A via-sacra

 

     Ao longo da nave da igreja podemos observar as catorze estações da via-sacra dispostas lateralmente. A via-sacra representa nestas catorze estações os episódios mais marcantes na Paixão e Morte de Cristo. Esta tradição tem origem franciscana e reproduz a "via dolorosa", ou seja, o percurso feito por Jesus desde o Tribunal de Pilatos até ao Calvário (ou "Golgothá", "lugar do crânio"), em Jerusalém. Os franciscanos idealizaram-na como sendo composta por catorze episódios e a tradição católica tem mantido este número, apesar de se encontrarem por vezes algumas variantes.
     A via-sacra sofreu modificações ao longo dos séculos desde a sua criação (no século XV), mas a sua forma final (a mesma usada hoje em dia) foi finalmente fixada pelos papas Clemente XII, em 1731, e Bento XIV, em 1742. A cerimónia consiste em percorrer, à semelhança de Jesus, as catorze estações que recriam os momentos desde a sua condenação à morte até ao seu enterro, parando em cada estação para meditar ou rezar.
     Na igreja de Sta. Maria Madalena, em Rennes-le-Château, bem como noutras igrejas do sul de França, a via-sacra está disposta no sentido inverso ao estipulado começando no lado esquerdo e terminando no direito (tendo o altar em frente), o que representa mais uma das suas singularidades. Contudo, como foi dito, esta igreja não é um caso isolado, visto que nesta região de França o lado esquerdo de uma igreja é tido como o lado nobre, fazendo sentido que se siga a orientação dextrógira.
     Como se poderá ver de seguida, algumas estações são atreitas a interpretações controversas. Contudo, é conveniente ter presente que Saunière adquiriu a via-sacra à casa Giscard, em Toulouse. Sabe-se que este estabelecimento possuía catálogos dos seus produtos. Assim, a via-sacra instalada em Rennes-le-Château parece ser um produto já terminado, sobre cuja manufactura Saunière poderia nem sequer ter opinado. Para melhor confirmar a validade desta hipótese, veja-se o seguinte excerto de um catálogo da casa Giscard, onde se retrata um exemplo de estação de via-sacra (retirado de, página XLV):

Excerto de um catálogo Giscard
Excerto de um catálogo Giscard

     De seguida, apresentam-se imagens das estações da via-sacra juntamente com excertos da Bíblia alusivos às cenas retratadas (sempre que existam).

 

As estações

 

   

Estação I - Jesus é condenado à morte

Primeira estação - Jesus é condenado à morte

Estação I

     O evangelista S. Mateus diz: "Jesus foi conduzido à presença do governador, que lhe perguntou: «És tu o Rei dos Judeus?» Jesus respondeu: «Tu o dizes». Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e anciãos, nada respondeu. Disse-lhe então Pilatos: «Não ouves tudo o que dizem contra ti?» Mas ele não respondeu coisa alguma, de modo que o governador estava muito admirado. Ora por ocasião da festa, costumava o governador conceder liberdade a um prisioneiro à escolha do povo. Nessa altura, havia um prisioneiro afamado, chamado Barrabás. Pilatos disse ao povo que se encontrava reunido: «Qual quereis que vos solte, Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?» (...)"
     "Eles responderam: «Barrabás!». Pilatos disse-lhes: «Que hei-de fazer então de Jesus, chamado Cristo?». Responderam todos: «Seja crucificado!». Pilatos (...) mandou vir água e lavou as mãos em presença da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste justo. Isso é convosco». (...) Soltou-lhes então Barrabás; quanto a Jesus, depois de o mandar açoitar, entregou-o para ser crucificado."
- Mateus 27, 11-26.

 

 

     

Estação II - Jesus toma a sua cruz

Segunda estação - Jesus toma a cruz

Estação II

     Acompanhemos o relato de S. Marcos: "Os soldados levaram-no para dentro do átrio, isto é, para o pretório, e convocaram toda a corte. Revestiram-no de um manto de púrpura, e cingiram-lhe uma coroa de espinhos, que haviam tecido. Depois começaram a saudá-lo: «Salvé, ó Rei dos Judeus!» Batiam-lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele. Em seguida, depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto de púrpura e vestiram-lhe as suas roupas." - Marcos 15, 16-20. Este relato do escarnecimento de Jesus está presente nos quatro evangelhos. Em seguida, Jesus toma a cruz: "Levaram, pois, consigo Jesus. E, carregando às costas a cruz, saiu para o lugar chamado Crânio, que em hebraico se diz «Gólgotha» (...)" - João 19, 16-17.

 

 

 

     

Estação III - Jesus cai sob o peso da sua cruz

Terceira estação - Jesus cai sob o peso da sua cruz

Estação III

     Não há nos relatos dos quatro evangelistas do Novo Testamento nada escrito sobre esta queda de Jesus, e podemos pensar que este episódio foi incluído com o objectivo de realçar o seu sofrimento com o transporte da pesada cruz. Esta estação será então mais simbólica que factualmente rigorosa.

 

 

 

 

 

 

     

Estação IV - Jesus encontra a sua mãe

Quarta estação - Jesus encontra a sua mãe

Estação IV

     Mais uma vez, não há no relato bíblico da Paixão de Cristo nada sobre este encontro. Esta pintura mostra bem o forte simbolismo presente nesta estação onde se destaca a impotência da mãe de Jesus face ao destino do seu filho. Note-se também a presença de uma personagem feminina, trajada de castanho claro, ajoelhada ao pé de Maria, personagem esta que pode bem ser Maria Madalena.

 

 

 

 

 

  [Atalho para a estátua de Sta. Germaine, colocada entre estas duas estações]

 

     

Estação V - Simão de Cirene ajuda Jesus a transportar a sua cruz

Quinta estação - Simão de Cirene ajuda Jesus a transportar a sua cruz

Estação V

     Na estação VIII, Simão de Cirene ajuda Jesus a transportar a cruz. Marcos diz-nos: "Depois de o terem escarnecido, despojaram-no da púrpura, vestiram-lhe os seus vestidos, e levaram-no para o crucificar. Obrigaram um certo homem que ia a passar, Simão de Cirene, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, a levar a cruz." - Marcos 15, 20-21.

 

 

 

 

 

 

     

Estação VI - Uma mulher piedosa enxuga a cara de Jesus

Sexta estação - Uma mulher piedosa enxuga a cara de Jesus

Estação VI

     Esta estação retrata o conhecido episódio em que uma mulher piedosa, tradicionalmente chamada de Verónica, que assistia à penosa passagem de Jesus, decide limpar-Lhe a cara com um pano. A tradição diz que de seguida acontece um milagre, ficando o pano com a cara de Jesus gravada, mas os evangelhos nada nos dizem acerca deste episódio.

 

 

 

 

 

 

 

     

Estação VII - Jesus cai pela segunda vez

Sétima estação - Jesus cai pela segunda vez

Estação VII

     De novo, este episódio não vem relatado nos textos do Novo Testamento. Mais uma vez, a estação deve ser entendida pelo seu carácter simbólico, na medida em que evidencia de novo a extenuação de Jesus e o tremendo suplício do transporte da cruz. Há quem veja grandes semelhanças entre a Torre Magdala e a estrutura que se pode ver (infelizmente mal, nesta fotografia) em último plano, atrás da porta, do lado direito.

 

 

 

 

 

 

     

Estação VIII - Jesus consola as filhas de Jerusalém

Oitava estação - Jesus consola as filhas de Jerusalém

Estação VIII

     Em Lucas há um relato deste encontro: "Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam. Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: «Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre os vossos filhos. Porque eis que virá o tempo em que se dirá: Ditosas as estéreis, os seios que não geraram, e os peitos que não amamentaram. Então começarão os homens a dizer aos montes: Caí sobre nós; e aos outeiros: Cobri-nos. Porque se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?»." - Lucas 23, 27-31.
     O simbolismo é muito forte nesta estação. Jesus profetiza, avisando que as gerações futuras sofrerão as consequências da sua morte. Anuncia que os Homens, reparando na gravidade do acto consumado, irão sentir um imenso remorso. A última frase é terrível, no sentido em que se o Homem destrói o próprio filho de Deus (o "lenho verde"), o que acontecerá ao comum mortal? Há quem veja esta profecia como o prenúncio da catástrofe da revolta judaica em 70 d.C., quando o exército romano reduz uma das mais violentas revoltas a cinzas, expulsando os Judeus de Jerusalém.
     De entre as personagens que estão próximas de Jesus, sobressaem uma mulher e uma criança vestida com uma túnica azul escocesa. Para alguns, claros sinais maçónicos, ligados ao rito escocês. Mas importa referir que o pintor Giscard, de Toulouse, a quem Saunière fez a encomenda, foi o autor desta via-sacra, e não é razoável responsabilizar Saunière pelos eventuais detalhes maçónicos, uma vez que o padre nunca deixou de ser um devoto fiel da Igreja, tomando posições fortemente monárquicas, e portanto, antimaçónicas. Possivelmente, o pintor Giscard poderia ter decidido dar alguns toques pessoais à encomenda, mas a tese mais sensata e provável é a de que se trata de uma brincadeira de Henri Buthion, o proprietário da Villa Béthanie após a morte de Corbu, que teria pintado o quadriculado na túnica azul para que ficasse escocesa, e certamente para dar um ar maçónico à peça...

 

     

Estação IX - Jesus cai pela terceira vez

Nona estação - Jesus cai pela segunda vez

Estação IX

     Agora, aproxima-se do fim a Via Dolorosa, com a última queda de Jesus, a terceira de três quedas. O uso do número três reforça o simbolismo atrás referido. Jesus chega ao Calvário: "Conduziram-no ao lugar do Gólgotha, que quer dizer «lugar do Crânio». Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o quis beber." - Marcos 15, 22-23. Note-se que a função do vinho com mirra era a de simplesmente diminuir-Lhe o sofrimento.

 

 

 

 

 

 

     

Estação X - Jesus é despojado das suas roupas

Décima estação - Jesus é despojado das suas roupas

Estação X

     Quase todos os evangelistas relatam este episódio, apenas S. Lucas o omite. O relato mais pormenorizado é o de S. João: "Tendo os soldados crucificado Jesus, tomaram as suas vestes - de que fizeram quatro partes, uma para cada soldado - e também a túnica. A túnica, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura. Disseram uns aos outros: «Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será». Assim se cumpriu a escritura: «Repartiram entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitaram sortes». Assim fizeram, pois, os soldados." - João 19, 23-24.
     Há que mencionar que na via-sacra, este episódio é representado como sendo anterior à crucificação, mas os três evangelistas que mencionam este episódio (S. Mateus, S. Marcos e S. João) apresentam-no como posterior à subida de Jesus à cruz.

  [Atalho para a estátua de S. Roque, colocada entre estas duas estações]

 

     

Estação XI - Jesus é pregado na cruz

Décima primeira - Jesus é pregado na cruz

Estação XI

     Nesta estação, Jesus é crucificado. S. Lucas continua no vigésimo terceiro capítulo o relato da crucificação: "Quando chegaram ao lugar que se chama Calvário ali o crucificaram a ele e aos ladrões, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem». Dividindo os seus vestidos, sortearam-nos." - Lucas 23, 33-34.
     Na pintura, Jesus é subido à cruz num ambiente escuro, senão mesmo nocturno. Ora a escuridão descrita no Novo Testamento só ocorre quando Jesus já está crucificado. S. Mateus é bem claro neste ponto: "Desde a hora sexta, até à hora nona, as trevas envolveram toda a terra (...)" - Mateus 27, 45. Assim, parece claro que segundo S. Mateus, as trevas só vieram à hora sexta, ou seja, sensivelmente ao meio-dia (as horas eram contadas a partir do nascer do sol, e a hora prima era aproximadamente às sete da manhã). Pelos relatos dos outros evangelistas como S. Marcos (15, 24-36), obtemos a informação de que Jesus foi crucificado perto das nove da manhã ("hora terceira", Marcos 15, 25), que as trevas vieram ao meio-dia e que Jesus morreu perto das três da tarde, como nos diz S. Marcos: "E à hora nona, Jesus exclamou em alta voz: «Eloí, lama sabacthani?» Que quer dizer: meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?" - Marcos 15, 34.

 

 

     

Estação XII - Jesus morre na cruz

Décima segunda estação - Jesus morre na cruz

Estação XII

     Nesta estação, o céu, apesar de escurecido, é ainda claramente diurno, ao contrário do da estação anterior. S. Mateus e S. Marcos concordam com a hora sexta (meio-dia) para o início das trevas e com a hora nona (três horas da tarde) para a morte de Jesus, e S. Lucas apenas difere na última frase proferida por Jesus: "Por volta da hora sexta, as trevas cobriram toda a terra, até à hora nona, por o Sol se haver eclipsado. O véu do Templo rasgou-se ao meio, e Jesus exclamou, dando um grande grito: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito». Dito isto, expirou." - Lucas 23, 44-46.
     O evangelho de S. João é sem dúvida diferente neste aspecto. S. João não refere a hora da morte nem menciona nenhumas trevas, preferindo relatar o momento em que Jesus estava rodeado por Maria mulher de Cleófas, Maria Magdala e Maria sua mãe, no qual Jesus entrega esta última ao cuidado do "discípulo que ele amava" (João 19, 25-27). A frase final é diferente da mencionada pelos outros evangelhos: "Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito." - João 19, 30.
     Possivelmente o relato de João é o que se aproxima mais da cena pintada nesta estação, na medida em que Jesus está rodeado pelas ditas mulheres. Esta afirmação ganha bastante força quando se repara que todos os evangelhos à excepção do de S. João incidem no facto de que todos assistiam à crucificação de longe, incluindo os seus parentes e amigos: "Todos os seus conhecidos e as mulheres que o acompanhavam, desde a Galileia, se mantinham à distância, observando estas coisas." - Lucas 23, 49. Veja-se ainda os relatos de S. Mateus: "Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres, que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram." - Mateus 27, 55 - e de S. Marcos: "Também ali estavam umas mulheres a observar de longe; entre elas, Maria Magdala, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, as quais o acompanhavam e serviam, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém." - Marcos 15, 40-41.

  [Atalho para a estátua de Sta. Maria Madalena, colocada entre estas duas estações]

 

     

Estação XIII - Jesus é retirado da cruz e entregue à sua mãe

Décima terceira - Jesus é retirado da cruz e entregue à sua mãe

Estação XIII

     Os evangelhos relatam todos o pedido feito por José de Arimateia a Pilatos, para ficar com o corpo de Jesus. S. Mateus e S. Marcos referem que a descida da cruz se passou "ao cair da tarde". Os restantes evangelistas não mencionam a hora mas referem que a descida da cruz se deu no mesmo dia devido à aproximação das festas pascais. Não há nenhuma afirmação de que o corpo foi entregue a Maria, ou de que esta segurou o corpo do filho, apenas se refere que foi o próprio José de Arimateia que retirou o corpo da cruz. Leia-se o relato de S. Marcos: "Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado, José de Arimateia, respeitável membro do conselho, que também esperava o Reino de Deus, foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos admirou-se de ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, perguntou-lhe se já tinha morrido. Informado pelo centurião, ordenou que o corpo fosse entregue a José. Este, depois de comprar um lençol, desceu o corpo da cruz e envolveu-o nele." - Marcos 15, 42-46.
     É interessante notar que só neste evangelho se menciona o espanto de Pilatos pela repentina morte de Jesus. Um crucificado demorava muito tempo a morrer e o espanto de Pilatos é justificado. S. Marcos menciona a esponja com vinagre que deram a Jesus antes de ele morrer, mas se a esponja tinha mesmo vinagre, não era este que o mataria, pois o vinagre tem até propriedades contrárias! S. Mateus menciona a mesma esponja e relata que Jesus expirou após o contacto com ela, mas aqui o espanto de Pilatos não é referido. S. João alude também ao episódio da esponja embebida em vinagre, mesmo antes da morte de Jesus: "Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado»." - João 19, 30. O mesmo episódio vem quase igual em todos os evangelhos, excepto em Lucas, que não refere a dita esponja, preferindo relatar o diálogo entre Jesus e o ladrão arrependido, crucificado ao seu lado.
     À parte deste episódio, José de Arimateia é apresentado por todos os evangelistas como o homem que pede o corpo a Pilatos, que o tira pessoalmente da cruz e que o embrulha num lençol. Há uma mulher a beijar a mão de Jesus morto, quando o corpo é descido da cruz, mulher esta que, de acordo com as estações anteriores e a coloração do vestuário das personagens, será Maria Madalena.
     É ainda curioso observar bem as estações IV e XII para reconhecer as duas personagens que se encontram perto de Jesus: uma delas, com o manto azul e rosa, é claramente Maria, Sua mãe. A outra, de túnica castanha, que é a mesma que está retratada nesta décima terceira estação, pode bem ser Maria Madalena. É razoável reconhecer a posição importante que Maria Madalena ocupa nesta via-sacra, bem como em todas as restantes obras de Saunière em Rennes-le-Château (Torre Magdala, Villa Béthanie - a aldeia de onde provinha Maria Madalena chamava-se Betânia). Mais ainda, não se pode esquecer, obviamente, a quem a igreja foi dedicada!

 

 

     

Estação XIV - Jesus é sepultado

Décima quarta estação - Jesus é sepultado

Estação XIV

     O local onde Jesus foi sepultado é, ainda hoje, um problema por resolver, pois os evangelhos não são concordantes. S. Mateus é inequívoco quanto ao dono do sepulcro, José de Arimateia: "José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo, e depositou-o num túmulo novo, que tinha mandado talhar na rocha." - Mateus 27, 59-60. O evangelho de S. Marcos relata o episódio de forma muito semelhante à anterior, mas não refere explicitamente que José de Arimateia era o dono do sepulcro (ver Marcos 15, 46). S. Lucas relata a cena de igual modo aos anteriores, não dando a entender que José era o dono, mas revelando que ainda ninguém lá fora sepultado (ver Lucas 23, 53).
     A leitura de S. João é sempre interessante, pois ele raramente conta estes episódios da mesma forma que os restantes três. Leia-se: "Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, ainda que em oculto por medo dos judeus, pediu a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e tirou o corpo. Veio também Nicodemos, aquele que anteriormente se dirigira de noite a Jesus, trazendo uma composição de quase cem libras de mirra e aloés. Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com os perfumes, segundo a maneira de sepultar usada entre os judeus. No lugar em que ele tinha sido crucificado, havia um horto e no horto, um túmulo novo, no qual ninguém fora ainda depositado. Por causa da Preparação dos judeus, como o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus." - João 19, 38-42.
     Há aqui imensos pormenores de interesse. Repare-se que S. João não refere que José de Arimateia era o dono do sepulcro e repare-se também que neste relato ficamos a saber que Jesus foi crucificado num horto perto do sepulcro. S. João diz que o puseram nesse sepulcro devido à pressa e ao facto de estar tão perto do local. Há diferenças em relação aos outros três relatos. Na verdade não faz muito sentido que o tenham sepultado ali devido à pressa ou devido à proximidade, pois José de Arimateia não iria pedir a Pilatos o corpo de Jesus sem ter a certeza de que poderia providenciar uma sepultura para o mesmo. Parece evidente que o túmulo seria mesmo de José de Arimateia.
     A polémica costuma estalar em torno desta estação, devido ao facto da cena ser nocturna. A lua cheia é bem visível, isso é indiscutível, mas também o que há de estranho neste facto? A lua pode ser vista a qualquer hora do dia, desde que a fase da lua e a hora do dia sejam favoráveis. Quase todos os evangelhos afirmam que o enterro se deu ao fim da tarde, e mesmo o relato de S. Lucas, aparentemente diferente neste aspecto, afirma o mesmo que os outros: "Era o dia da Preparação e já amanhecia o sábado" (Lucas 23, 54). Ora para os judeus, o dia começava ao pôr- do-sol, logo esta afirmação apresenta-nos uma hora perto do fim da tarde, em concordância com os outros relatos. Assim, como vemos, não há nada de estranho nesta estação. Mas só para criar polémica, alguns autores interpretam esta pintura como relatando o roubo por parte dos apóstolos do corpo de Jesus, de forma a criar um simulacro de ressurreição. Se, em vez de vermos esta pintura ao final da tarde, a imaginarmos a meio da noite, e sendo que a pintura não nos indica o sentido, poder-se-ia ler a pintura como se o corpo estivesse a ser levado para fora do sepulcro em vez de para dentro do sepulcro. Como se vê, a fragilidade destas suposições fantasiosas, quando existe uma explicação bem mais simples, evidencia a vontade de criar escândalo e de fazer polémica.
     Para terminar, note-se que Jesus tem bem visível a ferida provocada pela lança no seu lado esquerdo, o que leva a que neste aspecto, a pintura esteja de acordo com S. João, pois os outros evangelistas não mencionam o episódio da lança. Mais uma vez, podemos ver pela análise das estações anteriores que as personagens presentes podem ser José de Arimateia e Nicodemos (mais idoso) a transportar o corpo, e que quem está do lado esquerdo é Maria, sua mãe, provavelmente amparada pela sua irmã, e mais uma vez, aos pés de Jesus, Maria Madalena.

     Mais uma vez, apenas comparando esta via-sacra com outras fabricadas pela casa Giscard se poderá esclarecer definitivamente estes detalhes peculiares. Contudo, uma coisa parece certa... A maioria das suposições maçónicas e subversivas que foram lançadas sobre esta via-sacra não têm nenhum valor factual! A via-sacra aparenta ser um conjunto artístico bastante normal, e até talvez executado em quantidade, através de um molde. Assim, sob este prisma, qualquer especulação sobre o seu uso para a inserção de simbolismos e analogias na igreja de Rennes-le-Château torna-se pura fantasia.

 


Ó 1997-2006 Bernardo Sanchez da Motta
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