Rennes-le-Château, 15 de Julho de 1910 Monsenhor, Como eu tive a honra de dizer a Vossa Grandeza ultimamente, bem como ao senhor Vigário geral, pelos motivos que eu vos expus, não poderei estar presente amanhã, Sábado dia 16, perante o tribunal do Ofício, não porque não queira, mas porque não posso. Para comparecer perante os meus juizes com alguma hipótese de sucesso, como me convida a convocação de 7 de Julho, tenho que estar autorizado a revelar os nomes das pessoas que me doaram os fundos monetários necessários aos meus trabalhos; ora esta autori- zação ainda não a obtive. Preciso, além disso, da coragem e energia necessárias, da presença de espírito, de sangue frio, e sobretudo da facilidade de me exprimir e eu não possuo de momento nenhuma das qualidades atrás referidas. Sei bem o que vós me ireis dizer: Porque não arranjo eu um advogado para me representar? Sim, é sem dúvida uma boa ideia, mas quem hei-de escolher se não conheço no clero nenhum membro apto a me defender? E depois este advogado, supondo que eu consigo encontrar um susceptível de ser aceite pelo tribunal, (...). Não. Enfim, como já vos disse, as emoções fortes, com o meu estado naturalmente impressionável, seriam excessivamente contrárias e prejudiciais ao meu estado de saúde, e se- guindo os conselhos e ordens do meu médico, eu devo a todo o custo evitá-las, se não quero piorar catastroficamente em relação ao meu estado actual. E agora quanto à questão dos honorários das missas, deixe-me dizer-vos de novo, Monsenhor, que desde a vossa proibição, nunca mais voltei a pedi-los, se bem que certas partes do meu processo aparentem provar o contrário e que a minha consciência não está tão culpável como vós pretendeis fazer crer. Antes de terminar estas linhas, as quais eu achei apropriadas, peço a Deus que perdoe aos meus inimigos e a todos os que tentam prejudicar-me e fazer-me mal, e peço- -lhe ao mesmo tempo que me dê a força necessária para fazer a sua santa vontade e aceitar em espírito de penitência, a minha condenação qualquer que ela seja. Digne-se a concordar, etc... B. Saunière P.S. - A casa que construí com todas as suas dependências, como parece insinuar uma passagem da convocação, não foi edificada para me enriquecer e para eu passar os dias no luxo e na languidez, mas pensada, Monsenhor, como há uns anos atrás eu tive a honra de vos comunicar, de modo a servir-vos como uma casa de retiro em favor dos padres idosos e enfermos - habitação confortável - capela, biblioteca, local para passear, jardim, terraços, bom ar, esplêndido panorama, nada faltaria aos pobres velhos, nem mesmo um lugar reservado no cemitério da paróquia. Eu insisto sempre na minha ideia inicial, mesmo que o céu pareça querer colocar-se hoje no caminho dos meus projectos e não concordar com eles.