Rennes-le-Château, 8 de Abril de 1911 - senhor provisor A nova carta que vós haveis julgado dever enviar-me surpreende-me porque eu tinha tomado todos os meus cuidados por vos informar tão exactamente quanto me era possível. Eis o que eu posso responder (em relação, N.T.) às questões colocadas: 1º - Pelos produtos da caixa de esmolas eu indiquei a média dos rendimentos porque eu não tinha um registo. Rennes-le-Château tem a sua história, eu contava-a aos visitantes e como estes últimos eram pessoas correctas pertencentes ao "high life", eles colocavam na caixa de esmolas a contribuição que não ousavam propor ao seu "cicerone" 2º - Os dons trasmitidos pelo meu irmão repartem-se nos anos de 1895 a 1903 3º - O certificado da conservatória do registo predial parece-me justificar a minha gestão e o balanço entre as receitas e as despesas. Não posso apresentar nada de mais explícito e de mais categórico. 4º - O anterior questionário era mudo em relação à compra dos terrenos, cálculos das obras de terraplanagem, etc. Daí a lacuna. Os terrenos, de resto, foram comprados pela família hospitalizada em minha casa. Depois destas justificações um detalhe geral destruirá a culpa que me é dirigida "de responder de uma forma tão incompleta e evasiva às questões colocadas." Note-se que não sou nem negociante, nem empresário. Por este motivo agia sob a minha própria responsabilidade e nas minhas operações eu deixava-me guiar pelos fundos dos quais dispunha vendo como supérflua uma contabilidade que seria conveniente a um industrial operando com dinheiro bancário. Eu restringia-me a notas que chegavam para eu não me perder nem me expor a um desastre. Eu tive a honra de lhe dar a conhecer este estado de coisas e o ofício culpa-me na sua sentença da minha negligência em relação à manutenção do livro de missas. Como as coisas são deste modo como quereis vós que eu possa produzir uma contabilidade estrita como poderia exigir de um falido um tribunal comercial? O texto "nem dat quod non habet" ("não posso dar o que não tenho", N.T.) resume o meu caso. Qualquer que seja a instância da qual eu possa ser objecto eu encontro-me na impossibilidade de fazer face (ao pedido de uma contabilidade estrita, N.T.). Um reparo que me parece bastante actual. No meu primeiro julgamento o ofício condenara-me à revelia e decretara-me por contumácia o máximo da pena, ou seja, uma suspensão "a divinis" por um mês e a restituição, de acordo com a minha consciência, das somas indevidamente recebidas. Cumprida a censura, era a paz para mim. Após o mal-entendido, o assunto é retomado, eu apresento-me na citação, a causa é sustentada contraditoriamente, numa palavra, eu conformo-me a tudo o que é exigido de mim. Pela minha docilidade eu tinha direito a um mínimo, ora por uma inversão da situação eu sou reduzido a lamentar este máximo e a estimar que o mínimo seja um rude calvário onde se multiplicam as estações dolorosas. A ocasião é propícia para fazer lembrar uma destas etapas. Uma nota que me era totalmente estranha surgiu no "Les Veillées des Chaumières" (periódico, N.T.): sem procurar obter a menor informação vós haveis-me tratado como culpado e fizesteis aparecer no "Semaine Religieuse" (outro periódico, N.T.) uma notícia breve que foi para mim uma espécie de degradação. Este anúncio percorreu toda a Imprensa e, por assim dizer, pregou-me no pelourinho. Se eu não tivesse sido padre antes de mais nada eu teria pedido ao Direito Civil uma reparação que teria certamente obtido. Preferi guardar silêncio e sofrer preferindo esperar de Roma - onde se é justo e humano - uma reparação que eu tenho a confiança de que me será concedida. Vós conheceis a primeira decisão de Roma. Fala ela da contabilidade? Pelo contrário. Tudo nela se resume ao pedido de reintegração e à observação do decreto das missas. Será então necessário enviar um novo anexo ao processo e mostrar como estamos longe das três razões de queixa da citação? Se o Grande Seminário me pudesse ter recebido, o meu retiro já teria começado; eu conto fazê-lo o mais cedo possível. Permito-me crer que a administração diocesana verá na minha iniciativa uma prova da minha docilidade e do meu espírito sacerdotal. Queira receber, senhor provisor, os meus sentimentos respeituosos em n. s. (nosso senhor, N.T.) BSaunière ptre. (assinatura)