obra citada de Descadeillas, surge-nos então um capítulo anexo, A propos de Dagobert II, a partir da página 144. Que podemos, então, saber deste episódio?
     O relato tradicional do Liber historiæ francorum diz que, com a morte a 1 de Fevereiro de 656 do rei Segisberto III, monarca da Austrásia, o seu Prefeito do Palácio, Grimoaldo, teria aproveitado a oportunidade colocar no trono o seu próprio filho, Childeberto. Grimoaldo, quando o seu senhor ainda era vivo, teria aproveitado da grande proximidade e cumplicidade entre os dois para fazer do seu filho Childeberto afilhado do rei. No entanto, Segisberto deixara um filho: Dagoberto, que poderia legitimamente aspirar ao trono. Interpretando as fontes documentais (nomeadamente o Vita Wilfridi de Eddius Stephanus), Dupraz estima que Dagoberto II terá nascido entre os anos 649 e 651. Segundo o relato do Liber historiæ francorum, Grimoaldo teria enviado o indesejado Dagoberto para junto de Didon, bispo de Poitiers, para obter instrução. É sabido que o bispo de Poitiers teria ido para a Irlanda com o jovem Dagoberto, deixando a Austrásia entregue ao usurpador Childebert, filho de Grimoaldo. Chocados com o golpe, os neustrianos teriam capturado Grimoaldo e o seu filho usurpador, fazendo-os morrer supliciados e torturados num cárcere em Paris. Em 1882, o historiador Bruno Krusch foi o primeiro a contestar fortemente a verosimilhança do relato do Liber historiæ francorum. O suiço Dupraz, seguindo o caminho aberto por Krusch, traz-nos uma versão que se crê ser mais perto da verdade histórica...

     Dupraz começa por afirmar que empreendeu "uma tentativa" de restabelecer a cronologia real entre os anos 656 e 680. Importa sublinhar esta palavra: tentativa. Estamos a falar de um período recuado e particularmente obscuro da história da Europa. Terreno fértil para criar fantasias!
     Temos que recuar, antes de mais, ao princípio do século VII, ao reinado de Dagoberto I. Quando o monarca toma a decisão de criar o reino da Austrásia socorre-se de dois conselheiros: Arnulfo, bispo de Metz, e Pepino, o Ancião. É deste Pepino que o Prefeito Grimoaldo é filho. Em 650, Grimoaldo é o Prefeito do Palácio da Austrásia, e braço direito do rei Segisberto III. Quando este último morre, segundo o relato tradicional, é o filho de Grimoaldo que sobe ao trono. Contudo, o mérito do historiador Dupraz está precisamente na análise deste golpe, porque são fornecidas motivações e explicações bem mais credíveis para o que se passou. Não se tratou de um simples golpe de estado. Grimoaldo não se lançaria numa empreitada tão arriscada: uma usurpação tão despropositada, se tivesse sido uma acção isolada e sem apoio, teria sido suicídio puro e simples. Segundo Dupraz, tratou-se de uma operação planeada pelo palácio de Nêustria, que vira a morte de Segisberto III como uma oportunidade de ouro para a unificação do reino franco. O jovem Dagoberto era um empecilho para estes planos, e tinha que ser afastado. Grimoaldo era a pessoa com o poder e a oportunidade para levar a cabo uma operação desta envergadura, e como vemos, não agiria só mas sim com o apoio da Nêustria. Inicialmente, Grimoaldo não impede a subida ao trono de Dagoberto, ainda criança, que reina entre 656 e 660/661. Contudo, e provavelmente com ajuda de cúmplices Austrasianos, Grimoaldo consegue enviar a criança para junto do bispo Didon de Poitiers, que depois o levaria para uma longa viagem à Irlanda. Pela interpretação dos textos, não parece que o jovem Dagoberto tenha sido forçado a deixar para trás a Austrásia e o trono: Grimoaldo poderá ter conseguido convencê-lo a fazer estudos junto do bispo de Poitiers, e quem sabe, a efectuar uma peregrinação à Irlanda (desde os primórdios do Cristianismo que a Irlanda se tornara num local considerado de grande riqueza espiritual cristã, sob os auspícios e o legado de São Patrício - séc. V).

     A Nêustria, vendo partir Dagoberto II, fica convencida de que o trono está finalmente vago. Imagina-se a cólera ao saber-se que Grimoaldo lá colocara o seu filho Childeberto. Os neustrianos, um ano mais tarde, em 662, capturam Grimoaldo e o seu filho, e levam-nos para Paris onde são mortos. A Nêustria pode, enfim, terminar o plano: o Prefeito Ebroïn, após um ano de interregno, coloca Childerico de Nêustria no trono da Austrásia. O plano encontra-se concluído em pleno quando Ebroïn faz casar Childerico com a irmã de Dagoberto, Blischilda. O rei usurpador e o rei exilado são, deste modo, feitos cunhados! Contudo, as intrigas palacianas põem fim a este plano em 675, quando durante uma caçada o rei Childerico III é assassinado. A sua mulher Blischilda e o seu filho recém-nascido, também chamado de Dagoberto, são igualmente assassinados. Com a morte da sua irmã, o distante Dagoberto II fica assim sem qualquer família directa, à parte de sua mãe Himnechilda. Este episódio negro é relatado numa única fonte do século IX, a Vita Lantberti abbatis Fontannellensis (Scriptores rerum merowingicarum, tomo V, pág. 612).
     Mas Ebroïn não desiste, e intriga de novo para conseguir ocupar o trono deixado vago com o assassinato de Childerico III. É escolhido o jovem rei da Nêustria, suposto filho do rei Clotário III, chamado Clóvis. O plano fracassa, porque patriotas austrasianos interpõem-se, e apelam a Himnechilda para que esta chame o seu filho Dagoberto de volta da Irlanda. Numa reviravolta surpreendente e espantosa, Dagoberto II regressa à Austrásia em 676, e reclama a coroa que já fora sua quando era criança. Sobe ao trono entre Abril e Julho desse ano.
     O segundo reinado de Dagoberto II será curto, e apenas conhecemos dois eventos deste reinado: a guerra contra a Nêustria-Borgonha (era rei Thierry III), e o assassinato do próprio Dagoberto II. Em relação à guerra contra a Nêustria-Borgonha, que foi longa e intensa (para um relato das animosidades, ver a Vita Sadalbergæ abbatis Laudunensis, em Scriptores rerum merowingicarum, tomo V, pág. 57), sabe-se que Dagoberto II saiu vencedor: a Austrásia conheceu um período de curta prosperidade e acalmia. Contudo, a 23 de Dezembro de 679, Dagoberto II partia para uma caçada, sem saber que o seu assassinato estava planeado e que já não tornaria dela com vida. Diz a crónica que o monarca foi morto na floresta de Woëvre, tendo o seu corpo sido transportado para Stenay, nas Ardenas. Dagoberto II, depois de morto, gozou de enorme veneração popular, sendo-lhe atribuídos méritos de santidade.
     Para sintetizar, eis então a cronologia real austrasiana, entre os anos 633 e 679, reconstruída graças ao trabalho de Dupraz:

Segisberto III
Reinou do final de 633, início de 634, até à data da sua morte, a 1 de Fevereiro de 656.
Dagoberto II
Reinou, ainda criança, de 2 de Fevereiro de 656 até 25 de Fevereiro de 660 (ou 24 de Fevereiro de 661).
Childeberto (adoptado)
Filho do Prefeito do Palácio, Grimoaldo, e neto de Pepino, o Ancião. Reinou de 26 de Fevereiro de 660 (ou 25 de Fevereiro de 661) até 25 de Fevereiro de 661 (ou 24 de Fevereiro de 662).
(interregno)
Este interregno sem monarca terá durado entre 26 de Fevereiro de 661 (ou 25 de Fevereiro de 662) e 10 de Março de 662 (ou 13 de Dezembro de 662).
Childerico III
Reinou de 11 de Março de 662 (ou 14 de Dezembro 662) até 10 de Agosto de 675 (ou 14 de Novembro de 675).
Dagoberto II
Reinou de novo, desde 2 de Abril de 676 (ou 1 de Julho de 676) até 23 de Dezembro de 679.

     E a descendência de Dagoberto II? Como vimos, o mito do Priorado tem as suas raízes na tese da descendência de Dagoberto II. O que nos dizem as fontes? Referindo-se aos manuscritos da Vita Arbogasti, a "Vida de S. Arbogasto", o antigo erudito jesuíta Godefroi Henschenius afirmava que Dagoberto II se teria casado na Irlanda. Ele teria tido um filho varão que teria morrido antes do próprio Dagoberto II (por volta de 678), e quatro filhas. Os historiadores modernos não dão credibilidade a este relato, e não atribuem qualquer descendência a Dagoberto II. Contudo, Louis Dupraz, o historiador suiço atrás apresentado, também segue o relato da Vita Arbogasti, e refere o capítulo 2 desta obra para apoiar a tese de que Dagoberto II teria tido um filho varão. Dupraz, todavia, diz que o rapaz teria morrido pouco tempo depois do pai.
     René Descadeillas, no referido apêndice da sua obra, menciona ainda, do doutor G. Sirjean, a obra Encyclopédie générale des maisons souveraines du monde. Sirjean, para além de atribuir um filho varão e quatro filhas a Dagoberto II, vai ainda ao detalhe de dizer que o filho se chamava Segisberto e teria morrido em 678. Como podemos constatar, o Priorado fez um bom trabalho de pesquisa, porque o nome está bem referido! Mas nenhum historiador que admita que este filho tenha existido, seja ele historiador antigo ou moderno, o dá como ainda vivo depois de 680, ou seja, logo após a morte de Dagoberto II. E muito menos é mencionada qualquer passagem ou estadia deste Segisberto por Rhedae, ou qualquer descendência sua. Como vemos, apesar de bem montada, a tese do Priorado não tem suficiente suporte histórico e documental e vive no domínio da pura especulação. Do mesmo modo, a tese de que este Segisberto teria escondido em Rhedae um tesouro merovíngio, tesouro esse que o seu pai Dagoberto II planeara usar para unificar o reino franco, é insustentável.

 

Conclusão

 

     É fácil compreender a ligação de Rennes-le-Château a várias lendas de tesouros, devido à sua riqueza histórica. Há bases factuais que permitem supor que Saunière terá achado alguma coisa, porém um tesouro material com a dimensão dos lendários tesouros da região não poderia ter passado despercebido. A vida e obra de Saunière simplesmente não se encaixam nessa teoria. O padre morreu em graves dificuldades financeiras, e as suas despesas, apesar de consideráveis, podem ser plenamente justificadas com base em receitas provenientes de dons de particulares, e do surpreendente tráfico de missas que Saunière montou.
     Também são de duvidar as teorias da descoberta de um "tesouro" não monetário, ou seja, de um segredo de cariz religioso ou político. Estas teorias tornaram-se populares sobretudo pelos relatos de Noël Corbu, que comprara a Villa Béthanie a Marie Dénarnaud (um documento de 26 de Julho de 1946, escrito pelo punho de Marie, oficializa a venda contra renda vitalícia - em francês, vente en viager) e nela abrira um hotel com restaurante. Corbu viu-se forçado a rentabilizar o seu investimento adulterando a história de Saunière como expediente para atrair mais clientes. Ele viria a afirmar que Marie lhe tinha prometido que lhe revelaria um segredo que "conferia ao seu possuidor não só fortuna mas também poder". Claro que, convenientemente, e à semelhança de outras intrigas neste género, a "detentora" do segredo morreu sem o comunicar a Corbu...

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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