O padre Bérenger Saunière

 

Índice

1. Introdução
2. A perda dos territórios papais
3. O início da carreira eclesiástica
4. A chegada a Rennes-le-Château
5. Saunière e o Sagrado Coração de Jesus
6. Conclusão

 

 

O padre François-Bérenger Saunière
O padre François-Bérenger Saunière

     No dia 11 de Abril de 1852, numa aldeia chamada Montazels, nascia François-Bérenger Saunière, filho de Marguerite Hugues e de Joseph Saunière. François-Bérenger era o mais velho de sete filhos, três irmãos (Alfred, Martial e Joseph) e três irmãs. Apesar de não ter nascido numa família com muitas posses, Saunière não era propriamente o filho de um camponês. O seu pai, com 29 anos na altura do seu nascimento, trabalhava para o senhor da região, o Marquês de Cazemajou, e geria a fábrica de moagem localizada no castelo. Os Cazemajou eram primos dos Négri-d'Ables (a mesma família da já referida Marie d'Hautpoul de Blanchefort, que era Négri-d'Ables de solteira), e eram co-senhores de Niort desde 1696. É importante conhecer o meio onde cresceu Saunière, pois este meio viria a influenciar profundamente toda a sua vida, e poderá fornecer algum significado para muitos dos seus actos. A família Saunière de Montazels era profundamente católica e monárquica, como aliás, todo o meio rural francês naquela altura. A república, vitoriosa em meios cosmopolitas, ainda não tinha conquistado a França profunda. Para a família de Saunière, e para os seus conhecidos e amigos, a monarquia ainda podia, e devia, voltar.
     O duque de Bordéus, Henri V de Chambord, era o pretendente ao trono desde 1836, altura em que era rei Luís Filipe I, duque de Orleães. Luís Filipe era filho de Filipe Égalité, e portanto, pertencente ao ramo Orleães. O último rei Bourbon, Carlos X, tinha sido forçado a fugir pouco tempo antes da subida de Luís Filipe I ao trono. Henri, conde de Chambord, era neto de Carlos X, e portanto, Bourbon por direito e o mais legítimo pretendente ao trono. Porém, o conde de Chambord nunca ganha a coragem para tomar alguma medida em concreto, e entretanto, Luís Filipe I é obrigado a abdicar do trono e fugir, no início de 1848.
     É proclamada a 25 de Fevereiro de 1848 a IIª República, e por sufrágio universal, é eleita uma Assembleia Constituinte. A 10 de Dezembro, é eleito para presidente Luís Napoleão Bonaparte, sobrinho do imperador Napoleão I. Luís Bonaparte era o candidato preferido dos monárquicos. A breve república iria conhecer dias complicados, com um governo de tendência conservadora a opor-se a um presidente moderador. O povo estava descontente com a actuação do governo, mas Luís Bonaparte não consegue resolver a situação e começa a temer o poder dos monárquicos que já se movimentam no sentido da restauração. A República termina com a proclamação do Segundo Império a 2 de Dezembro de 1851. Luís Napoleão Bonaparte proclama-se imperador sob o nome de Napoleão III. Saunière nasce numa França imperial.

 

 

A perda dos territórios papais

 

     Durante a juventude de Saunière, a Igreja Católica viveu tempos altamente conturbados, e para melhor compreender o mundo em que o padre viveu segue-se um pequeno resumo histórico.
     Para o futuro padre de Rennes, um dos acontecimentos mais marcantes terá sido a perda do poderio papal sobre os seus territórios. Pio IX, de seu nome Giovanni Maria Mastai-Ferretti (1792-1878), e que subira ao trono papal em 1846, lutava para defender os territórios pontifícios de uma península itálica a caminho da unificação. A situação era complicada, pois o controlo austríaco na Lombardia-Venécia gerava animosidades que resultavam em revoltas. O nacionalismo italiano parecia imparável, e os domínios católicos, ocupando uma vasta e estratégica área da península, eram um entrave à prossecução dos ideais de unificação. O Risorgimento, movimento progressivo de cariz liberal que procurava a libertação da Itália do jugo austríaco, crescia desde a ocupação que ocorrera em 1815. Em suma, em 1848 a situação da península era a seguinte: Carlos Alberto, rei do Piemonte e da Sardenha, procurava liderar o movimento nacionalista, sobretudo a partir Março de 1848. Segundo ele, a Itália não precisava de ajuda externa para sair do domínio austríaco: "Italia fara da se". Carlos Alberto declarava, a 25 de Março, o seu apoio aos revoltosos lombardos. A Península estava aínda repartida pelo Reino das Duas-Sicílias, pelos Estados da Igreja, pelo Grão-Ducado da Toscânia e pelo reino da Lombardia-Venécia, onde a Áustria exercia a soberania.
     Em Abril de 1848 o papa recusa-se a apoiar o rei Carlos Alberto na guerra contra a Áustria, decisão infeliz porque viraria o povo contra ele. O Piemonte foi derrotado na batalha de Custozza a 25 de Julho de 1848, enquanto que a França tentava há meses convencer este reino a recorrer à sua ajuda. Os piemonteses, desconfiados das pretensões francesas não desejavam a intervenção do seu vizinho. Contudo, a derrota de Custozza fez o Piemonte mudar de opinião, mas desta vez os franceses temiam agir, devido ao princípio da nacionalidade.
     As forças republicanas ganhavam poder, especialmente em Roma, onde Pio IX sentia o controlo sobre a cidade a fugir-lhe das mãos devido ao descontentamento da população. Apenas dois anos depois de subir ao trono papal, Pio IX sofre uma forte humilhação às mãos dos republicanos, que desejavam a expulsão do Papa de Roma, e a restituição dos estados pontifícios à nação com vista à concreta unificação da Itália. A 15 de Novembro de 1848 é assassinado o ministro do governo para os Estados Pontifícios, o conde Pelligrino Rossi. No dia seguinte, a residência de Verão do papa, o Palácio do Quirinal, é saqueada e o caos instala-se em Roma. É proclamada a República Romana. O papa, privado da sua residência de Verão e impedido de regressar a Roma, refugia-se na fortaleza de Gaèta. Daqui ele lançaria uma série de ataques ao governo democrático da recém-proclamada república, ameaçando com a excomunhão os apoiantes deste regime. A Áustria, contudo, já tinha extinto a revolução italiana, o que demonstrava bem o seu poder na península itálica. Os franceses não viam com bons olhos o controlo austríaco, mas hesitavam em agir. Na conferência que ocorreu em Gaèta a 30 de Março de 1849, ficou decidida a ocupação dos territórios pontifícios pela Espanha, pela Áustria, pela França e pelo reino das Duas-Sicílias a pedido do papa. Revoltado, Pio IX insistia na iniquidade do golpe de que fora alvo, que classificava de uma "vergonhosa traição da democracia".
     Entretanto, Carlos Alberto, o rei do Piemonte, tentava travar os austríacos atacando-os em Novara a 23 de Março. Perde novamente esta batalha, o que faz a França intervir finalmente, sendo obtido um armistício a 26 de Março. Após uma série de negociações posteriores, onde o Piemonte pediu a mediação da França e da Grã-Bretanha para se defender das exigências austríacas, é assinado o tratado austro-piemontês a 6 de Agosto de 1849, onde fica garantida a soberania do Piemonte sobre o seu território. Após esta paz, a Áustria prosseguiria o seu objectivo de controlo da península através da ocupação dos estados de Modena e Parma e do Grão-Ducado da Toscânia. A Áustria, país maioritariamente católico, agia ainda em prol dos interesses papais, tentando restaurar a autoridade do pontífice. A França, desejosa de mediar todo este processo de restituição da autoridade papal, envia um corpo expedicionário liderado por Oudinot que cerca Roma de 4 de Junho a 3 de Julho de 1849. Os franceses queriam ainda obter do papa o anúncio de reformas liberais, o que não chegou a acontecer, pois o papa regressou a Roma graças ao apoio austríaco e não via interesse em entrar em conversações com os franceses. Contudo, devido à presença austríaca que continuaria a fazer-se sentir, um contingente francês permaneceria em Roma até 1870.
     O regresso de Pio IX ao Vaticano seria fortemente apoiado por um empréstimo da família Rothschild. O papa retomou o controlo do que restava da sua autoridade em Roma e nos decrescentes territórios papais. Pio IX poderia já ser reaccionário antes destes acontecimentos, mas certamente passou a sê-lo com acrescida intensidade depois da recuperação do controlo do Vaticano. Instaurou um Conselho de Censura que estava encarregado de investigar o golpe republicano e encontrar responsáveis e colaboradores. A tolerância foi completamente riscada da agenda papal, e não era para menos. Vivia-se um estado de sítio no Vaticano, e Pio IX governava de forma rígida, fortemente marcado pela recente humilhação.
     Com o apoio da França, os italianos conseguem expulsar os austríacos em 1859. O presidente do Conselho do reino do Piemonte, Cavour, organiza em 1860 uma série de plebiscitos que conseguem unir as regiões da Itália ao Piemonte. Como contrapartida pela ajuda francesa, são cedidas ao país vizinho Nice e a região da Sabóia, que os franceses tinham devolvido em 1815. O novo reino de Itália é proclamado em 1861, sendo coroado rei Vítor Manuel II. O reino compreendia a quase totalidade da península, restando apenas os Estados da Igreja, que tendo sido diminuídos em 1848, ainda eram consideráveis. Roma continuava a ser um problema: o controlo pontifício era claramente um empecilho, tornado mais incómodo ainda pela intervenção francesa na questão, que insistia em manter o seu contingente militar na Cidade Eterna. Cavour propõe ao papa que renuncie a Roma em troca de garantias de independência pessoal e institucional. O primeiro-ministro pretendia aliciar o papa com o ideal de uma "Igreja livre num Estado livre". O papa Pio IX manifesta-se indiferente aos pedidos do estado italiano. O governo, pretendendo resolver a situação, inicia as negociações com os franceses. Em Setembro de 1864, Napoleão III faz um acordo com Vítor Manuel II, no qual o rei italiano se compromete a não atacar o território pontifical. O imperador garante retirar a totalidade das tropas francesas de Roma no prazo de dois anos. A indignação dos católicos e do papa face a este acordo é imediata. O papa não estava disposto a perder mais do que aquilo que perdera aquando das revoltas de 1848.
     Completamente contra todos estes acontecimentos liderados pelos republicanos, que ele detestava, Pio IX inicia uma política de reforço de poder, que ele pretendia que conduzisse a uma genuína e efectiva autocracia papal. Pio IX sentira bem de perto o perigo do fim do poder papal, e estava decidido a proteger o Vaticano das ameaças modernas. Quase como resposta ao acordo entre Napoleão e Vítor Manuel, o papa publica a encíclica Quanta Cura dois meses depois. Trata-se de um violento ataque aos "erros monstruosos" dos tempos modernos. Nesta encíclica, ele condena o princípio da laicidade do Estado, a liberdade de consciência, a soberania popular, e reforça a independência da Igreja em relação ao Estado, e o privilégio que a Igreja deve possuir em relação à educação. Pouco depois, o papa publica o Syllabus, onde condena fortemente um conjunto de 80 "ideias modernas", proposições distribuídas por um conjunto de dez títulos. Eram, segundo ele, "os principais erros do nosso tempo". Neste documento eram atacadas a maioria das teorias filosóficas em voga na altura, bem como o liberalismo de alguns prelados, condenados ao mesmo nível dos movimentos panteístas, naturalistas, ateístas, racionalistas, socialistas, comunistas e franco-mações. Pio IX rematava as suas ideias com a 80.ª proposição, onde insistia que era errada a ideia de que "o sumo pontífice podia e devia reconciliar-se com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna".
     Pio IX preparava-se agora para uma decisão fulcral no seu papado. O ambiente foi propiciado pelo Concílio do Vaticano I, convocado pelo papa e iniciado a 8 de Dezembro de 1869 e que duraria até 20 de Outubro de 1870. Ao longo do Concílio começou a tornar-se clara a intenção de Pio IX: o papa preparava-se para proclamar um dogma novo, o da infalibilidade papal. No início do Concílio, os bispos estariam divididos na matéria, mas o papa e os seus apoiantes fizeram um esforço sério no sentido de convencer o resto da assembleia. Poucos se opuseram. O Cardeal Guido de Bolonha foi uma excepção solitária, quando afirmou que só à assembleia de bispos da Igreja competia deliberar sobre a tradição da doutrina, e em última instância, apenas essa assembleia era o testemunho dessa tradição. Pio IX respondeu: "Testemunho da tradição? A tradição sou eu". Assim, por 433 votos contra 2, foi aprovado a 18 de Julho de 1870 o dogma da infalibilidade papal, que deliberava o seguinte:

     "O sumo pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, no exercício da sua função de pastor e de mestre de todos os cristãos, define (...) uma doutrina respeitante à fé e à moral que deve ser seguida por toda a Igreja, através do apoio divino a ele prometido por S. Pedro, reveste-se da infalibilidade com a qual o Divino Redentor quis dotar a Sua Igreja (...), e por conseguinte, tais definições do sumo pontífice são em si mesmas irrefutáveis, não dependendo do parecer da Igreja."

     Um decreto adicional afirmava que o papa detinha total poder sobre todos os bispos católicos. Era a confirmação de que Pio IX estava determinado em fazer sobreviver a Igreja, fortalecendo-a como instituição.
     Exactamente no dia que se seguiu à proclamação deste dogma eclodiu a guerra franco-prussiana e os últimos soldados franceses abandonaram finalmente Roma, chamados para defender a nação. Esta situação foi aproveitada pelo Estado italiano para concretizar finalmente o controlo de Roma. Ao Vaticano, nada restou excepto a pequena área que é hoje a Cidade do Vaticano, que o Estado concedeu por especial favor através da Lei das Garantias de 13 de Maio de 1871. Pio IX, enclausurado no minúsculo território de que agora dispunha, não cessou os ataques ao Estado, proibindo os católicos de participarem na política democrática. Durante muitos anos, o Estado italiano não conseguiria nunca chegar a um acordo diplomático com a Santa Sé. A perda de Roma e do que restava dos territórios papais nunca foi reconhecida pelo Vaticano, até à assinatura do Tratado de Latrão em Fevereiro de 1929, entre o papa Pio XI e Benito Mussolini.
     Os anos que se seguiram não foram felizes para a Igreja Católica em Itália: foram abolidas as procissões e serviços religiosos no exterior das igrejas, as comunidades religiosas foram dispersas, os bens da Igreja foram confiscados, e muitos padres foram incorporados à força no exército. O Estado operava fortemente contra os ideais católicos: foi alterada a legislação respeitante ao divórcio, o ensino foi secularizado e vários feriados santos foram abolidos.
     Aproveitando a onda de anti-clericalismo potenciada pelas novas deliberações papais, o chanceler prussiano Bismark, que chegara ao poder em 1862, iniciou uma forte política de repressão católica. Bismark, durante a sua prolongada estadia no poder, exerceria um forte ataque aos católicos, dissolvendo os jesuítas e expulsando as ordens religiosas, tornando o estado civil completamente laico, destituindo bispos, e lançando-se numa campanha de hostilização face ao Vaticano. Bismark usava argumentos de Martinho Lutero, não pelo seu valor religioso, mas porque lhe convinham à sua ideia de um estado alemão conforme à civilização germânica original, não romanizada. Bismark chamaria a este conjunto de medidas Kulturkampf, ou "luta cultural", no sentido da restauração dos ideais germânicos, independentes da esfera de autoridade papal. Bismark viria a proclamar um importante discurso ao Reichstag em 1872, onde mencionaria o recém-proclamado dogma:

     "Não acredito que, depois dos dogmas recentemente expressos e publicamente promulgados pela Igreja Católica, seja possível um poder secular chegar a uma concordata, sem que esse poder seja, em certa medida ou de alguma maneira, humilhado. Isso é uma coisa que o Reich alemão não pode aceitar de modo nenhum."

     Um pouco por toda a Europa, a Igreja Católica sofreu vários ataques: na Bélgica, o ensino foi vedado ao clero e na Suiça foram expulsas as ordens religiosas. Até na Áustria, com a sua maioria tradicionalmente católica, o ensino foi secularizado e legislou-se o casamento civil. Na Europa, um grande número de escritores, filósofos e políticos partilhavam a ideia de que a Igreja Católica e o papado tinham os dias contados.
     Entretanto em França, após bastantes anos de franco progresso, o regime imperial de Napoleão III sentiu-se seguro para iniciar um processo de reformas com vista à liberalização do regime. Algumas destas medidas levaram ao reforço do poder dos republicanos, que se aproveitaram de alguns fracassos imperiais para ganhar posição. Contudo, o império de Napoleão III foi marcado pela prosperidade, sendo de destacar a importante Exposição Universal de Paris, em 1867. Com quinze milhões de visitantes, entre eles uma série de chefes de Estado, a exposição foi um tremendo sucesso. Poucos anos antes da guerra Franco-Prussiana, também o rei da Prússia, acompanhado de Bismark, visitou a exposição. A cidade apresentava-se aos visitantes com um ar moderno, resultado das medidas pragmáticas de Napoleão III, que encarregou o barão Haussmann de reconstruir e remodelar os bairros mais caóticos de Paris. A quase totalidade do centro moderno de Paris passou pelas mãos de Haussmann, tendo contudo muitos denunciado não só o custo da operação e o lucro dos especuladores, como o fez Jules Ferry, como também criticado a forma deplorável como foi devastada a velha Paris.
     Com a derrota na batalha de Sedan, no apogeu da guerra entre a França e a Prússia, o imperador Napoleão III foi feito prisioneiro. Este ambiente de caos foi aproveitado pelos republicanos e a 4 de Setembro de 1870 foi proclamada a IIIª República, tendo-se formado um governo de defesa nacional. Na Santa Sé, ainda decorria o Concílio do Vaticano I. A nova República seguiria os moldes do anti-clericalismo em voga, tomando uma série de medidas de repressão contra os católicos franceses.
     É neste contexto que Bérenger Saunière vive a sua infância e adolescência. É vital ter presente estes acontecimentos históricos, uma vez que eles certamente marcaram Saunière, moldando a sua personalidade e as suas ideias políticas e religiosas. Saunière viveu todo este ambiente de anti-clericalismo e também sentiu o perigo do fim da Igreja Católica. A revolta sentida pela sua família e pelos seus amigos mais próximos face a estes ataques e perseguições deverá tê-lo marcado profundamente. Muito possivelmente, a sua decisão de entrar para o Seminário foi influenciada por estes acontecimentos.

 

 

O início da carreira eclesiástica

 

     Desde novo, Saunière distinguiu-se pelas suas capacidades intelectuais e físicas. Ele era por natureza rebelde e insubordinado, hostil a hierarquias e bastante independente. Estudou em criança na escola St. Louis em Limoux. Em 1864, um violento surto de cólera ataca Limoux e as aldeias vizinhas, atemorizando os habitantes de Montazels, entre eles a família Saunière, que já tinha naquela altura alguns filhos muito novos. Contudo, a epidemia não chegará a perturbar a pequena aldeia.
     Alguns anos mais tarde, em 1870, quando é proclamada a IIIª República, Saunière tem 18 anos, e tendo desde novo aspirado à vida sacerdotal, já devia ter nesta altura a sua decisão quase tomada, certamente com o apoio e entusiasmo da sua família. Em Junho de 1874 entrega a sua candidatura para o Grande Seminário de Carcassonne, com a ajuda do padre da sua paróquia. O exame de admissão para o Curso de Filosofia do Seminário é marcado para a primeira segunda-feira de Julho, e Saunière consegue passar, para grande alegria da família. É difícil compreender hoje em dia o orgulho que sentiram os pais de Saunière ao terem um filho a seguir a carreira eclesiástica. Era socialmente muito bem vista a família que tinha pelo menos um filho padre. O seu irmão Alfred seguiu também a mesma via, tendo sido nomeado vigário em Alzonne em Julho de 1878. O seu outro irmão, Joseph, veio a morrer aos 25 anos, estando à data da sua morte a estudar medicina em Toulouse. Para financiar estes estudos, parece claro que a família de Saunière não teria problemas financeiros.

Alfred Saunière
Alfred Saunière

     A seguinte fotografia tem sido frequentemente mal interpretada como sendo a de Bérenger Saunière. Como foi tirada por um fotógrafo parisiense, foi referida várias vezes como uma prova da passagem de Bérenger por Paris. Ora nada fica provado por esta fotografia, porque antes de mais nada trata-se do seu irmão Alfred, e não de Bérenger, e porque muitos fotógrafos de cidades importantes deslocavam-se frequentemente à província para tirar retratos. Deste modo, a fotografia nem sequer prova que Alfred esteve em Paris!
     Bérenger Saunière é ordenado padre em Junho de 1879. O seu salário, de 900 francos por ano, só poderia começar a ser pago após o início oficial da sua actividade, que deveria ser certificado por um conselho de paróquia, como exigia o decreto-lei de 13 de Março de 1832. Nesta altura, a Igreja estava muito fraca, resultado dos inúmeros ataques e restrições ao poder eclesiástico. Assim, todo o clero em França estava sob a alçada do Ministério dos Cultos.
     O seu primeiro cargo: vigário em Alet-les-Bains, nomeado a 16 de Julho de 1879. Saunière, na altura com 27 anos, toma contacto com as exigências de um cargo eclesiástico. Simultaneamente, a Santa Sé tinha um novo inquilino. O novo papa, Leão XIII, tinha sido eleito a 20 de Fevereiro de 1878, posição que ocuparia até 1903.
     Alet, velha cidade romana, estava a passar por um período de renovação. O caminho-de-ferro tinha chegado em 1876 e com ele, alguma modernidade e conforto. Contudo, Saunière encontra uma catedral arruinada. Desde o incêndio em 1577 que quase não tinham sido feitas obras de fundo no edifício, e este estava à beira da ruína. A pilhagem de que eram alvo as pedras da velha igreja tinha-se tornado sistemática desde 1862, altura em que o arquitecto Viollet-le-Duc declarara inútil qualquer tentativa de restauro.
     Saunière aprendera a conviver com republicanos e reconhecia o trabalho honesto que alguns estavam a desempenhar para o progresso da região. Foi em Alet que travou conhecimento com o pintor Henri Dujardin-Beaumetz, que era da sua idade. Saunière gostava de ter com ele longas discussões acesas sobre as suas opiniões tão divergentes. Dujardin-Beaumetz, um radical convicto (mais tarde viria a ser deputado do Aude, de 1889 a 1900), e Saunière, um teimoso monárquico e integralista. Contudo, Saunière não poderia alhear-se dos inúmeros ataques que os católicos estavam a sofrer: Jules Ferry ordenara o encerramento de conventos e congregações. Em Abril de 1880 tiveram lugar uma série de confrontos entre católicos e republicanos. No rescaldo, um total de 261 conventos são fechados e 5643 religiosos são expulsos. A insatisfação social era manifesta pelo elevado número de greves deste ano: 191 greves praticadas por um total de 11000 trabalhadores. O país sofria ainda pela elevada migração do interior rural para as cidades, o que acentuava as assimetrias do país, condenando as regiões rurais ao abandono e ao atraso tecnológico.
     A 25 de Julho de 1881, monsenhor Félix-Arsène Billard sucede a monsenhor Leuillieux, no trono episcopal de Carcassonne. É ele quem ordena Saunière padre em Le Clat, a 16 de Junho de 1882. Em Le Clat, onde apenas existem 282 habitantes, Saunière dispõe de uma igreja completamente nova, dedicada à Assunção de Nossa Senhora, mas a mudança não deixa de ser drástica: os seus escassos paroquianos vivem da criação do carneiro, enquanto que Alet tinha ruínas de uma catedral e de um palácio episcopal. Longe das margens do Aude, localizada num planalto, o acesso a Le Clat é feito através do recurso à velha mula. Serão três anos de isolamento forçado para Saunière, que ainda é muito novo nesta altura: 30 anos.

Henri, Conde de Chambord (1820-1883)
Henri, Conde de Chambord (1820-1883)

     A 25 de Agosto de 1883 tem lugar um acontecimento que, sem dúvida alguma, perturba bastante Saunière: a morte do conde de Chambord. O desaparecimento da última esperança para os monárquicos foi um rude golpe que ajudou a fortalecer a República. Antes de morrer, Henri de Chambord já tinha decepcionado os seus apoiantes numa carta que dirigiu aos franceses, na qual expunha bem os termos em que ele concordaria subir ao trono. Na carta, o conde de Chambord afirma ser para ele impossível reinar num país onde a bandeira seja a tricolor da República. Como se pode ver, seria quase impossível convencer os republicanos, mesmo os mais moderados, a aceitarem uma nova monarquia, para mais se estivesse subjacente uma mudança na sua bandeira, cheia de significado revolucionário. Para muitos legitimistas, era o fim da causa, mesmo quando Henri era ainda vivo. É difícil compreender a importância que tinha este último Bourbon para os legitimistas, mas convém sobretudo ver a sua morte como um acontecimento fortemente marcante na vida de Saunière, se se quer compreender minimamente a sua personalidade e atitude futuras.

 

 

A chegada a Rennes-le-Château

 

     A 1 de Junho de 1885, monsenhor Billard coloca Saunière como pároco em Rennes-le-Château. Quando ali chega, Saunière encontra uma aldeia quase congelada no tempo. Não há estrada nem canalização. Rennes-le-Château localiza-se num planalto, e aquando da chegada do padre, a aldeia ocuparia talvez um terço da área do mesmo. Seguindo a legislação em vigor, Saunière trata de oficializar a sua tomada de posse no cargo de pároco de modo a dar início ao pagamento mensal de 75 francos a que tem direito. À frente da paróquia, Saunière sucedeu ao padre Pons, que morreu em 1878, que por sua vez sucedeu a Antoine Croc, que tinha sucedido ao padre Charles-Eugène Mocquin.
     Precisamente no mesmo dia que Saunière chega a Rennes, decorrem em Paris as exéquias de Victor Hugo, que tinha morrido a 22 de Maio. Toda a cerimónia estaria obviamente marcada por um espírito republicano e anticlerical. O corpo foi exposto no Arco do Triunfo, tendo sido colocado posteriormente no Panteão. À parte de algumas pequenas rixas entre conservadores e republicanos, o acontecimento foi pacífico. Saunière não terá ficado alheio a este importante acontecimento contemporâneo com a sua chegada.
     A alegria de estar mais perto de casa com este novo cargo, pois nascera na aldeia vizinha de Montazels, desvanece-se um pouco com a constatação do estado de conservação da igreja e do presbitério. Ambos estão à beira da ruína. Os primeiros meses de Saunière em Rennes-le-Château irão decorrer com normalidade, nada fazendo antever as mudanças radicais que ele irá efectuar na aldeia. Saunière, devido ao parco ordenado mensal e sobretudo devido ao estado impraticável do presbitério, tem que procurar alojamento vivendo durante uns tempos em casa de uma arrendatária. Tem havido especulação entre vários autores em relação à identidade desta pessoa a quem o padre teria recorrido. Gérard de Sède diz que era Antoinette Marre, apresentando essa tese sem a comprovar. Autores posteriores, talvez baseados neste relato, deram a entender que se teria tratado de um alojamento gratuito, por bondade da dita senhora. Contudo, os registos de contabilidade do padre comprovam o pagamento de rendas nestes primeiros tempos a uma Alexandrine Dénarnaud que seria certamente a mãe de Marie Dénarnaud.
     Deste modo, parece claro que Saunière recorreu a uma pensionista, pagando certamente o preço do aluguer, facto comprovado pelos seus registos contabilísticos. Esta situação manteve-se até ao fim das obras no presbitério, quando finalmente este voltou a ficar habitável. É difícil precisar de forma cronológica o regresso do padre ao presbitério. Sabe-se contudo, derivado do relato da visita episcopal à aldeia em 1889, que neste ano Saunière já morava no presbitério e que tinha ao seu serviço e a morar com ele a família Dénarnaud. Alexandrine, a mãe, ajudava o padre juntamente com a sua filha Marie; o pai e o filho eram operários na fábrica de chapéus de Espéraza, e segundo o próprio Saunière, ajudavam-no financeiramente com os ordenados em troca do alojamento no presbitério. Muitos autores têm erradamente situado a chegada dos Dénarnaud à aldeia em 1892, mas graças ao relato da visita do bispo, fica claro que esta chegada terá que ter ocorrido entre 1886 e 1889.
     Nestes primeiros tempos, Saunière comporta-se como seria de esperar de um humilde padre, aproveitando a bondade alheia e fazendo algumas dívidas na mercearia local (prática aliás, mais que comum, verdadeiramente indispensável à vida diária de muitas pessoas na região). Saunière está ainda longe do "à vontade" financeiro que mostrará mais tarde.
     As atribulações começam verdadeiramente quando Saunière ousa tomar posições políticas. Apenas quatro meses depois da sua chegada a Rennes, Saunière decide, depois da primeira volta das eleições de 4 de Outubro, impor à população um discurso fortemente anti-republicano:

Texto original:

     "Les élections du 4 octobre ont donné de magnifiques résultats, mais la victoire n'est pas complète... Le moment est venu; il faut employer toutes nos forces contre nos adversaires. Il faut voter et bien voter. Les femmes de la paroisse doivent éclairer les électeurs peu instruits, pour les convaincre de nommer les défenseurs de la religion. (...). Les Républicains, voilá de Diable à vaincre et qui doit plier le genou sous le poids de la Religion et des baptisés. Le signe de la croix est victorieux et avec nous (...) Que le 18 octobre devienne pour nous une journée de délivrance..."

Tradução:

     "As eleições de 4 de Outubro produziram magníficos resultados, mas a vitória ainda não é completa... Chegou o momento; é preciso usar todas as nossas forças contra os nossos adversários. Há que votar e votar bem. As mulheres da paróquia devem esclarecer os eleitores menos instruídos, para os convencer a eleger os defensores da religião. (...) Os Republicanos, eis o Diabo a vencer, e que deve ajoelhar-se sob o peso da Religião e dos baptizados. O sinal da cruz vencerá connosco (...) Que 18 de Outubro se torne para nós um dia de libertação..."

     Nesta primeira volta, a maioria dos departamentos (nome dado aos distritos franceses) apresentou uma vitória dos conservadores, o que entusiasmou o novo padre no seu discurso. Os conservadores obtiveram 177 deputados eleitos, contra os 129 dos republicanos. O discurso de Saunière foi violento, e era capaz de incendiar a população da pequena aldeia. Este discurso ilumina bem alguns dos actos futuros de Saunière. É na sua atitude em momentos políticos como este que o padre verdadeiramente revela a sua personalidade e os objectivos que decide impor à sua vida. Nunca fará Saunière esforço algum para travar esta sua atitude de integralista reaccionário e anti-republicano.
     Naquele ano, o Estado era tudo menos defensor da religião: tinha tirado à Igreja alguma da sua autonomia, relegando-a para o controlo do Ministério dos Cultos. Com o curto período imperial, sob Napoleão III, a Igreja em França tinha conhecido momentos melhores, mas com o regresso da República, a oposição anticlerical ganharia ainda mais força com a atitude de alguns radicais de esquerda. A única hipótese de voto para Saunière e para quem pensava como ele era a direita conservadora, onde se entrincheiravam Monárquicos, Legitimistas, Orleanistas, Bonapartistas e os chamados "republicanos moderados". É neste sentido de voto que Saunière insiste quando proclama o seu exaltado discurso. Para seu azar, os Republicanos ganham na segunda volta, a 18 de Outubro: 380 republicanos para 200 conservadores. Naquela altura uma minoria radical de esquerda começava a crescer na região, tanto em número como em convicção. Os radicais de esquerda no Aude, naquela altura, eram na sua maioria proprietários de terras e pequenos burgueses, muitos deles pertencentes à Franco-Maçonaria.
     Saunière manter-se-á sempre fiel aos seus ideais. Numa época em que sentiria de certeza encurralado por um crescente anti-clericalismo ele nunca deixa de mostrar bem claramente as suas posições reaccionárias. Entretanto Saunière, apesar de não agir sozinho (muitos padres usaram métodos semelhantes aos seus durante estas eleições), será alvo de uma suspensão imposta pela Prefeitoria do Aude, suspensão essa que será ratificada pelo Ministério dos Cultos. As razões eram óbvias: exercício de pressão eleitoral e tentativa de sublevação popular. A 1 de Dezembro, Saunière encontra-se oficialmente suspenso, e portanto, sem salário.
     Sempre numa atitude de protecção e compreensão, o bispo de Carcassonne, monsenhor Billard, decide ajudá-lo com 200 francos, ao mesmo tempo que o coloca como professor assistente no Pequeno Seminário de Narbonne, cargo que ele desempenha entre 10 de Dezembro de 1885 e 1 Julho de 1886, altura em que a suspensão é levantada.

     A 1 de Julho de 1886 Saunière está de volta à aldeia. O padre regressa enriquecido com uma misteriosa doação de 3000 francos da parte da Condessa de Chambord. Saunière não esconde nem o montante nem a sua proveniência: o número 3000 é perfeitamente legível quando ele apresenta muitos anos mais tarde alguns números justificativos a uma comissão de inquérito. Valendo-lhe mais que três anos de ordenado, esta doação dá a Saunière, não a fortuna mas pelo menos algum conforto financeiro.
     Em que contexto deve ser comentada esta doação? Uma atitude piedosa, face ao pedido de um padre? Convém lembrar que a igreja precisava de trabalhos urgentes, bem como o presbitério. Aquando da chegada de Saunière à aldeia, os trabalhos foram orçamentados em perto de 2700 francos. A quantia é bem próxima da doada pela condessa. Então seria uma doação de beneficência, ou o reconhecimento da condessa pela atitude claramente monárquica legitimista de Saunière? Saiba-se também que Rennes deveria ter um forte significado para a condessa: o seu marido tinha sido educado por um preceptor de apelido Hautpoul-Félines. O castelo de Rennes fora a residência dos Hautpoul durante séculos.
     Poderão também ter sido todos estes factos em conjunto que impulsionaram a condessa a fazer a doação. Enquanto estava em Narbonne a cumprir a detenção, Saunière terá tido muitas hipóteses de se movimentar nessa altura no meio monárquico, pregando a necessidade urgente de reparações em Rennes. Com a igreja e o presbitério arruinados ao ponto de placas de madeira taparem os vitrais destruídos para ser evitada a missa à chuva, e com a total ausência de uma sacristia, Saunière tinha boas razões para pedir ajuda. Mantendo a sua firme posição monárquica, Saunière não irá nunca defraudar os seus benfeitores.

 

 

Saunière e o Sagrado Coração de Jesus

 

     Antes de terminar esta pequena biografia de Saunière até ao início das suas polémicas obras em Rennes-le-Château, convém fazer ainda menção a mais alguns factos que podem ajudar a evidenciar a forte simbiose de Saunière com o ideal legitimista e com os Chambord.
     A doação de 3000 francos da parte da Condessa de Chambord parecerá uma esmola quando comparada com a contribuição que esta deu para uma obra bem mais monumental e importante: a construção da basílica do Sacré-Coeur de Montmartre em Paris. A imponência do monumento, de estética algo discutível, ofusca um pouco o seu nome: Sacré-Coeur. A decisão final da construção da basílica foi o resultado do esforço conjunto de fiéis fervorosos motivados pela ideia de que a França se devia consagrar ao Sagrado Coração de Jesus. Como causa da aparição deste movimento está a família dos Fleury. A partir de 1870, Rohault de Fleury dedica-se a recuperar e ampliar a tradição profética de Paray-le-Monial. Dizia-se que a Irmã Marie-Marguerite Alacoque teria visto neste local, a 16 de Junho de 1671, o próprio Cristo a avançar para ela, com o coração a sangrar, declarando-lhe que a França só se salvaria se se dedicasse por completo ao Sagrado Coração.

Escultura da Basílica de Paray-le-Monial (séc. XII)
Escultura da Basílica de Paray-le-Monial (séc. XII)
Garde le silence, le silence te gardera
("Guarda o silêncio, o silêncio te guardará")

     Os Fleury, apoiados por vários amigos e crentes fervorosos, conseguem provocar a aprovação na Assembleia Nacional, a 25 de Julho de 1873, de um artigo considerando proveitosa a construção de uma igreja na colina de Montmartre. Em 1879 estão acabados os alicerces, em 1884 está completa a enorme cripta e a basílica cresce em direcção aos céus até 1896. Na construção da basílica foram usados esquemas de financiamento bastante tradicionais, mas numa escala bem maior. O total de doações aproximou os 30 milhões de francos, tendo sido obtidas grande parte através da "compra" simbólica de parcelas das paredes, que poderiam ir desde pequenas placas até colunas e pilares inteiros. Das maiores doações, a do Conde de Chambord sobressai claramente: 500 mil francos.

     Há algum simbolismo que poderá ser retirado desta doação do Conde de Chambord: o seu forte apoio à construção do Sacré-Coeur pode ser visto como o esforço de tentar levar a França a consagrar-se ao Sagrado Coração. O fim dos Bourbons poderá ter parecido bastante real para o próprio Conde de Chambord, ao ponto de ele achar que a única salvação possível seria a devoção religiosa.
     Repare-se agora na importância que todos estes acontecimentos deverão ter tido na vida de Saunière. A sua fase de construção megalómana em Rennes-le-Château é perfeitamente contemporânea com a construção do Sacré-Coeur. Coincidência? Não terá Saunière decidido que deveria contribuir para a devoção ao Sagrado Coração? Na Villa Béthanie encontra-se uma estátua do Sagrado Coração de Jesus. Seria essa a sua "missão"?

 

 

Conclusão

 

     Alguns autores têm insistido na falta de cultura de Saunière, chegando mesmo a dizer que ele era pouco instruído, ganancioso e mau padre, desprovido de espiritualidade. Estas descrições estão longe da verdade. Inúmeros factos o comprovam, como por exemplo o seu sucesso escolar até à entrada no Seminário e a conclusão deste curso, que só por si implica a posse de conhecimentos consideráveis de latim e de grego. Saunière era meticuloso nas relações humanas, tendo chegado ao extremo de elaborar um código de conduta para si próprio que colocou por escrito. O padre esforçava-se por adoptar uma conduta exemplar no seu dia-a-dia, aplicando o seu código de conduta nas relações com os paroquianos, com outros padres e com a sua governanta. Vejamos um excerto deste texto:

Texto original:

     "Rapports du Pasteur avec la Paroisse et les paroissiens:
     I - Caractère général de ses rapports: 1 - Bonté intérieure manifestée extérieurment avec réserve et prudence. Populaire sans familiarité et sans bassesse. Visiter tous les ans la paroisse... S'intéresser avec discrétion... rendre la vertu aimable, sans affectation, s'occuper des petits enfants avec prudence.
     2 - Politesse: 1 - Dans ses vêtements: simplicité et propreté; ne jamais sortir sans chapeau. 2 - Dans le langage et les formes: dénomination respectueuse et polie sans affectation... tenant compte du rang, de la fortune, de l'éducation... plutôt prêcher par excès que par défaut... éviter les expressions basses et triviales... dignité du prêtre, noble et simple... Ne pas tutoyer les enfants...
     Avec sa servante:
     1 - La respecter, mais pas de familiarité.
     2 - Ne pas permettre qu'elle s'entretienne des choses du Ministère en notre présence.
     3 - Eviter les confidences... etc... Un prêtre qui fait des confidences est déjà pris... Ce qui est dit de la servante doit être dit des autres femmes.
     4 - Exiger qu'elle reste au presbytère et se montrer impitoyable pour ses excès de langue, des rapports.
     5 - Ne pas se fier trop facilement à son âge, à son piété... Casse!!! Il n'est pas convenable de travailler à côté d'elle à la cuisine. Ne pas la laisser entrer dans la chambre pendant qu'on est au lit, hors le cas de maladie...
     S'il y a plusieurs vicaires dans la paroisse:
     1 - Se mettre en garde contre la Jalousie. Très peu de personnes qui ne soient atteintes de ce vice.
     2 - Ne se mêler à aucun prix des affaires des autres. S'ils ne font pas tout le bien possible, eux seuls en répondent.
     3 - Ne pas permettre que l'on s'immisce dans son oeuvre à moins de rares exceptions... Être impitoyable, fermer la bouche et si sela ne suffit pas, le confessional..."

Tradução:

     "Relações do Pastor com a Paróquia e os paroquianos:
     I - Carácter geral das relações: 1 - Bondade interior manifestada exteriormente com reserva e prudência. Popular sem familiaridade e sem inferioridade. Visitar todos os anos a paróquia... Interessar-se com discrição... exprimir uma virtude amável, sem fingimento, ocupar-se das pequenas crianças com prudência.
     2 - Educação: 1 - No vestuário: simplicidade e elegância; jamais sair sem chapéu. 2 - Na linguagem e nos modos: denominação respeitosa e educada sem fingimento... tendo em conta o nível, a fortuna, a educação... antes aconselhar por excesso que por defeito... evitar as expressões baixas e triviais... dignidade do padre, nobre e simples. Não tratar as crianças por tu...
     Com a sua governanta:
     1 - Respeitá-la, mas sem familiaridade.
     2 - Não permitir que ela se ocupe das coisas do Ministério na nossa presença.
     3 - Evitar as confidências... etc... Um padre que faz confidências já está apanhado... O que é dito da governanta deve ser dito das outras mulheres.
     4 - Exigir que ela permaneça no presbitério e mostrar-se implacável para com os seus excessos de linguagem, de afinidades.
     5 - Não se fiar demasiado facilmente à sua idade, à sua piedade... Não é conveniente trabalhar ao lado dela na cozinha. Não deixá-la entrar no quarto quando se está na cama, fora o caso de doença...
     Se há mais vigários na paróquia:
     1 - Estar alerta contra a Inveja. Poucos são os que não sofrem deste vício.
     2 - Não se intrometer a preço algum nos assuntos dos outros. Se eles não fazem todo o bem possível, que só eles respondam (por isso, N.T.).
     3 - Não permitir que se imiscuam na sua obra salvo raras excepções... Ser implacável, fechar a boca e se tal não chegar, o confessionário..."

     O texto fala por si... Deixando à interpretação subjectiva do leitor a questão de saber se Saunière cumpria ou não com a totalidade destes preceitos, há que dar alguma confiança à sua seriedade e à sua prudência, duas qualidades que ele certamente possuiria. O texto deixa também um terreno pouco seguro aos boatos infundados de que o padre teria um romance com a sua governanta Marie Dénarnaud.
     Saunière estaria certamente disposto a ser um bom padre, tendo apenas um problema a resolver: as suas posses e recursos financeiros eram certamente mais reduzidos que a sua ambição. O padre solucionaria este problema através de atitudes pouco correctas, mas é certamente erróneo classificá-lo de mau padre ou de pessoa mal intencionada.
     A ambição que pautaria a vida de Saunière e que seria responsável pela maioria dos seus actos mais importantes pode ser explicada pela sua inteira dedicação a uma "missão" que ele destinara para si, e que seria a de obrigar a França a penitenciar-se, construindo ele para esse efeito um santuário, um lugar santo de peregrinação no topo de um planalto, em plena Rennes-le-Château, povoação velha de mais de dois mil anos e local de intenso simbolismo. Esta é uma das teorias que se pretende comprovar com este trabalho, teoria que aliás não é inédita nem muito recente, dando-se como exemplo o trabalho de Jacques Rivière, "Le fabuleux trésor de Rennes-le-Château - Le secrèt de l'abbé Saunière" (ver bibliografia).
     No próximo capítulo, apresentar-se-á um relato cronológico detalhado das obras que Saunière empreendeu em Rennes-le-Château depois da sua reabilitação como padre a 1 de Junho de 1886.

 

Assinatura de Saunière
Assinatura de Saunière

 


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