Os testamentos e o património

 

Índice

1. Introdução
2. A Igreja e o Estado
3. Os testamentos
4. Os familiares de Saunière
 

 

     Entre 1898 e 1906, as obras na Torre Magdala e na Villa Béthanie prosseguiram sempre a um ritmo lento. Saunière comprou os terrenos à medida que precisava deles, e havia bastante cuidado com as despesas. O padre vigiava as obras com atenção, fazia orçamentos cuidadosos e procurava equilibrar a sua situação financeira através de um esquema vantajoso de pagamentos. Não deixa de ser surpreendente que um padre de província tenha possuído os recursos financeiros para construir um tal domínio, desde a compra dos terrenos, passando pela construção, até à decoração e compra do recheio.
     Durante esta fase de construções, Saunière confiava em principalmente três pessoas: Tiburce Caminade, o arquitecto e conselheiro; Elie Bot, o mestre-de-obras e seu braço direito; e a sua servente Marie Dénarnaud. A confiança de Saunière nestas três personagens era muito grande. Ao arquitecto, Saunière permitia todo o comentário à obra e dava-lhe toda a confiança para tomar decisões importantes. Com Elie Bot, Saunière cultivava uma amizade que já vinha do tempo em que a igreja fora restaurada. Elie Bot possuía um pequeno café em Luc-sur-Aude, onde morava, negócio que explorava durante o fim-de-semana porque de segunda a sexta estava em Rennes-le-Château a gerir a obra. Saunière deslocou-se durante este período várias vezes a Luc-sur-Aude, muito possivelmente para discutir assuntos com Elie Bot. A confiança que Saunière depositava na sua governanta era bastante óbvia. Saunière comprou todos os terrenos em seu nome. Ela permaneceu sempre a proprietária dos empreendimentos privados do padre.
     Através da correspondência entre Saunière e o arquitecto Caminade depreende-se que Saunière passou por períodos de pouca liquidez financeira, tendo sido forçado por vezes a interromper as obras e a abdicar de uma ou outra ideia com vista a baixar os custos. Um bom exemplo é a seguinte carta, que Caminade escreveu ao padre a 28 de Agosto de 1903:

Texto original:

     "Ainsi donc pour terminer la tour et la tourelle, il vous manque 4,5 mètres cube de moellons piqués. Voyez si vous pouvez encore aller jusque là. Malgré tout mon désir de vous être agréable, je n'ai pas le don de faire miracle et les pierres n'étant pas élastiques, je ne puis pas les étirer. J'ai par habitude de faire tout ce que je peux pour que les travaux soient solidement faits et avec le goût qu'ils méritent. Comme vous avez pu vous en convaincre d'ailleurs. Je ne marchande pas mon temps ni mes soins pour cela. Je veux bien croire que les circonstances présentes vous obligent à vous restreindre dans vos dépenses, mais dans ce cas il faut s'arrêter provisoirement que de sacrifier un travail qui a bien marché jusqu'à présent et vous a donné toute satisfaction... J'espère que vous réfléchirez et que dans votre intérêt vous reviendrez à de meilleurs sentiments."

Tradução:

     "Assim, para terminar a torre e o torreão, falta-vos 4,5 metros cúbicos de pedra picada. Veja se ainda pode pagar esta quantidade. Apesar de todo o meu desejo de vos agradar, eu não tenho o dom de fazer milagres e não sendo as pedras elásticas, eu não as posso esticar. Tenho o hábito de fazer tudo o que posso para que os trabalhos sejam feitos de forma sólida e com o gosto que merecem. Como aliás, você já teve hipótese de constatar. Eu não negoceio o meu tempo nem os meus cuidados para tal. Parece-me que as presentes circunstâncias o obrigam a restringir as despesas, mas neste caso é preferível parar provisoriamente do que sacrificar um trabalho que tem corrido bem até ao presente e lhe tem dado toda a satisfação... Espero que reflicta e que no seu interesse chegue a melhores sentimentos (a uma melhor disposição, atitude, N.T.)."

     Esta carta deixa transparecer um azedar da atitude de Saunière face às despesas. Talvez o padre tivesse feito uma reprimenda ao arquitecto, urgindo-lhe que tivesse cuidado com os encargos. Como se pode ver, o arquitecto reagiu de forma enérgica, sugerindo o parar dos trabalhos para fazer face às dificuldades. Saunière deverá ter resolvido a situação depressa, visto que a obra estava acabada três anos depois. Com este exemplo fica bem claro que Saunière não estava na posse de nenhuma fortuna e que tinha que gerir os seus dinheiros com todo o cuidado.
     Antes de apresentar o problema dos testamentos e da posse legal do património do padre, é importante apresentar uma das razões mais fortes que levaram Saunière a construir o seu próprio património em vez de depender do imobiliário eclesiástico. Trata-se das relações turbulentas entre a Igreja e o Estado durante estes anos.

 

 

A Igreja e o Estado

 

     Na página sobre o padre Saunière falou-se do anti-clericalismo que sempre esteve presente na sua vida. A segunda metade do século XIX foi um período exasperante para a Igreja. Pio IX tomou medidas drásticas e proclamou encíclicas ferozes. O inimigo era de respeito e a sobrevivência do Vaticano esteve mesmo em perigo. Crescendo neste ambiente, Saunière teria a sua personalidade inevitavelmente moldada por estes factos. Assim se explicam as suas posições políticas, o seu espírito reaccionário e a sua vertente monárquica integralista. Em França, bem com na Alemanha e Itália, a Igreja sofre uma série de ataques contra as ordens religiosas, contra o seu património e contra o seu poder educativo. Escolas e conventos são fechados. Muitas vezes, por trás destas atitudes anticlericais escondiam-se lojas maçónicas o que demonstra bem como a franco-maçonaria foi durante este período uma potência rival da Igreja.
     Em 1880, em França, em plena IIIª República, é proclamada uma lei contra as congregações religiosas. Dois anos depois segue-se um ataque à instrução religiosa obrigatória, que é suspensa. Estas leis anticlericais surgem precisamente no início do pontificado de Leão XIII. Pio IX morrera a 7 de Fevereiro de 1878, e sucedera-lhe Vincenzo Giocchino Pecci com o nome de Leão XIII. O seu pontificado seria longo (25 anos e 5 meses) e assistiria ao pleno da vaga anticlerical. O papa não iria ser brando, e se houve excessos claros da parte dos anticlericais, a Igreja Católica também iria reagir de forma violenta. A 20 de Abril de 1884, Leão XIII publica a encíclica Humanum Genus, na qual ataca a franco-maçonaria de forma ainda mais vigorosa que os seus antecessores (Clemente XII condenara-a na bula In eminenti, de 28 de Abril de 1737, atitude igualmente tomada pelos sucessores Bento XIV, Pio VII e Leão XII). Mais tarde, em 1891, o papa iria prosseguir com o combate às ideias modernas, tão caro a Pio IX, mas agora em defesa da classe operária, quando publica a 16 de Maio a encíclica Rerum Novarum, na qual protesta pela miséria a que foram votados os trabalhadores, vítimas do capitalismo. Condena também o comunismo, porque segundo ele, enquanto promete protegê-los, a ideologia propõe soluções que escravizam os trabalhadores, em proveito de uma oligarquia anónima.
     Entretanto, em Rennes-le-Château, Saunière, inevitavelmente atento a estes acontecimentos, sente mais de perto o recuo dos seus ideais. A 22 de Maio de 1898, os socialistas radicais vencem as legislativas, fazendo recuar fortemente a direita monárquica. Os franceses assistem, neste ano, aos primeiros episódios do caso Alfred Dreyfus, um oficial injustamente condenado por traição. Dreyfus era judeu, e surgem de imediato rumores de anti-semitismo na decisão judicial. Emile Zola vem em defesa de Dreyfus, escrevendo o histórico artigo "J'accuse" (carta aberta dirigida ao presidente da República) para o jornal "L'Aurore", que seria publicado a 13 de Janeiro de 1898.
     Alguns anos mais tarde, em 1902, a esquerda vence de novo as eleições legislativas. No ano seguinte, a 20 de Julho, morre Leão XIII, e sobe ao trono papal Giuseppe Melchior Sarto, sob o nome de Pio X. Em 1904 as animosidades entre a Igreja e o Estado em França acentuam-se. O Congresso esforça-se para obter a separação total dos dois poderes. O presidente do Conselho, o radical Emile Combes, faz o elogio do anti-clericalismo: "l'anticléricalisme est l'oeuvre la plus considérable et la plus importante pour l'émancipation de l'esprit humain" ("o anti-clericalismo é a obra mais considerável e a mais importante para a emancipação do espírito humano"). Neste mesmo ano de 1904, Emile Combes rompe os laços diplomáticos com o Vaticano.
     Finalmente, a 3 de Julho de 1905, surge a lei da separação entre a Igreja e o Estado, que acaba definitivamente com o anterior regime concordatário:

Artigo 1 e 2 da lei:

     "Article 1: La République assure la liberté de conscience. Elle garantit le libre exercice des cultes sous les seules restrictions édictées dans l'intérêt de l'ordre public.
     Article 2: La République ne reconnaît, ne salarie ni ne subventionne aucun culte. En conséquence à partir du 1er janvier qui suivra la promulgation de la présente loi, seront supprimées du budget de l'état, des départements e des communes, toutes dépenses relatives à l'exercice des cultes. Les biens de l'Église seront attribués après inventaire à des associations culturelles qui conservent l'usage des édifices religieux."

Tradução:

     "Artigo 1: A República assegura a liberdade de consciência. Ela garante o livre exercício dos cultos sob as únicas restrições editadas no interesse da ordem pública.
     Artigo 2: A República não reconhece, não financia nem subvenciona culto algum. Consequentemente, a partir do 1º de Janeiro que se seguirá à promulgação da presente lei, serão suprimidos do orçamento do estado, dos departamentos e das comunas, todas as despesas relativas ao exercício dos cultos. Os bens da Igreja serão atribuídos após inventário a associações culturais que conservam o uso dos edifícios religiosos."

     A proclamação desta lei, tão prejudicial para a Igreja em França, provocaria a reacção do papa: "Ao ódio responderemos com o amor, ao erro com a verdade, às vexações e às humilhações, com o perdão. Rezamos a Deus para que os inimigos da religião cessem de a perseguir". Nos anos que se seguiram, a lei traria as suas consequências: de 1904 a 1911, 1843 colégios católicos são fechados. A lei encontrou, porém, uma certa oposição popular, o que impediu que o ensino religioso desaparecesse. Para Saunière, bem como para a maioria dos padres e bispos, uma ameaça importante estava presente no artigo 2, que especificava que os bens da Igreja seriam inventariados.
     Saunière não estava disposto a deixar o seu património para a República. Se os imóveis construídos e os terrenos adquiridos estivessem em nome da Igreja, seria inevitável a sua expropriação. Saunière dera um primeiro passo de precaução ao comprar os primeiros terrenos em nome da sua governanta. O último terreno é comprado a 4 de Abril de 1905, sempre em nome de Marie Dénarnaud. Em relação aos terrenos não havia discussão. Legalmente, pertenciam a ela. Contudo, as últimas construções de Saunière já não cairiam facilmente neste estatuto. Numa situação normal, o património pertenceria ao arcebispado, por duas razões principais: se as obras tivessem sido subvencionadas e subsidiadas pelo bispo, era evidente a posse episcopal; se o padre tivesse realizado as obras usando donativos e intenções de missa, sendo estes donativos propriedade da Igreja, tudo o que com eles fosse construído, para mais por um sacerdote católico, pertenceria ao tutelar do sacerdote, logo, ao seu bispo. Ora o padre de Rennes, como se verá adiante, tratou de não deixar os seus empreendimentos à mercê do arcebispado ou do estado francês.

 

 

Os testamentos

 

     Contemporaneamente ao fim das obras no seu domínio, estando a Villa Béthanie e a Torre Magdala completas, Saunière tomou as providências necessárias para, a seu ver, assegurar que o seu património ficaria a salvo, legando-o à sua governanta Marie Dénarnaud. O texto do testamento que se apresenta de seguida consiste numa primeira versão que o padre escreveu em 1906. O rascunho manuscrito foi encontrado nos documentos de Saunière:

Testamento de Saunière (primeira versão, 1906):

     "Je soussigné B. S. prêtre curé de la parroisse de [R. L. C.] (...), étant parfaitement sain de corps et d'esprit, déclare faire mon testament de la manière suivante:
     En raison des soins qui m'ont été prodigués pendant de longues annés par Mademoiselle M. D., ma cuisinière;
     En raison du peu de confiance que j'ai en mes parents dont la conduite a été très répréhensible à la mort de mon frère A. S. décédé à Montazels, pour l'exécution de mes dernières volontés;
     Je nomme et institue pour ma légataire universelle et générale Melle. M. D., ma cuisinière sus-nommée, proprietaire à R. L. C., voulant et entendant expressement qu'elle recueille mon entière succession en quoi elle consiste ou puisse consister, à charge par elle de laisser et léguer à Monseigneur l'Évêque de Carcassonne, la dite succession, après en avoir eu l'usage sa vie durant, pour la dite succession, servir aux bonnes oeuvres, telle que le jugement ou la convenance de l'Évêque de Carcassonne ou à son défaut de l'administration diocésaine détermineront.
     Fait et écrit en entier, daté et signé de ma main à Rennes-le-Château le [vazio] mil neuf cent six."

Tradução:

     "Eu abaixo-assinado B. S. padre cura da paróquia de [Rennes-le-Château] (...), estando perfeitamente são de corpo e espírito, declaro feito o meu testamento da seguinte maneira:
     Devido aos cuidados que me foram dirigidos durante longos anos pela senhora M. D., minha cozinheira;
     Devido à pouca confiança que eu tenho nos meus pais cuja conduta foi bastante repreensível aquando da morte do meu irmão A. S. (Alfred Saunière, N.T.) em Montazels, para a execução das minhas últimas vontades;
     Eu nomeio e instituo para minha herdeira universal a senhora M. D., minha cozinheira supracitada, proprietária em R. L. C., desejando e entenda-se expressamente que ela receba a totalidade da minha herança no que ela consista ou possa consistir, ficando a seu cargo de deixar e legar a Monsenhor o Bispo de Carcassonne a dita herança depois de dela ter usufruído durante a sua vida, para a dita herança servir às boas obras, do modo que o juízo ou conveniência do Bispo de Carcassonne, ou na sua ausência da administração diocesana, determinarem.
     Feito e escrito por inteiro, datado e assinado pela minha mão em Rennes-le-Château a [vazio] mil novecentos e seis."

     Veja-se agora este segundo testamento, o de Marie Dénarnaud. Note-se a reciprocidade dos dois textos, que aparentam terem sido escritos por uma mesma pessoa e de acordo com um esquema comum:

Testamento de Marie Dénarnaud (primeira versão, 1907):

     "Je soussigné M. D. cuisinière de M. B. S. curé de R. L. C., propriétaire demeurant en R. L. C., canton de [vazio] Aude, étant parfaitement saine de corps et d'esprit, déclare faire mon testament de la manière suivante:
     Ayant confiance en Monsieur Bérenger Saunière, curé de Rennes-le-Château, plus qu'en toute autre personne, même de ma parenté, pour l'éxécution de mes dernière volontés,
     Je nomme et institue pour mon légataire universel et général le dit M. B. S. curé de la paroisse de R. L. C. au service duquel je suis depuis de longues années et pour le motif voulant et entendant expressément qu'il recueille mon entière succession mobilière et immobilière dont la valeur a été acquise par moi au service du dit M. B. S. et par mes économies, en quoi qu'elle consiste ou puisse consister; à charge pour le dit M. B. S. curé de Rennes-le-Château de laisser et léguer à sa mort, à Monsieur l'Évêque de Carcassonne, la dite succession après en avoir eu l'usage, sa vie durant; pour, la dite succession, servir aux bonnes oeuvres telle que le jugement ou la convenance du dit Évêque de Carcassonne ou à son défaut de l'administration diocésaine détermineront.
     Fait et écrit en entier, daté et signé de ma main à R. L. C. le [vazio] mil neuf cent sept."

Tradução:

     "Eu abaixo-assinada M. D. cozinheira do sr. B. S. padre de R. L. C., proprietária residente em R. L. C., cantão de [vazio] Aude, estando perfeitamente sã de corpo e espírito, declaro feito o meu testamento da maneira seguinte:
     Tendo confiança no Senhor Bérenger Saunière, padre de Rennes-le-Château, mais do que em qualquer outra pessoa, mesmo do meu parentesco, para a execução das minhas últimas vontades,
     Eu nomeio e instituo para meu herdeiro universal e geral o dito sr. B. S. padre da paróquia de R. L. C. ao serviço do qual eu me encontro há vários anos e por esse motivo querendo e entenda-se expressamente que ele receba a totalidade da minha herança mobiliária e imobiliária cujo valor foi adquirido por mim ao serviço do dito sr. B. S. e com as minhas economias, no que ela consista ou possa consistir; cabendo ao dito sr. B. S. padre de Rennes-le-Château, de deixar e legar aquando da sua morte ao Senhor Bispo de Carcassonne, a dita herança depois de dela ter usufruído durante a sua vida; para a dita herança servir às boas obras, do modo que o juízo ou conveniência do Bispo de Carcassonne, ou na sua ausência da administração diocesana, determinarem.
     Feito e escrito por inteiro, datado e assinado pela minha mão em R. L. C. a [vazio] mil novecentos e sete."

     Pela leitura destes testamentos, não é difícil imaginar Saunière a redigi-los e a firmar um pacto com Marie, pedindo-a para assinar o seu testamento. A surpreendente semelhança dos dois documentos força a conclusão de que Saunière estava a tentar garantir que qualquer que fosse o primeiro dos dois a morrer, o património passaria para o outro. O padre não estava disposto a correr o risco de ver o seu empreendimento nas mãos do estado, e queria ao mesmo tempo garantir a posse privada do património (em nome de Marie), o que evitaria que o arcebispado reclamasse a curto prazo as obras recém-terminadas. Contudo, Saunière pretendia claramente que depois da sua morte e da de Marie, ninguém mais além do arcebispado ficasse com o espólio. Esta atitude revela, não só que o padre nunca deixara de ser um homem devoto à Igreja, como também que ele não tinha estima suficiente pelos seus familiares para lhes deixar parte ou totalidade do património.
     Importa sublinhar a atitude desesperada e aparentemente inútil do padre ao criar estes documentos. À partida, não faz sentido legal que Saunière compre os terrenos em nome de Marie, e que construa sobre eles quando os terrenos não lhe pertencem. O padre nunca deixa de chamar suas as edificações. Assim, a situação legal era insólita: os terrenos eram de Marie, e as edificações eram de Saunière, sendo que estas passariam para a governanta após a morte do padre.
     A situação do recheio também não foi descurada: no mesmo ano de 1906, possivelmente na mesma altura em que foram elaboradas as primeiras versões dos testamentos, foi redigido um documento no qual o padre Saunière vendia todo o recheio dos seus imóveis a Marie Dénarnaud, declarando no mesmo documento que usufruiria do dito recheio até ao fim da sua vida mediante o pagamento de uma renda a combinar ulteriormente. O preço acordado: quatro mil francos, quantia pesada para uma governanta. Deste modo, formalizando a venda, Saunière pôs a salvo mais uma parte do seu património. Eis o texto do documento em questão:

Texto original:

     "Les soussignés,
     D' ma part, M. Bérenger S. prêtre curé de la parroisse de R. L. C., commune de ce nom, y demeurant,
     Et d'autre part Melle M. D. propriétaire demeurant au même lieu de R. L. C.;
ont convenu de fait ce qui suit
     M. l'abbé B. S. fait vente pure et simple à Melle M. D. qui accepte de tous les meubles meublants, linge, vestiaire, tableaux, ustensils, objects divers, en un mot, de tout ce qui généralement quelconque se trouve renfermé soit dans le presbytère et ses dépendances soit dans toute autre maison ou immeuble ici dans le dit lieu de R. L. C.
     Ces divers meubles ou objects consistent principalement en lits, armoires, pendules, glasses, tableaux, bibliothèque, nappes, servièttes, draps de lit-rideaux, tables, chaises, fauteuils, livres, buffets, ressortes, vaisselle, tapis divers, candélabres, harmonium, articles de cave, de cuisine, argenterie.
     Cette vente est ainsi faite et consentée, moyennant la somme de quatre mille francs que Melle M. D. a immédiatement remise et compté en espèces à M. l'abbé B. S. qui lui en fournit quittance.
     La dite vente a été consentée à la dite Melle M. D. à condition que le dit M. B. S. aurait l'usage de ces divers meubles et objects moyennant un loyer à débattre entre les contractants et exigible au gré du preneur, à des époques qu'il se réserve definer.
     Fait en double original à R. L. C. le mil neuf cent six approuvant l'écriture et le contenu ci-dessus et bon pour quittance de la somme de quatre mille francs,

     (assinatura de Saunière)

     approuvant l'écriture et le contenu ci-dessus,

     (assinatura de Marie Dénarnaud)"

Tradução:

     "Os abaixo-assinados,
     Da minha parte, Bérenger S. padre cura da paróquia de R. L. C., comuna do mesmo nome, onde resido,
     E de outra parte, M. D. proprietária residindo no mesmo lugar de R. L. C.;
concordámos no que se segue
     O sr. padre B. S. vende pura e simplesmente a Melle M. D. que aceita todos os móveis de mobiliário, roupa branca, guarda-roupa, quadros, utensílios, objectos diversos, numa só palavra, tudo o que no geral se encontra encerrado quer no presbitério e nos seus anexos quer em qualquer outra casa ou imóvel aqui no dito lugar de R. L. C.
     Estes diversos móveis ou objectos consistem principalmente em camas, armários, relógios de sala, copos, quadros, biblioteca, toalhas, guardanapos, lençóis de cama, cortinados, mesas, cadeiras, poltronas, livros, aparadores, aparadores pequenos, louça, tapetes diversos, castiçais, harmónio, artigos de adega, de cozinha, baixelas de prata.
     Esta venda é deste modo feita e consentida, pela soma de quatro mil francos que a sra. M. D. entregou imediatamente contada em notas ao sr. padre B. S., que lhe forneceu um recibo.
     A dita venda foi consentida à dita sra. M. D. na condição do dito sr. B. S. ter usufruto destes diversos móveis e objectos mediante um aluguer a combinar entre os contractantes e exigível segundo a vontade da arrendatária, em datas a definir mais tarde.
     Feito em duplo original em R. L. C. em mil novecentos e seis aprovando a escritura e o conteúdo supracitado e bom para a quitação da soma de quatro mil francos,

     (assinatura de Saunière)

     aprovando a escritura e o conteúdo supracitado,

     (assinatura de Marie Dénarnaud)"

     Ainda assim, estando os terrenos e o recheio a salvo, legalmente sob a posse de Marie, os edifícios continuavam na posse de Saunière, construídos com dinheiros de proveniência duvidosa. O padre decidiu proteger a posse dos edifícios, legando-os a Marie depois da sua morte através do testamento, mas até que tal sucedesse os edifícios permaneceriam nas suas mãos, e portanto, numa análise estrita, sob a alçada da Igreja, e passível de expropriação ao abrigo da lei de 1905. Estando os terrenos e o recheio já a salvo, o testamento de Saunière não poderia proteger as edificações, sendo portanto inútil. Por outro lado, o testamento de Marie Dénarnaud não poderia convencer um notário sério, porque nele a governanta declarava Saunière como herdeiro da "totalidade da (...) herança mobiliária e imobiliária cujo valor foi adquirido (...) ao serviço do dito Senhor Bérenger Saunière". Como poderia uma simples criada ter adquirido os terrenos e o recheio dos edifícios só à conta do salário que recebia do padre? Claramente, Saunière sabia que as autoridades notariais do seu tempo não eram eficientes ao ponto de se perderem em detalhes e muito possivelmente o notário reconheceu os dois testamentos. De certa forma, ele deve ter-se sentido seguro após a elaboração dos dois documentos. Caso Marie morresse, tudo o que ele comprara em seu nome e todo o recheio que ele lhe vendera, ficaria na sua posse.
     Em Abril de 1912, é redigida uma nova versão destes documentos, dos quais se apresentam de seguida os textos dos respectivos rascunhos. Devido ao rancor que Saunière devia sentir face ao bispo de Carcassonne, pelas tormentas que este lhe provocou durante o processo eclesiástico, os novos testamentos já não o nomeiam como último depositário dos pertences. Tanto o testamento de Saunière como o de Marie Dénarnaud expressam que aquando da morte de cada um deles, a totalidade dos bens móveis e imóveis passam para o outro, sem que se faça qualquer tipo de inventário:

Testamento de Saunière (segunda versão, Abril de 1912):

     "Je soussigné, Bérenger Saunière, prêtre, ancien curé de Rennes-le-Château, déclare que cet écrit est mon testament et renferme mes volontés dernières.
     Avant tout je révoque tout testament antérieur qui pourrait être présenté.
     Je lègue à Marie Dénarnaud, résidant près de moi, tout mes biens meubles et immeubles.
     Je lui lègue tout le mobilier, linge, ustensiles renfermés au presbytère et à la Villa Béthanie et dans les autres dépendances.
     Je lui lègue toutes les provisions de ménage, vins, bois, argent et valeurs.
     Marie Dénarnaud me remplace, par conséquent, dans la possession de tout ce qui m'appartiendra au moment de mon décès.
     Je donne à Marie Dénarnaud tous ces biens sans qu'il soit procédé à mon inventaire auquel je veux absolument soustraire ma légataire universelle. Par le seul fait de mon décès Marie Dénarnaud rentre en pleine possession de tout mon avoir.
     Fait entièrement de ma main et écrit par moi, le avril mil neuf cent douze.
     Signature"

Tradução:

     "Eu abaixo-assinado, Bérenger Saunière, padre, antigo cura de Rennes-le-Château, declaro que este escrito é o meu testamento e contém as minhas últimas vontades.
     Antes de mais nada revogo todo o testamento anterior que poderia ser apresentado.
     Eu lego a Marie Dénarnaud, que reside perto de mim, todos os meus bens móveis e imóveis.
     Eu lego-lhe todo o mobiliário, roupa branca, utensílios contidos no presbitério e na Villa Béthanie e nos outros anexos.
     Eu lego-lhe todo o mobiliário de casa, vinhos, madeiras, prata e valores.
     Marie Dénarnaud substitui-me, consequentemente, na posse de tudo o que me pertencerá no momento da minha morte.
     Eu doo a Marie Dénarnaud todos estes bens sem que se proceda ao meu inventário do qual eu quero absolutamente livrar a minha legatária universal. Pelo simples facto da minha morte Marie Dénarnaud fica na posse de todos os meus haveres.
     Feito inteiramente pela minha mão e escrito por mim, em Abril de mil novecentos e doze.
     Assinatura"

     O testamento de Marie Dénarnaud é praticamente recíproco do de Saunière, salvo a situação excepcional da governanta ter a seu cuidado os seus pais e lhes dever por lei a quarta parte da herança:

Testamento de Marie Dénarnaud (segunda versão, Abril de 1912):

     "Je soussignée, Marie Dénarnaud, résidant à Rennes-le-Château près de M. l'abbé Saunière, déclare que cet écrit est mon testament et renferme mes dernières volontés.
     Avant tout je révoque tout testament antérieur qui pourrait être présenté.
     Je nomme et lègue à M. l'abbé Bérenger Saunière tous les biens meubles et immeubles que je possède dans la commune de Rennes-le-Château.
     Je lui lègue encore toutes les valeurs qu'on pourra trouver à mon décès.
     Ayant près de moi mon père et ma mère je leur laisse le quart dont la loi dépose en leur faveur.
     En laissant tout mon avoir à M. Bérenger Saunière j'exprime la volonté formelle qu'il ne sera pas fait d'inventaire à mon décès et que M. Saunière sera mis alas en possession de tout mon avoir.
     Fait entièrement de ma main et écrit par moi, le avril mil neuf cent douze.
     Signature"

Tradução:

     "Eu abaixo-assinada, Marie Dénarnaud, residente em Rennes-le-Château junto com o sr. padre Saunière, declaro que este escrito é o meu testamento e contém as minhas últimas vontades.
     Antes de mais nada revogo todo o testamento anterior que poderia ser apresentado.
     "Eu nomeio e lego ao sr. padre Bérenger Saunière todos os bens móveis e imóveis que possuo na comuna de Rennes-le-Château.
     Eu lego-lhe ainda todos os valores que se encontrem aquando da minha morte.
     Tendo comigo o meu pai e a minha mãe deixo-lhes a quarta parte que a lei atesta em seu favor.
     Deixando todos os meus haveres ao sr. Bérenger Saunière eu exprimo a minha vontade formal de que não será feito um inventário aquando da minha morte e que o sr. Saunière será apossado de todos os meus haveres.
     Feito inteiramente pela minha mão e escrito por mim, em Abril de mil novecentos e doze.
     Assinatura"

     Ao elaborar esta versão dos testamentos, Saunière já não era padre em Rennes-le-Château e já atravessara uma série de dissabores junto da administração episcopal. A sua atitude é compreensível: ele apenas desejava que o projecto da sua vida terminasse nas mãos de quem sempre o apoiou. Em Abril de 1912, Saunière apenas queria evitar que todos os seus empreendimentos acabassem nas mãos de Monsenhor de Beauséjour ou expropriados pelo governo da República. No momento da sua morte, este seria o seu acto final de vingança.
     Convencido de que estes documentos lhe davam a segurança desejada, Saunière achava-se preparado para enfrentar os possíveis ataques futuros ao seu património. Contudo, no processo de elaboração dos testamentos, o padre riscara da sua herança os seus familiares. Teria ele achado que só Marie estaria à altura da tarefa de administração do seu património? As suas relações com os familiares teriam azedado o suficiente para Saunière os deserdar? Estes relacionamentos familiares permanecem ainda hoje como uma das facetas mais obscuras da vida do padre de Rennes.

 

 

Os familiares de Saunière

 

     Apesar da vida familiar de Saunière permanecer um mistério, algumas cartas que o padre trocou com os seus irmãos e irmãs trazem alguma luz a este lado da sua vida. A razão por trás deste mistério é simples: o próprio Saunière escondia tudo o que dizia respeito à sua família. Para o padre, a família deveria ser um problema complicado que preferiria esconder a enfrentar. Na página sobre Saunière falou-se do seu irmão mais velho Alfred, que também era padre. A carta que se segue mostra um pouco o estado das relações entre Bérenger e a sua família, bem como nos apresenta um Alfred desgostoso pela situação da família e pela indiferença do irmão:

Carta de Alfred Saunière:

     "Pour ne parler que de ce qui ne concerne la mère ici, je suis si peu responsable qu'elle est arrivée en coup de vent à Narbonne parce que son mari voulait la traîner par les cheveux au lit, menaçant de la tuer, de faire sauter toutes les portes des chambres, etc... Ô beaux charmes de la famille que tu as mise à la porte de chez toi lui préférant la tranquillité des étrangers, te réservant le rôle facile de me donner tort à moi qui ai supporté et qui en supporte tous les poids. Je te donne ma parole de prêtre (hélas bien triste prêtre) que je ne fais ni ne dis rien pour retenir ma mère, mais je la vois si fatiguée, si triste, si tremblante devant les menaces de son mari que je n'ai pas le courage que tu as eu, celui de la mettre à la porte... Permets moi de te dire sans méchanceté aucune que désormais il ne doit plus y avoir entre toi et moi de relations commerciales."

Tradução:

     "Para não falar do que não diz respeito aqui à mãe, eu sou tão pouco responsável que ela tenha chegado num vendaval a Narbonne porque o seu marido queria trazê-la pelos cabelos até à cama, ameaçando que a matava, que faria saltar todas as portas dos quartos, etc... Ó belos encantos da família, que tu deixaste à porta preferindo a tranquilidade de estranhos, reservando-te o papel fácil de não me dar razão a mim que tenho suportado e que suporto todos os pesos. Dou-te a minha palavra de padre (ai, bem triste padre) que eu não faço nem digo nada para reprimir a minha mãe, mas eu vejo-a tão fatigada, tão triste, tão trémula perante as ameaças do seu marido que não tenho a coragem que tu tiveste, a de a pôr porta fora... Permite-me dizer-te sem maldade alguma que de agora em diante não deverá haver entre mim e ti relações comerciais."

     Esta carta, surpreendente pelo retrato vivo e brutal da situação familiar de Saunière, demonstra que Saunière mantinha a sua família à distância. A relação entre Marguerite e Joseph Saunière estava muito má, e provavelmente sempre estivera assim. A mãe era vítima de maus-tratos por parte do pai, e os filhos aparentemente nada faziam para resolver a situação. Alfred queixa-se de que é o único que suporta o fardo dos pais, e critica Bérenger por preferir a "tranquilidade dos estranhos" à solução dos problemas de família. A dada altura, Alfred diz mesmo que não tem a coragem de fazer o que Bérenger fez, pôr a mãe porta fora. Claro que esta expressão poderá ser apenas idiomática, mas levanta mais um mistério que talvez nunca será resolvido. A carta apresentada datará, no máximo, de 1895, visto que neste ano o pai, Joseph Saunière, viria a morrer.
     Também fica patente na carta que Alfred não se considerava um bom padre. E tinha razões para tal. Alfred seria suspenso pela Igreja por várias vezes consecutivas: tinha uma amante, de nome Marie Emilie Salière, da qual tinha tido uma criança. Porém, para o mistério da fortuna do padre, o detalhe mais importante está na última frase da carta: "de agora em diante não deverá haver entre mim e ti relações comerciais". Que relações comerciais seriam estas? Muito provavelmente as respeitantes ao tráfico de missas a que Bérenger se dedicava. Ao que parece, o seu irmão Alfred arranjava-lhe uma considerável parte dos donativos e das intenções de missas.
     Os mistérios em relação à sua família não se esgotam aqui. Eis mais uma carta, agora do seu irmão Martial:

Carta de Martial Saunière (18 de Outubro de 1905):

     "J'ai été traité par une mère comme un inconnu (et encore avec des étrangers on met certaines formes), j'ai été traité comme un ennemi qu'il faut coûte que coûte terrasser. Ce que j'ai fait je ne le regrette nullement et le ferais ensuite à nouveau s'il le fallait, je voudrais coûte que coûte empêcher mon frère de tomber, je n'y ai pas réussi mais ma mère et mes soeurs peuvent se dire que tout ce qui est arrivé est arrivé par leur seule volonté et elles n'ont pas fini d'expier leurs fautes et ce n'est que le commencement. (...)
     Lorsque l'abbé a eu sa première attaque quelques mois à peine après mon départ, tu n'as même pas daigné me prévenir de son état, de mes soeurs je n'en parle même pas, elles feraient tout leur possible pour tenir tout caché. Il a fallu que des étrangers me mettent au courant de la situation mais aucun membre de la famille s'en est bien gardé. Tu viens après tout cela faire appel à une entente de tous, mais comment veux-tu qu'une entente soit possible?"

Tradução:

     "Fui tratado por uma mãe como um desconhecido (e ainda com estranhos fazem-se certas figuras), fui tratado como um inimigo que é preciso, custe o que custar, abater. Do que fiz não me arrependo de forma alguma e faria-o de novo se tal fosse necessário, eu queria custasse o que custasse impedir o meu irmão de sucumbir, não o consegui mas a minha mãe e as minhas irmãs podem dizer-se que tudo o que aconteceu sucedeu somente pela sua vontade e elas ainda não expiaram as suas faltas e isto é apenas o princípio. (...)
     Quando o padre (Alfred, N.T.) teve o seu primeiro ataque apenas alguns meses depois da minha partida, tu não te dignaste a me prevenir do seu estado, das minhas irmãs nem falo, elas fariam o que lhes fosse possível para esconder tudo. Foi preciso que estranhos me pusessem a par da situação mas nenhum membro da família está livre de culpas. Tu vens depois de tudo isto apelar ao entendimento de todos, mas como queres tu que um entendimento seja possível?"

     Desta carta depreende-se que a relação entre Martial e a mãe e irmãs estava em ruínas. A carta foi escrita um mês depois da morte de Alfred Saunière (o irmão a quem ele se refere na carta), que aconteceu a 9 de Setembro. Ao que parece, estas repudiavam Martial, enquanto que ele as culpava de certa forma pela morte do irmão, que deverá ter ocorrido por causa de um ataque cardíaco. Possivelmente a partida de Martial, ocorrida alguns meses antes do primeiro ataque do irmão, teria sido devida à zanga deste com a mãe e as irmãs.

     Bérenger Saunière procurava ocultar da família a verdade sobre o seu estado financeiro. Surgiriam alguns problemas em relação ao pagamento da pensão da sua mãe, ao qual Saunière estava obrigado por lei, como o comprova o seguinte facto, atestado por um documento existente nos Arquivos Departamentais do Aude, série O (Rennes). Aquando da morte de Joseph Saunière em 1895, o património do pai foi distribuído pelos filhos, que se veriam doravante obrigados a pagar uma pensão à mãe. O acto realizou-se a 28 de Dezembro de 1895 no escritório Roques, em Limoux, ficando instituída Marguerite Hugues, viúva de Joseph Saunière, como credora. Como devedores ficaram os seus filhos, Bérenger Saunière, Alfred Saunière, Mathilde Pagès, Martial Saunière, Adeline Sylvestre e Marie-Louise Marty, que teriam que pagar à mãe uma pensão vitalícia. A escritura hipotecária, que passou a registo a 9 de Janeiro de 1896, na Conservatória de Hipotecas de Limoux (vol. 402, nº 246), seria renovada a 4 de Janeiro de 1906 (vol. 456, nº 30).
     Em 1906, Mathilde viria a reclamar do seu irmão o pagamento da parte que lhe cabia da pensão, exigindo-lhe através do apoio legal do juiz de paz de Couiza, ou o acolhimento da mãe durante três meses ou o pagamento de uma soma de 3 francos por dia durante o referido período. A 1 de Setembro, Saunière redige um texto de resposta (cujo rascunho foi escrito pela sua mão), fazendo-se passar por Marie Dénarnaud:

Carta de Saunière (fazendo-se passar por Marie Dénarnaud) à sua irmã Mathilde:

     "En face de la séparation de l'Église et de l'État, Monsieur le curé n'ayant plus de traitement a répondu aux exigences du tuteur que ses ressources ne lui permettant pas de verser 3 frs. par jour, il recevrait pendant 3 mois chez lui la pauvre infirme et la ferait soigner ce qui veut dire que sa mère n'a plus rien et qu'il est à craindre sans le savoir qu'il ne restera plus rien non plus de la sucession."

Tradução:

     "Em virtude da separação entre a Igreja e o Estado, o Sr. padre, não tendo mais salário, respondeu às exigências da tutora que não lhe permitindo os seus recursos pagar 3 francos por dia, ele receberia durante 3 meses em sua casa a pobre doente e trataria dela, o que quer dizer que a sua mãe já nada possui e que ele quer crer, sem o saber, que já nada restará da herança."

     A carta é surpreendente! Saunière, não podendo esquivar à exigência da irmã, acede em acolher a mãe, mas finge não ter recursos suficientes para pagar a pensão, enquanto que emite o comentário sarcástico a propósito da herança. O que leva a pensar que a sua família não estaria ao corrente dos seus empreendimentos (ou da sua dimensão) em Rennes-le-Château!
     Saunière, tendo-se oferecido para acolher a mãe, decidiu-se mais tarde a pagar 78 francos de pensão, como o comprova uma nota de pagamento do banco Coll, de Limoux, datada de 19 de Outubro de 1906.
     Marguerite Saunière morre em Maio de 1909, e Mathilde escreve ao irmão uma carta curta e seca para lhe exigir a soma de 30,4 francos para pagar os custos dos medicamentos, do médico e do enterro. Termina a carta com: "Rien de plus à te dire pour le moment. Ta soeur." ("Nada mais tenho para te dizer agora. A tua irmã."). Ao que parece, ainda mais misteriosa que a origem do dinheiro de Saunière parece ser a sua relação com a família.

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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