Um tráfico de missas

 

Índice

1. Introdução
2. As receitas de Saunière
3. Os salários Dénarnaud
4. As caixas de esmola
5. A disputa entre Gérard de Sède e René Descadeillas
6. Uma indústria de missas
 

 

     Em termos eclesiásticos, as obrigações de um padre estavam relativamente bem legisladas. Mais concretamente, Saunière deveria reger-se pelas ordenações impostas pelo bispo de Carcassonne, Monsenhor Billard, em 1886, sobre o destino das intenções de missa, sobre a compra de objectos para o culto e sobre a construção de vias-sacras:

Textos originais:

Honorários de missas:

     "MM. les curés, aumôniers et autres prêtres du Diocèse qui ne pourraient pas acquitter, dans le temps prescrit, toutes les messes qui leurs sont demandées, soit invités à déposer ces intentions, avec les honoraires, au Secrétariat de l'évêché, où l'on se chargera de les distribuer, à des prêtres du Diocèse qui en manqueraient."

Compra de objectos para o Culto:

     "Nous invitons fortement MM. les ecclésiastiques à ne point acheter d'objects nouveaux ou d'une forme insolite, sans avoir acquis la certitude que ces objects sont conformes aux prescriptions lithurgiques, et, dans le doute, sans avoir consulté l'Autorité."

Construção de vias-sacras:

    "Il est de notre devoir de rappeler que les procès-verbaux des érections des Chemins de Croix doivent être gardés, sous peine de nullité, dans les archives des Églises. Nous avons eu le regret de constater que cette formalité si simple, mais si importante, était négligée en beaucoup de lieux, et que les fidèles étaient privés de gagner les Indulgences."

Tradução:

Honorários de missas:

     "Os senhores curas, capelões, e outros padres da Diocese que não possam cumprir, no tempo prescrito, todas as missas que lhes sejam pedidas, são convidados a depositar as referidas intenções, com os respectivos honorários, ao Secretariado do Arcebispado, onde se encarregarão de as distribuir, a padres da Diocese que delas tenham falta."

Compra de objectos para o Culto:

     "Nós aconselhamos fortemente os senhores eclesiásticos a em nenhuma circunstância comprarem objectos novos ou de uma forma insólita, sem terem obtido a certeza de que os referidos objectos estão conformes com as prescrições litúrgicas, e, em caso de dúvida, sem terem consultado a Autoridade."

Construção de vias-sacras:

    "É o nosso dever lembrar que os processos verbais das construções das vias-sacras devem ser guardados, sob pena de nulidade, nos arquivos das respectivas igrejas. Nós tivemos o pesar de constatar que esta formalidade tão simples, mas tão importante, tinha sido negligenciada em vários locais, e que os fiéis ficavam privados de receber as Indulgências."

     Posto isto, era ilegal para um padre receber intenções e respectivos honorários de missas que não pudesse vir a cumprir. Mais, devia encaminhar todas as intenções que não pudesse cumprir para o Secretariado do Arcebispado.
     À partida, convém esclarecer um ponto muito importante. A prática de simonia (pelo tráfico de intenções de missa) por parte de Saunière é um facto comprovado. As provas de que Saunière se dedicou mais que uma vez a esta actividade foram utilizadas durante o seu processo eclesiástico, e consistiam em cartas mandadas para o bispo de Carcassonne, o superior directo de Saunière, por vários particulares e instituições, que desejavam encaminhar honorários de missas para o padre de Rennes-le-Château. Ora o problema é que um número considerável desses honorários não era declarado por Saunière à diocese, e logo, tinham o estatuto de missas adquiridas ilegalmente. Este é um ponto forte no ataque a Saunière durante o processo.
     O que importa averiguar é, antes de mais nada, a dimensão do comércio de intenções de missa, para se poder depois estabelecer a importância deste comércio nas receitas do padre. É quase certo que a fortuna anormal de Saunière pode ser justificada através dos donativos e das intenções de missa. Esta explicação é bem mais simples e provável que a descoberta de qualquer tesouro de dimensões significativas.

 

 

As receitas de Saunière

 

     Eram variadas as proveniências das receitas do padre. Grandes doações ajudaram a garantir a Saunière a estabilidade financeira necessária para realizar as suas obras. Estas doações não apareceram do nada, ou seja, Saunière teve que procurá-las. É sabido que ele fez bastante propaganda dos seus empreendimentos, não só na aldeia, mas também fora dela. Alegando a construção de um local de oração ao estilo de Lourdes e de Notre-Dame de Bon-Secours ele já deveria conseguir muitos donativos, mas terá recebido ainda mais quando começou a publicitar a ideia de construir um asilo e casa de retiro para os velhos padres das paróquias vizinhas. A Villa Béthanie, vista por muitos como uma casa demasiado luxuosa para um padre de aldeia (Saunière usava-a para receber amigos e padres conhecidos), era por ele definida como uma casa de retiro. Na verdade, Saunière não dormia lá, mas é sabido que a casa chegou a alojar bastantes convidados não eclesiásticos.

Um dos postais de Saunière, a Rue Béthanie vista de Este Outro dos postais de Saunière, a Rue Béthanie vista de Oeste
Um dos postais de Saunière,
a Rue Béthanie vista de Este
Outro dos postais de Saunière,
a Rue Béthanie vista de Oeste

     Durante cinco anos Saunière vendeu postais da aldeia, com várias vistas dos seus empreendimentos. Ele pretendia com estes postais, não só fazer algum dinheiro, claro, mas também fazer propaganda às suas obras. Os postais eram vendidos aos peregrinos e aos turistas. Vejamos então a lista das receitas, como ela foi apresentada pelo próprio padre:

Activo da situação financeira, escrito por Saunière aquando do processo de 1910
Activo da situação financeira, escrito por
Saunière aquando do processo de 1910

Item Descrição (dada por Saunière) Quantia (francos) Comentários
1 Economies de 30 ans de ministère 15.000 As economias de Saunière deviam incluir o seu salário, que nunca ultrapassou os 900 francos por ano.
2 Famille hospitalisée, gagnant 300 fr. par mois, a apporté en 20 ans 52.000 Contabilização dos ordenados da família Dénarnaud, que ele considerava como estando "hospitalizados" ou "asilados" no presbitério.
3 Madame de X. par son frère 25.000 Desconhece-se o nome desta benfeitora. Talvez Mme de Beauhorts de Narbonne?
4 Deux familles de la paroisse de Coursan 1.500 Doação ocorrida algures em 1885 ou 1886.
5 Madame Lieusère 400 A benfeitora era de Bizanet, e a doação ocorreu em 1891.
6 Pères Chartreux 400 Doação ocorrida em 1891.
7 Mgr Billard 200 Doação do bispo de Carcassonne, Félix-Arsène Billard, que deverá ter ocorrido em 1885 ou 1886.
8 La Comtesse de Chambord 3.000 A condessa encontrava-se em Frohsdorf no ano em que fez o donativo, 1886.
9 Madame Labatut 500 Moradora de Rennes-le-Château, fez a doação em 1891.
10 Quêtes dans la paroisse 300 Resultado de peditórios na paróquia.
11 Revenus de la Fabrique 500 Proveitos recebidos da confraria.
12 Patrimoine 1.800 Desconhece-se que património seria este.
13 Dons du père 800 Contribuição do pai de Saunière, Joseph.
14 M. de C. 20.000 esta enorme contribuição foi feita no período de dez anos entre 1895 e 1905. Saunière não precisa melhor o nome e a proveniência da benfeitora.
15 Troncs: une moyenne de 1200 frs. par an, pendant 15 ans 18.000 Dinheiro proveniente das caixas de esmolas localizadas no interior da igreja. Saunière afirma não ter os valores exactos destes proveitos, estimando uma média de 1.200 francos por ano, durante os 15 anos de funcionamento das caixas, desde que foram instaladas até à apresentação destas contas.
16 Loterie faite dans la paroisse 1.000 esta lotaria teve lugar em 1887.
17 Par l'intermédiaire du frère 30.000 Doação obtida através do irmão de Saunière, Alfred, proveniente talvez de Narbonne (entre 1895 e 1903).
18 Cartes postales, 60 fr. par mois, pendant cinq ans 3.600 Saunière vendeu durante cinco anos postais da aldeia, com fotografias da igreja, da Torre Magdala, etc., aos visitantes e peregrinos.
19 Vieux timbres 3.000 Venda de selos velhos.
20 Bandes et copies de lettres 1.000 Fitas (ou faixas) e cópias de cartas.
21 Vente de vin 1908 et 1909 1.600 Venda de vinho da aldeia, nos anos 1908 e 1909.
22 Vieux meubles, faiences et étoffes 4.000 Venda de móveis velhos, faianças e estofos (ou tecidos).
23 Caisse de retraites 800 Pensão de reforma.
24 Deux anonymes 1.000 Contribuição de duas entidades anónimas.
25 Travail personnel de M. le Curé, pendant 5 ans, à 3 fr. par jour 3.750 Trabalho pessoal efectuado por Saunière, durante 5 anos,
a 3 francos por dia.
26 Transports volontaires et gratuits 4.000  
       
  Total das receitas 193.150  

     Como justificação para estas contas, o padre apresentou as seguintes explicações (ver a carta de 25 de Março de 1911, que figura na página sobre o processo eclesiástico):

Texto original:

     "1º - Il y a vingt ans j'ai pris chez moi une famille composée du père, de la mère et de deux enfants. Le père et le fils gagnaient 300 francs par mois. Nos fonds étaient mis en commun. De là, la somme économisée de 52.000 Frs. La famille appartenait à l'industrie des chapeaux.
     2º - Le tronc était destiné aux visiteurs qui après avoir entendu nos explications sur Rennes-le-Château et accepté mes politesses récompensaient ma complaisance par une aumône qui en définitive, était un pourboire. Comme les baigneurs de Rennes-les-Bains et d'ailleurs étaient nombreux, ceci explique leur générosité.
     3º - La loterie eut lieu vers 1887.
     4º - mon frère, étant prédicateur, avait de nombreuses relations: il servit d'intermédiaire à ces générosités
     5º - Les cartes postales sont des vues de Rennes-le-Château, il y en a 33 à 0f 10c. l'une. Tous les baigneurs prennent la collection complète. Ces cartes ont un tel succès que je puis à peine leur en fournir. Ces cartes sont neuves et ma propriété.
     6º - ma collection de vieux timbres se chiffre par cent mille. Elle est complète, et pour la vente, je me conforme aux prix adoptés. Les amateurs trop heureux de se pourvoir ne marchandent jamais.
     7º - Les vieux meubles, faiences et étoffes sont le résultat de mes fouilles dans le pays. La vente me dédommage de mes recherches et de mes courses.
     8º - Les bandes et les copies je les fais faire par des jeunes gens, pour le compte de journaux et des prospectus. Ils sont satisfaits du prix que je leur offre et j'ai encore un avantage sur eux.
     9º - Pourquoi ne ferais-je pas figurer à l'actif les transports gratuits et mon travail personnel: n'était-ce pas une économie réele pour moi?"

Tradução:

     "1º - Há 20 anos recebi em minha casa, uma família composta pelo pai, pela mãe e por dois filhos. O pai e o filho ganhavam 300 francos por mês. Os nossos fundos eram postos em comum, e daí advém a soma de 52000 francos. A família pertencia (trabalhava na, N.T.) à indústria dos chapéus.
     2º - A caixa estava destinada aos visitantes que depois de ouvidas as minhas explicações sobre Rennes-le-Château e aceites as minhas atenções recompensavam a minha benevolência com uma esmola que na verdade, acabava por ser uma gratificação. Como os banhistas de Rennes-les-Bains e de outros lugares eram numerosos, isto explica a sua generosidade.
     3º - A lotaria foi efectuada por volta de 1887.
     4º - o meu irmão, sendo pregador, tinha numerosos contactos: ele serviu de intermediário a estas generosidades (ofertas, N.T.)
     5º - Os postais são vistas de Rennes-le-Château, e existem 33 a 0 francos e 10 cêntimos cada. Todos os banhistas compram a colecção completa. Estes postais fazem um tal sucesso que eu mal consigo fornecê-los. Os postais são recentes e são minha propriedade.
     6º - a minha colecção de selos velhos consiste em cem mil. Ela está completa e para a venda, conformo-me aos preços adoptados. Os amadores demasiado contentes de se proverem (dos selos, N.T.) nunca regateiam.
     7º - Os móveis velhos, faianças e tecidos, são o resultado das minhas pesquisas pela região. A venda compensa as minhas buscas e as minhas deambulações.
     8º - As fitas (ou faixas, N.T.) e as cópias, eu faço-as fazer por gente nova, para jornais e prospectos. Eles estão satisfeitos com o preço que lhes ofereço e ainda tenho lucro sobre eles (com o preço que lhes faço, N.T.).
     9º - Porque não fiz aparecer no activo os transportes gratuitos e o meu trabalho pessoal: não eram para mim uma economia real?"

     Os dados sobre as receitas que foram fornecidos por Saunière à comissão de inquérito (a tabela acima apresentada) contêm graves incongruências. É através da análise destas incongruências que se conseguirá estimar a massa total de receitas provenientes do comércio ilegal de missas. Note-se que na tabela dada não há nenhuma referência explícita ao dinheiro que entrou por esta via.

 

 

Os salários Dénarnaud

 

     A descrição das receitas da família Dénarnaud, dada por Saunière, não convence a comissão de inquérito, que exige explicações ao padre:

Texto original:

     "Nous ne comprenons pas ce que vous entendez par «famille hospitalisée gagnant 300 frs par mois et qui a apporté en 20 ans: 52.000 frs». Nous voudrions savoir comment vous justifiez ce chiffre; à quel moment, avez-vous pris cette famille et de combien de membres était-elle composée et comment a-t-elle pu gagner des sommes aussi considérables?"

Tradução:

     "Nós não compreendemos o que você quer dizer com «família hospitalizada que ganha 300 francos por mês e que produziu em 20 anos: 52.000 francos». Nós gostaríamos de saber como é que você justifica este número; em que altura recebeu esta família e de quantos membros era ela composta e como é que ela conseguiu ganhar somas tão consideráveis?"

     Saunière responde com a lista acima apresentada, na qual explica ponto por ponto a proveniência das suas receitas. A resposta de Saunière à questão da família Dénarnaud (ponto 1) é vaga e evasiva, além de escandalosamente falsa. O seu salário durante 15 anos (entre 1885 e 1900) seria algo perto de 900 francos por ano. Ora isto dá um total de 13.500 francos só para o seu salário neste período. Pode-se ver na tabela de receitas que a primeira entrada diz respeito a "economias de 15 anos de ministério", e tem associado o valor de 15.000 francos. Estas "economias" podem muito bem estar a representar o seu próprio salário. Assim, ficaríamos com um valor médio de 1.000 francos por ano, durante 15 anos, o que é um ordenado relativamente confortável e que poderá convincentemente corresponder à verdade.
     O problema é que Saunière diz, na sua resposta, que os salários dos Dénarnaud estão postos em comum com o seu no valor apresentado na segunda entrada. Mas assim, o seu salário apareceria em duas entradas distintas da tabela! Devido a este facto não se irá, para já, entrar em conta com o seu salário na análise que se segue. Veja-se primeiro o número dado por Saunière para o dinheiro que a família trouxe para casa durante os 20 anos: 52.000 francos. Isto dá uma média de 2.600 francos por ano. O pai e o filho trabalhavam os dois na indústria chapeleira, e assumindo-os como trabalhadores do mesmo nível, cada um traria para casa, e por ano, a quantia exorbitante de 1300 francos. Bem mais que o ordenado de Saunière! Além disso, assumindo que tanto o pai como o filho trabalhariam 10 meses por ano (com umas esplêndidas férias de dois meses), teriam um salário perto dos 130 francos por mês. Ora Saunière diz que eles traziam para casa 300 francos por mês! Não se percebe se ele se refere a 300 francos cada um, ou 150 francos cada um, totalizando 300 francos. Em qualquer caso, os números não encaixam. Imaginemos o caso menos escandaloso, em que os salários dos dois, por mês, somavam 300 francos. Assumindo que trabalhavam 10 meses apenas, renderiam a Saunière a quantia de 3.000 francos por ano. O que ao fim de 20 anos daria 60.00 francos!

     Visto que estas contas não resultam, imaginemos agora que Saunière estaria mesmo a incluir o seu ordenado no total de 52.000 francos: já se sabe que este valor resulta em 2.600 francos por ano. Usando o valor médio dos ordenados de Saunière, 900 francos, restariam 1.700 francos para serem ocupados pelos ordenados do pai e do filho. Assim, cada um deles poderia estar a ganhar 850 francos por ano. Só que o registo dos salários dos dois trabalhadores evidencia que estes trabalharam apenas 15 anos (o filho, porque o pai só trabalhou 13):

Ano Pai Dénarnaud (francos) Filho Dénarnaud (francos)
1894 912 Ainda não trabalhava
1895 944 361
1896 923 1046
1897 846 950
1898 895 902
1899 815 894
1900 652 992
1901 537 1010
1902 510 1005
1903 560 1280
1904 610 995
1905 555 903
1906 274 896
1907 Reforma-se a 2/2 826
1908 Reformado 842
1909 Reformado 860
     
Média 694,8 915,5
Total 9033 13732

     O dinheiro total auferido durante este período pelos dois trabalhadores é de 22.765 francos. Faltam 29.235 para chegar ao total de 52.000 francos apresentado por Saunière para os 20 anos. Adicione-se agora os 900 francos por ano, durante 20 anos, do salário de Saunière: dá 40.765 francos. Os restantes 11.235 francos devem-se a quê? E para além disto, onde é que se valida o valor de 300 francos apresentado por Saunière para os ordenados mensais dos dois trabalhadores?
     A justificação de que os restantes 11.235 francos poderiam vir dos salários de Marie Dénarnaud e de sua mãe, respeitantes aos serviços prestados por elas à paróquia, é razoável. 11.235 francos dá uma média de 281 francos por ano ganhos por cada uma delas. Mas esta hipótese, apesar de interessante, deve ser posta de parte, face a uma outra, bem mais convincente.

     Imagine-se que Saunière duplicou o valor dos ordenados da família Dénarnaud durante os 20 anos. Assim, em vez de 52.000 francos, eles teriam ganho no total apenas 26.000 francos. Estão certificados 22.765 francos respeitantes ao trabalho do pai e do filho na fábrica durante 15 anos. A pequena diferença dever-se-ia aos salários da mãe e da filha. Note-se que apesar de parecer que então as duas ganhariam pouco, com certeza Marie já estaria a receber algum dinheiro sem ser salarial. A ser verdadeira esta hipótese, então o ordenado de Saunière não estaria incluído nas receitas da família (não faz sentido que Saunière tenha juntado o seu salário ao deles na lista de receitas), os honorários de Marie Dénarnaud estariam omitidos ou propositadamente diminuídos, e, o pior de tudo, Saunière teria duplicado o verdadeiro valor das receitas, de 26.000 para 52.000 francos, de modo a ocultar uma misteriosa entrada de receitas, certamente originada pelas intenções de missa.

 

 

As caixas de esmola

 

     Durante a primeira fase de obras em Rennes, Saunière mandou instalar seis caixas de esmolas no interior da igreja, às quais somou uma outra, instalada em 1898, feita de carvalho velho, e que lhe custou 400 francos. Na lista de receitas que ele elaborou a entrada de dinheiro relativa às caixas de esmolas está descrita como sendo baseada numa média de 1200 francos por ano, e isto durante 15 anos. Este valor não deixa de impressionar: repare-se que as caixas de esmolas estariam, segundo Saunière, a render por ano mais que os lucros da lotaria realizada em 1887. Ou seja, estas caixas seriam responsáveis por uma verdadeira chuva incessante de dinheiro desde 1897. Claro que estes números suspeitos não passam despercebidos à Comissão:

Texto original:

     "Vous parlez des recettes du tronc, il nous semble extraordinaire qu'il ait produit, d'une façon aussi régulière une somme aussi élevée. Il n'est pas possible que, pour faire cette affirmation, vous n'ayez pas eu un cahier ou des notes fixant vos souvenirs, nous vous prions de nous en donner communication."

Tradução:

     "Você menciona as receitas da caixa de esmolas, e parece-nos extraordinário que ela tenha produzido, de uma forma tão regular uma soma tão elevada. Achando que não é possível que, para fazer uma afirmação destas, você não tenha um caderno ou alguns apontamentos, nós pedimos-lhe que deles nos dê conhecimento."

     Saunière responde à questão através do comentário ao ponto 2 da sua lista explicativa. Sempre de forma evasiva, o padre evita fornecer números sobre o rendimento das caixas de esmolas, que ainda por cima ele possui mas que nunca revela. A Comissão revela-se insatisfeita:

Texto original:

     "Nous vous avions demandé sur quels notes ou comptes vous vous étiez appuyé pour affirmer une recette annuelle et régulière de 1200 frs provenant du tronc et nous vous en demandions communication; vous n'avez pas répondu."

Tradução:

     "Nós tínhamos-lhe perguntado em que notas ou contas se tinha baseado para afirmar uma receita anual e regular de 1200 francos proveniente da caixa de esmolas e tínhamos-lhe pedido uma resposta; você não nos respondeu."

     Saunière responde como de costume, sempre sem dar nenhuma informação concreta:

Texto original:

     "Pour les produits du tronc j'ai indiqué la moyenne des rendements car je ne tenais pas de Registre-journal. Rennes-le-Château a son histoire, je la racontais aux visiteurs et comme ces derniers étaient des gens corrects appartenant au «high life», ils mettaient dans le tronc le pourboire qu'ils n'auraient osé proposer à leur «cicérone»."

Tradução:

     "Pelos produtos da caixa de esmolas eu indiquei a média dos rendimentos porque eu não tinha um registo. Rennes-le-Château tem a sua história, eu contava-a aos visitantes e como estes últimos eram pessoas correctas pertencentes ao «high life», eles colocavam na caixa de esmolas a contribuição que não ousavam propor ao seu «cicerone»."

     Não restam dúvidas de que o padre dilatou largamente as suas receitas. A atitude é compreensível. Ele não teria forma alguma de justificar convincentemente a proveniência das suas extraordinárias receitas. Com pouco sucesso, o padre tentou mascarar a situação exagerando nos montantes das suas despesas inocentes. A proveniência real da sua fortuna não era de forma alguma o achado de um tesouro. De seguida, ficará bem claro qual a origem das suas receitas e qual a verdadeira dimensão destas.

 

 

A disputa entre Gérard de Sède e René Descadeillas

 

     Gérard de Sède foi o primeiro grande instigador do mistério de Rennes-le-Château, muitas vezes associando-o às suas teorias sobre os mistérios dos Templários. Os seus livros começaram a inundar as livrarias em finais dos anos 60, e assim continuaram até 1988: L'or de Rennes (também publicado com o nome de Le trésor maudit de Rennes-le-Château, Editora Juillard, 1967), La Race Fabuleuse (1973), Le vrai dossier de l'énigme de Rennes (Vestric, Octogone, 1975), Les Templiers sont parmi nous (1976), Signé Rose-Croix (Editora Plon, 1977), Rennes-le-Château, le dossier, les impostures, les phantasmes, les hypothèses (Editora Robert Laffont, Mayenne, 1988).
     O livro Le vrai dossier de l'énigme de Rennes foi escrito como resposta ao livro de René Descadeillas (vide bibliografia geral), Mythologie du trésor de Rennes. Há que fazer uma honesta distinção entre os dois autores. Gérard de Sède, jornalista, é impulsivo, pouco cuidadoso e tendencioso. Adicionalmente esteve muitos anos em contacto com, e sob a influência de, certas personagens-chave na criação da versão deturpada do mistério de Rennes: Pierre Plantard, Phillipe de Chérisey, e outros como Jean-Luc Chaumeil. Assim, toda a sua obra apenas se encaixa, e perdoe-se a franqueza, ou na categoria de romances de gosto duvidoso (nunca foi essa a intenção do autor), ou no contentor do lixo. Infelizmente, é graças a Gérard de Sède que muitos leitores ainda acreditam em ideias erradas, em factos não comprovados, e em lendas fantasiosas. Gérard de Sède, recorde-se, fomentou de certa forma a vaga de escritores anglo-saxónicos que reinou durante os anos 80: Henry Lincoln, Michael Baigent, Richard Leigh, e outros como David Wood, Lionel Fanthorpe, Andrews e Schellenberger, entre muitos mais.
     Opostamente, René Descadeillas (1909-1986) é um desmistificador, é um historiador. Foi jornalista no Dépêche du Midi, foi bibliotecário municipal e depois conservador do Museu de Belas Artes de Carcassonne. Em 1974 publicou a sua obra Mythologie du trésor de Rennes, onde tentou pôr um fim às falsidades e às lendas, apresentando uma análise clara, científica, e apoiada historicamente. No seu livro, atacou, como não podia deixar de ser, o maior gerador de papel impresso sobre Rennes, Gérard de Sède. Este, furioso, respondeu com um livro em 1975. A questão fulcral que esteve subjacente a esta zanga e a um considerável trocar de insultos foi precisamente a do comércio ilegal de missas. Para Descadeillas, essa era a razão óbvia para as posses consideráveis de Saunière. Gérard de Sède, defensor da tese do tesouro (como não podia deixar de o ser), atacou fortemente as teorias de Descadeillas a este respeito.

     Importa agora falar um pouco sobre o que era a prática de comércio ou venda ilegal de missas, visto que hoje em dia tal prática deixou de fazer sentido. Muitas vezes os padres com escassos recursos aceitavam um donativo em troca da celebração de uma missa em memória de um ente querido, pelas melhoras de um familiar ou amigo, ou em agradecimento por algo. Sobretudo nas aldeias mais recuadas do interior, era comum pagar-se uma importância pela encomenda de uma missa. Muitos pedidos de missas, acompanhados das respectivas importâncias, provinham de conventos e de ordens religiosas. Ainda hoje é frequente oferecer-se algo ao sacerdote ao pedir uma missa por intenção de alguém. Há um século atrás, padres como Saunière, destacados para uma aldeia recuada, e dotados de um salário pouco elevado, tinham que recorrer a estes métodos, que dentro das regras estabelecidas, eram perfeitamente aceitáveis.

Carta de um pedido de missa (1916) - página 1 Carta de um pedido de missa (1916) - página 2 Carta de um pedido de missa (1916) - página 3
Carta de um pedido de missa,
de 27/12/1916. Primeira página
Segunda página Terceira página

     As regras eram simples: podia-se receber apenas o dinheiro referente a pedidos de missas que pudessem ser concretizados, o que é lógico. Sempre que um padre recebesse mais pedidos de missas do que as que tinha tempo para celebrar, deveria reencaminhar esses pedidos e correspondentes donativos para o secretariado do seu bispo. Os padres mais desfavorecidos poderiam solicitar essas missas junto do secretariado, que dirigiria para eles os excedentes. Deste modo, era o bispo que controlava esta fonte de recursos, tentando estabelecer um equilíbrio. Quando existia um excedente que não podia ser atribuído a nenhum outro sacerdote, o montante ficava na posse da tesouraria do bispado. Nunca nas mãos de um padre.
     Saunière, possivelmente inconformado com alguma injustiça nas distribuições dos excedentes de pedidos, ou mais certamente porque queria ter uma fonte segura de rendimentos, decide criar para si um pequeno negócio de missas. Inicialmente, não parece que o padre estivesse a ser desonesto, recebendo mais missas do que aquelas que podia celebrar, mas o mais certo é que Saunière se terá entusiasmado, pondo uma tal máquina em movimento que seria depois difícil de a travar. Em pleno processo eclesiástico, Saunière ainda recebia pedidos de missas, indo alguns deles parar às mãos do bispo de Carcassonne, o que provocava a sua fúria e o agravamento do processo. Em face das provas existentes hoje, parece que Saunière terá perdido o controlo do seu próprio negócio, que gerou uma quantidade de dinheiro que ele talvez não esperaria. Pouco tempo depois do seu início, o negócio tornou-se claramente ilegal quando o padre começou a receber mais pedidos de missas do que as cerimónias que podia celebrar. No seu caderno de notas encontram-se listas enormes de pedidos, ao lado das datas das correspondentes celebrações. A dada altura, Saunière começou a atrasar-se de tal modo nas missas que devia celebrar que foi tentado a passar à ilegalidade. Sigamos as explicações de René Descadeillas (pág. 29 do seu livro), que nos fala sobre este comércio:

Texto original:

     "De plus, à certaines périodes, le curé de Rennes recevait chaque jour une grande quantité de mandats: jusqu'à 100 et 150, portant de petites sommes allant de 5 à 40 francs. Certains lui étaient payés à Rennes; beaucoup d'autres étaient adressés poste restante à Couiza où il allait les monnayer. D'autres étaient au nom de Marie Dénarnaud. Une des receveuses qui les payait vivait encore en 1958.
     Ces mandats étaient d'origines très diverses. Beaucoup venaient de France; mais beaucoup aussi de Belgique, de Rhénanie, de Suisse, d'Italie du nord. Un grand nombre émanaient de communautés religieuses. Ces mandats représentaient des intentions de messe.
     L'abbé Saunière se livrait au traffic de messes."

Tradução:

     "Adicionalmente, em certas alturas, o padre de Rennes recebia em cada dia uma enorme quantidade de ordens de pagamento: até 100 e 150, trazendo pequenas somas que iam de 5 a 40 francos. Algumas (ordens de pagamento, N.T.) eram-lhe pagas em Rennes; muitas outras eram mandadas por vale postal em Couiza, onde ele ia trocá-las por dinheiro. Outras vinham em nome de Marie Dénarnaud. Uma das recebedoras que as pagava era ainda viva em 1958.
     Estas ordens de pagamento tinham origens muito diversas. Muitas vinham de França, mas também muitas da Bélgica, da Renânia, da Suiça, do norte de Itália. Um grande número provinha de comunidades religiosas. Estas ordens de pagamento representavam intenções de missa.
     O padre Saunière dedicava-se ao tráfico de missas."

Vale postal para o pagamento de 18 francos
Vale postal para o
pagamento de 18 francos

     Saunière dedicava-se então a um tráfico de missas. As pistas já apontavam nesse sentido, mas René Descadeillas foi pioneiro nesta área, porque possuindo poucos documentos (eles só foram publicados mais tarde), apresentou pela primeira vez a verdadeira origem da maioria dos recursos financeiros de Saunière. Como não podia provar o que afirmava, sofreu os ataques pusilânimes de Gérard de Sède. Veja-se este bom exemplo, do seu livro, escrito como resposta a Descadeillas em 1975:

Texto original:

     "Comme une messe valait à l'époque 50 cts, le curé n'aurait donc pu faire face à l'ensemble de ses dépenses qu'en se faisant payer en 10 ans 1.390.302 messes. La célebration d'une messe durant 1/2 heure, Saunière, s'il était honnête, aurait dû célébrer la messe 24h sur 24h, pendant 300 ans. Marathon liturgique sans précédent. A qui fera t-on croire que l'obscur pasteur d'un hameau perdu dans la haute vallé de l'Aude a pu, au moyen d'annonces et de lettres trouver assez de dupes pour payer 1.390.302 cérémonies ou pour lui adresser des dons d'un montant de 695.151 francs or?
     S'il recrutait ses dupes par correspondance, même dans le cas hautement improbable où un de ses correspondants sur deux lui commandait une messe, il aurait fallu qu'il écrive 278.604 lettres, c'est à dire 794 lettres par jour, ou encore, une lettre toutes deux minutes sans s'interrompre pour manger, boire et dormir pendant dix ans; le roman Descadeillas du trafic de messes est, comme on le voit, une fantasmagorique ineptie."

Tradução:

     "Como uma missa valia na altura 50 cêntimos, o padre não poderia então fazer face ao conjunto das suas despesas do que se fazendo pagar em 10 anos 1.390.302 missas. Durando a celebração de uma missa 1/2 hora, Saunière, se fosse honesto, teria que celebrar a missa 24h sobre 24h, durante 300 anos. Maratona litúrgica sem precedente. Quem se poderá convencer que o obscuro pastor de uma aldeola perdida no alto vale do Aude teria podido, através de anúncios e de cartas encontrar tantos papalvos para pagar 1.390.302 cerimónias ou para lhe entregarem dons no montante de 695.151 francos ouro (o franco chamava-se franco ouro, N.T.)?
     Se ele recrutasse os seus papalvos por correspondência, mesmo no caso altamente improvável no qual um dos seus correspondentes de entre dois lhe encomendasse uma missa, teria sido preciso que ele escrevesse 278.604 cartas, ou seja 794 cartas por dia, ou ainda, uma carta a cada dois minutos sem interromper para comer, beber e dormir durante dez anos; o romance Descadeillas do tráfico de missas é, como se pode ver, uma inépcia fantasmagórica. "

     Cá temos Gérard de Sède no seu melhor estilo. Como sempre, sem razão alguma. Duas premissas erradas: o valor das missas e a honestidade de Saunière. O valor de uma missa, no caso das dádivas oferecidas a Saunière, oscilava em média entre os valores de 1,50 francos e 2 francos. O que divide o número de missas necessárias avançado por De Sède por quatro: 347575,5 missas. Será possível mostrar mais adiante que por carta Saunière recebia não o pedido de uma missa, mas o pedido de 10, 20, 30 ou mais missas. Assim, o número de cartas desce vertiginosamente. E isto assumindo que o montante das receitas necessárias é mesmo o avançado por De Sède, 695.151 francos, e que se está a ignorar pura e simplesmente os dons de particulares e as restantes fontes de receitas do padre. Adicionalmente, De Sède avança sobre a segunda premissa errada: a honestidade de Saunière. Com todos estes dados, as justificações do jornalista caem na lama.
     As afirmações de Gérard de Sède estão imbuídas de uma cólera imensa, visto que em 1967, no seu primeiro livro sobre Rennes, ele admitia que as ordens de pagamento chegavam a Rennes às vezes aos montantes de 100 ou 150 francos por dia. Mais tarde, no seu livro de resposta a Descadeillas, o autor dá o dito por não dito, atacando irracionalmente o tráfico de missas e o seu defensor. Veja-se mais este infeliz exemplo, condenável pela atitude, mas sobretudo pela tremenda falta de razão:

Texto original:

     "Cessons de perdre notre temps avec Monsieur le conservateur des hypothèses. Puisqu'il est si simple selon lui, de gagner 1/2 millions en 10 ans à Rennes-le-Château, qu'il aille donc y rédiger des petites annonces. Avec l'argent ainsi récolté, qu'il construisse une maison de retraite pour historiens fatigués. Il en sera le plus bel ornement. L'été, on le montrera aux touristes, parmi les autres curiosités."

Tradução:

     "Cessemos de perder o nosso tempo com o Senhor conservador de hipóteses. Como é, segundo ele, tão simples ganhar 1/2 milhão em 10 anos em Rennes-le-Château, que ele vá então redigir pequenos anúncios. Com o dinheiro assim recolhido, que ele construa uma casa de retiro para os historiadores cansados. Ele será o mais bonito ornamento. No Verão, monstrá-lo-emos aos turistas, entre outras curiosidades."

     Com esta infeliz disputa conseguiu-se iludir mais uns tantos milhares de leitores e investigadores, e conseguiu-se, pelo menos por uns tempos, denegrir a imagem de um historiador sério como Descadeillas. Mas tudo isto já se passou há muitos anos e hoje é possível analisar as provas e estabelecer definitivamente que a principal fonte de receitas de Saunière provinha de um tráfico de missas.

 

 

Uma indústria de missas

 

     Como conseguia Saunière obter tantos pedidos? Através de cartas e anúncios em jornais: Saunière escrevia para muitas pessoas, alguns nomes eram obtidos por intermédio do seu irmão Alfred, e colocava anúncios numa série de periódicos regionais, nacionais, e mesmo internacionais! O padre geria minuciosamente todo o processo, evitando mandar duas vezes a mesma carta para alguém, utilizando um método de rotação que permitia não exasperar os doadores, e controlando as cidades onde colocava anúncios através de uma lista bastante extensa. O padre anotava no seu caderno as cidades onde publicava anúncios, como se pode comprovar por esta lista impressionante:

Lista de cidades onde Saunière publicava anúncios - página 1 Lista de cidades onde Saunière publicava anúncios - página 2
Lista de cidades onde Saunière
publicava anúncios - primeira página
Segunda página

     As cartas com ofertas chegavam-lhe todos os dias em número considerável. Eis alguns exemplos, retirados do livro de Claire Corbu e Antoine Captier, L'heritage de l'abbé Saunière (o primeiro e o segundo exemplos), e do livro de Pierre Jarnac, Histoire du trésor de Rennes-le-Château (o terceiro exemplo):

Exemplo 1:

     "Je vous envoie sous ce pli la somme de deux cent cinquante francs, montant de deux cent cinquante honoraires de messes à 1 F dont 124 pour nos soeurs décédées."

Tradução:

     "Envio-lhe neste sobrescrito a soma de duzentos e cinquenta francos, montante de duzentos e cinquenta honorários de missas a 1 franco, dos quais 124 para as nossas irmãs defuntas."

Exemplo 2:

     "Je vous adresse ci-inclus un mandat poste de 45 F pour 30 messes que je vous prie de dire à la suite de celles que je vous avais demandées le 1er août. Je recommande tout particulièrement à vos bonnes prières mon cher petit soldat et mon pauvre mari."

Tradução:

     "Envio-lhe um vale postal de 45 francos para 30 missas que eu vos peço que rezeis a seguir às que já lhe tinha pedido a 1 de Agosto. Recomendo particularmente às vossas boas orações o meu querido pequeno soldado e o meu pobre marido."

Exemplo 3 (de uma freira):

     "Ayant encore quelques messes à distribuer pour notre vénérée supérieure, j'ai l'honneur de vous addresser ci-inclus un nouveau mandat poste de 16 F pour les messes à l'intention de cette chère défunte. Elle était toujours heureuse de vous transmettre celles dont la soeur Eulalie la chargeait pour vous."

Tradução:

     "Tendo ainda algumas missas para distribuir pela nossa venerada superiora, eu tenho a honra de lhe enviar um novo vale postal de 16 francos para as missas por intenção desta querida defunta. Ela comprazia-se sempre de lhe transmitir aquelas que a irmã Eulália lhe entregava para vós."

     É possível encontrar no diário do padre uma folha que ele intitulou "annonces adresses" ("anúncios endereços"), na qual estão escritas algumas moradas de periódicos para os quais o padre enviava os seus anúncios. Não existe uma lista completa ou até aproximada dos periódicos nos quais Saunière colocava anúncios, porque deveriam ser muitos mais do que os presentes nesta folha, e também não há exemplos dos anúncios ou dos textos dos anúncios que comprovem este facto definitivamente, mas em face do que existe, há fortes probabilidades de que o padre recorria em larga escala aos jornais e às revistas para aumentar o seu caudal de intenções de missas. Eis algumas moradas tiradas da referida folha: "L'Écho de la Semaine, journal hebdomadaire illustré, Victor Tissot, Paris, rue Laffite 34.", "Le Musée des enfants, journal mensuel, Éditeur rue de Metz 41, Lille.". O padre também colocava anúncios nos jornais de maior tiragem: Semaine Religieuse, La Croix, L'Éclair, L'Express du Midi, L'Univers, Le Télégramme, entre outros.

     Esclarecido o modo como Saunière estabelecia os contactos e obtinha as intenções de missa, passemos à análise dos documentos existentes. Antes de mais, convém referir que, infelizmente, os documentos não estão completos, ou seja, há bastantes lapsos temporais nos registos do padre. Porém, o que está documentado permite claramente comprovar que este se dedicava ao tráfico de missas. Adicionalmente, como se poderá verificar, o padre pôs em funcionamento uma máquina que não iria cessar de lhe fornecer receitas até ao fim da sua vida. Deste modo, em relação aos períodos não documentados podem-se fazer estimativas razoáveis, uma vez que a recepção de intenções de missas, que nos melhores anos se fazia numa base diária, nunca deve ter sido interrompida.

     O padre apoiava a sua memória recorrendo a três importantes documentos: o seu diário, no qual anotava a correspondência que recebia e que enviava; a sua lista de intenções de missa, com informação relativa à origem e quantia de cada uma; e o seu caderno contabilístico com o registo das receitas, despesas e respectivo saldo mensal.

Caderno de correspondência - Janeiro de 1896 Caderno de correspondência - outra página Caderno de correspondência - outra página Caderno de correspondência - outra página
Caderno de correspondência
Janeiro de 1896
Outra página Outra página Outra página

     Na secção do seu diário onde ele anotava a correspondência, encontramos referência a quatro tipos distintos de correio: pedidos de missas, recepções de intenções (com respectivos donativos), avisos de recepção, e correio normal. O padre utilizava, como se pode constatar pelas imagens, a letra "E", representativa de "Envoyé", "enviado", para assinalar as cartas que mandava, fossem pedidos de missas, avisos de recepção, ou outras cartas normais. Para assinalar as recepções de intenções, ele usava um "R", de "Reçu", "recebido". Neste diário, o padre organizava a informação através de uma tabela de cinco colunas (por ano), colocando em cada uma, respectivamente, o nome do correspondente, o tipo "E" ou "R", a descrição da carta, o mês, e o dia. Esta actividade, como se pode comprovar pela quantidade de correspondência, devia ocupar-lhe uma parte não negligenciável do dia. Certamente que para poder fazer face a tantos pedidos de intenções, dos quais provavelmente só uma parte é que recebia retorno, Saunière deveria ter uma carta de modelo, que ele se limitava a copiar, assinando no fim. E deveria proceder do mesmo modo para as cartas de aviso de recepção.

Lista de intenções de missa - exemplo de uma página Lista de intenções de missa - outra página
Lista de intenções de missa
Exemplo de uma página
Outra página

     Na sua lista de intenções de missa, o padre mantinha o controlo das entradas de dinheiro por esta via, arrumando a informação em cinco colunas, respectivamente, a data (mês e dia), o nome do doador, o tipo de intenção (por intenção ou por defuntos), o valor de cada missa (em francos) marcando com um "R" os montantes recebidos (devido a virem muitos por vale postal, que Saunière ia levantar à gare de Couiza), e na última coluna, o dia em que a intenção foi cumprida. E aqui é que reside a informação mais importante.
     Repare-se nos dois documentos acima apresentados. Por exemplo, nas primeiras três linhas da página da esquerda, encontram-se três intenções de missas, mandadas pelo seu irmão Alfred, a 30 de Julho (provavelmente de 1892). As missas foram recebidas com o pagamento respectivo (daí a letra "R"), a 1 franco cada. Na última coluna, estas três primeiras intenções foram agrupadas, e rezadas na missa de 19 de Abril de 1893. Segundo a lei, os padres poderiam rezar, no máximo, três intenções por dia, que poderiam ser ditas ao mesmo tempo numa única missa diária, ou distribuídas em cerimónias ao longo do dia. O que importa sublinhar é que o número máximo era de três por dia. Os excedentes, como atrás foi referido, deviam ser canalizados para o bispo para serem distribuídos por padres mais carenciados.
     Nas duas páginas que são apresentadas acima, vê-se bem que o padre ainda estava na sua fase de honestidade, porque apesar de ter que rezar praticamente três intenções por dia (salvo as duas que rezou a 21 de Abril, a semana de intervalo que se seguiu, e a única que rezou a 8 de Maio), ele estava a cumprir com a lei, apesar de trazer já um atraso não inferior a 9 meses e 19 dias, se considerarmos que as datas da primeira coluna são de Julho e Agosto de 1892. Como se pode ver pelas páginas seguintes, que provêm do mesmo caderno, mas de anos posteriores, a dada altura, Saunière passou para o lado da desonestidade, quando percebeu que já não conseguia sequer celebrar as três intenções por dia em condições de dar saída a todos os pedidos.

Lista de intenções de missa - Agosto e Setembro de 1909 Lista de intenções de missa - Setembro, Outubro e Novembro de 1909 Lista de intenções de missa - Junho e Julho de 1914
Lista de intenções de missa
Agosto e Setembro de 1909
Setembro, Outubro e
Novembro de 1909
Junho e Julho de 1914

     Tendo tido necessidade de reestruturar a tabela, Saunière passou a registar a informação sem precisar o dia em que ele rezava as intenções. E isto, porque (veja-se nos documentos que ele já recebia intenções às dezenas, e por vezes centenas, por dia) o padre já não as rezava. Páginas como estas, retiradas da sua lista de intenções de missa, existem às dezenas! É possível ler na página do mês de Janeiro de 1894 (documento não apresentado), no dia 9, a indicação "arrêté lá" ("parei aqui"). A partir desta data, Saunière deixaria de preencher a quinta coluna respeitante às datas das celebrações, entrando na clandestinidade. Esta decisão terá sido tomada por simples constatação do facto de que ele já não conseguia evitar um atraso imenso entre a recepção das intenções e a sua celebração.
     Importa agora cruzar a informação dos três documentos (correspondência, intenções de missa, e caderno contabilístico) e averiguar se pelo menos os registos referentes às intenções coincidem. Tomar-se-á a título de exemplo o mês de Janeiro de 1896:

Página do caderno contabilístico - Janeiro e Fevereiro de 1896
Página do caderno contabilístico
Janeiro e Fevereiro de 1896

     Através da consulta do caderno contabilístico para este mês, podemos retirar a seguinte informação respeitante às receitas:

Descrição Tradução Montante (em francos)
Reste du vieux compte Saldo da conta anterior 219,60
trimestre Salário trimestral de Saunière 225
de M. Degua do senhor Degua 50
de M. Pons do senhor Pons 9,70
de M. Escargueil do senhor Escargueil 11,70
argent des chaises dinheiro das cadeiras (venda) 12
de messes de missas (intenções) 6
de M. Cantegril do senhor Cantegril 30
de M. Valez do senhor Valez 40
de M. Sige do senhor Sige 60
de M. Cantie do senhor Cantie 18
de M. Cathala do senhor Cathala 33,65
de M. Reynes do senhor Reynes 55
de M. Raynaud do senhor Raynaud 27
de chaises et messes de cadeiras e missas 5,50
de M. Lignon do senhor Lignon 40,50
de M. Cazal do senhor Cazal 54
de chaise et 1 messe de cadeira e 1 missa 6,50
de chaises de cadeiras 6
de M. Mario do senhor Mario 50
     
Total   960,15

     Nesta tabela do mês de Janeiro constam 13 entradas de dinheiro respeitantes a intenções de missas de origem clara porque estão associadas a 13 nomes de doadores. Como podemos dizer que são intenções de missas uma vez que Saunière as regista na contabilidade como se fossem dons? Porque os mesmos 13 nomes surgem no registo de correspondência de Saunière como correio recebido (com a descrição "envoi de messes", "envio de (intenções) de missas"). Eis as pessoas que mandaram intenções a Saunière neste mês de Janeiro: Cantegril, Cantie, Cathala, Cazal, Degua, Escargueil, Lignon, Mario, Pons, Reynes, Raynaud, Sige e Valez. Precisamente os mesmos 13 que figuram na contabilidade.
     Tendo-se verificado que, pelo menos neste mês, a contabilidade ajusta-se ao registo da correspondência, resta observar a lista de intenções de missas respeitante a Janeiro de 1896 (cópia do documento original não apresentada):

Dia do mês Doador Número de missas Valor unitário Valor total
10 Escargueil 8 1,50 12
13 Valez 51 1 51
14 Sige 41 1,50 61,50
17 Cantie 12 1,50 18
17 Cathala 24 1,50 36
18 Reynes 55 1 55
19 Raynaud 10 1,50 15
22 Lignon 27 1,50 40,50
30 Mario 33 1,50 49,50

     Como se pode constatar, Saunière omitiu quatro nomes, cujas intenções podemos retirar da contabilidade:

Doador Montante (francos) Número de missas (estimado a 1F)
Pons 9,70 9
Degua 50 50
Cantegril 30 30
Cazal 54 54

     Assim, da sua lista de intenções de missa, o padre riscou um total de 143 missas (assumindo que valiam 1 franco). É possível verificar que ele procedeu do mesmo modo em meses posteriores, fazendo sempre desaparecer algumas intenções. Por exemplo, em Fevereiro do mesmo ano, desapareceram da lista de intenções um total de 63 missas. Pode-se também constatar que frequentemente sucede algo diferente: Saunière regista a recepção de intenções, mas não as coloca na contabilidade. Muito provavelmente, o padre deveria oferecer algumas das suas missas a padres amigos, como retribuição por intenções que lhe teriam sido oferecidas.
     Importa também destacar os montantes que por vezes surgem na contabilidade, sem estarem registados no caderno de correspondência e na lista de intenções. Neste caso, a situação é perfeitamente legal: tratam-se de dons. A quantidade de dinheiro que Saunière recebia por esta via é também considerável. O padre procurava obter estes dons, alegando junto dos visitantes ou dos seus contactos a necessidade de restaurar a igreja de Sta. Maria Madalena, ou a construção de uma casa de retiro para os padres idosos e doentes.

     Para terminar, apresenta-se a lista das intenções de missas cujos registos sobreviveram. Alguns períodos sobrepõem-se porque provêm de folhas distintas, mas não contêm as mesmas missas. Nesta lista faltam os seguintes períodos: antes de 1892, de Dezembro de 1897 a Maio de 1907, de Outubro de 1907 a Maio de 1909, de Maio a Dezembro de 1910, de Abril a Agosto de 1911, de Setembro a Novembro de 1913, de Maio a Outubro de 1915, e a totalidade do ano de 1916. Mesmo faltando tantos registos, já é possível ficar com uma ideia da quantidade de receitas que esta indústria gerava. A tabela que se segue foi retirada do livro de Jean-Jacques Bedu (ver bibliografia), que esteve na posse de todos os registos de intenções de missas que sobreviveram.

Período Número de missas Valor
(em francos)
Média diária
(em francos)
Janeiro de 1892 a Dezembro de 1892 747 955 2,6093
9 de Julho de 1892 a 30 de Setembro de 1896 7294 9188 5,9469
10 de Outubro de 1896 a 30 de Novembro de 1897 5820 7275 17,446
31 de Maio de 1907 a Setembro de 1907 104 208 1,6911
3 de Junho de 1909 a 22 de Julho de 1909 1091 1146 57,3
26 de Julho de 1909 a 13 de Setembro de 1909 1252 1387 27,74
14 de Setembro de 1909 a 6 de Novembro de 1909 1142 1144 21,1852
6 de Novembro de 1909 a 31 de Dezembro de 1909 1290 1327 23,6964
13 de Janeiro de 1910 a 25 de Abril de 1910 738 1566 15,2039
Janeiro de 1911 729 816 26,3226
4 de Fevereiro de 1911 a 30 de Março de 1911 843 924 16,8
1 de Setembro de 1911 a 6 de Novembro de 1911 935 966 14,4179
7 de Novembro de 1911 a 27 de Dezembro de 1911 735 794 15,5686
13 de Janeiro de 1912 a 7 de Março de 1912 878 977 17,7636
8 de Março de 1912 a 7 de Maio de 1912 753 959 15,7213
8 de Maio de 1912 a 14 de Julho de 1912 958 1136 16,7059
19 de Julho de 1912 a 10 de Setembro de 1912 729 798 14,7778
18 de Setembro de 1912 a 12 de Novembro de 1912 835 918 16,3929
13 de Novembro de 1912 a 8 de Janeiro de 1913 1065 1238 21,7193
9 de Janeiro de 1913 a 13 de Março de 1913 1083 1321 20,6406
13 de Março de 1913 a 6 de Maio de 1913 837 937 17,0364
7 de Maio de 1913 a 30 de Junho de 1913 701 778 14,1455
7 de Julho de 1913 a 24 de Agosto de 1913 752 829 16,9184
9 de Dezembro de 1913 a 28 de Janeiro de 1914 926 1046 20,5098
1 de Fevereiro de 1914 a 2 de Abril de 1914 838 894 14,6557
2 de Abril de 1914 a 31 de Maio de 1914 914 1037 17,2833
2 de Junho de 1914 a 31 de Julho de 1914 1046 1126 18,7667
Agosto de 1914 a 31 de Outubro de 1914 1080 1277 13,8804
1 de Novembro de 1914 a Janeiro de 1915 978 1195 12,9891
13 de Janeiro de 1915 a 26 de Fevereiro de 1915 800 868 19,2889
1 de Março de 1915 a 9 de Maio de 1915 1066 1202 17,1714
8 de Novembro de 1915 a 30 de Dezembro de 1915 783 889 16,7736
       
Total 39.742 47.121  

     Na última coluna da tabela colocou-se o resultado de uma conta simples: a média diária em francos (dentro do período descrito por cada registo) que Saunière recebia pelas intenções de missas. A evolução desta média diária pode ser observada de forma mais clara através do seguinte gráfico:

Gráfico das receitas médias diárias, baseado nos 32 registos de intenções de missas existentes
Gráfico das receitas médias diárias, baseado nos 32 registos de intenções de missas existentes

     Note-se que após um crescimento heterogéneo e turbulento ao início, segue-se uma fase constante, o que evidencia bem a segurança que esta fonte de receitas ofereceria a Saunière. Apesar de cada coluna deste gráfico representar um período de duração diferente, será possível com estes dados efectuar uma previsão das receitas para os períodos em falha. A previsão, para que contenha um erro baixo, será feita admitindo para cada período em falta uma receita média diária igual ao valor médio entre a receita anterior e a seguinte. Veja-se então a seguinte tabela, com as estimativas para os períodos não documentados. Na tabela, os períodos desconhecidos foram arredondados (quando razoável) ao início ou fim do mês:

Período Receita média
anterior
Receita média
posterior
Receita estimada Total estimado
Antes de 1892 ? 2,6093 ? ?
1 de Dezembro de 1897
a 30 de Maio de 1907
17,446 1,6911 9,5686 33184
1 de Outubro de 1907
a 31 de Maio de 1909
1,6911 57,3 29,4955 17963
1 de Maio de 1910
a 31 de Dezembro de 1910
15,2039 26,3226 20,7632 5087
1 de Abril de 1911
a 31 de Agosto de 1911
16,8 14,4179 15,609 2388,2
1 de Setembro de 1913
a 30 de Novembro de 1913
16,9184 20,5098 18,7141 1703
10 de Maio de 1915
a 31 de Outubro de 1915
17,1714 16,7736 16,9725 2970,2
1 de Janeiro 1916
a 31 de Dezembro de 1916
16,7736 ? 16,7736 6139,1
         
Total estimado       69434,5

     Na tabela acima apresentada, não se fez uma estimativa para o período anterior a 1892 (não se sabe quando teve início a recepção de intenções de missa). Em relação ao ano de 1916, tendo Saunière morrido a 22 de Janeiro de 1917, não se consideram as intenções que ele poderia ter recebido neste seu último mês de vida, assumindo-se que a recepção de intenções terminou a 31 de Dezembro. Note-se que todas estas premissas apenas diminuem o verdadeiro valor das receitas, valor este impossível de determinar com precisão por falta de dados.

     Uma vez que as duas primeiras estimativas podem estar demasiado exageradas porque foram efectuadas junto a períodos de entrada muito elevada de dinheiro (que se poderia dever a um único doador mais generoso), convém apresentar um segundo valor para este total estimado, em que nos primeiros dois períodos se faz o cálculo usando como receita média diária o valor mais baixo dos intervalos adjacentes. Assim, de 1 de Dezembro de 1897 a 30 de Maio de 1907, em vez de se estimar a 9,5686, estima-se a 1,6911 francos, o que dá a quantia de 5864,7. Na estimativa seguinte, usa-se também a média diária menor (1,6911) para se obter a quantia de 1029,9. Com estas correcções, o total estimado por defeito para os períodos desconhecidos é de 25182,1 francos.
     Deste modo, podemos chegar às seguintes conclusões acerca das receitas desta verdadeira indústria de intenções de missas:

Receitas dos períodos conhecidos 47121
Estimativa para os períodos desconhecidos
(valor mínimo)
69434,5
(25182,1)
Total
(valor mínimo)
116555,5
(72303,1)

     Saunière apresentaria à comissão de inquérito, durante o seu processo eclesiástico, o montante de 193000 francos para o total das suas despesas em Rennes-le-Château. Verdadeiro ou não, Saunière deveria querer apresentá-lo bem alto, logo, se o valor verdadeiro não for este, será com certeza mais baixo. Veja-se bem quanto as receitas vindas das intenções de missas conseguiam cobrir deste valor de despesas: mesmo usando a estimativa mais baixa, perto de 37,5% das despesas teriam sido pagas com estas receitas. Usando valores mais próximos da verdade, o total estimado de 116555,5 face ao valor de Saunière (possivelmente inflacionado), mostra uma percentagem de 60,4%. E tudo isto sabendo que o padre fazia desaparecer constantemente uma parcela das intenções que recebia!
     Parece não ter restado margem para dúvidas em relação à principal fonte de financiamento de Saunière. Além dos dons, que não seriam nada modestos, Saunière possuía uma fonte constante de receitas que lhe permitia manter um activo contabilístico seguro. Através de esquemas vantajosos de pagamento por prestações o padre conseguia equilibrar a sua balança de despesas e receitas. Desta forma, não tinha necessidade nenhuma de encontrar um tesouro. Ao desistir de celebrar as missas que lhe encomendavam (evitando assim a necessidade de executar uma verdadeira maratona litúrgica, usando as palavras de Gérard de Sède), Saunière estava a criar o seu próprio tesouro.
     Não é, contudo, de desprezar a possibilidade de Saunière ter achado um pequeno tesouro nas suas primeiras intervenções na igreja. Este achado permitir-lhe-ia financiar as obras de recuperação, numa altura em que o comércio de missas ainda não tinha sido iniciado ou estava a gerar receitas legais e de pequena dimensão (de 1885 a 1892).
     Ficou também provado que, eliminando as intenções de missas do seu justificativo de receitas (apresentado no início desta página), Saunière estava a aldrabar a comissão de inquérito, e teria que necessariamente inflaccionar algumas receitas, como os salários Dénarnaud, as caixas de esmola, e outras. Na próxima página será apresentado um resumo do processo eclesiástico que foi instaurado pelo bispo de Carcassonne contra Saunière, para que fosse averiguada a verdadeira origem dos seus fundos.

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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