Os últimos anos

 

Índice

1. Introdução
2. A morte de Saunière
3. Falsificações fotográficas
 

 

     Os últimos anos de vida de Saunière foram passados em Rennes-le-Château. Durante os anos de 1912 a 1917 o padre continuaria a ser assombrado pelo pesadelo de um processo que nunca mais terminava. O seu advogado parecia não ter grande interesse em resolver a questão rapidamente, visto que passou várias temporadas em Roma à sua custa. Sempre com excesso de entusiasmo, o Dr. Huguet não se cansava de experimentar novas soluções para tentar inverter a situação de Saunière.
     Recordemos um pouco a complicação jurídica em que o padre se achava envolvido: a sentença de 5 de Dezembro de 1911 condenara-o a uma suspensão de três meses que continuaria até à restituição das somas por ele desviadas. Como foi referido no capítulo anterior, a sentença pode ser vista como abusiva, porque existem falhas em todo o processo. Saunière não podia devolver os bens que estavam em nome de Marie Dénarnaud, ou seja, bens que não eram legalmente seus. Além disto, o tribunal não estava em condições de provar que o padre efectuara desvio de fundos, uma vez que, sem registo das dádivas, não era possível determinar se os bens teriam sido ofertados ao "padre de Rennes-le-Château" ou ao "senhor Bérenger Saunière". A sentença continha ainda um erro grave, uma vez que impunha a Saunière uma suspensão mínima de três meses, prolongada até à devolução dos fundos, quando o limite máximo de suspensão era de seis meses. Contudo, as intenções do seu advogado, apesar de astutas e aparentemente enérgicas, parecem ter sido ingénuas no que toca à reintegração de Saunière como padre oficiante em Rennes, uma vez que tendo Saunière apresentado formalmente a sua demissão antes do início do processo, nunca mais poderia regressar à actividade de padre naquela aldeia.
     Que situação caricata! Por um lado, o Bispo de Carcassonne queria apoderar-se de um domínio construído à sua revelia, e que se encontrava em nome da governanta de um padre da sua diocese, instaurando contra ele um processo cheio de falhas e abusos de poder. Por outro lado, o padre Saunière pagava honorários e despesas, sem referir gratificações e outras ofertas, a um advogado que tentava prolongar ao máximo os protestos junto da administração diocesana e junto da Congregação do Concílio, em Roma. Que queria Saunière? O Dr. Huguet queria anular a sentença e reintegrar o padre demissionário. Se bem que a primeira intenção era lógica, e certamente traria descanso ao padre, a segunda era irrealizável. Quereria Saunière apenas descanso? Parece que sim, uma vez que ele sabia que não poderia ser forçado a devolver nada. Talvez guardasse ainda uma esperança de conseguir a reintegração, mas nos últimos anos, com a sua saúde a piorar, o padre deve apenas ter desejado descanso.
     Regressemos à cronologia... Em Novembro de 1911, o padre Saunière começa a considerar a venda do seu imobiliário, desejando retirar-se para uma habitação mais modesta e que acarrete menores despesas. Uma carta do seu advogado atesta este facto:

     "Na minha terra natal um dos nossos grandes cantores, Jérôme, tinha cometido extravagâncias num estabelecimento. Uma constipação [ou bronquite] cortou-lhe as goelas. Ele fica sem voz. Ele tem um comércio modesto em Paris. Ele quer vender o seu estabelecimento. De acordo com o que se diz, ele daria tudo a um bom preço. Fala-se de uma dúzia de milhar de francos e a instalação vale sessenta. Segundo esta hipótese, você abandonaria a reverência a Carcassonne, eu apresentá-lo-ia ao meu bispo e você viveria tranquilo nesta situação esplêndida. Venda e depois veremos o que se pode fazer." 1

     René Descadeillas dá-nos conta, no seu livro, deste esforço por parte do padre em vender o seu domínio. Para tal, Saunière recorre a um amigo de longa data, o padre Grassaud, a quem dera um cálice, possível fruto de uma das descobertas no interior da igreja durante as obras de reconstrução. O padre Grassaud, que por este tempo oficiava em Saint-Paul-de-Fenouillet, conseguiu-lhe um comprador mas o negócio não se chegou a concretizar2. Saunière, apesar de estar numa situação financeira grave, não deveria querer ver o seu domínio vendido a qualquer preço.
     A 27 de Novembro, o padre Saunière contacta a sede do banco Petitjean, em Paris. Saunière procura mediar a venda dos imóveis através desta importante agência bancária. A resposta à sua proposta foi seca e desanimadora:

     "Não podemos senão lamentar a sua decisão no que diz respeito aos custos preliminares. Nós iremos contudo ocupar-nos do seu assunto recorrendo aos nossos meios pessoais nas condições que você propõe, mas duvidamos fortemente de ter sucesso." 3

     O banco Petitjean decide enviar um agente, de nome Bauvière, para negociar com o padre pessoalmente. Saunière, desagradado com os orçamentos do banco, deve ter aproveitado a presença de Bauvière para lhe propor que este tentasse efectuar a venda à revelia do banco, para evitar o pagamento de comissões. O padre terá oferecido a Bauvière, para o aliciar, uma forte gratificação. A 29 de Novembro, este escreve-lhe a seguinte carta:

     "Não posso senão confirmar as nossas condições. O banco Petitjean tem o costume de impor as suas condições. É uma casa suficientemente antiga e conhecida para saber o que deve propor, e nunca aceita contra-propostas dos seus clientes. Vós sois juiz único do vosso lado sobre o que deveis fazer. Por mim, pessoalmente, não me irei ocupar do que quer que seja à revelia do banco. Nenhum cliente me poderia indemnizar do que eu perderia se aceitasse ocupar-me de negócios à revelia da casa. Trata-se de uma simples questão de honestidade e depois é sobretudo meu interesse. Inútil, portanto, contar com a minha participação. É lamentável e sobretudo para vós..." 4

     O desespero de Saunière é bem evidente. Tentado pela hipótese de poder vir a vender a casa sem ter que pagar as comissões do banco, tenta convencer o agente bancário a fazer o negócio à revelia. A frase final atesta bem quão baixo o padre tinha descido: um agente a dizer-lhe que tal atitude era lamentável, sobretudo para um padre. Passam-se alguns meses sem que Saunière consiga comprador. A 14 de Junho de 1912, Bauvière escreve-lhe de novo, desta vez para lhe propor novamente que recorra à publicidade:

     "Na próxima Segunda-feira 17, eu estarei no Aude, e far-vos-ei saber. Talvez lhe seja útil ver-me. Não ouvi dizer que o banco tenha tido comprador para as suas propriedades. Da minha parte, você sabe, não posso encontrar um sem a participação do banco a menos que você não tenha tido sucesso pelos seus próprios meios. Parece-me, a menos que você não tenha mais vontade de vender, que seria bom servir-se da publicidade para o conseguir. Se fosse da mesma opinião, as condições extremas que eu lhe poderia fazer para lhe ser agradável seriam: comissão, 3%; publicidade, 600 francos pagáveis à vista, ou seja, repare, muito perto das minhas condições iniciais. Se você estiver decidido a utilizar este método bastante eficaz na maior parte dos casos, faça-me saber e eu terei o prazer de vir fazer-lhe uma nova visita que, esta sim eu espero, vos trará o resultado esperado..." 5

     A proposta de recorrer a publicidade não foi aceite pelo padre, o que era de esperar. A última coisa que Saunière queria era que se soubesse que ele procurava comprador para os imóveis. Deste modo, arranjar comprador tornou-se numa tarefa impossível. Em Outubro de 1912, o padre decide esquecer a venda, decisão aliás que o deve ter deixado mais alegre, e tentar o recurso a um empréstimo bancário para fazer face às suas despesas.
     Para melhor decidir sobre a forma de abordar a banca, mais concretamente, o Crédit Foncier, Saunière recorre mais uma vez aos préstimos de Huguet. Um funcionário do Crédit Foncier desloca-se no final deste ano a Rennes para avaliar os imóveis. Como sempre, Huguet mostra-se demasiado confiante:

     "Espero que o Crédit Foncier se mostre complacente e lhe conceda um empréstimo vantajoso. Tudo isto depende em grande parte da relação que foi feita" 6

     O desfecho é infeliz para Saunière: o Crédit Foncier atribui-lhe um empréstimo pequeno, 6.000 francos, contra a hipoteca da totalidade das suas propriedades7. A desilusão de Saunière é grande. Eis mais uma carta de Huguet, que tenta com estas palavras animar Saunière:

     "Encontrei na sua carta uma tal impressão de desencorajamento que estava desejoso de fazer subir um pouco o seu espírito. Adivinho a decepção que teve que sofrer ao saber que o Crédit Foncier não lhe atribuia mais que uma pequena soma pelas garantias que lhes ofereceu. Conhecendo os hábitos desta sociedade, concluo que o inspector que o visitou não deve ter sido capaz de redigir uma relação entusiasta e convincente da situação que lhe apresentou. É preciso esperar que tenha a boa sorte de encontrar algum comprador que se apaixone pelo seu imóvel e que o preço de venda lhe compense pelas somas consideráveis despendidas na sua «villa». Sem dúvida, é preciso rendimentos para viver lá no alto, mas que um interessado que se lance neste projecto terá seguramente, e terá neste cume uma encantadora residência..." 8

     Podemos ver, pela comprovada precaridade financeira de Saunière, como estamos longe dos relatos fantasiosos que, a partir sobretudo da segunda metade do século XX, se começaram a propagar, relativamente a Saunière como sendo o “padre dos milhões”9. Descadeillas lembra como, mesmo nos tempos de prosperidade, o padre fazia uma gestão criteriosa dos seus pagamentos de dívidas, de forma a acertá-los com o ritmo das entradas de fundos10. Apesar de os dividendos de intenções de missas nunca terem cessado até à sua morte, a balança entre receitas e dívidas deverá ter começado a ficar desequilibrada. Saunière começa a acumular dívidas. É de notar que a decisão de, primeiro vender, e depois hipotecar as suas propriedades, o projecto de uma vida inteira, é uma decisão de desespero financeiro, face a um rol de dívidas difíceis de saldar.
     Um exemplo concreto é o do mobiliário da biblioteca, encomendado à casa Noubel (Carcassonne) em 1908, e cuja dívida ficará por regularizar na sua totalidade11. Facto atestado por uma carta enviada por este estabelecimento comercial a Saunière:

     "Fazendo o vosso saldo de conta, vejo que você me deve ainda 6.037 francos, sem contar com os juros, tendo a entrega dos móveis sido feita em 1908. Como convém chegar a um fim, venho pedir-lhe se você pode regularizar a dívida; no caso de não estar em condições de me pagar a totalidade da soma, serei obrigado a efectuar um acto hipotecário aos seus bens. Para si, isto não causará transtorno e eu ficaria muito mais tranquilo. Nestas condições, você poderia usufruir do tempo que lhe fosse necessário para a regularização, pagando os juros." 12

     Numa situação tão complicada como esta, o padre nunca deixou de aceitar e procurar honorários de missas. Como já foi dito, esta actividade nunca cessou até à sua morte, em Janeiro de 1917.
     Nestes tempos finais, a balança financeira deveria ser mais ou menos esta: as receitas de missas que ainda entravam à revelia do Bispado deveriam ser empregues na sua totalidade para a subsistência do padre e de Marie Dénarnaud, para o pagamento fraccionado de dívidas, e para manter as elevadas custas do advogado Huguet na defesa, junto do Vaticano, do caso de Saunière.
     Mas recuemos um pouco até aos tempos da leitura da sentença, a 5 de Dezembro de 1911. Na sequência desta sentença, o advogado Huguet decide aproveitar-se das fraquezas jurídicas da decisão, e a situação parece virar-se a favor de Saunière. Em Janeiro de 1912, o astuto advogado redige um depoimento de recurso à sentença do Ofício, levantando a questão da violação, por parte do Bispo de Carcassonne, da lei canónica "Non bis in idem", que não permite o julgamento do mesmo caso mais que uma vez. Claro que este ponto é discutível. Monsenhor de Beauséjour argumentará sempre que os dois julgamentos foram diferentes, não só no objecto mas também na forma e na sentença. No mesmo depoimento, o advogado insiste na impossibilidade do seu cliente restituir bens que legalmente não lhe pertencem. Entretanto, o Dr. Huguet esforça-se por convencer a Congregação do Concílio a deliberar a suspensão da sentença, visto que Saunière afirmava não estar em condições de executar a pena imposta.
     Saltando no tempo até ao ano de 1905, deparamo-nos com um acontecimento grave. Para avisar os fiéis, o Bispo de Carcassonne não hesita em fazer publicar o seguinte anúncio no jornal La Semaine Religieuse, a 3 de Julho de 1915:

Anúncio aos fiéis da exoneração definitiva do padre Saunière - periódico 'La Semaine Religieuse', 3 de Julho de 1915
Anúncio aos fiéis da exoneração definitiva do padre Saunière
Periódico La Semaine Religieuse, 3 de Julho de 1915

     "É para a administração diocesana de Carcassonne uma profunda pena, mas um imperioso dever assinalar aos fiéis que o sr. padre Saunière, antigo cura de Rennes-le-Château, que reside actualmente no mesmo lugar, foi, por sentença do ofício de 5 de Dezembro de 1911, privado dos seus poderes sacerdotais; que ele não deve mais celebrar o santo sacrifício e que, desde então, não pode cumprir os honorários de missas que se lhe confiem." 13

     O Bispo fará publicar notícias como esta em vários periódicos católicos. Uma medida, em bom rigor legal, pouco correcta. Vejamos porquê: a sentença do Ofício de Carcassonne, datada de 5 de Dezembro de 1911, que decidia para Saunière a suspensão “a divinis” por um período de três meses, tinha um limite legal. Esta suspensão não se podia, de forma alguma, prolongar para lá dos seis meses da data da sentença, ou seja, Saunière só poderia estar suspenso até 5 de Junho de 1912. Como vemos, em Julho 1915, estando ainda o caso a aguardar um parecer da Congregação do Concílio, no Vaticano, Saunière não estava canonicamente “privado dos seus poderes sacerdotais"14.
     O doutor Huguet aproveitará esta falha no procedimento episcopal para preparar mais um artifício legal. Ele planeava, como medida de último recurso, lançar um processo canónico na Rota15, contra o Bispo Beauséjour por difamação do padre Saunière nos órgãos de comunicação social. Huguet tinha, como vimos, um bom suporte jurídico para este processo, se bem que esta medida representasse uma via irreversível de confrontação com o Bispado de Carcassonne. Um novo processo também teria consequências evidentes, em termos de custas processuais e de demora na solução do problema.
     Durante este compasso de espera por uma decisão da Congregação, Saunière via o seu nome espalhado pelos jornais, e a sua reputação a piorar cada dia. Esta espera foi pautada por vários pedidos de esclarecimentos por parte da Congregação ao Bispado de Carcassonne. O Bispado atrasava-se no envio de esclarecimentos, mas a Congregação também não se esforçava por pressionar. Parecia evidente que a Congregação desejava uma solução mais fácil, fora dos tribunais, um acordo entre Saunière e Monsenhor de Beauséjour. Mas, desse ponto de vista, as coisas também não estavam encorajadoras.
     O Bispo escreve a Saunière a 5 de Agosto desse ano, a convidá-lo para que lhe faça uma visita em Carcassonne. O Bispo pede-lhe que reconheça que a sentença foi justa16, e que apresente provas da sua impossibilidade em executar a totalidade da sentença, mais concretamente, a devolução dos bens desviados.
     Saunière responde a 8 de Agosto, aceitando o convite, e tentando mostrar que deseja acatar as sugestões do Bispo, mas usando simultaneamente um tom inconformado, ao mesmo tempo que teima na impossibilidade de conseguir cumprir a sentença, ou seja, a devolução dos bens (neste ponto, como em tantos outros pontos do processo, Saunière seguia directivas do advogado Huguet):

     "Desejoso de vos dar prova da minha submissão às directivas de Roma e aos vossos desejos pessoais, não hesito em: 1º) reconhecer que a sentença que me atingiu é bem fundada; 2º) dar-vos as provas da impossibilidade legal em que me encontro para executar as condições da sentença. Não duvido, que o vosso coração, tomando em piedade o meu longo martírio nestes últimos anos, não se digne a pôr termo a estes sofrimentos horríveis rehabilitando-me e apagando da minha fronte o estigma que denegriu uma vida sacerdotal que eu tinha entregue a Deus." 17

     Por fim, em Roma, a Congregação decide tomar medidas para tentar encerrar a questão. No início do Outono, os advogados são escutados pela Congregação. Huguet centrará a defesa de Saunière num ponto específico: o padre não tem possibilidade de cumprir a sentença, devolvendo os bens a ele entregues pelos fiéis e pelos benfeitores. Segundo Huguet, os donativos tinham sido ofertados a Saunière sem quaisquer condições, pelo que o padre era o único juiz do destino que lhes deveria dar18. A Congregação dá razão ao advogado, afirmando que Saunière deveria saber, em consciência19, que parte desses donativos deveria ser entregue ao Bispado. O secretário da Congregação, Monsenhor Giorgi, desejava que Saunière chegasse, nestes termos, a um acordo com o Bispo, entregando aos cofres episcopais uma parte, definida pela sua consciência, dos donativos a ele entregues por particulares. Sabemos bem em que situação Saunière se encontrava. Ele mal conseguia manter as custas do advogado e possuir um mínimo para subsistir e pagar as suas dívidas. Não estava em condições de devolver nada. Nestes termos, o acordo com Beauséjour estava cada vez mais remoto.
     A decisão da Congregação sai, finalmente, em Outubro de 1915. Esta considera inválida a suspensão “a divinis” do padre Saunière. Contudo, esta decisão não traz efeitos práticos: o Bispo de Carcassonne não voltará a considerar Saunière como padre, e não o nomeará nunca mais para nenhuma paróquia20. E nada fica decidido em relação à decisiva questão da restituição dos bens. O padre nunca chegará a acordo com Monsenhor de Beauséjour.
     Saunière não sairá de Rennes nos seus últimos anos de vida, exceptuando uma peregrinação a Lourdes em 191621. Neste último ano de vida, o seu estado de saúde degrada-se fortemente, porventura agravado pelas eternas questões processuais.

 

 

A morte de Saunière

 

     O casal Claire Corbu e Antoine Captier22, que recordamos serem os proprietários de um importante acervo de documentos de Saunière, dão-nos, na sua obra L'Héritage de l'Abbé Saunière, um grande número de pormenores relativamente à sua demasiado fantasiada morte.
     Em primeiro lugar, Corbu e Captier referem que, apesar do estado degradado da saúde de Saunière durante o ano de 1916, a sua condição física deve ter melhorado um pouco no final de Dezembro, mas de forma inesperada, a meio do mês de Janeiro de 1917, o padre sofre um violento ataque. Não há qualquer certeza em relação ao dia em que Saunière sofreu este ataque. Sabe-se apenas que ele estava na biblioteca da Torre Magdala, e que este ataque deverá ter ocorrido poucos dias antes da sua morte, na alvorada de 22 de Janeiro, porque na altura do ataque, foi chamado o padre Jean Rivière, da aldeia vizinha de Espéraza, para lhe administrar os últimos sacramentos. Provavelmente, o ataque deverá ter ocorrido na véspera, a 21 de Janeiro.
     Apesar de ser um pormenor, os autores de referência sobre este tema não concordam entre si no diagnóstico da morte de Saunière: Corbu e Captier falam num ataque cardíaco23. Rivière fala em embolia cerebral24. O pouco fiável Gérard de Sède fala em derrame cerebral, e Lincoln repete-o. René Descadeillas apenas usa o termo “ataque”25, e Jean-Jacques Bedu é omisso neste aspecto.
     Diz o trio Lincoln, Baigent e Leigh, inspirado no relato de Gérard de Sède, que “a 17 de Janeiro de 1917, Saunière, na altura com sessenta e cinco anos, sofreu um súbito derrame cerebral.
     Mas porque usa Gérard de Sède a data de 17 de Janeiro?
     Esta data é curiosa, visto ser a data da morte da Marquesa Marie d'Hautpoul de Blanchefort, facto atestado pelo seu epitáfio. Este dia também coincide no calendário religioso com a festa de São Sulpício, nome do seminário onde Gérard de Sède afirma que Saunière terá confiado os pergaminhos ao abade Bieil e a Emile Hoffet. Mas, como refere Iannaccone26, a data 17 de Janeiro é particularmente apetecível para certas correntes do esoterismo francês, como poderemos ver adiante, noutro capítulo.
     Depois, podemos ler na obra do trio que «a 12 de Janeiro, segundo um recibo que temos em nossa posse, Marie Dénarnaud tinha encomendado um caixão para o pároco». O que quer isto dizer? A governanta encomendara um caixão para o padre Saunière dez dias antes da sua morte? Felizmente, a obra de Corbu e Captier contém uma reprodução deste recibo, onde podemos ler:

     "Recebemos de Marie Dénarnaud de Rennes-le-Château a soma de cento e sessenta francos, montante de um caixão em carvalho com aplicações para o senhor Saunière Bérenger padre em Rennes-le-Château. Pelo recibo da soma acima, Couiza, 12 de Junho de 1917, [assinatura ilegível]" 27

     Como se pode ver, trata-se de um erro de leitura, intencional ou não, porque o recibo está datado de 12 de Junho de 1917. A fraca legibilidade da palavra "juin" terá inspirado uma leitura um pouco forçada da palavra "janvier"? Claro que histórias destas, onde a governanta de Saunière surge a encomendar um caixão antes da morte do seu patrão, inflamam os espíritos atreitos a lendas e a mistérios policiais.
     Mas regressemos à crónica fantasiosa da morte de Saunière, para vermos com detalhe a questão da administração da extrema-unção ao padre... Diz o trio Lincoln, Baigent e Leigh:

     "O padre chegou rapidamente e retirou-se para o quarto do doente. Segundo testemunhas oculares, voltou a sair pouco depois, visivelmente abalado. Nas palavras de um dos relatos, «nunca mais voltou a sorrir». Nas palavras de outro, caiu numa depressão grave que durou vários meses. Quer estes relatos sejam exagerados ou não, o padre, presumivelmente com base na confissão de Saunière, recusou-se a administrar-lhe a Extrema-Unção. A 22 de Janeiro, Saunière morreu, sem absolvição." 28

     Saunière não morreu sem absolvição. Se Saunière, ouvido em confissão, não tivesse sido absolvido, isso seria equivalente a uma excomunhão, e o padre nunca teria tido direito a uma sepultura cristã. Ora Saunière foi enterrado sob todos os preceitos religiosos a que qualquer cristão, para mais um sacerdote, tem direito. Naquela manhã de 24 de Janeiro, Saunière foi a enterrar com missa solene às dez horas da manhã, uma cerimónia com sacerdote, diácono e sub-diácono29. Foi colocado numa sepultura que tinha sido preparada por ele, para uso próprio, durante os trabalhos de recuperação do cemitério30. A sepultura encontrava-se numa parcela que o padre comprara para si em concessão perpétua no ano de 190031. De volta ao relato do trio:

     "(...) o seu corpo foi sentado numa poltrona, no terraço da Tour Magdala, envolto num roupão ornamentado, adornado com borlas escarlates. Uma a uma, certas pessoas não identificadas desfilaram perante ele, muitas delas retirando borlas da roupa do morto como recordação. Nunca foi encontrada explicação para esta cerimónia. Os residentes actuais de Rennes-le-Château continuam tão perplexos como todas as outras pessoas." 32

     O trio quer transmitir a ideia errada de que o corpo de Saunière teria sido homenageado através de um rito exótico e secreto, e na cabeça dos mitógrafos, esta ideia teria correspondido à vontade do padre e dos seus pretensos amigos esotéricos. É o que se depreende da insinuação de que os “profanos” teriam ficado “perplexos” com este ritual. É grande o contraste entre a ficção que acabámos de ler, e a realidade, conforme exposta por Claire Corbu e Antoine Captier, que retratam deste modo aquilo que lhes contaram inúmeras testemunhas do acontecimento:

     "O padre, envolto numa toalha de mesa bordada com pompons encarnados, fora colocado num grande cadeirão. Cada mulher da aldeia ficara, por devoção, com um destes pompons. Certas pessoas viram nisto uma encenação desejada pelo padre Saunière e destinada a perpetuar um rito misterioso. Temos uma explicação mais simples e que nada tem de misterioso. O corpo do padre fora transportado para um cadeirão desde o seu quarto situado no rés-do-chão do presbitério até à sala de entrada da Villa Béthanie que se encontrava em frente. Mas se Marie, ajudada pelos seus pais, pôde transportá-lo até lá, era-lhes impossível levar o corpo do defunto até ao primeiro andar, onde se encontrava o quarto de vestir do padre. Assim, Marie teve que apelar a alguns homens da aldeia. Isto tomou-lhe algum tempo, durante o qual os habitantes de Rennes que tinham acorrido ao anúncio da notícia puderam ver o padre sentado no cadeirão. Ele tinha sido coberto com uma toalha de mesa, que se encontrava nessa mesma sala, para dissimular as suas roupas de noite." 33

Paramentos utilizados por Saunière O quarto de Saunière
Paramentos utilizados por Saunière O quarto de Saunière

 

 

Falsificações fotográficas

 

     Mas a mistificação não parece ter fim...
     Em 1997, no livro de Henry Lincoln, Key to the Sacred Pattern, surge uma fotografia interpretada pelo autor como sendo a do corpo de Saunière, prostrado em leito de morte, com uma mitra de bispo à sua cabeceira34. Contudo, a figura deitada não apresenta semelhanças com o padre Bérenger Saunière. Para mais, o quarto onde foi tirada esta fotografia não foi identificado. Não se encontra nenhuma divisão, nem no presbitério nem na Villa Béthanie, que se ajuste à fotografia. O autor britânico esforça-se por nos levar em mais uma estrada de mitos e lendas, sugerindo um novo enigma: porque estaria Saunière com a mitra bispal à cabeceira? Que estranhos acontecimentos entre ele e o seu bispo teriam conduzido a tão misterioso desfecho?

Saunière no seu leito de morte
De acordo com Henry Lincoln,
este seria Saunière no seu leito de morte

     Henry Lincoln enganou os seus leitores até Julho de 2005, mês em que o número 12 da revista francesa Pégase veio pôr fim a mais uma falsa pista35. Atribui-se ao investigador Morgan Roussel a descoberta de uma fotografia antiga, tirada ao mesmo cadáver na mesma divisão, mas de um ângulo ligeiramente diferente. O número 13 da mesma revista aprofunda a questão, sendo revelados todos os detalhes relativos à misteriosa fotografia. Ela provém originalmente de uma obra intitulada Le Père Jean, abbé de Fontfroide, editada em Toulouse pela editora Libraire Privat em 1896. Esta obra refere-se a um padre da localidade de Fontfroide, falecido a 12 de Novembro de 1892, ou seja, vinte e cinco anos antes da morte de Saunière! Deste modo, a misteriosa fotografia é, afinal, a do dito padre Jean de Fontfroide. A razão de ser da presença de uma mitra de bispo à cabeceira do leito de morte deste sacerdote deve-se ao facto de ele ter sido nomeado "abbé mitré", tendo adquirido os direitos equivalentes a um bispo.
     Mas não se trata da única falsificação fotográfica inserida por Lincoln no seu livro. Já é bem conhecida a famosa falsificação da "Fonte dos Amores", com a qual Lincoln presenteia os seus leitores com uma fotografia de um coração, segundo ele "gravado na pedra", na qual se poderia ler a inscrição "CALVET 1891", como que a sugerir uma confissão amorosa entre Saunière e a cantora de ópera Emma Calvet. Uma análise atenta da fotografia, como a que foi feita pelo investigador italiano Mariano Tomatis, mostra bem como esta fotografia é forjada: analisando ao detalhe o relevo do sulco da inscrição, é fácil constatar que se trata de uma inscrição gravada em moderno cimento, e não em pedra!

 

1 "Dans mon endroit natal un de nos grands chanteurs, Jérôme, avait fait des folies pour une installation. Un rhume lui a coupé le sifflet. Il est sains voix. Il a un modeste commerce à Paris. Il veut vendre son établissement. D'après ce que dit le public, il donnerait le tout à bon compte. On parle d'une douzaine de mille francs et l'installation en vaut soixante. Dans l'hypothèse, vous tireriez la révérence à Carcassonne, je vous patronnerais auprès de mon évêque et vous vivriez tranquille dans cette situation splendide. Vendez et ensuite nous verrons ce que nos pouvons faire." – Bedu, op. cit., p. 203.
2 Descadeillas, op. cit., p. 33.
3 "Nous ne pouvons que regretter votre décision concernant les frais préliminaires. Nous allons quand même nous occuper de votre affaire en recourant à nos moyens personnels aux conditions que vous nous proposez, mais nous doutons fort d'y réussir." – Descadeillas, op. cit., p. 34.
4 "Je ne puis que vous confirmer nos conditions. La banque Petitjean a coutume de poser ses conditions. C'est une maison assez ancienne et connue pour savoir ce qu'elle doit proposer, et n'accepte jamais de contre-proposition de ces clients. Vous êtes seul juge de votre côté de ce que vous avez à faire. Pour moi, personnellement, je n'ai pas à m'occuper de quoi que ce soit en dehors de la banque. Aucun client ne pourrait m'indemniser de ce que je perdrais si j'acceptais de m'occuper d'affaires en dehors de la maison. C'est d'abord une simple question d'honnêteté et ensuite est surtout mon intérêt. Inutile donc de compter sur mon concours. C'est regrettable et sourtout pour vous..." – Descadeillas, op. cit., p. 34.
5 "Lundi prochain 17, je serai dans l'Aude et vous le ferai savoir. Peut-être vous sera-t-il utile de me voir. Je n'ai pas entendu dire que la banque ait eu acquéreur pour vos propriétés. De mon côté, vous le savez, je ne puis en trouver qu'avec le concours de la banque à moins que vous n'ayez réussi par vos propres moyens. Il me semble, à moins que vous n'ayez plus envie de vendre, qu'il serait bon de se servir de la publicité pour aboutir. Si tel était votre avis, les conditions extrêmes que je pourrais vous faire pour vous être agréable seraient: commission, 3%; publicité, 600 fr. payables à vue, soit, vous voyez, à peut près mes conditions primitives. Si vous étiez décidé à employer ce moyen très efficace dans la plupart des cas, veuillez me le faire savoir et j'aurais le plaisir de venir vous rendre une nouvelle visite qui, celle-ci je l'éspère, vous amènerait le résultat espéré..." – Descadeillas, op. cit., pp. 34-35.
6 Descadeillas, op. cit., p. 35.
7 A acta da hipoteca está datada de 14 de Fevereiro de 1913, e figura em Limoux, na Conservatória das Hipotecas, sob o registo nº. 490, cfr. Descadeillas, op. cit., p. 36.
8 Descadeillas, op. cit., pp. 35-36.
9 A expressão deverá ter origem nos artigos do La Dépêche du Midi, assinados por Albert Salamon, baseados em entrevistas feitas a Noël Corbu, e que foram publicados em 1956.
10 Descadeillas, op. cit., p. 36.
11 De acordo com os registos contabilísticos da casa de Gaston Noubel, o padre Saunière devia 7.000 francos de um total de 10.000, desde o mês de Abril de 1910. Saunière terá pago 1.000 francos por ano até Fevereiro de 1914, altura em que a Guerra Mundial provocou a suspensão os pagamentos. Saunière não faria mais pagamentos a Noubel, e seria Marie Dénarnaud a regularizar ainda partes desta dívida em pequenos pagamentos, entre 1919 e 1925, cfr. Descadeillas, op. cit., p. 36. Estes detalhes foram comunicados a René Descadeillas em 1958 pelo próprio Gaston Noubel.
12 Bedu, op. cit., p. 208.
13 "C'est pour l'administration diocésaine de Carcassonne une profonde peine, mais un impérieux devoir de signaler aux fidèles que M. l'abbé Saunière, ancien curé de Rennes-le-Château, résidant actuellement au même lieu, a été par sentence de l'officialité en date du 5 décembre 1911, privé de ses pouvoirs sacerdotaux; qu'il ne doit plus célébrer le saint sacrifice et que, dès lors, il ne pourrait acquitter les honoraires de messes qu'on lui confierait."La Semaine Religieuse, 3 de Julho de 1915. Cfr. Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 226.
14 Cfr. Rivière, op. cit., p. 249.
15 Como explica Descadeillas (op. cit., p. 37), enquanto a Congregação do Concílio era um organismo administrativo superior, a Rota era um tribunal de contencioso, e portando o local adequado para se colocar um processo por difamação.
16 O que teria, para Saunière, como consequência directa e irreversível, a perda da possibilidade de interpor mais qualquer tipo de recurso à sentença. Mas, como vimos atrás, o cerne da defesa de Huguet não estava na contestação da veracidade da acusação, mas sim noutras questões de maior fácil manuseamento legal, como a invalidade da suspensão “a divinis” para lá dos seis meses da data da leitura da sentença, e a impossibilidade por parte do padre Saunière em efectuar a devolução dos bens.
17 Descadeillas, op. cit., p. 40.
18 É evidente que a questão girava apenas em torno dos donativos, visto que no caso das intenções de missa, não se tratava de uma oferta pessoal, mas sim de um pagamento à Igreja, por intermédio de Saunière. São questões bem diferentes. Huguet jogava pela tese de que a maioria dos fundos provinha de donativos de particulares, de forma a minimar o tráfico de intenções de missa.
19 A expressão usada é “consulat conscientiae suae”.
20 Rivière, op. cit., p. 249.
21 Corbu, Captier, op. cit., p. 251.
22 Claire Corbu é filha de Noël Corbu, e Antoine Captier pertence a uma família com longos anos em Rennes-le-Château.
23 Corbu, Captier, op. cit., p. 254.
24 Rivière, op. cit., p. 249.
25 Descadeillas, op. cit., p. 41.
26 Iannaccone, op. cit., pp. 132-133.
27 “Reçu de Mademoiselle Marie Dénarnaud de Rennes-le-Château la somme de cent soixante francs montant d'un cercueil en chêne avec garnitures pour Monsieur Saunière Béranger curé à Rennes-le-Château, Pour acquit de la somme ci dessus, Couiza, le 12 juin 1917,[assinatura ilegível]” – Corbu, Captier, op. cit., p. 258.
28 Lincoln, Baigent, Leigh, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, p. 57.
29 Corbu, Captier, op. cit., p. 255.
30 Marie Dénarnaud seria enterrada muitos anos mais tarde (em 1953) à sua esquerda.
31 Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château, p. 230.
32 Lincoln, Baigent, Leigh, op. cit., p. 57.
33 “L'abbé, drapé dans un tapis de table bordé de pompons rouges, avait été placé dans un grand fauteuil. Chaque femme du village emportait, par dévotion, un de ces pompons. Certains ont vu là une mise en scène voulue par l'abbé Saunière et destinée à perpétuer un rite mystérieux. Nous avns une explication plus simple et qui n'a rien de mystérieux. Le corps de l'abbé fut transporté dans un fauteuil depuis sa chambre située au rez-de-chaussé du presbytère jusqu'à la pièce d'entrée de la villa Béthanie qui se trouvait en face. Mais si Marie, aidée de ses parents, put l'amener jusque là, il leur était impossible de de monter le corps du défunt au premier étage où se trouvait la chambre d'apparat de l'abbé. Aussi Marie dut-elle faire appel à quelques hommes du village. Cela lui prit un certain temps, durant lequel les habitants de Rennes accourous à l'annonce de la nouvelle, purent voir l'abbé assis dans le fauteuil. On l'avait recouvert d'un tapis de table, pris dans la pièce même, pour dissimuler ses vêtements de nuit.” – Corbu, Captier, op. cit., pp. 254-255.
34 Key to the Sacred Pattern, p. 127.
35 Cfr. Mariano Tomatis, Due Fotografie Fasulle.

 


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